Blogs (Blogues) = crónicas (quase) diárias; registo periódico de factos, opiniões e críticas ; as impressões íntimas, a política, o social.
sexta-feira, outubro 31, 2008
Hoje vamos falar de contentores. Ou melhor, vamos falar ( uma vez mais ) de falta de vergonha e de desprezo pelos outros.
Ora bem, é óbvio que aumentar quilómetro e meio àquele cais de Alcântara cheio de contentores é uma ideia que não iria agradar a muita gente. Ainda por cima, sabendo como estas obras se eternizam em Portugal e como costumam respeitar os espaços públicos, certamente que MUITA gente iria discordar.
Pois bem, não há dramas : faz-se um decreto-lei pela calada, sem alarde, e está o problema resolvido.
Ah, mas havia um problemazito : a concessão actual ia terminar já em 2015 … como rentabilizar o investimento da expansão ? Simples, uma vez mais : prorroga-se a actual concessão por mais … trinta e tal anos, até 2042 e pronto.
Discutir o assunto com a Câmara de Lisboa ? Levar a questão à Assembleia da República ? Suscitar a discussão pública da iniciativa ? Integrar a obra num plano geral para a zona ribeirinha ? Tssss, tsss, tsss … tudo isso dá trabalho, consome muito tempo e energias. Assim é muito mais fácil.
Confesso : não faço a mais pequena ideia se Lisboa ( e o País ) lucram alguma coisa ou não em ter uma área gigantesca para carga e descarga de contentores. A única coisa que detesto é que tomem decisões nas minhas costas em relação a coisas que são também minhas. Lisboa não pertence à empresa concessionária do cais de contentores, Lisboa não pertence a este Governo, nem a nenhum Governo passado ou futuro. Lisboa não pertence ao sr. Jorge Coelho nem ao sr. Sócrates. Lisboa não é mercadoria negociável.
Quero saber :
(a) aumentar a capacidade do cais de contentores é boa política para Lisboa e para o País ou só para a firma concessionária ?
(b) em caso de ser boa ideia a expansão do actual cais, não existem localizações mais adequadas ? Tem que ser logo ali, em zona privilegiada de lazer e de fruição do rio ?
Antes me responderem a estas questões, fiz questão de ajudar a parar a “negociata” meio encoberta, assinando a petição subscrita por Sousa Tavares.
Cabe-lhe a si fazer o mesmo. Ou não, como quiser. Em qualquer caso, clique aqui para ler a petição : http://www.gopetition.com/online/22835.html
Tenha um bom resto de dia.
quarta-feira, outubro 29, 2008
A verdade é que não sei para onde me virar. A realidade excede a ficção, nestes tempos. A minha capacidade de indignação é todos os dias posta à prova, a maior parte das vezes vejo-me obrigado a zangar-me em “multitasking”.
Foi o truque palerma de introduzir na proposta do OE2009 aquela aberturazita para as ofertas aos partidos em “el contado”, descoberta em primeiro lugar pelo Diário Económico (DE). Foi a história do telefonema imediato do nosso primeiro-ministro para o director do DE, explicando não sei o quê ou refilando com a “má vontade” do jornal. É o miserabilismo dos nossos empresários recusando o salário mínimo de 450 euros. São os ventos persistentes de estagnação ou mesmo retracção do crescimento económico. São as coincidências do ex-ministro Jorge Coelho ao aceitar o lugar de Presidente do CA da Mota-Engil e vai daí, meses depois, é só concessões do Governo à empresa, sejam no Douro ou no porto de Lisboa. É uma actuação destrambelhada, incompetente, ruinosa e autista do Governo no ensino secundário, na gestão dos hospitais e na rede de cuidados de saúde, no desprezo manifesto por aqueles de quem depende a segurança e a defesa. É a suprema ironia de toda a gente considerar como uma medida eleitoralista os míseros 2.9% “generosamente” oferecidos aos funcionários públicos, fartos de perder poder de compra nos anos passados, da ordem dos dois dígitos percentuais.
São todas estas coisas e mais o raio deste vento frio.
São coisas a mais, acho eu.
A continuar assim, ainda me dá um AVC, ou saio do País antes disso.
A alternativa seria inventarmos o nosso Obama, e, já agora, trocarmos também as nossas pseudo-elites por suecos, alemães ou mesmo … chineses. Lamento, mas é verdade.
sexta-feira, outubro 17, 2008
UMA QUESTÃO DE OUTROS VALORES ...Acham que exagero ? Então recapitulem comigo.
Afirmam os especialistas que a corrupção existe a um nível imenso na nossa sociedade, e que as pessoas até desculpam e perdoam a pequena corrupção. Boa, continuemos.
O PSD está a considerar a hipótese, ao que se sabe já aprovada por Manuela Ferreira Leite, de voltar a apresentar Santana Lopes para a Câmara de Lisboa... Sim, o mesmo Santana Lopes. Excelente, adiante.
Sócrates e mais 344 ministros, secretários de estado ( os ministros não são de estado ? ), directores-gerais e outros senhores importantes andaram por aí a distribuir uma espécie de computador de algibeira, destinada a putos de 5 e 6 anos, que afirmaram ser portuguesissimo e a quem chamaram ... Magalhães. Recomenda-se ao autor do nome uma releitura urgente da história da época. Para além disso, magnifico, agora é que os putos vão todos aprender a ler, escrever e a fazer contas.
Isaltino, o impoluto de Oeiras, proclamou já que vai candidatar-se de novo á Câmara. Ignora-se se ainda tem o primo na Suiça, mas a avaliar pelas ultimas dos bancos lá do sítio, o primo já não deve lá estar.
A inefável e competente ministra da educação continua na sua sanha contra o que resta de qualidade no ensino publico, parece que os professores ainda têm umas horitas semanais livres das infindáveis reuniões de avaliação de desempenho, avaliação intercalar, avaliação disciplinar, avaliação curricular, elaboração de testes para recuperação de alunos com excesso de faltas, etc, etc ... Consta mesmo que, de vez em quando, até há um ou outro professor que consegue escapar-se das reuniões e ... dá uma aulita !! A ultima invenção da senhora foi agarrar nos professores do QZP ( de nomeação definitiva numa certa área geográfica do país ) e dizer-lhes : “Meus amigos foi boato. Vocês não foram nada providos no vosso lugar, vão todos ter de concorrer para milhões de Kms das vossas casas. Se não quiserem, processo disciplinar e despedimento“.
Excepcional, continuemos a mostrar até que ponto se desceu na escala da decência e na consideração pela dignidade dos outros.
O senhor primeiro-ministro. Bem, esse confesso que ando intrigado com o homem. Estou farto de o ver e ouvir em toda a parte e declaro que nunca vi o senhor dedicar a mínima consideração a quem o interpela e dele discorda. A sua atitude automática e imediata, sem qualquer nuance de respeito, é a de violência verbal, a arrogância e a pose de mestre. A razão da minha profunda intriga é a seguinte : onde teria Sócrates ido buscar a razão para esta atitude ? Que características lhe dão minimamente suporte para esta maneira de ser ?
Mistério ... aquilo que se conhece da sua vida justificaria, isso sim, uma atitude de modéstia e de respeito pela opinião dos outros, não seria ? Afinal, entre os seus interlocutores existem pessoas muito inteligentes, cultas, academicamente bem formadas, com experiência em vários sectores profissionais ...
Chega para convencer o leitor quanto á crise de valores ?
E agora, há por aí algum Banco Central que possa dar um aval a Portugal para valores, decência e vergonha ?
Ou então, como diz um amigo meu, isto não é um problema de valores nem de política e muito menos de economia ou finanças : Portugal não passa de um imenso prostíbulo, onde pessoas se vendem e outros vão só para ver. Ah, sim, e com uma ala dedicada a doentes mentais.
domingo, outubro 12, 2008
A sensação claramente dominante neste momento é a impotência.
Um pouco por todo o Mundo as pessoas interrogam-se e receiam o futuro próximo.
É nítido que ninguém sabe exactamente o que fazer.
É nestas alturas que mais me interrogo sobre a verdadeira dimensão do homem actual e da sua fé um tanto infantil em instituições e organismos ditos idóneos.
Pessoalmente, como qualquer pessoa pode verificar se ler as minhas notas dos ultimos anos, a realidade actual não me surpreendeu nada. Há muito que em mim morreram as ilusões e a candura, há muito que deixei de acreditar no Pai Natal. As entidades ditas responsáveis sempre conviveram alegremente com todas as trafulhices que o submundo financeiro inventou, nestes ultimos anos. Alguém conhecedor destas realidades pode afirmar que foi apanhado de surpresa ? Então porque é que ninguém mexeu uma palha ? Sabem explicar ?
Eu sei : cumplicidades, conivências, interesses próprios ou de amigos ou de grupo.
Há muito tempo que eu explicava a economia financeira dos tempos correntes aos meus amigos como sendo uma versão gigantesca da Dª Branca. Alguns não me acreditavam, pensavam que eu exagerava, então aquelas venerandas instituições e aqueles competentes senhores alguma vez iriam deixar isto acontecer ?
Pois. Então onde estão agora todos esses ilustres garantes da idoneidade das operações financeiras ?
E agora, perguntamo-nos todos, os “especialistas” e os outros, que fazer ?
Agora há que restaurar a confiança, dizem-me.
Mas confiança em quê e em quem ?
Não percebem que essa é a grande questão ?
PS - Já pensaram quem seria que andava a especular com o petróleo, imediatamente antes de estoirar esta crise ? E porque o andariam a fazer ? É que eu acho muito interessante que ninguém fale agora da correlação entre as duas coisas ...
segunda-feira, setembro 15, 2008
Vivi intensamente o PREC, de 1974 em diante. Não vou entrar em detalhes,mas vivi-o por dentro. Nessa altura, eramos todos frequentemente confrontados com posições políticas muito radicais, a que chamavamos esquerdistas, denunciando tudo e todos. Para essa gente radical, só existiam em Portugal eles, os puros, e todos os outros eram ou corruptos ou fascistas.
Por formação e carácter, sempre recusei essa abordagem. Também nunca fui grande adepto das teorias conspirativas e dos arautos das desgraças cataclísmicas. Sempre achei que a realidade era, por natureza, moderada e que a percentagem de casos de corrupção e de falta de honestidade eram mínimos.
Pois bem : nestes dias que correm, a pouco e pouco, vou-me sentindo envolto numa atmosfera irreal de manobras sujas, atmosfera quase invisível, dando a ideia de que já ninguém liga muito a estas coisas. Ou que a corrupção e o roubo são coisas comuns que não vale a pena investigar e punir.
Viram aquele caso do burocrata do desporto ( chefe da missão olímpica e tudo !! ) que se amerezendou com uns dois ou três vencimentos, carros e eu sei lá que mais ?
Tchiiiiiiiiiiii, e o desgraçado do sujeito diz que em seu tempo vai esclarecer tudo !
A seu tempo ? E ele é que diz quando é que decide explicar-se ?
Sabem o que eu acho, por vezes ?
Vai sair bronca, já aviso.
Então é assim : á semelhança do que tem vindo a suceder com o consumo de drogas, com a homosexualidade ( e com os casamentos homosexuais) , com a ausência da prisão preventiva, etc ... não me admiro nada, mas mesmo nada, que daqui a alguns anos seja descriminalizada a ... corrupção.
Desde que seja para uso pessoal, bem entendido.
Não acreditam ?
quinta-feira, setembro 11, 2008

OS NOSSOS ORÁCULOS DE DELFOS
Os americanos ( leia-se made in USA ) nem sempre são modelo de comportamento para ninguém. Ou mesmo raramente o são.
