quarta-feira, maio 23, 2007

APRESENTO-LHES A LILI

Esta é a Lili, a minha nova gatinha residente. Como podem ver é branca, tem o rabo e as orelhas cinzento escuro e o pelo é maior que o habitual para estes bichanos sem raça.
É uma jovem gata de forte personalidade, corajosa e muito faladora. Trouxemo-la ( a minha filha e eu ) para casa com o pretexto de fazer companhia ao Pipoca, o nosso outro gato amarelo de que se lembrarão os leitores mais "velhotes".
Agora, aqui em casa, é o desassossego total : são correrias intermináveis, frequentemente pautadas por agudas guinchadelas da Lili, quando o Pipoca a lambe mais furiosamente ou lhe dá uma mordidela de namorado menos terna numa perna. Vinga-se logo a seguir, não se preocupem ( ou não seja uma ela ... ), atirando-se em vôo picado para lhe morder o rabo. O Pipoca fica com um ar vagamente ofendido, mas depressa lhe passa. Finalmente, extenuados ( ele mais depressa que ela ) estiram-se ao comprido nos pés da minha cama e adormecem ao pé um do outro.
A verdade é que estes bichanos me transmitem ternura e tranquilidade, ao contrário dos dignos senhores que escolhemos para serem governantes.
Mérito dos gatos ? Demérito dos governantes ?

segunda-feira, maio 21, 2007

SÃO PROIBIDAS AS BOCAS SOBRE A LICENCIATURA DO SR. PRIMEIRO-MINISTRO !
Leram o meu post anterior ? Se não leram, sugiro que comecem por aí.
Hoje é imperioso que fale de algo inaudito acontecido num orgão do Ministério da Educação, a Direcção Regional do Norte.
O caso conta-se em três palavras : um professor destacado nesse orgão do Estado ( notem bem, ser um orgão do Estado não significa ser um orgão do Governo ... ), enquanto trabalhava, deu uma “boca” para um colega do lado, sobre a licenciatura do Primeiro-Ministro. A piada ( de que se desconhece o teor ) chegou ao conhecimento da senhora directora regional, que, pasme-se, logo ordenou a abertura de um auto de averiguações a que logo se seguiu, segundo parece, o respectivo processo disciplinar. Enquanto isso, o professor foi preventivamente suspenso e logo mandado regressar á sua Escola de origem, que quem trabalha num Ministério não pode mandar bocas ao Governo !
Claro que o caso foi imediatamente levado a Tribunal Administrativo pelo tal professor. E bem.
Mas que raio de importância viu a senhora directora regional numa piada sobre algo que toda a gente sabe que foi um processo atribulado, pouco ortodoxo e ainda por clarificar totalmente ? Quem lhe encomendou tal atitude persecutória, porque motivo se abespinhou daquela forma por uma boca ?
Este caso terá alguma importância ou tratar-se-á apenas de um fait divers, uma funcionária pública excessivamente zelosa ?
Em meu entender, é paradigmático, e ilustra bem o teor do meu anterior post. É assim que “as coisas” começam, é assim que os “intocáveis” são criados, é desta forma que se pretende colar fita adesiva na boca das pessoas, é a maneira que a gente pequena tem de evitar a oposição.
Não acredito que a zelosa funcionária pública tenha recebido ordens de alguém do Governo para não permitir desaforos relacionados com a licenciatura do Primeiro-Ministro. No que acredito é no excesso de zelo, misturado com temor reverencial, temperado com uma pitadinha de fé na divindade sacrossanta de um Primeiro-Ministro. Ou quem sabe, na esperança de que esse zelo seja recompensado na vida eterna. Ou na actual, bem terrena. De qualquer forma, aqueles a quem chamamos mais papistas que o Papa são frequentemente os primeiros ( ou segundos, não me interessa a ordem ! ) responsáveis pela criação de um clima horroroso de intolerância e de perseguição.
Conheci bem o processo nos tempos de Salazar, com a simpática Pide a policiar tudo e todos, mesmo cafés, bares e cinemas, e nem mesmo nessa época os funcionários públicos dos escalões médio/alto denunciavam ou perseguiam os seus colegas por uma boca contra o Governo.
Este caso é totalmente inaudito, reafirmo.
Preocupante, mesmo.
Vamos seguir este assunto com interesse.

segunda-feira, maio 14, 2007

Autoridades ...

Não sei o que vocês pensam, mas este país está demasiado autoritário para o meu gosto. Autoritário, ouviram bem.
Vivi no tempo de Salazar e Caetano ( e não gostei ), vivi o 25 de Abril ( e tive esperança ) , atravessei o turbulento PREC ( e senti-me mal, francamente ), mas nunca vivi uma época como a que atravessamos : enquanto formalmente tudo leva a crer que se trata de uma democracia, vive-se de facto uma época pré-autoritária.
O registo auto-suficiente e convencido do Primeiro-Ministro, a sua impaciência para com as discordâncias e críticas, a sua pose de iluminado, a sua reacção no caso da licenciatura, tentando silenciar os orgãos de comunicação, todos estes tiques indiciam um modo autoritário de entender e exercer o poder.
Os autoritarismos começam sempre por atitudes deste género, potenciadas e ampliadas depois pela indiferença, complacência ou adesão entusiástica de parte significativa dos governados.
Ademais, sabemos bem como os autoritarismos nascem e se alimentam de certas circunstâncias : uma situação económica dificil ( um déficit a combater, por exemplo ) e um inimigo comum a grande parte da população, sejam eles os monárquicos, os seguidores do imperador, os comunistas, os ricos, os judeus ou ... os funcionários públicos.
Estou a acusar o Primeiro-Ministro de tentar instalar um regime autoritário ? Não, não é isso que afirmo. O que sustento é que o seu estilo, as suas opções políticas e os homens de que se rodeou fazem-nos andar á deriva em águas turbulentas, muito perigosas, sem verdadeiramente sabermos para onde vamos e, o que é pior, sem termos consciência do perigo.
Olhem á volta : o fisco e a segurança social penhoram tudo aos devedores, contas bancárias, salários, automóveis, certificados de aforro, imóveis ; a ASAE invade feiras, restaurantes, mercados, armazéns, põe tudo a ferro e fogo, multa, prende, encerra, apreende ; o Governo muda todas as regras do jogo, baixa pensões, sobe idades para a reforma, destrói vínculos de trabalho e subsistemas de saúde no funcionalismo público, fecha hospitais, maternidades e circulos judiciais, a Ministra da Educação trata os professores como meliantes, corta-lhes direitos e sorri, convencida da sua razão.
Tudo é feito apressadamente, atabalhoadamente, sem estudos nem explicações, como se nos quisessem apanhar a todos distraidos, estilo aeroporto da Ota. As coisas são feitas acintosamente, com uma espécie de raiva surda que não se sabe de onde vem mas que se lê claramente no semblante das diversas autoridades no exercício das suas funções. De resto, elas, essas mesmas autoridades, proliferam como cogumelos, cada uma delas mais autoridade que as outras, umas por expressa recomendação superior, outras por impregnação osmótica do estilo autoritário do chefe, as restantes para não ficarem atrás das primeiras, todas elas empenhadas na sua nobre missão de serem autoridade.
Ainda por cima, muitas dessas autoridades invocam a defesa dos nossos direitos, defesa que não me lembro de lhes ter delegado ; sim, eu até gosto de comer uma fartura nessas feiras populares que agora a ASAE tão diligente e afanosamente persegue por atentado á saude publica !!
As polícias crescem por toda a parte, neste frenesim autoritário, neste verdadeiro bacanal da tutela das nossas vontades : agora já há polícias municipais, polícias da higiene alimentar, polícias da empresa de estacionamento de Lisboa, inspectores da TV Cabo, que sei eu ...
Mas há mais, há mecanismos de segurança : se alguma destas autoridades, por excesso de zelo e manifesta incompreensão dos governados, acabar por cair no furioso desagrado publico, chama-se a RTP e faz-se um daqueles programas de absolvição e desculpabilização que todos conhecem, com convidados escolhidos a dedo.
Acham que não, que eu exagero ? Viram atentamente o “Prós e Contras” da RTP1 sobre a política de educação ou sobre a ASAE ? São capazes de me dizer para que serviram aqueles programas ?
Tudo isto sem esquecer a actuação da inefável Entidade Reguladora para a Comunicação Social ( essa, não sei se por vergonha ou falta de atrevimento, não se chama autoridade ... ) a impor quotas á RTP, para tratar o Governo e a oposição, metade para o Governo e PS e a outra metade para o resto do mundo. A isto se chama equitatividade e independência, não é ?
Vejam ainda os sinais preocupantes da constituição de uma designada Comissão da Carteira ( profissional dos jornalistas ), destinada não se sabe a que tipo de controlo sobre os mesmos, que provavelmente tenderá, no futuro, a chamar-se Autoridade para o Controlo da Ética Jornalística, ou coisa do género.

