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sexta-feira, março 19, 2010

A FLEXIGOVERNANÇA

Lembram-se do conceito de "Flexisegurança" que nos queriam impingir para as relações de trabalho ? Pois bem, este Governo inaugurou uma nova estratégia política, a que chamei de "Flexigovernança". Diga-se em abono da verdade, estratégia nunca antes tentada por qualquer outro partido político. Se irá resultar ou não, ainda é uma incógnita, mas até ver está a permitir que o Governo se aguente à linha de água.
Vejamos então os pontos fundamentais da estratégia :

OS PROGRAMAS DE POUCO INTERESSAM. O que é preciso é golpe de rins, flexibilidade, audácia e uma pitada de falta de memória. O que se afirma hoje pode ser executado de maneira contrária amanhã. É preciso pragmatismo. Que foi ? Já não me lembro bem do que disse ... Isso do socialismo, já o Mário Soares o meteu na gaveta, não foi ?

A ARTE DA DISSIMULAÇÃO. Bem, por vezes é complicado, mas eles tentam, anyway. Tentaram que não fosse muito óbvio o aumento dos impostos, mas agora, quando já se percebeu que vão mesmo aumentar, o Governo continua a repetir incessantemente “não vamos aumentar os impostos, as taxas são as mesmas ...”

A VERDADE POUCO IMPORTA. NEGAR SEMPRE, SEMPRE.
O Governo rege-se pela máxima do marketing : uma coisa só existe quando admitimos que existe. Portanto, a todas as acusações responde-se “Não é verdade, querem é prejudicar-me, nunca fiz nada de mal “. Repetir tantas vezes até que todos acreditem ou se cansem.

NÃO PRECISAMOS DE UMA MAIORIA, NÓS SOMOS A MAIORIA.
Este é outro dos lemas do nosso Governo. Basta-lhes não reconhecer que estão em minoria na Assembleia e explorar os sentimentos dos outros quanto à “governabilidade” e coisas do género. Pronto, é como se estivessem mesmo em maioria.

NÃO É PRECISO ESTRATÉGIA PARA O PAÍS. Mas que raio querem os gajos dizer com essa da estratégia para o país ? Mas acham que é fácil manter o poder assim como nós o mantemos ? Olhem que é preciso MUITA estratégia, caramba ! Ainda querem mais ?? Não fizemos o plano tecnológico, que deu um resultadão ? Não oferecemos computadores aos putos todos ?

E pronto, leitor, aí tem os princípios estratégicos do PS actual e do nosso Governo. Qualquer discordância que tenha, faça favor, comunique.
Em qualquer caso, não se esqueça de ir lendo o PEC para ver o que o espera ... discorde de mim só depois disso, está bem ?
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quarta-feira, março 17, 2010

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Estamos a caminhar para uma situação generalizada de ebulição de sentimentos e emoções, em Portugal. O jogo social praticado ultimamente pelo partido do poder e o Governo dele emanado ( e também por outros actores sociais ), assenta sobre uma espécie de cortina de fumo onde nada é o que parece e onde as coisas têm valores esquisitos e absurdos para a nossa compreensão. Vivemos uma reposição, só nossa, da “Alice no País das Maravilhas” : as dificuldades não são, afinal, o que pareciam há alguns meses, antes das eleições, cresceram desmesuradamente ; os vencimentos e prémios dos senhores de fraque das grandes empresas nacionais têm valores absurdos e incríveis, para o nosso nível ; os políticos eleitos por nós podem dizer e fazer o que quiserem, gozam de impunidade e óbvia cobertura de uma vasta rede de interesses ; agora até um apresentador de uma sessão qualquer de propaganda política-económica se atreve a apresentar o Primeiro-Ministro pelo seu nome num conhecido programa de humor.
Esta situação de irrealidade e absurdo, irá provocar rupturas de contornos difíceis de prever. Nesta espécie de jogo de faz-de-conta em que a Alice se vê envolvida tudo é autorizado, deixou de parecer mal socialmente mentir, aldrabar, dizer hoje uma coisa, amanhã outra. Tudo é show-off, tudo é imagem e propaganda, mas em simultâneo estão a pedir-se ( terríveis ) sacrifícios às pessoas, numa variante do filme que não estava prevista.
Neste cenário, todos se vão sentir impunes, a autoridade moral esboroa-se, as normas sociais vão afrouxar ainda mais, as tentativas de fuga às obrigações sociais vão crescer, a raiva e a má vontade também, a aceitação das medidas vai ser reduzidíssima.
Tenha Sócrates responsabilidades criminais ou políticas ou não nos casos que lhe imputam , a questão já não é essa. A questão é que, em termos de psico-sociologia, Sócrates já deixou de ter a credibilidade de um lider forte e amado. Já pouca gente vai acreditar genuinamente nele e aceitar de bom grado as reduções da sua qualidade de vida trazidas pelo PEC.
Se o PEC é indispensável, este ou outro, por favor, restituam a credibilidade às instituições e ao poder político. O país não vai aguentar estes 3 ou 4 anos sem uma nova legitimação do poder, toda esta situação foi escamoteada nas últimas eleições.
Façam eleições o mais depressa possível, ainda que Sócrates venha a ganhar de novo, já nada me admira neste País das Maravilhas.
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segunda-feira, março 15, 2010

NÃO GOSTO DESTA ADMINISTRAÇÃO DO NOSSO CONDOMÍNIO

Chamam-lhe Plano de Estabilidade e Crescimento, mas das óbvias leituras irónicas que podem ser feitas sobre este título, interessa-me agora uma outra, pelo que tem de insólito.
Tanto quanto sei sobre o PEC, trata-se apenas de uma lista de intenções de medidas, não constando sequer, para cada uma delas, nem a quantificação dos seus efeitos, em euros não gastos ou recebidos a mais, nem sequer a data a partir da qual o Governo pretende levá-la à prática. Também ninguém pensou – é tradicional de resto em Portugal esta omissão – em inventariar os impactos sociais negativos de cada medida.
Então a uma simples lista de compras de mercearia pode chamar-se um Plano ?
Só pode haver uma explicação para estas lacunas : o Governo do PS não quer que saibamos muito sobre cada uma das medidas, não se vá dar o caso de virmos a perceber a leviandade de certas decisões e a discricionariedade de outras. Ou seja, como Sócrates já nos habituou, o que interessa é a propaganda, quanto menos soubermos sobre a realidade, melhor.
É deveras impressionante a forma como este Governo nos pretende adormecer, entreter, fazer discutir migalhas, quando as grandes opções ficam de fora ou são camufladas.
Volto a insistir : até este momento ninguém me mostrou, preto no branco, onde foi gasto em 2009 o dinheiro a mais correspondente ao défice.
Agora, para compensar esse défice de razões desconhecidas e não quantificadas, querem impingir-nos um contra-défice do qual também pouco se sabe, de uma forma clara e quantificada ???
Mas que raio de administradores de condomínio são estes ? Se fosse nos nossos prédios, não estariam já demitidos e substituídos por outros ?