Dito isto, note-se como o banco central americano ( o Federal Reserve ) e o Banco Central Europeu ( BCE ) tem tido comportamentos diferentes, com resultados também bem diferentes.
A economia americana apresentava, como a europeia, indicadores de fraco crescimento económico, receios de estagnação ( crescimento nulo ) ou mesmo recessão ( crescimento negativo ), sinais de inflação, sobreendividamento das famílias, forte especulação no imobiliário com o desmonoramento financeiro desse sector. Na Europa, o senhor Trichet, á frente do BCE, fiel como um cão aos estatutos do Banco que mandam privilegiar o controlo da inflação, vá de fazer subir a taxa de juro, uma, duas e mais vezes, estando actualmente nos 4,25%. A ideia é que o alto preço do dinheiro desincentive o consumo ( e o investimento, pergunto eu ? ) e logo, por essa via, faça baixar a inflação. E o senhor persiste nisto há mais de um ano.
Bem, e fez ? A inflação foi contida ?
Não, como se sabe. E a economia ressentiu-se, claro, e sucedem-se as revisões em baixa para o crescimento no espaço europeu.
Alguém se chateou com isto, alguém questionou o sr. Trichet porque é que a sua teimosia está a dar tão maus resultados ?
No outro lado do Atlântico, o Federal Reserve fez exactamente o oposto, baixou corajosa e progressivamente a taxa de juro, embaratecendo o dinheiro. O Governo Federal, numa atitude sem precedentes a esta escala, introduziu no circuito recentemente milhares de milhões de dólares, tomando conta das duas maiores imobiliárias ( financiadoras ) do país.
Resultado : os indicadores económicos nos EUA começaram milagrosamente a recuperar ( enquanto os nossos se afundam ) e a inflação não disparou coisa nenhuma, quedando-se no mesmo patamar.
Então, quem fez melhor o seu papel ?
Moral da história : a economia, como ciência, é uma treta. Nunca vi uma ciência apresentar panaceias diferentes para a mesma situação. E não me venham com a conversa mole dos diferentes objectivos e estatutos dos dois bancos centrais, porque estatutos há muitos e mudam-se quando é preciso. A economia usa e abusa de modelos que me parecem obsoletos para fenómenos como a inflação, o crescimento, a bondade ou não do consumo interno no crescimento, etc ... A realidade, ano após ano, ridiculariza muitos desses modelos, mas os senhores do establishment fingem que não percebem, assobiam para o ar ou para o lado e continuam a dizer e a fazer as mesmas coisas, vezes sem conta.
Quem se lixa, sempre ? Eles não, são muito bons e muito bem bem pagos !
A hipocrisia e o faz de conta são a pior praga dos países desenvolvidos nos nossos dias, não acham ?
quarta-feira, setembro 10, 2008
Hoje vieram a lume estatísticas do ensino compiladas pela OCDE. Os nossos jornais, cumprindo a sua missão, desataram a publicar títulos meio escandalizados meio perplexos, porque uma dessas estatísticas revela que em Portugal, o numero total de alunos de todos os níveis de ensino divididos pelo numero total de professores conduz ao valor de 8 alunos por professor, dos mais baixos existentes no espaço da OCDE.
Baralhação total : começaram aí os nossos jornalistas a tecer considerações, espantando-se que esse numero seja tão baixo enquanto que, ao mesmo tempo, o racio do numero de alunos por turma seja tão elevado ! Um deles ( desses jornalistas ) comenta mesmo que tal se poderia entender se os nossos professores trabalhassem pouco, mas um outro indicador divulgado sustenta precisamente o contrário ! Óh espanto ! Óh maravilha das estatística !
Então ? Em que ficamos ? Porque é que então, entre nós, existe um racio tão baixo de alunos por professor ? Há alunos a menos ? Há professores a mais ? Hummm ... que acha, leitor ?
Uma pista ... professores a mais, provavelmente, mas a mais em relação a quê ?
Que tal pensar que, na estrutura do nosso ensino ( e em quase todo o mundo, com excepção dos níveis etários mais baixos no ensino ), a cada disciplina/cadeira corresponde um professor ? E se há professores a mais, muito provavelmente, é porque o numero de disciplinas/cadeiras individualizadas é muito elevado, em média ? Idem para as respectivas cargas horárias semanais ? Que tal fazer as contas por aí ? Numero de disciplinas, carga horária de cada disciplina, numero de horas nos horários dos alunos,etc ... ?
Dito de outra forma mais simples : se o leitor agarrar em duas turmas de alunos, uma nos EUA e outra em Portugal, se a turma americana tiver uma carga horária semanal igual á portuguesa mas com apenas 7 disciplinas, enquanto a portuguesa tem 10 disciplinas, cada uma dessas disciplinas exigindo um professor diferente, em qual dos sistemas é que vão existir mais professores ? Qual dos sistemas dará um racio de menos alunos por professor, hem ? E já reparou, neste exemplo, que a turma americana até poderá ( e tem, por norma ) ter menos alunos que a portuguesa ?
Não seria honesto fazer primeiro essas contas e tentar perceber depois os tais 8 alunos por professor ? É que, se desligarmos esse indicador destes outros valores, ele não vale nada, porque não está relacionado sequer com o numero de alunos que cada professor, em cada momento, tem diante de si ao mesmo tempo para lhes ensinar algo ( a turma ) ...
Nestas coisas como em outras, exige-se seriedade na análise dos valores e não aquilo que se vê neste nosso país que é esgrimir estatísticas para tentar ter razão e atirar poeira aos olhos dos outros. Ou então, ignorância e/ou falta de hábito de raciocinar.
PS : as especulações por mim efectuadas neste comentário NÃO foram precedidas de nenhum estudo sobre a maior ou menor diversidade das matérias existentes nos currículos dos diferentes graus do nosso ensino. É apenas, como dizem os americanos, um “educated guess”, um palpite com o mínimo de ponderação.
Claro que poderíamos igualmente falar na taxa de horas úteis lectivas nos horários dos professores, claro que teríamos também de averiguar quem executa as actividades burocráticas e administrativas nos restantes países da OCDE ( em Portugal, muitas são feitas pelos professores ), claro que ... muitas outras coisas. Mas aposto que aquilo que lhes indico como possível razão é um bom principio de estudo !
sexta-feira, agosto 29, 2008
Existe a PSP, com o seu Director Nacional, a GNR, com o respectivo Comandante Geral, a PJ mais o Director também Geral ou Nacional, o SEF , com o seu responsável máximo, o Gabinete de Coordenação da Segurança, com um General do Exército, o Ministros da Justiça, que tutela a PJ, o Ministro da Administração Interna, que manda na PSP e GNR , o Procurador-Geral que não se sabe em quem manda mas que usa a PJ ... e, pelos vistos, nenhuma destas Entidades coordena nada, nem há troca de informação nenhuma entre as mesmas, é agora preciso inventar uma outra Entidade ao lado destas todas que se chama o Secretário-Geral da Segurança, com a categoria de Secretário de Estado !
Brilhante. Excepcionalmente bem visto. Perante uma situação de descoordenação óbvia, por excesso de protagonistas, falta de linhas claras de comando, responsabilidades sobrepostas e desfuncionalidades flagrantes ... responde-se com a criação de uma nova instância, com funções dúbias e categoria hierárquica manifestamente insuficiente.
Neste meu País ainda se vê disto todos os dias : aquilo que qualquer aprendiz das artes da organização aprendeu é desprezado pelos homens e mulheres que elegemos para nos governar.
Aquilo que em qualquer País decente já existe há séculos, uma base de dados criminal partilhada por todas as Forças de Segurança, entre nós ainda não existe, apesar de já prevista em legislação anterior a esta em vários anos.
Agora, sim, com um senhor Juiz Conselheiro escolhido para o novo cargo ( seja quem for a pessoa em concreto ) , essa situação vai mudar : todas as polícias vão passar a funcionar coordenadamente e a informação vai estar ali prontinha e à mão de quem dela precisar !
Bem visto, meus senhores. Assim dá gosto ser eleitor e cidadão neste País.
sexta-feira, julho 04, 2008

O problema é que tenho a casa cheia de móveis e bugigangas e as obras vão obrigar a mudar tudo de sítio, tipo puzzle, enquanto que eu serei obrigado a emigrar, ainda não sei bem para onde. Esta perspectiva aterroriza-me, comodista que sou e amante do meu bem-estar primário. Terei de ir para casa da minha filha, entretanto ? Vou para um hotel ? E tirar aqueles livros todos das estantes, para as poder mover ? E a bonecada, tipo bibelots ? Oh que ganda seca !
Que me dizem a isto os leitores ? Sugestões ? Críticas ?
Alguém me quer acolher ?
Eh eh eh eh ...
sábado, junho 28, 2008
Faço hoje 65 anos. Não faço ideia nenhuma como aconteceu isto, não me lembro de nada, ainda ontem andava no Liceu. Se querem saber, acho que isto é um sonho, ou melhor, um pesadelo. Quando acordar, tudo estará na mesma e eu terei 40 e tal anos, se tanto.Pode lá ser, tantos anos, sessenta e cinco ! Se for verdade, é uma grande injustiça. Que chatice, ainda por cima sou obrigado a festejar. Festejar ?? O quê ? Ter chegado aqui e não ter morrido antes ? Mas isso deve ser festejado ? O que há para festejar, esta minha idade é a velhice, a idade em que ficamos transparentes, até as mulheres nos sorriem e tudo, dizendo com os olhos que velhote simpático ... Mas há mais, muito mais.Chega um homem a esta idade e o que vê ? Um mundo bonito, feliz, onde se possa descansar tranquilamente e deixar a velhice entrar em nós ?Não, o que vejo á minha volta é um mundo doido, desgovernado, um mundo em regime de pilhagem acelerada.O petróleo nos 140 dólares, 71% das ordens diárias de compra são especulativas e todos encolhem os ombros; o Oceano Ártico em degelo acelerado, teme-se que este Verão se derreta a fina camada de gelo sobre as suas águas e ninguém faz nada ; a Siemens diz que vai despedir 15.000 pessoas e todos pensam "não é nada comigo" ; no Zimbabué, o ditadorzeco faz o que quer, corre com a oposição vencedora e a ONU nem sequer um papel consegue escrever ...Aparentemente, ninguém, nenhum Governo, nenhuma organização pode ou quer fazer nada. NADA. Mas para que pagamos nós a estes gajos todos se nenhum deles resolve seja o que for ? É como se tudo fosse inevitável. Como se já estivéssemos todos condenados. É desesperante, porra, chega um homem aos 65 anos e o que vê é um mundo de interesses, um mundo de dinheiro e ganância, um mundo sem deus, nem esperança nem amanhã. ...Sabem uma coisa ? É pela negativa, bem sei, é egoismo, também, mas que hei-de fazer ? A ideia é perturbante ( tenho uma filha e gente de quem gosto ) mas tentadora : chegar á velhice num mundo destes talvez nem seja mau de todo. Menos coisas lamentamos perder, menor será a dor da partida.
PS - que ideia parva esta minha última ... desculpem-me, é a esclerose a atacar !
sexta-feira, junho 20, 2008
Nos ultimos anos, quando se fala em políticas sociais, tornou-se moda virar a atenção exclusivamente para “os mais desfavorecidos” ou para “os sectores mais vulneráveis”. Á partida, parece uma boa ideia, os ricos não têm problemas e os assim-assim podem bem com esta ou aquela subida de preços.
Oferecem-se rendimentos mínimos a quem pouco tem, garantem-se subidas nas pensões abaixo de um certo valor, beneficiam-se os juros de quem tem rendimentos abaixo de um certo limiar, oferecem-se benefícios aos pescadores, depois aos camionistas, em breve aos taxistas, sei lá a quem mais ...