Vá lá, não se distraiam, por favor : olhem atentamente á nossa volta. Olhem, vejam, sintam, reajam.
Que nunca ninguém venha a dizer , mais tarde, que nunca pensou que ... ou que foi apanhado desprevenido.
É que sim, senhor, é preciso autoridade ... mas, com mil demónios, tanta autoridade assim já irrita, ninguém lhes passou procuração para criar um Estado tutelar, paternalista e autoritário, onde já nem fumar se pode.

quarta-feira, maio 09, 2007

Portugal tornou-se uma imensa lixeira.
Por toda a parte se sente o cheiro nauseabundo de um país em decomposição.
Deambulamos por este País, tontos e sufocados de tanta podridão, sem uma réstea de esperança, sem um pouco de ar limpo.
Os partidos políticos tornaram-se em clubes de emprego e em promotores de negócios, as juventudes partidárias em escolas de oportunismo, os clubes de futebol em lobbies de interesses, agências de negócios e viveiros de deliquentes, as câmaras municipais em escolas práticas de corrupção, as televisões e jornais em simulacros de contrapoder, as escolas e universidades em fábricas de canudos e de ignorantes, as forças de segurança e os militares em gente desmotivada e amordaçada, a generalidade do povo num bando de subnutridos e mal pagos.
No meio desta lixeira, eles, os que gostam destes ambientes, singram com vento pela popa, velas enfunadas, a toda a velocidade. Combinam-se negócios chorudos, compram-se terrenos por um e vendem-se por dez, aceitam-se milhões por aquele empurrãozito, deliberam-se em assembleia salários principescos mesmo em empresas arruinadas, inventam-se empresas e institutos públicos, arranjam-se empregos chorudos para os filhos, netos, primos e primas, até para o filho da mulher a dias, compram-se os ultimos modelos dos carros topo de gama, os andares de luxo, as vivendas na quinta da marinha ...
De onde vem o dinheiro para tudo isto ?
É fácil. Muito simples, mesmo : enquanto a conta bancária deles cresce todos os meses 20 ou 25.000 euros, vai-se impondo a moderação salarial, que não se pode pagar mais a quem trabalha, a produtividade é muito baixa, baixam-se os salários reais todos os anos, retiram-se regalias, corta-se nas despesas de saúde dos outros ... enfim, de corte em corte, são muitos os milhões que ficam disponíveis para eles, percebem não percebem ?
Entretanto, vão eles preparando também o futurozinho ... neste estado de coisas, não há melhor segurança na velhice que fazer uns favorzitos aos grupos económicos, abrir-lhes caminho para investimentos em áreas de grande lucro, como a saúde e as reformas, por exemplo, eles hão-de lembrar-se de nós mais tarde ...

E o povo ? E o País ?
Ora, o povo sempre resistiu a tudo, o País há-de sobreviver ... e, se não sobreviver, os espanhóis compram o que sobrar...
Portanto, who cares ?

terça-feira, março 29, 2005

HOJE ESTOU NUMA DE INTELECTUAL !

Se hoje parecer um pouco pedante ou fora do meu registo habitual, peço desde já desculpa ao leitor. Mas leiam, não se vão já embora, isto não é assim tão chato como pensam ...
No PÚBLICO de hoje, Eduardo Prado Coelho ( EPC ) lembra Jean Paul Sartre, a quem chama o intelectual dos intelectuais , tanto no título da crónica como no seu final, em jeito de conclusão, lembrando embora figuras contemporâneas de Sartre, e que dele divergiam, como Michel Foucault ou Raymond Aron.
É claro que a figura de Sartre foi omnipresente, na geração de EPC ( que é a minha, mais ou menos ). Sartre multiplicou as suas actividades pelas obras de filosofia, teatro, jornalismo e política, pelo menos. Sartre foi uma espécie de ícone do pensamento de esquerda para várias gerações. Sartre era um homem com um apetite voraz pelo reconhecimento público, pela notoriedade. Sartre foi, de facto, um intelectual com uma influência enorme no seu tempo.
Contudo, quem conheça os aspectos mais pragmáticos da vida de Sartre, sabe que ele foi obrigado a fazer “cambalhotas” diversas, tentando acomodar as suas ideias á realidade que ia sendo conhecida. Frequentemente errou análises políticas, desprezou ou não viu nenhuma ameaça em fenómenos como o surgimento do nazismo, com Hitler, tentou justificar os campos de concentração soviéticos ( os gulags ), não se importou nada de permanecer na França ocupada pelos nazis na 2ª Guerra Mundial ( enquanto R. Aron, por exemplo, fugiu para Inglaterra e combateu de lá, como pôde, os alemães ) e mais uma série de actos falhados, errados, incoerentes ...
Conheci Sartre durante o PREC, quando veio a Portugal tentar perceber in loco o que tinha sido a Revolução dos Cravos. Eu ainda não tinha 30 anos e Sartre estava velho, viria a falecer pouco tempo depois. Ele fez perguntas, teceu comentários, deu conselhos : achei-o meio tonto, incoerente, sem ter percebido o que estava a ver ( insistia nos soldados, que eles é que deviam fazer isto e aquilo, etc ... ).
Bom, não liguem á minha opinião, atentem só nos outros factos que vos contei.
Agora reparem : que estranha noção de intelectual é esta, que faz Eduardo Prado Coelho chamar o intelectual dos intelectuais a um homem que quase nunca percebeu a realidade que o cercava ( lembrem-se que Sartre era sociólogo, hem ... ) e cujas apostas na mudança da sociedade foram quase sempre falhadas ??
Aparentemente, somos tanto mais intelectuais quanto maiores forem os nossos erros ao teorizar sobre a sociedade e a sua mudança. Desde que publiquemos uma data de livros, façamos artigos em jornais e revistas e andemos pelo mundo fora a "mandar" bocas. E desde que saibamos também cair nas boas graças dos auto intitulados revolucionários de todo o Mundo.
Ah, antes que me acusem : eu até gostava ( e gosto ) de Sartre e li dele muita coisa. Mas, como dizia o maluco á porta do manicómio, "sou maluco mas não sou estúpido !".

quinta-feira, março 24, 2005

NOTÍCIAS DA FUGA ( ATRAVÉS DO RASGO NO NEVOEIRO )

Já há muito que não escrevo neste blogue. Daí não vem nenhum mal ao Mundo, claro. Mas sinto-me incomodado, quando noto nas estatisticas que meia dúzia de leitores vieram cá frequentemente ver se “o gajo escreveu qq coisa de jeito” ... e não encontram nada !
É que as coisas nem sempre correm de molde a empurrar-me para a escrita. Ou as musas foram de férias, ou eu não fui e precisava, ou o assunto escasseia ou eu é que escasseio.
Uma coisa dessas, rica, sei lá ... como diria uma tia da linha. Está a veeeer ?
A verdade é que tenho andado um pouco baralhado. Aquele salto no desconhecido, através do buraco no nevoeiro, não resultou tão bem quanto eu esperava ...
Quando caí, tive azar : em vez de terra macia mas firme, encontrei uma espécie de terreno movediço, tão depressa sólido como logo a seguir completamente líquido e borbulhante, capaz de tragar até a minha alma, quanto mais o meu corpo. Ou seja, a liberdade tem os seus custos e eu ando ainda a pagá-los. Com juros, claro.
Bem, a coisa não foi assim tão má como isso. Simplesmente, tenho dificuldade em perceber as mulheres. Tão depressa me parecem dizer que sim como logo a seguir percebo que afinal era não, mas um não que poderia ser um talvez ou até mesmo um sim desde que ... adiante, acho que a auto-estrada para os Açores já vai adiantada, sabem?, tenho que ir ver as obras.
Mas já agora fiquem-se só com esta : a coisa até meteu um bailarico á maneira numa tenda instalada no Centro Cultural de Belém ... mas sobre isso contar-vos-ei depois, a coisa foi complicada, com tangos, valsas, paso-dobles e outras relíquias de antanho. E o vosso amigo, atrapalhado e a suar, esquecido do manual dos anos 60 !
Enfim, sabem que mais ? Tempus trampis, que é como quem diz : está um tempo da trampa, nem chove nem é Primavera. Preparem-se, um destes dias a hora vai mudar e então não sei como vai ser : se com esta hora já as coisas iam mal nem quero saber o que será com a nova, ainda inexperiente, novinha em folha ...
Vou-me mas é embora, por hoje. Façam loucuras, em especial antes de morrer. Depois é mais dificil.
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sexta-feira, março 18, 2005

