terça-feira, abril 27, 2010

A IDADE DA INOCÊNCIA

Quando era miúdo, acreditava piamente que as pessoas "crescidas" que governavam o país e o mundo sabiam perfeitamente o que faziam e mais, que o faziam sempre para o bem de todos. Que é que querem, uns acreditavam no Benfica, outros em lobisomens, eu acreditava nos homens.
Foi a maior desilusão da minha vida, quando comecei a ver que não era bem como eu pensava. Alguns desses crescidos preocupavam-se mesmo mas era com eles e os seus, em exclusivo. Outros, que até se interessavam pelos seus semelhantes, faziam muitos erros, embora convencidos da sua razão. Foi um grande balde de água fria. Afinal os homens e mulheres não sabiam bem o que havia de ser feito, as coisas andavam um pouco ao Deus-dará neste mundo que eu pensava ser ordenado e bem governado.
Possivelmente o leitor passou pelo mesmo trauma, não sei.
O tempo, o conhecimento e a experiência fizeram-me cínico, mais tarde. Descobri que a maior parte dos que gostam de ocupar os lugares do poder político não deviam lá estar. Ou são pouco sérios ou são incompetentes. Os restantes, fogem desses lugares como o diabo da cruz, vá-se lá saber porquê ...
Vem tudo isto a propósito da forma como o Mundo está organizado. Que pensa disso o leitor ?
Comecemos pelo grande "cimento" que parece aglutinar tudo e todos no Mundo de hoje : o dinheiro. É a mola real de todos os comportamentos e atitudes humanas. Dinheiro, quanto mais melhor.
Tempos houve em que se podia ter fé em outros princípios de solidariedade e de justiça entre os seres humanos. Essa fé foi traída e despedaçada por muitos que em nome desses princípios construiram sociedades opressivas e aberrantes. Agora, já quase ninguém tem essa fé, apenas se vai vivendo com pequeninas esperanças, submergidos por este tremendo mar de materialismo e ganância.
As igrejas, bem tentam, mas pouco podem fazer,também elas atacadas por fundamentalismos e pragas, como a pedofilia na igreja católica.
O dinheiro, o lucro como como valor absoluto, são hoje os conceitos dominantes, sem grande contestação. Mesmo quando é responsável por crises complexas como esta em que vivemos. Ninguém tem uma alternativa para esta lógica diabólica.
O que é pior de tudo é que, orientados por este paradigma, somos incapazes de parar e reorientar o nosso modelo de crescimento económico. Continuamos sempre em frente, desperdiçando e destruindo recursos naturais imprescindíveis à vida, numa corrida cega e estúpida, até ao abismo.
Confesso, já nada resta em mim do miúdo de que lhes falei no início. Esse miúdo não cresceu, foi muito pior : esse miúdo morreu, pelo menos tal como era.
Foi pena, esse miúdo faz-me falta, sinto saudades dele. Não gosto deste sabor a falta de esperança na minha boca.

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