Parece tudo justo, não parece ?
Mas é um jogo perigoso. Quem define as fronteiras ? Quem decreta “tu precisas, tu não precisas” ? Que espécie de justiça é esta que exclui milhões de pessoas, pressupondo á partida que estão e ficam bem, que podem suportar os custos ?
De há muito que sucessivos governos brincam aos robins dos bosques, mas este então tem sido fértil nesta perigosas e demagógicas políticas pseudo-sociais.
A verdade é que os estratos populacionais ditos da classe média estão cada vez mais empobrecidos, cada vez mais esquecidos. A verdade é que esta forma de olhar a sociedade é falsa e, no nosso caso, apenas proporcionou cobertura política a um desenfreado processo de sobre-enriquecimento das classes médias-altas e altas. Como contraponto político, como que para fazer esquecer o “gamanço” desavergonhado, lá vinha o interesse pelos “mais desfavorecidos”. Reparem bem, por exemplo, como Sócrates se defende quando o criticam por governar á direita ... Lá salta o complemento ás pensões mais miseráveis, lá aparece o abono de família, etc ...
Rejeito uma política social feita de migalhas, feita de mentiras, onde os muito pobres são apenas mantidos no limiar da fome e toda a outra gente da classe média é esbulhada em nome do sobre-enriquecimento dos poderosos.
Chega de mentiras e de hipocrisia. Chega de roubos, é isso que tem acontecido.
Quero uma sociedade onde todos possam ter dignidade, onde todos possam ter uma vida razoável, onde os imensos lucros das petrolíferas sejam taxados e essas taxas sejam colocadas ao serviço de todos e não só de pescadores, taxistas e camionistas.
Chega, estou farto de ser considerado como condenado a estiolar e a esperar que acabe por ser considerado, no fim da minha vida, como “sector mais desfavorecido” ...
Que é, afinal, o que nos espera a todos se não quebramos esta política anti-classe média, levada a cabo por aprendizes de feiticeiro ao serviço dos grandes interesses.
quarta-feira, junho 11, 2008
Vejam só esta maravilha : que medidas propôs o Governo à ANTRAM e aos outros transportadores para desbloquear as acções de paralização que, como sabem, têm como origem o preço exorbitante dos combustíveis ?
Entre outras, relacionadas com a dedução dos custos com o combustível em sede de IRC, o Governo propôs-lhes a introdução de uma fórmula automática que aumentará o preço a cobrar pelos serviços de transporte em função do custo do gasóleo !
Boa ! Bem visto !
Ou seja, se porventura o leitor ainda não percebeu : o Governo aplacou os transportadores deixando-os atirar automaticamente os aumentos do gasóleo PARA CIMA DE NÓS !
Brilhante. Devia ser esta a solução a que Sócrates aludia ontem, ao afirmar que a ajuda a prestar aos sectores prejudicados não poderia por em causa o bem colectivo.
Pois, assim também eu resolvia bem os problemas todos : atirava sempre os custos para cima de nós.
Cabe então aqui a pergunta : e nós, simples cidadãos, que podemos fazer para defender os nossos direitos ? Que estradas podemos cortar ? Que abastecimentos podemos interromper ?
Só vejo uma solução : podemos interromper o fornecimento de votos a um Governo como este. Bem o merece.
‘Bora fazer isso ?
sábado, junho 07, 2008
Para que serve lamentarmo-nos sobre a escalada vertiginosa do preço do petróleo ? Porque é que algumas pessoas só agora descobriram o mundo miserável em que vivemos ? Porque é que, durante tanto tempo, essas pessoas distraidas desculparam e entenderam os arautos do neo-liberalismo, os feiticeiros dos mercados pseudo-livres ? Porque é que, desde há muitos anos, presenciámos cenas vergonhosas nos mercados financeiros com um encolher de ombros ?
Saberão os leitores que, neste momento, circulam nas águas de todo o Mundo, gigantescos petroleiros carregados de crude, a aguardar o seu destino, sem saberem muito bem a sua rota final, a aguardar pela indicação do comprador ? Saberão os leitores que a mansa tremenda de investidores financeiros não produtivos ( não criam realmente nada, a unica coisa que fazem é comprar, contribuir para a elevação dos preços e vender, depois ) se atiraram ao petróleo como um bando de gatos a bofe, comprando quantidades tremendas e esperando, apenas, até que dois dias depois o vendem com o lucro líquido de milhões de dólares ? Essas compras fictícias ( porque esse bando não quer o petróleo, realmente ) reduzem a quantidade de petróleo disponível, fazem aumentar os preços e depois ... é só vender !
Mas então, dirão os leitores, se o processo é esse – é-o sem duvida, em grande parte da realidade ! – não seria relativamente fácil acabar com essas compras especulativas de petróleo, num mundo de gente séria ? Por exemplo, aceitando apenas compras de petróleo a pessoas credenciadas, representantes das refinadoras ? Por exemplo, taxando muito fortemente as mais valias provenientes desta especulação com o petróleo ?
Claro que sim. Então porque não é feito ?
Ah, caro leitor, aí somos conduzidos para o que de pior o ser humano possui. No mundo moderno, pouca gente se move pelo interesse comum, como se calhar já percebeu. E então, o que tem isso a ver com o petróleo ?
Tudo.
Quem se poderia opor a estas especulações com o petróleo ?
Os governos, claro, e os organismos internacionais, também.
Mas quer saber uma coisa, leitor ? São esses mesmos governos e organismos que estão a ganhar milhões, também, com estes preços do petróleo. E as refinadoras. E as distribuidoras. E as grandes empresas de comercialização. E as cleptocracias normalmente no poder dos países produtores de petróleo. E os outros países produtores de petróleo. Toda esta gentinha anda deslumbrada com este acréscimo gigantesco de receitas, caramba !
Já viu alguém, caro leitor, dar tiros nos próprios pés ? Acha que os governos vão fazer algo contra isto ? Ahhhhhhhhhhhhhhh .....
Sabe, leitor, qual seria a unica coisa a obrigar os governos – todos os governos – a intervir nesta matéria ?
O mesmo de sempre. Todos nós, as vítimas, unidas e furiosas, nas ruas a gritar contra eles. Todos nós a dizer claramente que não queremos aceitar este jogo sujo, viciado.
Todos nós a gritar, ao mesmo tempo : “PAREM A ESPECULAÇÃO, JÁ !”
De outra forma, todos os Sócrates do Mundo vão permanecer surdos e cegos, acredite.
Afinal, eles nem sequer andam nos seus carros e ainda recebem uns milhõezitos adicionais para os seus orçamentos ...
terça-feira, junho 03, 2008
Os hábitos actuais de vida e de comunicação em sociedade estão completamente cheios de meias-verdades, falsidades, lugares comuns e mitos. Não conheço o panorama dos outros países europeus, mas quanto a nós, nunca imaginei que se pudesse DESCER tanto na escala da qualidade.
Querem ver algumas preciosidades ?
- O mito das médias europeias. ( a má estatística como mentira ao serviço da ilusão )
Nos ultimos tempos, em tudo o que é meios de informação e sobretudo a nível do discurso laudatório do Governo, são usadas todos os dias comparações dos preços praticados em Portugal com as médias europeias. Ah, a gasolina não é das mais caras da Europa ... afinal é só 20 e poucos cêntimos mais cara que em Espanha.
Os bens alimentares não subiram tanto em Portugal como no resto da Europa.
Um bilhete de cinema em Portugal não é caro, é igual ao de Paris ...
E por aí fora.
Quem usa estes indicadores está a fazer passar gato por lebre, está a querer enganar os portugueses. São mentiras ! São balelas ! A gasolina em Portugal para estar ao mesmo preço da França ou da Alemanha teria de ser MUITO mais barata ! Não me interessa o valor absoluto dos preços, interessa-me sim o esforço financeiro que tenho de fazer para comprar essas coisas, com os salários portugueses. Os preços não deviam ser comparados em valor absoluto mas sim corrigidos em função dos índices de poder de compra !
Assim, não vale !
- O mito do populismo. ( a tentativa de calar a verdade pelo agitar de um chavão )
Os gestores portugueses das grandes empresas ( sector privado e do Estado ) auferem vencimentos totalmente desproporcionados aos dos restantes sectores da vida nacional ? Populismo ... populistas é o que estes gajos sabem ser ! Que é que queriam ? Que deixássemos fugir os melhores gestores ? Que lhes oferecessemos tuta e meia ?
A sociedade portuguesa é das mais desequilibradas da Europa, as diferenças são colossais entre sectores populacionais ? Lá vem o Paulinho das Feiras outra vez ... que querias tu ? Que alinhassemos pelo cavador alentejano ? Ai estes populistas !
- O mito da responsabilização indevida ( a tentativa de evitar vozes críticas )
Então o gajo é do nosso Partido e nada pr’aí a dizer umas coisas contra o nosso Governo ? Eh pá, o gajo é indecente, é um irresponsável. Há que estarmos unidos nesta fase dificil. Temos a razão do nosso lado, não endireitamos aquela coisa do déficit ? Que mais queriam estes gajos ?
- O mito do défice público. ( a grande desculpa do neo-liberalismo bacoco )
Provavelmente, este é o maior dos actuais mitos. Lembro-me de que,com Cavaco, na época do “betão” das autoestradas, o défice chegou a ser de 9%. Era preciso investir, andar para a frente. Era o chamado défice virtuoso.
Depois, o Euro veio impor o limite máximo anual de 3%, para que a solidez da moeda fosse constante e credível. Agora, só por causa disso, inventou-se a teoria económica da bondade do défice pequeno ou nulo. Já não há défices virtuosos, todas as medidas são boas para atingir os 3% ou menos. É preciso baixar os rendimentos do trabalho dos funcionários públicos ? Baixem-se. É preciso cortar nos custos da defesa e da segurança interna ? Corte-se, os gajos que andem menos de carro e de avião e de navio ! É preciso estrangular os profs ? Fechar umas maternidades e centros de saúde ? Faça-se !
O importante é o défice pequeno, mesmo que já não exista povo para o admirar !
-O mito da indispensabilidade dos partidos políticos. ( ai que vou levar dos democratas todos ... )
Os partidos políticos são indispensáveis à democracia, sem eles seria o populismo, o caudilhismo, a anarquia. Sim, está bem, aceito que tenham um papel importante na sociedade.
Mas não estes que temos.
Estes que temos são uma merda, desculpem. Repositórios dos piores tiques da nossa vida actual. Inchados e putrefactos de carreirismo, de nepotismo, de oportunismo. Vi-os nascer e hoje não são uma sombra do que já foram. Nunca foram organizações isentas de mácula, claro, mas hoje ...
Estão tão desacreditados, hoje, os partidos políticos que sempre que algum dos seus líderes locais é impedido de concorrer a eleições em nome desse partido, por motivos de ética política ou moral ... acaba por ser eleito como independente. Lembram-se do Major, da Fátinha, do Isaltino ? Pois é ... Os partidos mentiram e aldrabaram tantas vezes os portugueses que agora já não adianta, já ninguém acredita neles, mesmo quando têm razão.
Poderia continuar ad-infinitum. Mas já estou cansado, é muito deprimente escrever sobre estes temas. Deprimente ... e populista !
sexta-feira, maio 16, 2008
Quando reflicto um pouco sobre a forma como a vida económica está organizada, neste nosso mundo moderno, acabo sempre por ficar com uma sensação de fúria e de impotência. Mas também fico sempre com a ideia de que tudo isto é surreal, de que ninguém sabe muito bem como é que a coisa funciona nem o que vai acontecer num futuro próximo.