A INEFÁVEL SANTIDADE DOS DEFENSORES DA CASA PIA

Este processo da Casa Pia já me faz cócegas nos neurónios há muito tempo. É um daqueles casos que servem de catarse colectiva e, o que é pior, de fervoroso e hipócrita júbilo de “beatos” compungidos, armados em defensores da moralidade pública e das normas dos bons costumes sociais, preparados para colher, mais cedo ou mais tarde, os louros bem terrenos dessa sua enorme firmeza moral !
Por mim, confesso, pouco me preocupam os aspectos sexo-morais do caso, a menos que me demonstrem que os putos envolvidos são, de facto, vítimas e não pequenos prostitutos e homossexuais a ganharem uns trocos e umas passeatas.
Tremo só de pensar nos danos que este famigerado caso já provocou neste país de bons costumes ( quando os outros estão a ver ... )e das atenções que desviou de coisas verdadeiramente importantes da nossa vida colectiva. Lembram-se, por exemplo, dos ataques ao PS ? Bem, acho que o tiro lhes saiu pela culatra, mas apesar de tudo o Ferro Rodrigues não é o líder do PS, pois não ?
Agora, essa inefável e beatífica figura que se chama Catalina Pestana ( integra defensora e prosélita de Santana Lopes nas ultimas eleições, diga-se ) imbuída de um fervor justiceiro e de uma auréola de imaculada, vem dizer coisas espantosas no seu testemunho em pleno Tribunal. Pasmem : diz a senhora ( a fazer fé na comunicação social ) que uns alunos lhe disseram que na década de 70 e 80 havia uma organização de pedofilia holandesa ( ou algo do género ) à qual pertencia Carlos Cruz e outros... E acrescenta, uma jovem aluna disse-lhe que, uma vez que tinha ido a casa do embaixador Ritto, tinha lá visto uma foto do mesmo Carlos Cruz !
Pérolas autênticas, estas afirmações. Disseram-lhe uns alunos, vítimas da pedofilia, diz ela. E diz isto em pleno Tribunal.
Se isto é mesmo assim, já não sei que raio é o direito, em Portugal. Então eu vou a Tribunal, como testemunha, afirmar que houve uns gajos ( sempre em segredo, para não os matarem, decerto ) que me disseram que a Dª Catalina Pestana não faz a mínima ideia do que deveria ser uma gestão séria da Casa Pia ???
Até pode ser verdade, notem, mas isto não é ético, caramba. Eu devo dizer aquilo que sei, não aquilo que ouvi dizer, sem garantia nenhuma de que seja verdade.
Ou já não é assim ??? Já vale tudo ?
Por falar em gestão séria da Casa Pia, já leram que há uma data de putos, num dos colégios da Casa Pia que já acham que podem fazer o que quiserem ? Como estão protegidos ... então vá de bater em professoras e outras coisas idênticas ...
Mas claro que nada disto é grave : as professoras são de maior idade e o caso não tem o impacto de uma orgia pedófila, não é ? É pouco grave, não dá direito a julgamento nenhum e a Dª Catalina Pestana pode dormir sossegada.
Enfim, vamo-nos vendo por aí ...
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quarta-feira, março 16, 2005

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O RASGO NO NEVOEIRO
Há assim momentos, como o de hoje, em que o denso nevoeiro se abre um pouco e consigo vislumbrar vultos, movimento, até cores, do outro lado da estrada. Pouco interessa conhecer os detalhes, acho que tu vais entender. Na tua vida já também aconteceram episódios destes : de repente, tudo parece possível, até mesmo aquela fatia de luz, cor e calor pela qual anseias há tanto tempo. Mas tem cuidado, é preciso aproveitar a aberta, atravessa o nevoeiro enquanto ele não se refaz e recobre de novo o buraco. Não hesites, estas oportunidades não se compadecem com medos, tibiezas ou duvidas exageradas. É preciso estar pronto para saltar, como se a tua vida disso dependesse. E depende, acredita.
Por mim, estou farto deste nevoeiro cinzento, húmido e opaco que me cerca há algum tempo. As coisas à minha volta perdem o contorno, esbatem-se, ficam reduzidas a uma massa informe e incolor. Asfixio. Esbracejo. Grito por vezes. Outras vezes vivo conformado e triste. A maior parte do tempo, finjo que sou homem, mas no fundo sou uma espécie de plasticina cinzenta que já nem sequer se cola a nada. Na verdade, tenho tido medo, algumas vezes, de atravessar o buraco no nevoeiro.
Hoje vai ser diferente. Hoje não há nevoeiro que me impeça de ver a verdade. Vou saltar pelo rasgo que se abriu, mesmo sem saber bem onde ele me leva.
Também, que tenho a perder ? Pior que este vazio não é de certeza.
Desculpem, tenho de ir, vou tentar a minha sorte ... ooooooops ....

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sábado, março 12, 2005

UM NOVO GOVERNO

O novo governo do engº José Socrates toma hoje posse. Começo por não saber exactamente de que é que eles vão tomar posse, uma vez que nestes tempos desvairados o lugar de ministro pouco conteúdo tem. Por um lado a Europa omnipresente, tonta e burocrática, por outro o poder dos grupos empresariais. A verdade nua e crua é que ser ministro já não é o que era.
Apesar de tudo, a actividade de um governo ainda pode ser importante no bater o pé á Europa, por exemplo, ou na escolha interna das prioridades, dentro de um leque de opções cada vez mais reduzido. Assim sendo, desejo sinceramente êxito a este novo governo. Este desgraçado e sempre adiado país bem o merece. E as oportunidades são cada vez mais escassas. Penso mesmo que, para a solução de algumas questões importantes, pura e simplesmente ... já passou o prazo.
Felicidades, ainda assim.

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terça-feira, março 08, 2005

PARA GANHAR, É PRECISO LUTAR !

Hoje, a propósito do Dia da Mulher, vários pensamentos atravessaram os meus neurónios, ou o que deles ainda resta. Pensei na evolução, relativamente recente, dos direitos da Mulher, muitos deles ainda hoje por alcançar em pleno na nossa sociedade. Pensei nos direitos dos trabalhadores, como têm vindo a mudar ao longo dos ultimos séculos. Pensei sobretudo nas alterações dramáticas que tiveram que ocorrer, para que tais direitos viessem a ser admitidos e respeitados. Pensei, mastiguei e vejam lá se concordam comigo em duas grandes ideias fundamentais :

Nas relações entre seres humanos, a lógica do aproveitamento de muitos, para benefício de alguns, tem sido uma constante ao longo da vida do ser humano. Ou seja, apesar do que é afirmado por religiões e doutrinas políticas, o ser humano, no seu enquadramento normal na sociedade, não se regula por critérios de solidariedade e de respeito pelos outros seres humanos, mas antes pela defesa dos seus interesses pessoais e privados.

Os direitos de largos sectores de seres humanos apenas foram conquistados pela luta, unindo esforços e obrigando os sectores dominantes da sociedade a reconhecerem esses direitos. Nunca nenhum direito foi oferecido, todos foram conquistados, através da pressão e da força social e política, com maior ou menor sacrificio.

Hoje é o Dia da Mulher. Aproveitemos para reflectir nas lutas que foram necessárias para que tivessem o seu lugar de direito na sociedade, para que pudessem votar, trabalhar, filiar-se em sindicatos, dispor do seu corpo, decidir se fazem ou não aborto e todas as outras coisas ...
Pensem nisso, pensem naquelas duas ideias fundamentais que acima descrevi - se concordarem com elas, claro - e decidam se é preciso muito mais para se ser de esquerda, fundamentadamente, num mundo que ainda tem tanto para mudar ! É que nas grandes alterações que se verificaram na vida das Mulheres ( assim como nas outras alterações ) , que eu saiba, nunca a Direita foi uma aliada : muito pelo contrário, foi sempre a Direita que, sob diferentes rostos, se opôs a essa mudança, por vezes com uma violência tremenda.

Aqui fica a minha homenagem à Mulher, neste dia, da mesma forma que já o fiz em vários outros dias. Convêm, contudo, que nos lembremos sempre do que foi preciso fazer, ao longo dos tempos, para que as coisas sejam como hoje são. E mais : convem perceber quem foram os aliados, ao longo desse processo, e quem foram os inimigos. Para que não existam ambiguidades e confusões.