Há crise ? É o sector financeiro ? Há especulação com o petróleo e com os cereais ? Há tipos, grupos, empresas a usar o petróleo e o arroz como quem compra e vende acções ? Quem está a provocar o quê ? O mercado funciona mesmo livremente ou é apenas uma grande balela, todos estas variações são provocadas pela mão humana ?
É que, ao acompanhar diariamente estas odisseias, surge-me sempre a sensação de inevitabilidade, como se nada pudesse ser feito para evitar estes descalabros. Então foi este caos completo a que o neo-liberalismo nos conduziu ? Onde estão agora os arautos da desregulação e da liberalização ? A menos que estejam a comprar e vender arroz e trigo ...
Bom, mas voltemos ao assunto : então não se pode fazer nada ? Vamos assistir a fomes, desempregos, misérias várias, com um encolher de ombros ? Vamos continuar a tolerar a rapinagem, a podridão, a corrupção sem limites, a especulação desenfreada ? Oh, triste condição a de ser lúcido e impotente, antes não perceber nada do que se está a passar...
Pois bem, no meio de tudo isto, prossegue a actividade imbecil da ASAE. Imbecil porque paranóica e cega. Como se vivessemos num mundo a caminho da perfeição. Como se os nossos problemas fossem as colheres de pau ou o sistema H não-sei-quantos da gestão da refrigeração dos alimentos. Um destes dias, aplicaram uma coima de 15.000 e tal euros a um desgraçado dono de um barzito algures neste Portugal maluco ... Ahhhhh, mas afinal parece que foi engano, não era bem aquilo ...
Meu Deus, já não há paciência para aqueles tipos.
Já nem sei porque fui agora buscar a ASAE.
Talvez porque pior que sofrer todas estas convulsões da economia mundial seja aturar as diatribes e prepotências dos pequenos títeres, de ares vagamente mussolinianos, cheios de um afã enorme de mostrar serviço e prosseguir carreira ...
quarta-feira, maio 14, 2008
Leitor, aqui fica o aviso, muito sério : o capital financeiro ( e algum do outro, também ) perdeu totalmente a inibição e a vergonha e os mecanismos de controlo estão a revelar-se incapazes ou inexistentes. Uma enorme avalanche de desgraça e miséria está ( e ainda vai piorar ) a abater-se sobre todos nós. Não sei em que momento estes gajos tomaram o freio nos dentes, em Portugal e no resto do Mundo, mas o ataque é frontal, descarado e sem tréguas. Todas as frentes de ataque foram abertas, os homens sem rosto estão a armadilhar completamente os nossos caminhos : os juros sobem diariamente, as matérias primas principais também, a inflação começou o seu ciclo vicioso, a extorsão é vertiginosa.Notem isto, a título de exemplo : os lucros da BP em Portugal, no 1º trimestre deste ano, cresceram 63% em relação ao trimestre homólogo de 2007. Hem, nada mau, hem ? O aumento do preço do petróleo é tanto e ainda dá para este acréscimo de LUCROS ? Não é óbvio ? A matéria prima sobe 10 e eles reflectem 20 no consumidor !!
Não há mesmo nem vergonha nem quem os obrigue a tê-la.
Estamos entregues aos bichos.
QUEM VAI TRAVAR ESTES GAJOS ?
domingo, maio 11, 2008

OS SALVADORES E OUTROS ARTISTAS
Já repararam como vai o mundo ? Zimbawé, Myanmar, para os que gostam do exotismo e da aventura, o nosso Portugal, para os mais comodistas que preferem a excitação local.
Traço comum ? O despudor, a inesgotável sede de poder, a enorme capacidade de avidez e rapinagem do ser humano. Descanse o leitor, não irei fazer nenhuma teoria geral da podridão humana. Apenas notar, uma vez mais, o que a ganância provoca no género humano.
segunda-feira, maio 05, 2008
Qual é o sentido das nossas vidas ?
Atingir aqueles grandes objectivos profissionais com que sonhámos, quando jovens e ingénuos ?Alcançar a riqueza e o bem estar material ? A notoriedade, a fama ?Praticar o bem, espalhar a ajuda e consolação ?
Qual é o sentido profundo da nossa vida ?
Ah, queriam uma resposta, não era ? Pois, também eu. Queriam, mas não vão ter essa resposta.
Ao fim destes anos todos, apenas vos sei dizer assim : se quisermos uma resposta, cada um de nós tem que a descobrir. Não há uma resposta padrão, acho eu.
Nem mesmo uma daquelas respostas vazias tipo "o nosso grande objectivo é concretizar a felicidade", porque então a pergunta aí muda e passa a ser : "O que é a felicidade ?".
Estão a ver o imbróglio ? Não há ajudas, a tua resposta não serve para mim e a minha não te vai satisfazer.
Para mim, o sentido da minha vida muda como o vento ou a temperatura.
Tempos houve - parvo que eu sou - em que pensei que o amor fazia sentido, o amor podia ser tão forte que desse significado á minha vida.
Depois, as coisas mudaram e passou a ser a política : toda a minha vida ganhava cor e sabor se ajudasse á mudança, á criação de uma sociedade mais justa e fraterna. Tretas, de novo : vi pessoas passarem de pobres dignos a novos ricos mais miseráveis que antes. Vi a minha incapacidade e ineficácia nessa tarefa gigantesca de antecipar o tempo, de mudar pessoas e comportamentos. Desisti, confesso, entrego ao tempo a mudança.
Houve também um tempo para me sentir místico, religioso, para entrar e me sentar numa qualquer igreja e ali estar, sentado, calado, tentando ouvir ou ver a verdade ou a bondade ou fosse o que fosse.
Tentei as artes, a literatura, as engenharias, a informática. Nada.
O prazer, o sexo, a boa comida. Que sentido pode existir nisso tudo ?
Também passei pela guerra - embora essa não tenha sido escolha minha - essa grande mestra da natureza humana e das grandezas e indignidades a ela associadas.
Nada me deu respostas. Continuei sem saber muito bem o que ando para aqui a fazer.
Bah ... tornei-me cínico, claro.
Agora, vou ajudando a minha filha nos inevitáveis desaires da sua vida, vou ajudando uma ou outra pessoa minha amiga, mais por incapacidade de fuga do que por vocação missionária, creio eu.
É este o sentido da minha vida ? Ou, pura e simplesmente, não haverá sentido nenhum para as nossas vidas e elas devem ser vividas descontraidamente, sem preocupações de chegar a lado nenhum ?
Ou, por outro lado, o grande sentido da vida está nas pequenas coisas como ouvir o miado matinal de saudação da minha gata ou dar um abraço a um amigo, borrifando-me totalmente para os grandes e poderosos e para as suas ridículas manias de salvadores do mundo ?
Gosto desta.
O sentido da vida está no sabor das pequenas coisas.
Fiquem-se com esta.
segunda-feira, abril 28, 2008
Ser dinheiro antes de ser humano, ter olhos em cifrão, vender fome e morte a baixo custo. Inventar deuses inexistentes ou irresponsáveis. Alienar principios, bondade, verdade.
Correr depressa, sempre cada vez mais depressa , fomentar sempre a competição. Fabricar perdedores obrigatórios. Crescer sempre para ganhar.
Produtividade, religião moderna : vamos todos para a China , lá trabalha-se muito e come-se pouco, apenas uma malga de arroz, abençoada globalização, agora quero ver os sindicatos ...
Possuir, possuir, cada vez mais, que se lixem os deserdados, que façam pela vida, são um bando de preguiçosos ...
Estou preocupado, contudo : a esperança fugiu daqui ! E na China também não a vi ... poderei continuar a ganhar assim tanto sem a esperança ao lado dos meus escravos ???
quinta-feira, abril 24, 2008

Há algo em Portugal que eu nunca entendi, confesso. Já vivi em outros países por tempo suficiente para perceber que é algo de profundamente lusitano. E também profundamente pernicioso. Dir-se-ia algo entre o masoquismo e o narcisismo ao contrário.Sabem do que falo ?
Deste sentimento tão português de descrença, de cinismo, de fatalismo, de miserabilismo.Mas não é tudo. Para lá desta mescla de sentimentos enviesados nota-se algo ainda mais surpreendente : um certo gosto pelo trágico-cómico, pelo teatro burlesco. Como entender de outra forma o apelo de Menezes a Jardim para se candidatar a lider do PSD ? Ou a intenção de Santana de se candidatar ?Confesso : não entendo este meu país. A parvoíce, a mediocridade e a desvergonha andam à solta ... ou sou eu que já não percebo nada de nada ?Alberto João Jardim, para lider do PSD ? Eh, eh, eh, eh ... este Menezes é um ponto. A menos que fosse para mostrar ao Mundo que no PSD ainda há piores que ele, no domínio das ideias tontas. Meu Deus ... E é com gente desta que podemos contar para fazer frente a Sócrates ? Sabem o que é pior ? Um destes dias começo a pensar que Sócrates deve ser um génio, de facto, neste país "exíguo", como lhe chama, apropriadamente, Adriano Moreira.
Exíguo de valores humanos.
Exíguo de sensatez.
Que havemos nós de fazer deste nosso País ?
sexta-feira, abril 11, 2008
Vivemos uma época de grande balburdia. Confusa, entaramelada, sem regras nem principios consensualmente aceites. É uma época sem brilho, sem grandeza, atafulhada de pequenos e grandes expedientes. Respira-se uma atmosfera de sobre-regulamentação em muitas áreas da nossa vida, ao mesmo tempo que, noutras áreas, pouco ou nada se respeitam outras coisas, com o maior dos à vontades. Somos protegidos de todos os tipos de bactérias e virus, por um lado, mas somos sujeitos a todas as espécies de agressões aos direitos e liberdades individuais, por outro. Que coisa estranha ...Ou talvez não : perante as duas realidades, qualquer pessoa que não seja imbecil, cedo descobrirá que a motivação verdadeira para todas estas coisas NÃO é o respeito pela PESSOA. Será respeito, ou amor, ou conveniência por outras coisas, mas pelo ser humano, não é.
Volto á minha sensação : vive-se uma autêntica peixeirada, não é ? Quais são os valores que ainda estão intactos, no Portugal de hoje ?No meio deste xarope delicodoce, vejo algumas linhas de força perfeitamente delineadas, em progressão subreptícia, lenta mas inexorável .
Uma primeira linha, a dos aprendizes de ditadores. Uns muito pouco experientes, ainda, outros já com tarimba. Uns e outros ultrapassaram a vergonha cultural e colectiva do passado salazarista, acham que é chegado o momento de talhar as coisas a seu gosto. Tanto na economia real das empresas, como na burocracia do poder político, os aprendizes pululam, ansiosos, despudorados, ávidos. A meta é a mesma : cortar, reduzir, mandar para a rua, poupar dinheiro nuns pobres desgraçados ( para poder gastar noutras coisas, mais giras ... ). Proibir está na ordem do dia. Seja o que for, desde o tabaco até ao piercing.
A segunda linha é mais astuta, aproveita as aberturas dos entusiastas da primeira linha ( no futebol chamar-se-ia a estas oportunidades, assistências ... ) para desviarem o máximo de recursos financeiros para os seus bolsos. Esta linha de actuação tem diferentes patamares, é claro : o patamar dos gajos ditos sérios que se deixam colocar em grandes empresas, obviamente pelos seus méritos profissionais ; o patamar dos gajos espertos que, investidos do poder para tal, incentivam hoje alguém a vender por 100 e amanhã arranjam uma empresa publica que o vai comprar por 1000 ; o patamar, mais ao nível do rés-do-chão, dos que aceitam descaradamente luvas em troca de favorecimentos ; o patamar ainda do tipo que angaria donativos para o partido e se esquece de metade desses donativos no porta-luvas do carro ... enfim, nunca mais acaba !
Em síntese : uns ameaçam, proibem e mandam calar, outros enriquecem, paulatinamente, sem alarido.
Como sempre, o Zé Povinho assiste, meio estonteado, meio incrédulo, a este regabofe.
Mas então - vocifera, com a saliva a escorrer-lhe dos lábios - mas então, não era o outro, o Salazar, mais o Tenreiro, que eram os maus da fita ?? Afinal, quantos Salazares e Tenreiros é que este país tem ?
sexta-feira, março 14, 2008
Esta noite estou cansado. Cansado, gasto, desiludido.
Passei o dia a resolver um problema informático, no computador de um amigo. Aquilo ia dando comigo em doido. Depois, de repente, apercebi-me que era sexta-feira e que não tinha combinado nada com ninguém. Por motivos vários, dei por mim como tantas e tantas vezes já me vi : sózinho, cansado, sem saber que fazer.
Á falta de melhor, fui recordando outras situações em que me senti assim, ao longo da vida : logo no início, quando estudava ainda no Técnico e vivia num quarto alugado para as bandas da Fonte Luminosa ; depois, em África, Moçambique, para onde a guerra colonial me atirou, por vezes em locais onde nem Deus saberia encontrar-me ; mais tarde, nos EUA, para onde fui estudar umas porcarias que de pouco me serviram ... outras vezes, como hoje, na minha casa, no meu quarto, sem vontade para sair e ir beber um copo ou ver um filme tardio.
Muitas vezes penso em mim como um homem solitário. Apesar de ter amigos e amigas, a minha filha e tudo isso. Sou, na essência, um tipo solitário e mal humorado, agora cada vez mais consciente da idade e do caminhar inexorável para outras paragens.
Sim, a morte, essa ideia que todos tentamos desesperadamente evitar ... como se isso fosse possível. Mas hoje também não quero pensar nisso : estou cansado e dá muito trabalho pensar no futuro. Acho que não consigo pensar, pura e simplesmente. As palavras que aqui vêem atrás umas das outras, são os meus dedos que as escrevem, não vieram do meu interior, acreditem.
Sei que, como eu, há milhões de outras pessoas, no Mundo, igualmente sós e igualmente cansadas e chateadas. Dá uma sensação de coisa normal, de algo que não é notícia. É verdade, somos muitos, os chateados deste Mundo, valha-nos isso.
Vai um brinde a todos nós ?
terça-feira, março 11, 2008
Factos : Sócrates venceu as ultimas eleições com maioria absoluta ; do respectivo programa eleitoral constavam algumas medidas para o ensino semelhantes ás que têm vindo a ser tomadas, sem entrar em pormenores ; os professores manifestaram-se contra a forma como essas medidas têm vindo a ser levadas à prática e contra alguns dos pormenores entretanto surgidos ; Sócrates afirma que não muda nem uma vírgula e que é ele que tem legitimidade política porque venceu as eleições ; se as coisas assim continuarem, a instabilidade tomará conta das Escolas e, no final, não se vê como é que o Ensino vai melhorar.
Comentários : a representatividade, em democracia, não pode NUNCA ser definitiva, irrevogável ou independente das condições concretas sob as quais se desenvolve.
Sendo uma forma de resolução de conflitos, em sociedade, a representatividade baseia a sua eficácia na permanente aceitação por todas as partes envolvidas, ou, pelo menos, pela maioria dessas partes. Quando tal equilíbrio se rompe, assumindo a contestação formas graves e ou muito expressivas, é preciso que a sociedade política possua mecanismos de regulação para estas roturas, designadamente :
- a re-análise por parte do Governo, com os novos dados do problema ;
- a intervenção da Assembleia da República, no âmbito do seu papel de fiscalização dos actos do Governo ;
- a intervenção do Presidente da República ( PR ).
No caso do actual conflito do ensino, em Portugal, seria de esperar que não fosse preciso passar do primeiro passo atrás referido : o Governo deveria reanalisar o assunto, com calma e ponderação, e introduzir as correcções indispensáveis. Tal como fez na escolha do novo aeroporto, tal como fez no caso da Saúde, pelo menos até certo ponto.
Neste caso, a obstinação de Sócrates e da senhora doutora Maria de Lurdes Rodrigues, não vão permitir tal coisa.
E lá vamos nós para o segundo nível de intervenção, a Assembleia da Republica (AR ).
Aí chegados, um novo obstáculo se levanta : alguém acredita na independência face ao Governo dos deputados eleitos pelo PS ? Pode a AR ser de facto um orgão de fiscalização do Governo, quando o Governo é que “manda” nos deputados da maioria ?
Cada um que responda, a minha resposta é NÃO ou MUITO DIFICILMENTE.
Sendo assim, resta-nos a ultima esperança constitucional de solução de conflitos : poderá o PR chamar o Governo ao bom-senso, forçando-o a olhar a realidade com flexibilidade e a esquecer ódios ( porque de ódio se trata, parece-me ... ) ?
Acredito que sim, Cavaco Silva é pessoa para isso, não impondo, que não está nas suas atribuições, mas convencendo, acalmando, sugerindo ...
Na minha opinião, será nessa instância que as coisas tomarão rumo, de uma forma mais ou menos expressa, provavelmente um pouco encapotada.
Para já, estamos na fase 2. Está agendada a discussão, na AR, no próximo dia 26, de duas propostas ( do CDS e PP, mas o PSD concorda ) para a suspensão da avaliação até ao próximo ano lectivo.
Veremos.
sábado, março 08, 2008
Digª Senhora Ministra da Educação :
Permita-me V.Exª que lhe explique algo que, pelos vistos, lhe tem escapado, não obstante a argúcia de que V.Exª tem dado mostra : sendo V. Exª uma pessoa dedicada de corpo e alma ao seu País, e, em particular, á nobre causa da Educação, empenhando-se V.Exª com todo o seu ser na identificação dos males do nosso Ensino e na adopção das consequentes medidas correctivas, sendo, portanto, V. Exª uma Ministra que ama o seu País e tão bem compreende as vicissitudes da Educação ... porque é que, aparentemente, 70 ou 75% dos Exmos Professores a detestam e afirmam que V. Exª já não tem mais condições de exercício do seu cargo ?
Suponho que V.Exª tem dado inumeras voltas no seu leito, intrigada, sem conseguir dormir, tentando entender esta intrigante contradição : amando V.Exª tanto o seu País e a Educação, como é que a Educação não ama V.Exª ?
Pois bem, eu tenho e ofereço a V. Exª a chave do imbróglio : a razão pela qual ninguém ama V.Exª esteve hoje bem patente na entrevista que V.Exª concedeu, em directo, á SIC. Afirmou então V.Exª que o facto de terem estado na rua 100.000 professores a protestar contra si é IRRELEVANTE.
Aí tem, Senhora Ministra, porque não a amam : V.Exª é possuidora de um raro dom de insensibilidade humana e política, V. Exª está-se nas tintas para as pessoas que neste momento são professores, V. Exª é fria como o aço, V.Exª não sente nunca empatia, nem respeito, nem consideração ... V. Exª nem se dá conta que, ao afirmar que 100.000 pessoas na rua são IRRELEVANTES, V.Exª desprezou-os totalmente, desprezou a realidade e tornou-se, a si própria, irrelevante.
Afinal, Senhora Ministra, era fácil perceber o segredo : V.Exª ama o seu País e o Ensino, mas quanto aos Professores ... a esses, odeia-os.
Desejo a V. Exa as maiores felicidades. E, sobretudo, desejo-lhe que consiga aprender a gostar dos outros e a não viver em conflito permanente com eles.
sexta-feira, março 07, 2008
A senhora ministra da educação bem podia ser uma criatura mais sensata e sensível.
Alguém lhe disse que, para ser ministra, tinha que ser assim, implacável, surda e cega ... acho que a enganaram.
Se foi o senhor primeiro-ministro quem assim a aconselhou, bem mal andou. Embora outra coisa não fosse de esperar, já que também ele padece do mesmo mal.
Digo-vos, sinceramente : por muito medíocre que Portugal seja, estas duas pessoas não nos fazem falta nenhuma como governantes. Assumo claramente : o meu país estaria bem melhor se ambos se retirassem, num rasgo de clarividência e humildade.
Vindas não se sabe de onde, assumem-se na política como semi-deuses que tudo sabem e tudo podem, não se permitindo nunca uma duvida ou uma atitude de consenso, esticando até aos ultimos limites a noção de democracia representativa, desprezando arrogantemente todos os que se lhes opõem.
Pessoas destas, tão enquistadas, tão convencidas das suas poções milagrosas, tão soberbas, tão absurdamente fechadas aos outros, não deviam nunca ser governantes. Falta-lhes a humildade de quem sabe poder estar errado, falta-lhes a tolerância para as ideias dos outros e a sensibilidade para os seus problemas, falta-lhes a paciência dos que sabem operar a mudança, falta-lhes a sabedoria e o instinto de verdadeiros lideres.
Um lider, ainda que conduza a sua gente para ambientes de perigo e sacrifício, é capaz de suscitar entusiasmo e mesmo paixão.
Estes dois governantes, o que conseguem é fazer quase o pleno de entusiasmos e paixões … contra os seus projectos e ideias. Não é assim que se muda nada, a mudança não pode ser feita á força e de afogadilho, por mais votos que se tenham recolhido nas eleições.
A representatividade política, em democracia, não pode excluir o respeito pelas opiniões e legítimos interesses dos outros. Muito menos podem os eleitos retirar aos outros a sua dignidade.
Quando se olha muito para o umbigo não se enxerga o país.
quarta-feira, março 05, 2008
É nova, esta dinâmica de luta e oposição que tem vindo a reunir professores por todo o país.
Sábado iremos assistir a uma grande manifestação, tudo o indica, talvez a primeira da era das novas tecnologias de comunicação.
Telemóveis, correio electrónico, blogues, todos estes novos meios uniram pessoas e ultrapassaram os velhos sindicatos, lentos, legalistas e burocratizados.
Na sua mágoa de iluminado incompreendido, Sócrates vai notar, afinal, que estas coisas das tecnologias da comunicação podem funcionar de muitas formas, umas boas ... e outras igualmente boas, mas para os outros.
Presumo que este venha a ser um dos raciocínios do Primeiro-Ministro, surpreendido por esta atitude daqueles a quem alguém chamou “professorzecos”, na Assembleia da República.
Que eu saiba, ele não lhes chamou isso, mas fez pior : directa ou indirectamente, por processos directos ou mais enviezados, acusou-os de trabalhar pouco e ganhar demasiado, de quererem todos chegar ao topo da carreira, de faltarem muito, de terem horários reduzidos, de serem os responsáveis pelos variadíssimos males do ensino.
Privilegiados, foi a palavra que circulou por toda a parte.
Este Governo fez isso de que o acuso directamente : caluniou os professores. Fez o mesmo com os militares, a quem dedica idêntico desprezo. Fez isso com a generalidade dos servidores do Estado, que assistiram a tudo, atónitos, enquanto viam os Valas deste País tomar de assalto as máquinas de dinheiro ...
Por isso, declaro alto e bom som a minha profunda simpatia pela manifestação de sábado dos professores, em reconquista da dignidade perdida.
Espero que todos eles sintam, bem fundo dentro de si, a dignidade de quem luta, a força de quem não desiste nem abdica de ser português e profissional do ensino.
A todos eles, do fundo do meu coração, o meu grito de solidariedade !