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segunda-feira, março 07, 2005

LYING DOWN COMEDY

Há um mundo bem melhor que este onde eu vivo e se calhar você também ... só que é caríssimo e não chego lá. Mas, felizmente, dizem que a verdadeira felicidade está nas pequenas coisas... e acho que já percebi onde : um pequeno iate, um pequeno Porsche, uma pequena mansão, uma pequena fortuna, uma "pequena" bem gira ... não é ?
Assim sendo, vivo cada dia como se fosse o último. Bem sei que um dia vou mesmo acertar, mas que hei-de fazer ? Nesse dia, já pedi para escreverem na minha lápide "A partir de hoje não contem mais comigo, desisti de ir a festas e jantares".
Sigo também outras normas, para me sentir mais feliz. Por exemplo, nunca acordo antes do meio-dia, não gosto de me sentir mal disposto pela manhã. Como fico horrorosamente mal humorado antes de tomar café, tomo-o na cama, antes de sair. E já que estou na cama, aproveito para tratar de alguns problemas pendentes com a minha secretária.
Mais tarde, muito mais tarde, vou trabalhar. Tenho uma equipa que trabalha comigo : é que assim, quando algo der errado, posso sempre culpar alguém.
Nessa equipa, seguimos o principio de nunca roubar as ideias de ninguém, seria plágio, punido por lei. Fazemos antes pesquisa na internet e aproveitamos as ideias de muitos, já não é plágio neste caso.
Comigo, na equipa, trabalham várias mulheres : é preciso alguém com imaginação e criatividade para fazer o trabalho, já se vê. E não ia ser eu a fazer isso, não é ? Já me dá tanto trabalho ser empresário, ia agora esforçar-me e ter ideias ainda por cima ?
E pronto, vou-me raspar da empresa antes que me venham pedir os cheques dos vencimentos : afinal a Cofidis existe para quê ?



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quinta-feira, março 03, 2005

O PEDIDO IMPOSSÍVEL
Esta é um bocadinho machista e já conhecida mas é muito gira.
Gira e verdadeira, ehehehehe !
Então leiam e meditem :


Um homem caminhava pela praia de Cascais e tropeçou numa velha lâmpada. Pegou nela, esfregou-a e... um génio saltou lá de dentro, que disse:

"O.K! Libertaste-me da lâmpada, blá, blá, blá! Esquece aquela história dos três desejos! Tens direito a um desejo apenas e ponto final!"

O homem disse:

"Eu sempre quis ir aos Açores, mas tenho um medo enorme de voar... e no mar costumo ficar enjoado. Podes construir uma ponte até aos Açores, para eu poder ir de carro?"

O génio riu muito e disse:

"Impossível. Pensa na logística do assunto. Como é que os pilares chegavam ao fundo do Oceano Atlântico? Pensa em quanto betão armado, em quanto aço, em quanta mão de obra... Não, de maneira nenhuma! Pensa noutro desejo..."

O homem compreendeu e tentou pensar num desejo realmente possível.

"Fui casado e divorciado 4 vezes. As minhas mulheres disseram sempre que eu não me importava com elas e que era um insensível. Então, é meu desejo compreender as mulheres; saber como se sentem por dentro e o que estão a pensar quando não falam connosco; saber porque estão a chorar... saber realmente o que querem quando não dizem nada... saber como fazê-las realmente felizes!"

O génio respondeu:

"Queres a merda da ponte com três ou quatro faixas?"

....
( A história do génio de Cascais foi-me enviada em mail pelo meu amigo J. Andrade. O meu obrigado. )

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

MILLION DOLLAR BABY
Falar agora deste filme talvez seja fácil, mas não me importo : torci para que o filme ganhasse pelo menos o Óscar do melhor Realizador e acabou por ganhar esse, mais os de melhor actriz principal, melhor actor secundário e melhor filme de 2004. Arrazador. De vez em quando os tipos dos óscares até acertam.
Sempre admirei Clint Eastwood, já do tempo dos velhos westerns e do "Dirty" Harry, uma figura inesquecível de detective em luta pela verdade e pela justiça nas ruas míticas de San Francisco. Talvez seja a sua figura de homem alto e seco, bonitão, voz grave e rouca, poucas falas ; talvez uma certa qualidade indefinível de elegância simples e de bom gosto ou talvez também por me ter com ele cruzado, anos atrás, numa rua da cidadezinha de Carmel ( California ), onde ele era Mayor. Certo é que sempre foi um dos meus actores ( e mais tarde realizador ) favoritos. Mas vamos ao que interessa : hoje com 74 anos ( uma criança ao pé dos 90s de Manuel de Oliveira, note-se ) Clint Eastwood dirigiu nos ultimos anos filmes como Mystic River e agora este Million Dollar Baby. Mystic River tocava temas de pedofilia e dos segredos e traumas associados. Million Dollar Baby elege o desencanto e a solidão, a pobreza, o esforço para a vencer, o amor que restitui a vida e, finalmente, a relação entre o amor e a morte. Filme de uma grande simplicidade narrativa, sem jogos de sombras e de ilusões à francesa, tudo nele respira genuinidade e verdade da vida. As interpretações de Clint Eastwood e de Hilary Swank ( na foto, premiada com o Óscar para a melhor actriz principal ) valem bem a ida a um cinema perto de si, garanto-lhe que sairá de lá mais identificado/a com o ser humano, senão mesmo com uma lagrimita ao canto do olho ... Vá, não hesite, e depois diga-me o que achou do filme.
Pode também ver um pequeno excerto do filme AQUI

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

O INSOLENTE PISCAR DO CURSOR

Sento-me á mesa e abro o Word. O cursor pisca, em desafio. A minha mão esquerda esfrega o joelho do mesmo lado, sinto-o frio apesar do quarto aquecido. A mão direita está perto do teclado, não vá a inspiração atacar. Na TV, na RTP1, percebo que vão transmitir o jogo Barcelona – Chelsea. Fico indiferente, a minha paixão pelo futebol já não é o que era. Assim como outras paixões, diga-se de passagem. Afago outra vez o joelho : dói-me levemente. A verdade é que o espaço em branco no processador de texto está ali á frente e fita-me com um ar desdenhoso : tu ? achas que sabes escrever ? deixa-te disso ...
Os meus olhos divagam pelo quarto, demorando-se num ou noutro objecto, sem qualquer ordem ou motivo : um Porsche em miniatura, uma velha Olympus relegada para o canto por uma irmã digital, livros diversos, CDs e DVDs numa caixinha de madeira, outra caixa em porcelana da Vista Alegre, oferecida já não sei por quem, o livro que ando a ler, um relato verídico de uma alemã que foi secretária de Hitler ... Claro que apenas quero ganhar tempo, conheço estes objectos de cor e salteado, nem sequer preciso olhar para eles. A verdade é que não me apetece escolher tema nenhum para esta croniqueta blogueana.
Dou por mim a pensar : ainda bem que não estou no lugar do Sócrates, acho que não ia dormir nos próximos meses ... ... e agora golo do Chelsea, em autogolo de um defesa do Barcelona. Levanto a cabeça para a TV e vejo as imagens. Lucky Mourinho. Enfrento de novo o branco onde o cursor continua a piscar, vagamente insolente. Que se lixe o cursor, eu já lhe digo quem manda aqui ... um clique, e já está, pronto !
Até á próxima. Lá fora, no asfalto, um aguaceiro ligeiro lava os despojos do dia.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

RIEN NE VA PLUS !

E pronto, os dados estão lançados !
Ontem lá foi a malta toda ( menos os desinteressados do costume ) dizer de sua justiça. Com um ar de ajuste de contas, pareceu-me, mas talvez fosse só o meu desejo a torcer a realidade. Tudo somado e pesado, foi o que se viu :

- O PS ainda não acreditou no que lhe aconteceu : a maioria absoluta que desejavam mas em que não acreditavam. Sócrates ficou de tal forma apanhado que nem se dirigiu aos portugueses e portuguesas que o elegeram, limitando-se a falar para os amigos e camaradas da sala onde estava. Mau começo, mas esperemos que tivesse sido a verdura nestas andanças. Vamos ver como corrige.

- O PSD levou uma tareia enorme, como se calculava. Mesmo assim, pergunto a mim mesmo como ainda houve tantos portugueses a votar naquele partido, com aquela liderança ... terá algo a ver com o nosso instinto de desgraça, com o nosso masoquismo encapotado ? Bem, a maior desgraça para o PSD foi – e ainda continuará a ser – Santana Lopes : este homem sem norte nem grandeza agarra-se aos farrapos de poder que ainda tem e recusa-se a abandonar o seu lugar, continuando a acusar outros, dentro do partido, por aquilo que ele próprio provocou. Fez-me náuseas, confesso. Náuseas.

- O CDS/PP falhou em todos os objectivos traçados, mas pelo menos Portas levou a sério o seu perfil dos ultimos tempos e anunciou que sairia de presidente do partido. Não acredito muito que não venha a ser “repescado”, mas pelo menos mostrou alguma grandeza. Acreditam que, intimamente, até insultei a direita portuguesa ? Onde estão esses senhores e senhoras ? Votaram no engº Sócrates ? Ficaram em casa ?

- O BE ficou deslumbrado com os seus oito deputados. Talvez por isso, começaram logo a dizer e a fazer asneiras : desde os lenços brancos de despedida á direita ( mas foram eles, BE, que os afastaram ou quê ? ) até a ameaças imediatas ao PS, de tudo se viu um pouco na noite de vitória. Decididamente, cresceram mais em numero de deputados que em bom senso e maturidade política.

- A CDU foi uma enorme surpresa para mim. Claro que beneficiou do mesmo efeito que o BE, os votos daqueles que quiseram votar à esquerda para impedir a maioria absoluta do PS. Mas mesmo assim, conseguiram um resultado muito satisfatório para os seus objectivos, mais dois deputados. Dou a mão á palmatória : nunca acreditei em Jerónimo de Sousa, mas parece que o homem é genuino, simpático e consegue transmitir uma mensagem credível. Parabéns.

E pronto. Um grande vencedor, o PS, e um grande e duplamente derrotado, o PSD, já que nem mesmo assim se conseguiu ainda livrar de tão peganhento e incómodo lider.
O País, esse, veremos se fica a ganhar ou nem por isso. Espero que alguma coisa venha a ser feita, não temos muito mais tempo para outras santanadas.

Os dados ainda não acabaram de rolar mas já estão lançados ...

sábado, fevereiro 19, 2005

AINDA FÁTIMA

Com a morte de Lúcia, voltaram aos jornais e revistas os acontecimentos de 1917, na serra d’Aire. Não muito longe de onde eu nasci, embora uns bons anos antes. Voltei a olhar as fotos da época, os relatos das “aparições”, as dúvidas iniciais da igreja portuguesa, o destino que deram á Lúcia, que esteve longe de ter sido uma escolha da própria, coitada.
Reli, revi e repensei.
Com todos os diabos, nada daquilo faz sentido, é tudo uma grande confusão, um delírio das crianças, induzido quiçá, já que na época houve diversas “aparições” idênticas reclamadas mas que nunca beneficiaram de qualquer atenção.
Os chamados mistérios eram coisas esquisitas, de nenhum interesse ou mesmo de falsa veracidade : a notícia do fim da guerra já para dia 13 ( a guerra 1914-1918 ) revelar-se-ia inexacta, o fim do bolchevismo ainda vinha muito longe e a visão de um sacerdote a ser alvejado a tiro era muito mais adequada ao jacobinismo reinante na época em Portugal ( o anti-clericalismo dos homens da I República roçou o desvario e o ódio puro ! ) do que a um futuro atentado ao Papa, cometido muitos anos após, em plena praça do Vaticano.
Enfim, todos os elementos indiciavam a total ausência de sobrenatural, a inexistência de qualquer “aparição”, a ilusão de uns pequenos pastores cansados e talvez esfomeados, em plena serra.
E então ? Que é que tudo isto interessa a uma multidão de seres sem esperança, em luta contra uma existência medíocre e com a perspectiva inevitável da morte ?
Claro que esta gente toda precisa de “aparições” e de anuncios de milagres. Claro que querem acreditar no céu e na sua libertação da morte inevitável.
Claro que optam pela esperança em vez do tremendo desespero do nada.
Esta será sempre a essência dos seres humanos, confrontados com os limites de uma vida sem sentido e sem dignidade : hão-de sempre criar esperanças nem que seja na ilusão ou no misticismo.
Não escolho essa via, nas minhas concepções pessoais sobre a vida e a morte, mas não tenho coragem de atirar pedras a quem o faz : a realidade é, muitas vezes, demasiado estúpida e aterradora para se poder acreditar nela ...

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

O VOTO NO PURGATÓRIO

As eleições aproximam-se. Começa a ser tempo de fazer uma escolha. O problema é que estou mais dividido que nunca, nesta história das eleições.
Se o voto fosse contra, não teria nenhuma dúvida : Santana Lopes foi um erro trágico para o país e para o PSD, não tenho qualquer hesitação em repudiar esse nome. Oxalá que o resultado das eleições obrigue mesmo Santana Lopes a demitir-se da presidência do seu partido, seria um alívio.
Acabam aqui as minhas certezas, porém.
Votar PS ? Contribuir para a maioria absoluta ? A verdade é que não tenho confiança nenhuma naqueles homens do PS, tão depressa são capazes do melhor como a seguir borram a pintura toda e acabam por ser mais liberais que a própria direita. De resto, o engº Sócrates dá-me uma impressão tremenda de pouca solidez política e económica, acho que ele se viu no papel de Primeiro-Ministro depressa demais. As pessoas que o rodeiam são também as mesmas do tempo do engº Guterres, o que significa que já vimos do que a casa gasta. Não há verdadeiramente lideres naquela equipa, seja o que Deus quiser !
Bem, resta-nos o quê ? O voto num pequeno partido de esquerda como forma de obstar á maioria absoluta do PS e, ao mesmo tempo, contribuir para a derrota do PSD e do PP.
Se me perguntarem se voto descansado no BE, por exemplo, que posso eu dizer ? Admito que os seus dirigentes vieram da “extrema esquerda”, admito mesmo que sejam um pouco folclóricos e sem grande responsabilidade prática política. Admito tudo isso que quiserem. Ainda assim, é gente simpática que, de uma forma geral, se bate por principios que são os meus há dezenas de anos. Pelo menos alguns principios, o que já não é mau.
Por isso, acho que o meu voto vai ser assim : uma espécie de voto no purgatório, já que não há paraíso onde votar e recuso terminantemente votar no inferno ! Tenho dito !

sábado, fevereiro 12, 2005

UMA QUESTÃO DE SOFTWARE EMOCIONAL

Há dias em que sinto no estômago uma bola enorme. No estômago ou no peito, junto do coração ? Seja onde for, é uma bola feita de nada, um vazio frio e concentrado que nada faz passar. Como é que esta bola feita de vazio se apossou de mim ? Em que momento me apanhou desprevenido e se infiltrou ? Será que existe alguma depressão pós-gripe ?
É sábado, são 7.45 da tarde e estou sentado, no meu quarto, a escrever isto. Normalmente, a esta hora, sairia de casa para jantar e ver um filme. Hoje, vou ficar a carpir a minha solidão, mesmo que essa solidão tenha sido por mim procurada. Quando estou realmente em baixo, faço sempre isto, desde criança : uma espécie de cura pelo excesso da causa do mal. Ou então sempre fui masoquista sem o saber, sei lá.
Sabem afinal qual é a verdade ? É que eu nunca mais fui capaz de estabelecer uma relação minimamente estável e satisfatória com uma mulher, desde que fiquei viúvo. Pensei várias vezes que sim, mas não sou capaz. A sensação de insatisfação, de falta, de cansaço, acaba sempre por surgir. Não por culpa delas, as mulheres, bem generosas e gentis , por norma. Culpa minha, exclusiva. Há qualquer pequeno desajuste interno, no meu software, de certeza. E o pior é que já ninguém sabe reparar software destes, isto é ainda anterior ao MS-DOS, imaginem !
Sabem que mais ? Acho que vou ter de aprender a viver com este vazio no estômago ou no coração ou lá onde é ... até que o software ou qualquer peça de hardware estoirem de vez !

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

PERDI UMA GRANDE OCASIÃO DE ESTAR CALADO !

Lamentei-me eu, no meu ultimo escrito, que tinha uma gripe de meias tintas, que não era nem deixava de ser ... Melhor seria ter estado calado, acabei por estar toda a semana em casa, com febre e uma infecção nos brônquios. Ora toma.
A febre não foi muito alta, mas ainda assim não consegui dormir muito bem. O que significou ver quase tudo no canal AXN, Discovery, Odisseia, SIC Mulher, eu sei lá ...
Hoje, sinto-me renascer pouco a pouco.
Veremos amanhã de manhã.

domingo, fevereiro 06, 2005

BOLAS, NEM SE PODE ESTAR CALMAMENTE COM GRIPE !