E o meu obrigado. Estão a restituir-me fé no povo português.
terça-feira, março 04, 2008
Estou farto de política, esta noite. Estou com um olho nas primárias americanas, ando secretamente a torcer pelo Obama, como de resto 3/4 do Mundo, não sei bem porquê. O homem trouxe a palavra mágica mudança e mudança é esperança. Bem, mas dizia eu que entre Obama, a senhora Clinton e a nossa inesquecível senhora ministra da educação, hoje apostei ... na Lili, a nossa gata voadora. Está mais crescida, embora seja pequenita . É de uma raça originária da Turquia, chamada Van Turca, porque o seu habitat originário é nas margens do lago Van. É isso ... e é uma gata totalmente ás avessas das gatas normais e decentes : imaginem que gosta de água, gosta de se equilibrar em cima das ombreiras das portas ... e gosta de derrubar para o chão tudo que apanha em cima de mesas e armários. Uma doçura ! Nem tudo é mau : é uma gata muito faladora e gosta muito de estar onde nós estamos, faz uma boa companhia. Mia que se farta, embora me seja ainda dificil perceber a sua linguagem. Excepto quando me acorda, ás 6 ou 7 da manhã, a miar desalmadamente aos meus ouvidos ou a puxar-me um dos braços para fora da cama. Aí percebo bem : quer uma latinha de salmão ou coisa do género. E as unicas alternativas que me restam são expulsá-la do quarto e fechar-lhe a porta ... ou ir-lhe dar mesmo a latinha, porque de resto é uma chata do caraças e não se cala !
Para que possam apreciar um pouco da Lili, mostro-vos hoje um video que fiz com ela, a partir da minha webcam. O video não ficou famoso, mas ainda assim podem vê-la a tentar destruir á dentada a antena do meu router wireless de ligação á internet. É mesmo uma gracinha !
E por hoje é tudo, fiquem-se com a Lili, sim ?
( clicar na seta para ver o video )
Paula é professora de Matemática do Ensino Secundário. Jovem ainda, vai nos seus 35 anos e quase 12 de profissão. É uma professora devotada, prepara as suas aulas, elabora os seus testes com todo o cuidado. É também exigente, acredita nas virtudes do trabalho, passa TPC, corrige-os sempre e procura dar o máximo apoio aos seus alunos. Alguns, porém, por atrasos impossíveis de recuperar, outros por nítida falta de esforço e trabalho, ficam-se pelas notas fraquinhas,muito fraquinhas, mesmo.
Paula é mãe de 2 filhos ainda pequenos e, ocasionalmente, tem que faltar para dar apoio aos filhos, embora se esforce para compensar o tempo perdido e acabe sempre por cumprir as metas do programa. Não é muito comunicativa, a nossa Paula, e apesar de ter algumas amigas, prefere dar as suas aulas e , após isso, isolar-se na preparação das aulas seguintes, a ver testes, etc ... Paula é uma mulher-lider, não obstante a sua idade, criando sempre um ambiente de respeito na sua sala de aulas, embora onde talvez se respire um pouco de tensão reprimida.
A Escola da Paula desenvolveu dois grupos distintos de grelhas de avaliação. Dois conjuntos de factores.
O primeiro usa os seguintes factores : planeamento das aulas, assiduidade, ligação á comunidade, resultados na progressão dos alunos e capacidade de empatia na sala de aula.
O outro escolheu planeamento das aulas, cumprimento do programa, adesão ás iniciativas extra-curriculares da Escola, resultados na progressão dos alunos e capacidade de liderança na sala de aulas. Todos os factores têm igual peso e uma escala de valores de 1 a 10.
Vejamos como foi ( ou podia ter sido ) avaliada a Paula.

Qual seria a diferença ? A Paula é a mesma, o seu trabalho é o mesmo, os avaliadores até teriam sido os mesmos ... então ?
A grelha de avaliação NÃO foi a mesma !!!! E a "habilidade" da Paula na escolha dos objectivos também não foi a mesma ...
AH, CLARO, A GRELHA DE AVALIAÇÃO ... pois é, é apenas o factor mais importante e decisivo de qualquer sistema de avaliação. Também é o mais complexo e dificil de escolher. Andei envolvido num projecto de sistema de avaliação em que esse trabalho nos levou cerca de ano e meio !!!
Então agora PASME-SE : A GRELHA DE AVALIAÇÃO FOI REMETIDA PELO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PARA TRABALHO DAS ESCOLAS .... a fazer em algumas poucas semanas !!!
Assim mesmo : as Escolas que façam esse trabalho. Mesmo sem perceberem nada de avaliação e dos multiplos cuidados a ter no desnvolvimento de uma grelha de avaliação. As Escolas que escolham umas quantas de uma lista fornecida ...
Claro que não vão existir duas grelhas iguais. Claro que estará á partida comprometida a equidade no tratamento dos professores. Claro que só por acaso é que surgirão grelhas boas nas Escolas ... o Ministério da Educação fugiu do trabalho mais complicado, mais delicado e que mais controvérsia poderia suscitar.
Para mim, ao atirar esta responsabilidade para as Escolas, tirou coerência, credibilidade e mais do que isso, LEGITIMIDADE, a todo o Projecto.
A avaliação de Professores NUNCA deverá avançar nestes moldes, por estar ferida de morte na sua concepção inicial.
Nunca deve ser tarde demais para tornar boa uma coisa má.
Ou é mais importante que a Srª Ministra e o Sr. Primeiro-Ministro não percam a face ?
segunda-feira, março 03, 2008

ESTA MINISTRA DA EDUCAÇÃO ESTÁ ERRADA !
A Educação funciona mal, em Portugal, em todos os níveis. Há mais de 40 anos que começou a entrar pelo cano ... e eu tenho sido espectador atento, diga-se.
O sistema está hoje em colapso quase completo e não há sinais de recuperação. Nem sequer de um início de recuperação. Não há qualquer esperança para a educação no nosso País, nos próximos tempos. Acham que sou pessimista ? Vejamos.
O que é educar ? É assim algo tão extraordinário e dificil ?
Claro que não. Educar é apenas um processo que os humanos inventaram para transmitir, de geração em geração, conhecimentos e atitudes, em muitas áreas ; é apenas uma forma de evitarmos recuos no saber e no saber fazer. Nos primeiros tempos do homem, esta transmissão era feita dentro dos clãs, na tribo, a partir dos pais, mães e de todos, no fundo, ao mesmo tempo que as coisas iam acontecendo.
Mais tarde, descobriu-se uma forma diferente e muito mais especializada para a transmissão do saber : a escola. Arranjava-se um espaço, metiam-se os putos lá dentro, punha-se um professor com uma chibata á frente dos alunos, ele falava e os putos ouviam e repetiam, era a escola no seu paradigma inicial.
Foi um descanso ! Essa invenção poupava os pais do trabalho de ensinar os meninos, agora era só verificar, á noite, se eles tinham aprendido alguma coisa ou não ... excelente.
O tempo correu, os pais cada vez mais ocupados e com menos tempo, as escolas cada vez maiores, os conhecimentos a transmitir cada vez mais numerosos e complexos !
Não me vou meter por essa discussão, mas o importante é que hoje há milhões de bits de informação, provindos de cada vez mais áreas humanisticas e técnicas, que queremos meter nas cabeças de um numero cada vez maior de putos, pelos processos habituais ... mas a um custo cada vez menor e, se possível, num tempo mais curto.
Ainda por cima, queremos fazer isto sem dor nem suor, como se de um jogo de computador se tratasse, sem necessidade de estudo e de reflexão.
Mais, tudo isto num ambiente em que, no fundo, ninguém está disposto a mexer uma palha, lá em casa, para ensinar aos meninos a ser disciplinados, a trabalhar, a respeitar os professores, etc ... Quanto a essa de respeitar os professores, até se vive exactamente ao invés, tentando a todo o custo que os putos percam todo o respeito por eles, seja por via dos estatutos de alunos seja a desacreditar publicamente os mesmos.
Bom, seja como for, esta é a situação a que se chegou. Um caos, de facto. Há que mudar paradigmas, formas de resolver o problema, sei lá ...
E é aqui que se revela o génio deste Governo e desta Ministra : olhando esta realidade, o Governo achou que se devia mexer ... nas regalias dos professores. ( Lembram-se do cientista maluco que ia cortando as pernas a uma rã, uma a seguir a outra, e depois assustava a rã com um grito, fazendo a rã saltar ? Esse tipo concluiu que a rã, quando se lhe cortava a quarta pata, fica ... surda. )
Está-se mesmo a ver : o ensino está a desordem, o caos que está, não é ? Tumba, tira-se da cartola os professores titulares, com um novo estatuto dos professores em que só metade é que irá progredir, fixam-se quotas, faz-se á pressa um sistema de avaliação côxo e atamancado, cuja unica preocupação é legitimar a não-promoção dos professores, edita-se um novo estatuto do aluno ( que logo depois se suspende ) decretando-se que podem faltar á fartazana sem consequências, etc ... etc ...
Como podem ver, se tiveram paciência de ler até aqui, tudo medidas apropriadíssimas, apontadas ao cerne do problema ! Com medidas destas, o ensino vai mesmo melhorar, caramba, são medidas inteligentes, bem vistas, próprias de pessoas excepcionalmente dotadas para estas coisas do ensino !
Agora notem o requinte : sabendo á partida que os professores são gente esconsa e fugidia, sempre prontos a boicotar o ensino, o ministério adoptou desde o início uma postura própria de um ministro das cadeias a legislar para com os reclusos : força na marreta e eles que se lixem, não queremos saber deles para nada ! Uma simpatia, medidas bem discutidas e acertadas com os professores, cuidado na defesa do seu estatuto de vida, tudo com uma enorme simpatia e respeito, não me venham dizer o contrário !
Pois. E é exactamente por causa disto tudo que os professores agora dizem ( e ainda vão dizer mais ) BASTA !
É que, seja eu de que partido for ( nenhum ), não sou estúpido, e não consigo encontrar em NENHUMA das diversas medidas do Ministério uma preocupação sincera com a degradação do ensino.
Apenas encontro a preocupação de reduzir a factura com o pessoal, no Ministério. Misturada com uma espécie de raiva surda e inconfessada contra eles, os professores.
Sabem, não posso deixar de lhes dar razão, não posso deixar de os aplaudir, não posso deixar de lhes gritar : FORÇA, rapaziada, FORÇA, professores, LUTEM PELA DIGNIDADE QUE VOS É DEVIDA !
domingo, março 02, 2008
Leitor : acha que existem mais professores ou pais de alunos ? Hem ?
Pais ? Se calhar, existem 30 ou 40 pais e mães para cada professor.
Pois bem : li no jornal de hoje que se reuniu, em Gondomar, uma qualquer Confederação de Pais, juntando a extraordinária quantidade de 300 pais/mães, em representação de cerca de 200 associações de pais em todo o País…
A notícia ocupava quase 2/3 da página do jornal e dava conta que esses interessados pais achavam muito bem a actuação da srª Ministra e das suas reformas e aconselhava os senhores professores a abandonar as suas atitudes de luta.
Boa : 300 pais, reunidos em Gondomar, acham que mais de 20 ou 30.000 professores que se têm manifestado em todo o País por estes dias são mentecaptos, irracionais e que quem tem razão é a senhora Ministra.
É desolador : quando as pessoas deixam de ter liberdade de opinião e preferem ser mensageiros acéfalos dos seus partidos é nisto que dá.
Então mas aqueles senhores da Federação ou Confederação ou lá o que é ainda não perceberam que não deviam falar em nome dos pais dos alunos deste País, tão reduzida é a expressão da sua representatividade ?
Nestas pequenas questões, como nas grandes, os portugueses não abandonam as suas poses seguidistas e ridículas.
Pronto, já muitos me irão bater, mas eu quero que se lixe : esta cena fez-me lembrar o início da UGT .