Estou farto de estar em casa. Farto do pingo no nariz, da sensação febril na cabeça, das tonturas quando me levanto da cama. Devia existir uma norma europeia contra as gripes e similares.
Ainda por cima, no meu caso, nem é gripe nem deixa de ser, é esta coisa intermédia, gripe à portuguesa, envergonhada e de meias-tintas.
Mas mesmo assim estou farto, tanto mais que já é a 2ª edição : estive assim na semana passada, fiquei bom e uma semana depois volto ao mesmo, ao chamado pingo reincidente.
Normalmente aproveito estas coisas para fazer uma espécie de balanço pessoal, pensar na minha vida, escolher objectivos para o futuro. Desta vez, porém, não consigo concentrar-me, acho que a vergonha desta campanha eleitoral me perturba. Nem é bem vergonha, é perplexidade e embaraço : como pode alguém escolher, em consciência, dentro desta feira da ladra em que se transformaram as campanhas eleitorais ?
Como pode alguém escolher entre estes fantasmas incorpóreos e ectoplasmáticos ? Que anda Guterres a fazer na campanha ? A desanimar as pessoas ? Não bastava Sócrates ? E Santana Lopes ? Será que a ideia é mesmo afugentar os eleitores do PSD ? E Portas, recentemente promovido a homem de Estado ? São estes os melhores portugueses que a democracia fez surgir para governar Portugal ?? Não há melhor ?
Bolas, meu, nem se pode estar engripado descansadamente neste país : estes candidatos transformam qualquer gripe num pesadelo !

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

HISTÓRIA DE UMA FUGA DE ÁGUA ...

Os homens da Câmara entreolharam-se, espantados. Voltaram a olhar para os números do contador de água : mesmo nesse curto espaço de tempo, o ponteiro tinha deslizado um pouco, subrepticiamente. “Não pode ser, Xico, os gajos nunca iam gastar mais de 100 m3 de água em dois meses ! Tem que haver uma rotura dentro de casa !”
E foi assim que acabei por saber. Havia uma rotura na canalização da minha casa do Entroncamento.
Primeira visita ao local do crime : abro a torneira de segurança ( com as torneiras de dentro da casa todas fechadas ) e começo a contar o tempo. Percorro as casas de banho, a cozinha, todo o rés-do-chão, o primeiro andar, as torneiras do quintal ... nem pinga de água que indique a fuga, tudo sêco, tudo calado. Regresso ao contador, vejo o tempo passado, a nova leitura, faço umas contas e pasmo : por dia estava a perder algures cerca de 1.500 litros de água !!! Bem, as minhocas por baixo da casa iam poder ter um lago privativo, pelos vistos.
Recorro á ajuda dos meus vizinhos. Conheceriam eles alguém que trabalhasse em canalizações ? Por acaso sim, ali estavam os numeros de telemóvel, era gente de Ourém, com fama de fazer bom trabalho e apresentar contas decentes.
Uns telefonemas e tudo combinado : viriam primeiro ver, davam-me um orçamento e logo se combinaria o resto.
Adiante, para não desmotivar o leitor.
Segunda visita ao local da fuga ( de água, entenda-se ). Cheguei preparado para passar dois ou três dias aqui. Roupa, livros. Pergunto a mim mesmo como irei tomar banho ... ( acabou por ser com água do poço, tirada para um balde ás 7 da manhã , brrrrrrrr ... )
Lá chegam os homens ( são quatro !! ). Dentro de minutos todo o rés do chão está de pernas para o ar, móveis e máquinas arredadas do sítio, tapetes e carpetes cheias de terra e ferramentas, trinta por uma linha ... Meu Deus !
A coisa vai então ser assim : não se sabe onde se situa a fuga de água, pelo que se vai substituir toda a canalização. E começam a colocar a nova, luzidia, de aço inoxidável, na parede, junto aos rodapés. Mede distância, corta tubo, coloca peça de ligação, curva ou recta ou com uma derivação, faz buraco na parede, óh Orlando corre com ele por trás da despensa, home, fica mais a jeito ...
E a serpente luzidia vai ganhando formas, vão-lhe nascendo bocas, umas para águas frias outras para águas quentes, passa de um lado para outro no corredor, infiltra-se na casa de banho , atravessa para a garagem, sai para o quintal, eu sei lá ...
E a outra, a velha ? Alguém mais vai querer saber dela ? Manchada na sua reputação, causadora da fuga monstruosa, com a mácula de um buraco sabe-se lá onde, por ali fica, escondida nas profundezas das paredes, anónima, envergonhada, sem que ninguém mais se lembre de olhar para ela e de lhe agradecer os 30 anos de bons e leais serviços !
É assim na vida, quase em tudo, sabiam ? As coisas ( e por vezes as pessoas ) valem enquanto prestam serviços úteis, enquanto é económico repará-las ... depois, abandonam-se á sua sorte, arranjam-se outras mais novas e vamos a isto que se faz tarde !
Bem, pelo menos desta vez não vai ser assim : sempre que entrar naquela casa vou recordar-me da velha canalização de água em aço galvanizado e de todas as horas que lá passei com ela, ao longo de tantos anos ... é o mínimo que posso fazer !
Quanto á nova : ai dela se não cumprir bem a sua missão , ainda acabo por chamar a antiga de novo ao serviço, mesmo com fugas e tudo ....

P.S. Esta história trouxe-me coisas boas, apesar de tudo : um banho matinal com água fria do poço, uma bela refeição no Café Central da Golegã ( ah aquelas favinhas com entrecosto !)e outra oferecida pelos meus simpáticos vizinhos, um re-encontro no Entroncamento com um velho amigo dos bancos da Primária ... e tudo isto pela quantia de 1.350 euros ! O pior foi que descobri que o velho esquentador está a dar o bafo, pelo que receio que a saga vá continuar ...Eu dar-vos-ei conta, prometo.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

ACABEM COM OS DEBATES : PONHAM-OS A FAZER COISAS, EM VEZ DE PALAVRAS !

Ontem assisti a mais um debate, na RTP1, desta vez sobre o estado da Justiça, em Portugal. Presentes estavam o actual Ministro, um ex/futuro Ministro (?), do PS, juízes, procuradores, advogados, políticos representantes de cada partido político e até público, aqueles que acabam por pagar tudo e não ver nada em troca.
Eram pessoas inteligentes, todas elas preocupadas em mostrar isso mesmo. Choveram as críticas, foram adiantadas algumas hipóteses de solução. A Justiça não funciona em tempo útil, em Portugal : a culpa é dos códigos, da falta de meios, da ineficácia (??) e falta de gestão dos tribunais, do excesso de acções que não deviam ir parar aos tribunais, da formação dos juízes, da Judiciária que não devia ter autonomia na fase de inquérito, do Ministério Público e de mais trezentas e vinte e nove causas diferentes...
Ri-se, leitor ? Encolhe os ombros, não é ?
Mas é assim que as coisas se passam em Portugal : os nossos diagnósticos das situações são sempre confusos, temerosos dos grupos de interesses, atabalhoados, apontando sempre para uma multidão de causas ... Obviamente, quem quiser fazer alguma coisa fica baralhado e acaba, como sempre, por ter de deixar as coisas na mesma.
Quem não é capaz de apontar apenas duas ou três causas dos estrangulamentos, não será nunca capaz de os resolver. Podem crer.
Esta é uma questão genética na nossa cultura : o nosso gozo está em mexer e remexer nos problemas, discuti-los infindavelmente, analisá-los de cabo a rabo, mostrar como somos cultos e inteligentes, mas ... nada de os resolver. Isso é aborrecido, não é interessante, como diria a ainda ministra da educação.
Todas estas discussões se passam a um nível de grande “elevação”, é tudo gente importante e educada, há verdades que não se podem dizer, tá a ver ??
E depois, o leitor já viu profissionais ( os juízes e outros ) mais alheados do estado das coisas, mais afastados da gestão do seu espaço diário de trabalho ? Comparem com médicos na organização da saúde, com os professores na organização do ensino, com os militares na organização da defesa ... Juízes ? Envolver-se na desburocratização do funcionamento dos tribunais e na organização da Justiça ?
Ná ... eles devem ser independentes, pá... Não devem meter-se nessas coisas, são gente superior, com vencimentos e regalias milionários para o nível português, para quê incomodarem-se ?
LIÇÕES RÁPIDAS DE GLOBALIZAÇÃO OU OS CHINESES É QUE SE(NOS) LIXAM !