E mais não digo, porque não me apetece.
sábado, março 01, 2008

Trata-se de uma actividade que essas pessoas abraçam empenhadamente, segundo parece.
A minha proposta de hoje é aproveitar essas actividades para suscitar uma discussão, muito simples na sua formulação, mas que pode servir para mostrar como é difícil, tantas vezes, formar uma opinião fundamentada sobre a realidade.
Antes de mais, notemos que os factos apresentam diferentes valorações consoante o local onde nos situemos :
- Se estivermos do lado das Nações Unidas, a medida é inteligente e não duvido que tenha algum impacto : a notoriedade dos e das embaixadoras escolhidas garante a presença nos meios de comunicação de todo o Mundo do problema para o qual se pretende chamar a atenção ;
- Do lado das celebridades escolhidas, o terreno é mais movediço. Podemos admitir que algumas dessas pessoas sejam sensíveis, de facto, às atrocidades humanitárias que presenciam; ainda assim, parece insofismável que para eles advém igualmente um acréscimo de popularidade, potenciada pelo facto de se tratar de uma actividade que a opinião publica valoriza grandemente ;
Após esta análise, poderemos afirmar que, com estas iniciativas, todos ganham ? As Nações Unidas, as vítimas das atrocidades e ... as próprias celebridades.
Assim parece.
E contudo, porque é que ainda sinto uma certa crispação quando leio notícias destas ?
Então, hoje, neste Mundo maluco e desnorteado, para que uma causa justa seja conhecida, para levar as pessoas a preocuparem-se com o que se passa á sua volta, é preciso ouvirem a Angelina Jolie ou o Brad Pitt ou a Maddona a falar disso ?
Valha-me Jesus Cristo, que apesar de tudo, dentro das celebridades, ainda é aquela que mais admiro e em quem mais confio : tem outros méritos, não faz filmes, não canta e, ao que parece, nunca foi a Hollywood.
sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Este PS é um espanto.
Não me entendam mal, o PSD é hoje um Partido suicida, mas o PS ... é o máximo.
Para quem conheceu o PS de Soares, Salgado Zenha ou Alegre, mesmo o PS de Ferro Rodrigues, este partido neo-liberal, acobertado na antiga sigla, é bem o sinal dos tempos que vivemos. Vou começar a chamar-lhe PS*, é forçoso que sejamos rigorosos. Uma coisa é ( era ) o PS, outra bem diferente é o PS*.
Hoje, bem cedo, veio o inefável e simpático porta-voz do partido afirmar em público, por causa de sondagem recente, que o PS* continua com “níveis altíssimos” de popularidade, enquanto o PSD desceu 3 pontos percentuais... e o senhor estava felicíssimo, ao fazer esta afirmação. Conclui logo que isso se devia ao apoio dos portugueses ás medidas do Governo.
Tristeza ... é isto a política, hoje ? A arte de fingir que não se percebe a realidade ?
Claro que o PS* não tem culpa de NÃO EXISTIR ALTERNATIVA CREDÍVEL á sua política. Claro que o PSD não precisou para nada do PS* para se auto-mutilar, com lideres que nunca o deveriam ter sido. O PS* não é responsável, é verdade, mas os portugueses ainda o são menos, diga-se em aparte.
Estranho, estranho e mesmo preocupante é que o PS leia os resultados da sondagem como se os numeros significassem um apoio e concordância á sua política. As pessoas atingidas pelas medidas do PS* reagem, um pouco em todos os sectores, um pouco por todo o país. Do Governo temos visto discordar professores, médicos, juízes, utentes do SNS, militares, EMPRESÁRIOS ( localização do novo aeroporto, por exº, Belmiro de Azevedo, outro exemplo, quanto ao fisco ) , fiscalistas, reformados actuais e futuros ... mas toda esta gente é irrelevante para o Governo. Para eles, só o mundo virtual onde vivem é que conta e todas estas pessoas um bando de privilegiados. Estão a prejudicar gravemente todos estes sectores sociais, estão a despertar em toda a sociedade uma agressividade que não augura nada de bom ... mas estão muito felizes, acham que estão a governar lindamente.
Ainda não perceberam : NUNCA MAIS vão ter outra vez a maioria absoluta que o desvario do governo de Santana Lopes provocou. NUNCA MAIS se vão poder armar em ditadores eleitos, arrogantes e provocadores, insultando tantos grupos sociais, provocando tantas feridas e tão graves no nosso tecido social.
Mais : no dia em que o PSD se deixar de brincadeiras e arranjar um lider credível que saiba transmitir esperança ao país, este PS* vai á vida.
É essa realidade que este PS* se recusa a ver.
E daí, talvez não. Talvez até o percebam.
PS – Obviamente que não é apenas o PSD que precisa inventar um líder credível, com um PROJECTO POLÍTICO para o país.
O PS* também.

Ninguém é obrigado a gostar do seu país, mas eu gosto. Por muitos motivos.
Gosto tanto que abracei, muito novo, uma carreira que me exigia uma disponibilidade total, incluindo a da minha própria vida, na defesa desse mesmo país.
Nunca me arrependi dessa decisão, continuo a amar o meu país, embora seja dificil hoje descortinar esse país no meio da floresta de horrores que alguém nele plantou.
É verdade, mudou muito, este meu país.
Era um país infeliz, atrasado e amordaçado.
Hoje é um país amedrontado, paralizado, desorientado e profundamente desigual.
Cheira a incerteza, a desânimo, a falta de esperança.
Portugal é de novo um país infeliz.
Cansa muito, é extenuante, viver agora no meu país.
Dói, cada minuto que passa. Custa a respirar.
Luto, todos os dias, para não cair no ódio.
Quero voltar a amar o meu país, não adianta odiar quem não o respeita.
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
No Portugal de hoje, a unica coisa genuina é o gamanço. Nunca vi tantos a sacar como agora. Em toda a parte. Empresas publicas e privadas, a unica diferença é onde se saca, se no bolso do povo em geral se no do accionista. O saque é contínuo e atingiu o nível do despudor, ou seja, em Portugal , sacar deixou de ser mal visto em sociedade. Perdeu-se a vergonha. Não se hesita em subir escandalosamente os vencimentos, nos conselhos de administração, para quantias que fariam corar de vergonha qualquer pessoa, há bem pouco tempo. Oferecem-se milhões de euros para que os cirurgiões operem, para que os médicos das unidades de familia trabalhem, enquanto em contrapartida se mantêm os outros funcionários sem aumentos nem promoções há anos. Um ministro despacha uns problemas da Iberdrola e logo após o fim do seu mandato vai para administrador da mesma Iberdrola.Temos um responável do nosso banco central a ganhar muito mais que o seu congénere nos EUA. Há cidadãos impedidos de se reformarem, porque ainda não têm não sei quantos anos ou não sei quantos anos de serviço, enquanto outros acumulam várias pensões, bem boas por sinal, arranjadas em meia duzia de anos de serviço aqui e acolá.
No Governo, gastam-se anualmente uns bons milhões de euros a pagar estudos, projectos, assessorias a empresas privadas, enquanto os serviços do Estado que poderiam desnvolver esses trabalhos são desprezados.
Pedem-se sacrifícios ao povo, enquanto esse mesmo povo lê, atónito, que o senhor fulano tal levou 10 ou 20 milhões de euros de indemnização, quando saiu do banco. MILHÕES, amigos, MILHÕES.
Fica-se banzado, não é ?
Quem são estes gajos, estes supra-sumos, estas inteligências avassaladoras ? Quem é toda esta gente apressada, venal, sem vergonha, criaturas cinzentas, de olhar esconso, mãos velozes e dissimuladas, ávidos, a salivarem, empurrando-se uns aos outros por mais um tachozito ?
Quem são, afinal, estes senhores ?
A resposta é simples : são, apenas e tão sómente, vulgares saqueadores.
Ou rapineiros, se preferirem.
E nós, os outros, somos os saqueados, os rapinados.
Ou parvos, se preferirem.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
SÓCRATES E O ZORROEm vez do poderoso cavalo negro, monta apenas umas sapatilhas Nike, em despropositadas cenas de jogging nos locais mais inverosímeis.
Em vez de tirar aos ricos, deixa-os enriquecer ainda mais, enquanto vai esmifrando os desgraçados dos funcionários e da classe média para tapar o buraco das contas públicas.
A espada que celebrizou o Zorro, em Sócrates é apenas um telefone, mais virado para as redacções dos jornais e das televisões que para os vilões deste País.
A célebre mascarilha do Zorro é diferente em Sócrates : Zorro usava-a para não cair nas mãos do poder, Sócrates usa-a para que o poder lhe caia nas mãos.
Num, a mascarilha era de tecido negro e colocava-a nos olhos, durante a acção; no outro, a mascarilha é invisível e usa-a nas palavras, para camuflar a acção.
Zorro tinha como inimigos o Governo e os grandes senhores da terra ; para Sócrates, os inimigos são os professores, os utentes que ainda restam do Serviço Nacional de Saúde, os privilegiados do passe social, os chatos dos desempregados, a classe média em geral.
No final, Zorro transformou-se num mito romântico de homem de bem, herói querido pelo povo.
Sócrates, se Deus e os homens não adormecerem, há-de voltar a ser aquilo que nunca deveria ter deixado de ser : um homem anónimo como tantos outros, sem grandeza nem generosidade, sem qualquer visão de futuro para o seu País, a quem ninguém nunca amou.
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
Hoje vou dar a conhecer o trabalho de um grande amigo meu. O engº de aeródromos José Lopes, distinto oficial da Força Aérea Portuguesa, é um amigo de longos anos, companheiro de andanças várias e senhor de uma sólida formação técnica. Para além de tudo isso, é pessoa voluntariosa e ainda suficientemente bem intencionada para gostar da sua Pátria e lhe querer dar o seu esforço e contributo.
Deste modo - assim mesmo, sem desejo de honras nem proventos - resolveu dedicar tempo e massa cinzenta ao problema que está em cima da mesa, depois da decisão governamental de construir o Novo Aeroporto de Lisboa ( NAL ) nos terrenos do Campo de Tiro de Alcochete.
É preciso agora pensar nas ligações ao NAL, tanto ferroviárias como rodoviárias, e na(s) consequente(s) travessias do Tejo. Acresce que essas ligações devem ser pensadas em conjunto, obviamente, com o traçado das ligações do TGV para Norte, Sul e Madrid. E ainda, com a actual rede ferroviária da REFER.
Se dedicarem 5 minutos a este tema ( sei que não é dos tópicos mais agradáveis para uma boa digestão ... ) depressa chegarão á conclusão que há aqui muitas variáveis e portanto muitas soluções diferentes : a empresa responsável pela futura rede de alta velocidade ( a RAVE ) tem uma solução, implicando a travessia do Tejo de Chelas ao Barreiro, mas o meu amigo José Lopes descobriu uma solução mais simples e elegante : a travessia Olaias-Montijo, começando no alto das Olaias e terminando quase junto da margem sul da Vasco da Gama, perto daquela zona de serviço que lá existe, lembram-se ?
Pessoalmente, acho que a solução J. Lopes tem vantagens e olha para o problema de uma forma integrada, isto é, tenta encontrar um equilíbrio entre todas as componentes do problema.

Podem fazer uma ideia da solução, ao examinar a figura junto. Cliquem na figura e vê-la-ão ampliada em todo o écran, regressem depois a esta página, OK ?
Há alguns pontos a destacar nesta solução que agora vos apresento :
1) Liga todos os pontos importantes : Portela, novo aeroporto, TGV, rede clássica da REFER, etc ...