Na China actual, um operário têxtil trabalha 11 horas por dia, tem apenas um ou dois dias livres por mês e ganha, no mesmo mês, de 20 a 75 euros...
Leu bem, leitor, eu tive cuidado ao escrever os dados.
Note bem, leitor, num mundo em que as barreiras á deslocação de pessoas e bens se esboroam, você, dono de uma fabrica de confecções no vale do Ave, tem duas alternativas : ou inclina-se perante os baixíssimos custos de produção chineses e vai á falência ou ... junta-se a eles e leva a sua empresa para a China, contratando lá estes operários escravizados. Colocando no desemprego os seus actuais operários, cá no vale do Ave.
Já viu bem ? Que raio de beco sem saída é este ?
Como é que a Europa se vai aguentar nesta situação ?
É que, notem bem, já não nos podemos refugiar na ideia que eles não são capazes de produzir com os nossos níveis de qualidade e de incorporação tecnológica ! Não, são as nossas empresas detentoras dessas tecnologias e desses níveis de qualidade que se vão instalar na China, aproveitando também para sugar os desgraçados dos operários chineses.
Este é um problema do caraças, convenhamos. Como é que os nossos países industrializados, em que os direitos sociais fizeram um longo caminho, se calam e não lutam, obrigando os direitos humanos a ser respeitados também na China ?
Seria fácil resolver, não lhe parece ? Proibia-se a entrada de mercadorias oriundas desses países no nosso mundo e pronto, já está ... eles seriam obrigados, na China, a conceder mais alguns direitos aos operários e assim se ia evoluindo.
Porque não é assim ?
Ora, ora, leitor, não se esqueça : as nossas grandes empresas querem poder instalar-se na China, aproveitando aquelas condições de escravidão humana, e, obviamente, também querem depois mandar os seus produtos para cá, para nós comprarmos.
Está a ver ? Se limitássemos a entrada desses produtos estaríamos a prejudicar os interesses dessas grandes empresas ... e quem manda no Mundo, hoje, são elas.

terça-feira, janeiro 25, 2005

ELEIÇÕES SIM, MAS ...

Um dia destes, sem qualquer entusiasmo ou esperança, vamos escolher quem nos irá governar nos próximos quatro anos. Para a maior parte de nós, trata-se apenas de dar umas vassouradas naqueles paraquedistas do Santana Lopes & Cia, mas sem grandes ilusões... Não será decerto Sócrates e aquela sua gente ressuscitada e requentada a produzir o milagre. Basta ver o programa de governo do PS : mais de 160 páginas !!! Quem escreve mais de 160 páginas de programa de governo não tem, de facto, uma ideia precisa para o futuro do país ... tem milhares, pelos vistos, mas todas ideias pequeninas !!

É intrigante, nos dirigentes políticos, a sua incapacidade de apresentar uma visão simples para o futuro do país, algo que se possa dizer numa página de papel. Vamos apostar em quê ? No turismo ? No capital estrangeiro ? No desenvolvimento de software ? Na tecnologia de lançamento de fogos florestais ??
O mais que se lhe aproxima é o “choque de gestão” do PSD e o “choque tecnológico” do PS. Porém, nem um nem outro são visões de desenvolvimento, apenas condições indispensáveis a um qualquer modelo de desenvolvimento. Mas qual ?

Continuamos, uma vez mais, a não discutir o que fazer no futuro.
Acho que não se discute porque ninguém sabe verdadeiramente o que se há-de fazer a este país medíocre. E, se alguém sabe o que fazer, não vai dizer para não perder votos. Assim, as grandes questões são substituidas por ideias parcelares, tais como aumentar ou diminuir impostos ou como diminuir os efectivos da função pública.
Com gente assim, com a incapacidade ou falta de vontade que revelam, como havemos algum dia de encontrar um caminho para o progresso ? Como se vai dar a rotura ? Um qualquer Salazar dos tempos modernos ? Uma outra revolução, desta vez dos lírios ou dos malmequeres ??

E agora, para que não digam que só critico sem dar nenhuma solução, aqui vai a minha sugestão de hoje.
Enquanto se decidem ou não sobre as grandes questões, sempre poderiam tentar responder a três temas quentíssimos e inadiáveis : a reforma do sistema eleitoral, no sentido de responsabilizar o deputado perante os eleitores e não perante o chefe do seu partido, e as reformas do sistema judicial e do sistema educativo, em qualquer sentido ... desde que passem a funcionar !!!

..

domingo, janeiro 23, 2005

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA ... MAS PARA OS OUTROS !

Um coro tremendo de críticas se levantou ! Desde o venerável António Barreto até ao mais modesto comentador na folha dominical da paróquia de Quitanda de Baixo, todos se ergueram em defesa da liberdade de expressão de pensamento. Nunca antes se tinha visto uma onda tão avassaladora e envergonhada ( da parte de alguma gente de esquerda ) de repulsa e de discordância.
É que, imagine-se, Francisco Louçã disse a Paulo Portas que este não tinha o direito de se pronunciar sobre o aborto porque nunca sequer tinha contribuido para gerar uma vida, ele sim, Louçã, ele tinha uma filha !!
Bom, desiludam-se os que esperam que eu vá descer ao nível destes defensores dos bons costumes da tolerância democrática que tão ofendidos se mostraram.
Danem-se todos os que acham que Louçã disse uma cretinice, que não tem nada que se meter na vida privada de Paulo Portas.
Que se mordam todos os democratazinhos pequeninos e envergonhados de o serem, eu achei um piadão á saída de Louçã. Ser democrata não é sinónimo de intolerante, não senhor, mas também não rima com parvo ou cego.
Eu entendi muito bem aquilo que Louçã quis dizer a Paulo Portas, embora talvez o pudesse ter feito de uma forma mais eficaz e elegante.
Entendi e ri-me interiormente porque se alguém merece um comentário daqueles é de facto Paulo Portas, com aquela sua atitude postiça de defensor intransigente da moral e dos bons costumes.
E sabem porquê ? Porque, sem ninguém lhe ter passado procuração para tal, Paulo Portas arvorou-se em defensor dos grandes princípios da direita. Pátria, Deus e Família. Paulo Portas passou a ostentar um ar de homem de Estado, fatinhos de corte clássico, com risquinhas, e só lhe faltou a brilhantina no cabelo, como se usou em outros tempos.
Ninguém lhe pediu para ser assim, mas ele escolheu.
Ora se escolheu, não se admire depois de ouvir o que não gosta.
Não estão a perceber ? A questão de Louçã tem a ver com o aborto e não tem, é um pouco mais vasta : um defensor tão acrisolado daqueles valores, Deus,Pátria e Família ... poderia alguma vez ele renegar Deus ? Claro que não. Poderia ele alguma vez deixar de acreditar na Pátria ? Nem pensar ....
Então ... e quanto á Família ??? Hem ? Porque é que um tão grande defensor destes valores tradicionais, destes baluartes da sociedade moderna não adere ele próprio á formação de uma família e manda antes os outros fazê-lo ??
E, se não o deseja fazer, não perde ele uma parcela tremenda de credibilidade na sua compungida atitude ?
Como não ver hipocrisia na defesa desses valores, por parte do líder do CDS/PP ? Como se podem defender eficaz e sinceramente valores ... que não se praticam ?
Foi isto que ouvi da boca de Louçã. Como é que Paulo Portas fala tanto de aborto e da defesa da vida quando nem sequer está disponível para colocar uma só vida no Mundo que seja ?
O S.Tomás da direita ?
Portanto, não se trata de conceder a Paulo Portas um direito de opinião. Esse ele não precisa que ninguém lho conceda. Tratou-se apenas de desmontar uma das hipocrisias mais correntes nos defensores de uma certa ideologia de direita. Tratou-se também de evidenciar uma das contradições insanáveis na vida daquele jovem político.
E a quem não entendeu e se mostrou muito ofendido, recomendo uma ida urgente ao oculista. Não conseguem ver a hipocrisia de certas atitudes, pois não ?
Mas vai sendo tempo, meus senhores e senhoras.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

A VIDA A TODO O CUSTO, SEMPRE ?