2) A ponte Olaias-Montijo evita qualquer problema ( como rebaixamento em tunel, sobre-elevação, etc ... ) de cotas sobre o Tejo, para salvaguarda dos canais de navegação, uma vez que parte, nas Oaias, da cota +50 ( 50 m acima do nível do mar ) e chega á margem sul á mesma cota da Vasco da Gama ( mais ou menos ), com um pequeno acerto na trajectória para não "incomodar" as operações aéreas da Base da Força Aérea no Montijo.
3) O trajecto Olaias-Montijo é mais curto que na solução da REFER ( que podem ver no gráfico seguinte ) ; o trajecto total até ao Novo Aeroporto é também bastante mais curto.
4) As ligações para Norte do TGV são redesenhadas, passando a correr, até Santarém, pela margem esquerda do Tejo, com melhores condições de orografia e espaço disponível.
5) A nova Estação Central de Lisboa, nas Olaias, onde confluem a rede clássica da REFER, na linha de cintura de Lisboa, o TGV, o shuttle para o novo aeroporto e a rede de Metro passa a constituir o nó central de todas estas redes.

Enfim... é só vantagens, creio eu. Mas como não quero que "engulam" isto sem conhecimento de causa, vejam neste segundo gráfico o traçado proposto pela RAVE, incluindo a travessia Chelas-Barreiro.
Espero não vos ter aborrecido muito com este tema. Achei que era meu dever ajudar a divulgar as ideias do meu amigo, dado que se trata de um especialista nestas coisas mas que, apesar de tudo, não tem facilidade na sua divulgação.
Devo ainda acrescentar que esta proposta foi defendida pelo Engº Lopes no recente seminário que sobre este tema decorreu no LNEC, com a presença de todas as entidades intervenientes.
Se gostarem, divulguem o endereço do blogue pelos vossos amigos, OK ?
Um até breve e ... o meu obrigado !
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Não consigo ser feliz.
Nunca consegui, acho eu.
Oiço os outros falar da sua felicidade, das coisas que lhes dão prazer e só consigo pensar que não os entendo.
Se tenho tido ao longo da minha vida momentos de alguma alegria e esquecimento, tenho sempre a sensação que foram breves e um pouco por acaso.
Não gosto de muitas coisas que parecem agradar a quase todos os outros, o que é receita certa para não conseguir ligar-me bem a ninguém.
Não gosto de viajar, pelo menos da maneira que a maior parte gosta.
Não gosto de concertos de música séria, e fujo a sete pés dos outros, tipo Tina Turner em Alvalade.
Não gosto de teatro, óh blasfémia.
Não sinto prazer em ballet, clássico ou moderno.
Coisas como o flamengo fazem-me sono.
Nos ultimos tempos, dei por mim a aborrecer a praia, a achar estupido secar ao sol.
( Continuo a gostar do mar, mas isso não é popular ! )
Não me seduz o jogo, seja ele roleta ou slot-machines. Nem acho ponta de piada em ir jantar ao Casino e ver umas boazudas a rebolarem-se no palco.
Não gosto de conversas amáveis, desprovidas de emoção ou de polémica.
Não gosto de pessoas tolas, mesquinhas, egoistas ou que têm pavor da morte.
Odeio filmes tipo Harry não sei quantos, o jovem feiticeiro.
Sempre senti aversão pelo fado de Lisboa, nunca fui a uma casa de fados.
Odeio pessoas que dizem “está provado que” a anteceder uma qualquer afirmação patusca.
Odiei a Expo, percebi perfeitamente para que iria aquilo servir e a quem iria favorecer, nunca lá pus os pés.
Odeio a trafulhice, a mentira, a hipocrisia, o carreirismo, o partidarismo, o oportunismo, a mediocridade de valores.
Odeio os novos-ricos e também alguns dos velhos.
Odeio a maior parte dos padres e aquilo que esqueceram de Jesus Cristo, um dos meus heróis de puto.
Odeio muito daquilo em que Portugal se está a transformar.
Detesto festas com muita gente, todos muito determinados em se “divertirem”.
Sou indiferente a parques temáticos tipo Walt Disney.
As ultimas vezes que vi futebol só consegui pensar em árbitros venais e dirigentes corruptos. E jogadores pançudos de tanto dinheiro e tão pouco interessados em jogar futebol.
Conservo ainda valores dentro de mim, acho eu, mas já nem me lembro exactamente de quais.
Há ainda muita coisa de que gosto, claro, mas com todas estas coisas que odeio ou ás quais sou indiferente, como vou conseguir ligar-me aos que me rodeiam e ser “feliz” ?
Acham que alguém como eu, com tantos pontos negros, tantos “não gosto” e “odeio” poderia alguma vez ser feliz em Portugal ?
Acho que me vou resignar a ser infeliz.
Como sempre.
PS – Não tentem experimentar estas habilidades em casa, são coisas perigosas que só devem fazer na presença de profissionais qualificados em cinismo e em pessimismo e com todas as medidas de segurança activadas. Fiquem-se pelo gostar de todas estas coisas, é muito mais seguro.
sábado, fevereiro 09, 2008
A divulgação na imprensa de actos pessoais de figuras públicas, ilícitos ou anti-éticos, é um imperativo de qualquer regime democrático. É um mecanismo de controlo, por excelência, sem o qual esses actos ficarão sempre ocultos e, consequentemente, sem sanção jurídica ou política.
Concordamos todos que é assim ?
Beeeeeeeeemmm, nem sempre, diria eu.
Quando essas denúncias acontecem em Portugal, no tempo presente, nada se passa.
Pelo menos, nada de visível.
É como se nada nos pudesse já indignar ou fazer admirar. Como se já tivéssemos visto tudo, sem qualquer consequência. Descremos da equidade e oportunidade da justiça, não acreditamos também nas consequências eleitorais futuras desses actos. O que sabemos, isso sim, é que Isaltino Morais e Fátima Felgueiras andam para aí há ANOS para ser julgados ... e nunca mais se vê nada. Entretanto, são reeleitos.
Em Portugal, quando alguém como o actual bastonário da Ordem dos Advogados diz publicamente algo QUE TODOS NÓS SABEMOS, cai-lhe em cima o Carmo e a Trindade, clamam que o homem é populista e demagogo, um desmiolado, um perigo para a sociedade ...
Pois, é mesmo : um perigo ! Só que não é para a sociedade, é um perigo para este reino da paz podre e do faz de conta, um perigo para o saque desavergonhado em que a nossa vida publica se está a transformar.
Como entidade colectiva, a parte urbana da sociedade portuguesa apodreceu. Cheira mal, tal como a boca do Dantas, nas palavras de Almada Negreiros, embora ele próprio não cheirasse a rosas, acho eu.
Portugal urbano perdeu o pudor, perdeu a capacidade de se indignar. Há demasiada gente entretida a sacar o que pode, enquanto outros andam distraidos a olhar para o futebol. Há demasida gente pronta a culpar os jornais, em vez de censurar os autores dos actos investigados pelos jornais. Há sempre alguém que resiste, dizia o Adriano Correia de Oliveira, mas isso era dantes : agora há sempre alguém que encolhe os ombros e diz : “O gajo fez isso ? Então e depois ? Onde está a gravidade ? Todos eles são assim, uma cambada, que se lixe !”
Mário Soares falava do direito á indignação, certo ? Pois agora do que se trata é da incapacidade de indignação, já não há quem queira exercer esse direito.
Não é verdade, ainda há Pessoas. Mas são poucas, muito poucas.
Nada disto vem a propósito de Sócrates e das suas assinaturas em projectos de moradias lá para as faldas da serra ... Não, desta vez não é Sócrates que me entristece. Ou não é apenas Sócrates.
É o País.
Este País que eu sempre amei, este País que eu jurei defender, mesmo com o risco da própria vida, este País está a ficar um esgoto putrefacto e nauseabundo.
Este desgraçado País está cheio de merda !
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Sempre fiquei muito irritado quando alguém presume que que sou ignorante ou imbecil. O grau dessa irritação sobe de tom quando me parece que a coisa é feita com acinte e sem grande cuidado, isto é, que se parte do pressuposto que somos todos uma cambada de parvos que engolimos tudo.
Sobretudo quando se trata de pessoas a quem elegemos ( neste caso, é apenas um eufemismo, o tempo verbal ) e pagamos para gerir a coisa pública.
Ouvi hoje um senhor qualquer na TV, a perorar sobre o sistema de avalição dos professores, defendendo a bondade e virtude do sistema. Percebi depois que era um secretário de estado. Argumentos estafados, pobres, tipo “é assim que se faz no estrangeiro” ou “então querem que todos sejam iguais ?”.
Clama o senhor ( mais a ministra, mais o primeiro-ministro ) que nenhuma das reformas em curso na área da educação têm por motivação a questão da redução dos custos com o pessoal. Afirmam-no indignada e categoricamente. Como ousamos pensar isso ?
A separação dos professores em titulares e não-titulares não foi nada arbitrária, a avaliação e a consequente imposição de quotas máximas para as boas classificações também não. Tudo se rege pelo objectivo de melhorar o ensino, afirmam.
Bom.
Estão a querer fazer de mim estúpido, parvo ou as duas coisas ?
Então o que sucede a um professor que não é titular ? Deixa de dar aulas e de ter os seus alunos a quem vai transmitir conhecimentos e atitudes ?
O que sucede a um professor cuja avaliação for apenas razoável ou, sendo muito boa, não couber na quota estabelecida ? Deixa de dar aulas ? Deixa de ter alunos ?
Se a estas duas questões afirmarmos que não, não deixam de dar aulas, vão continuar a ter os seus alunos como até aí, porventura mais desmotivados e reactivos, como será de esperar, então a que conclusões podemos chegar ?
Se esses professores vão continuar a dar aulas, com os mesmos alunos, apesar de não serem titulares e não terem excelente ou muito bom na avaliação, COMO RAIO É QUE O ENSINO VAI MELHORAR ???
Qual é a unica coisa que muda então, digam-me lá ?
Como vimos, a qualidade do ensino não é, uma vez que esses professores continuam onde estavam, a dar as suas aulas.
Então que é, adivinhem, vá ...
Isso mesmo : a unica mudança é que o dito professor não vai progredir na carreira e vai, portanto, custar menos dinheiro ao patrão Estado.
Ou não é ?
Gostava de ver negado este raciocínio por quem quer que fosse.
Bom, e gastar menos dinheiro com os professores é assim tão imoral ?
Não, não é.
Tem todo o direito de fazer isso.
Do que não têm direito é de negar este objectivo, e andar para aí a dizer que estas medidas visam a qualidade do ensino.
Mas há mais : um dos parâmetros de avaliação dos professores vai ser o resultado que os seus alunos obtiverem. Pede-se aos professores que fixem um objectivo-meta quantificado, tipo “os meus alunos da turma x vão melhorar o aproveitamento em 10%, relativamente ao ano anterior” e já está. No fim vai medir-se o cumprimento desse objectivo.
Ora bem : então a meta é fixada pelo professor e é ele que vai dar as notas que vão dizer se esse objectivo foi ou não alcançado. Certo ?
Oh meu Deus, uma vez mais estão a fazer-me passar por parvo.
Mas então, nestas circunstâncias, haverá algum professor masoquista que vá chumbar quem o merece se isso for comprometer o seu objectivo ? Haaaaaã ? Digam lá ?
As notas não vão melhorar, todas elas, a olhos vistos, com alegria incontida da senhora ministra ?
Vamos apostar ?
Uma vez mais : todas as medidas visam a melhoria do sistema de ensino, não é ?
Como se vê.
Assim, não. Assim, estão a tentar deitar-nos areia para os olhos.
Com todas as letras : estão a esconder de nós os verdadeiros objectivos da sua reforma.
Por mim, é algo que me irrita, repito : não gosto que me tomem por tolo.