Se me perguntassem qual foi a maior alteração de atitude/comportamento dos portugueses nos ultimos 30 ou 40 anos eu responderia sem hesitar : ganharam todos um medo horrível da morte, ao mesmo tempo que se criou o mito do direito á vida a todo o custo.
Uma tossezinha mais forte, uma temperatura de 38º C , uma dor nas costas ? Urgências do Hospital ( é á borla, ainda por cima ! ), quando há uns anos atrás nem sequer se lembrariam dessa opção, nos locais onde ela era possível.
Dizem que o fumo faz mal ás pessoas que estão nos mesmos recintos que os fumadores ? Vá de proibir fumar nesses locais todos !
O queijo e os enchidos aumentam o colesterol ? Não há nada como um bifezinho de soja ou mesmo uma dieta vegetariana ...
É ainda necessário haver Forças Armadas ? Os marretas voluntários que vão, os meninos de família nunca mais lá põem os pés, podem fazer um dói-dói ...
Colocar uma fábrica de cimento a queimar resíduos perigosos, ainda que com precauções e filtros especiais ? Quem quiser que fique com isso ao pé, eu não, muito obrigado, tenho que cuidar da minha saúdinha !
Uma lixeira ? Vão fazê-la lá pr’a rua deles, aquilo faz mal aos pulmões !
Drogados ? Gajos com sida ? Acho muito bem que cuidem deles, sim senhor ... mas por favor façam isso lá longe, onde as nossas crianças não andem ( nem nós, nem nós ) ...
Vacas loucas ? Bolas, nunca mais comi carne de vaca, aquilo é só porcarias que lhes dão a comer e depois vê-se !
Já alguma vez estiveram num centro de saúde ou numa urgência de um hospital ? Há lá sempre dezenas de pessoas dos 70 anos para cima ... vários com 80 e 90 anos, como se estivessem em Fátima e não numa unidade de saúde.
Eu sei lá que mais. Podíamos estar aqui um dia inteiro a listar todos estes comportamentos, relativamente novos no nosso povo : egoísmo e endeusamento da vida.
Claro que não proponho que devamos morrer mais cedo, só para demonstrar que não temos medo da morte. Também não proponho que o leitor se esteja nas tintas para a sua saúde, mas que há um padrão inquietante no ar, isso há, não tenho duvidas !
Meu Deus, esta gente acha que vai viver para sempre ?
Ou preferem morrer com a saude em bom estado ?
Acho que nos falta uma cultura de aceitação da morte e da sua inevitabilidade. Como de resto tanto o cristianismo como o islamismo tentam fazer, ao afirmar que a vida não acaba com a morte.
Se for preciso usar a religião, então vamos a isso ; o que não faz grande sentido é este encarniçamento exagerado na luta contra a morte, mesmo quando a vida é apenas um amargo simulacro, como se pudessemos viver para sempre.
Temos que aprender a encontrar uma paz interior de aceitação da nossa partida, quando o momento estiver por perto e não desperdiçar energias a tentar impedir o inevitável.
Devíamos aprender também que há, em certos momentos, valores sociais colectivos que vale a pena defender, sem que sejamos tolhidos pelo medo de perder a nossa vida.
No fundo, atribuir um valor exagerado á nossa própria vida, praticando o culto da sua defesa a todo o custo, pode subverter totalmente a dignidade do ser humano, transformando-nos num bando da carneiros ou, o que é porventura pior, num bando de saudáveis e cobardes egoistas.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

O DIREITO A ERRAR

É uma das atitudes mais dificeis, na minha opinião, ao longo da relação pais-filhos : perceber que eles têm o direito de tentar a sua vida, e consequentemente, o direito a errar. Confesso que não fui muito bom neste capítulo, sempre quis prevenir a minha filha quanto a certas ciladas da vida. Sem grande sucesso, diga-se.
Esta questão, contudo, é bem mais universal : bem vistas as coisas, todos os que amam deviam tê-la presente e aprender que amar é também ( devia ser ) conceder ao outro o direito a errar.

Surgiu há pouco tempo no panorama internacional uma jovem inglesa ( 17 anos ) que se está a popularizar rapidamente, interpretando música "soul". Tal como em tempos passados vos apresentei aqui Norah Jones, hoje trago-vos Joss Stone, com uma voz inacreditavelmente madura para tão pouca idade. A musica atraiu-me, o tema é um desafio, a voz é curiosa.
Ouçam este tema AQUI

Para quem tiver paciência e quiser ler as palavras da canção, aí estão elas :

JOSS STONE : RIGHT TO BE WRONG

I've got a right to be wrong
My mistakes will make me strong
I'm stepping out into the great unknown
I'm feeling wings though I've never flown
I've got a mind of my own
I'm flesh and blood to the bone
I'm not made of stone
Got a right to be wrong
So just leave me alone

I've got a right to be wrong
I've been held down too long
I've got to break free
So I can finally breathe
I've got a right to be wrong
Got to sing my own song
I might be singing out of key
But it sure feels good to me
Got a right to be wrong
So just leave me alone

You're entitled to your opinion
But it's really my decision
I can't turn back I'm on a mission
If you care don't you dare blur my vision
Let me be all that I can be
Don't smother me with negativity
Whatever's out there waiting for me
I'm going to faced it willingly

I've got a right to be wrong
My mistakes will make me strong
I'm stepping out into the great unknown
I'm feeling wings though I've never flown
I've got a mind of my own
Flesh and blood to the bone
See, I'm not made of stone
I've got a right to be wrong
So just leave me alone

I've got a right to be wrong
I've been held down to long
I've got to break free
So I can finally breathe
I've got a right to be wrong
Got to sing my own song
I might be singing out of key
But it sure feels good to me
I've got a right to be wrong
So just leave me alone

domingo, janeiro 16, 2005

BARCOS DE PAPEL

Apetece-me escrever mas não sei sobre o quê.
Ocorre-me que escrever é uma actividade que, só por si, pode proporcionar prazer, embora seja duvidoso que alguém tenha igual prazer na leitura de um escrito deste tipo.
Bem, há sempre milhões de temas, posso pegar num deles e dizer meia duzia de banalidades. Ou posso pura e simplesmente não escrever nada.
Ou posso confessar-vos que ando um pouco perdido, nesta fase da minha vida : uma das maiores vantagens do trabalho é impedir ou dificultar a reflexão sobre nós próprios. Libertos dessa ocupação/preocupação é quase obrigatório pensar ( ou repensar ) as nossas vidas. Fazer uma espécie de balanço, que logo nos apressamos a afirmar que não é definitivo.
Quando penso nestes termos fico deprimido : o que fiz na vida até agora parece-me pouco mais que nada e não sinto que venha a ser diferente no tempo que me resta. A verdade é que nunca tracei objectivos para a minha vida, sempre me deixei um pouco arrastar pela corrente. Fiz, quando muito, pequenas correcções de trajectória, remando um pouco mais para aqui ou para ali, tentando reduzir a velocidade sempre que me pareceu necessário. O dinheiro e o poder nunca me seduziram, sem eu sequer perceber porquê. Não sinto em mim nenhum mérito ( ou demérito ) nisso, já que se tratou apenas de indiferença.
Ainda assim, gosto de muitas coisas na vida. Sou sensível á beleza e ao prazer, á desgraça e á injustiça. Gosto das pessoas individualmente tomadas, não tenho grande simpatia por multidões, povos ou grandes grupos. Odeio seguidismos, fanatismos e todas as manifestações de imbecilidade colectiva de que o mundo de hoje é pródigo.
Não sei se consigo acreditar em Deus, mas sei que a ideia me atrai. Qualquer Deus. De preferência um que seja de facto justo e atento ao homem, o que parece ser dificil.
Tenho medo da morte. Ou melhor, tenho medo da dor e do sofrimento, acho-os coisas inuteis, desnecessárias e cruéis.
Gosto das mulheres, sempre gostei desde pequenito. Achava-as seres maravilhosos, doces, e quentes. Ainda continuo a achar, embora tenha aprendido que também podem ser outras coisas...
E depois ? Isto tudo dito, avaliado e bem ponderado, o que se segue ?
Não sei.
Confesso que a corrente continua a levar-me, embora muito mais lentamente que outrora. Não faço a mínima ideia de qual vai ser a próxima curva do rio.
Espero apenas que haja areia limpa e quente no remanso onde irei encalhar ...

quinta-feira, janeiro 13, 2005

NOVAS TECNOLOGIAS SIM ... MAS POUCO !

Em Portugal, há novos procedimentos na administração pública , envolvendo as tecnologias de informação , hurraaaa ! Não sei se todos vocês sabem, mas é hoje possível tirar uma caderneta predial na internet, ou pedir uma certidão de registo predial pela mesma via ... Já usei estas modalidades, e acho que representam um esforço muito válido de desburocratização.
Porém, convêm não esquecer que estamos em Portugal, hem ? Já vão ver : pedi recentemente via internet uma certidão de registo predial para o apartamento da minha filha. Indica-se o nº de registo, etc ... e pode pagar-se via cartão de crédito, multibanco ou à cobrança. Foi o que fiz, usei o multibanco, também através do acesso pela internet ao meu banco, 20 e tal euros e já está, agora era só esperar ....
Era, era ... mas não foi ! Passados dias, recebo uma carta da Conservatória de Registo Predial à qual tinha endereçado o pedido : tinha que pagar mais 7,50 euros para me passarem a certidão, tinha mais uma ou duas páginas ou não sei quê. E nem sequer me diziam como podia pagar...
Pacientemente, descobri um telefone de ajuda ao processo via internet. Do outro lado, uma senhora ( amável e até cúmplice ... ) disse-me então que já não podia pagar pelo multibanco ou cartão de crédito, agora só via cheque, vale postal ou indo lá pessoalmente ! E aconselhou-me, para a próxima, a usar o pagamento à cobrança, como aquele que menos confusão dá !
Vejam lá, isto é Portugal no seu melhor : qualquer esforço de simplificação da vida de todos nós esbarra com coisas tão tontas como a incapacidade de uma Conservatória dizer quanto custa, exactamente, uma certidão ! Dizem que depende do numero de páginas !! E, por causa disso, em vez de fixarem um preço médio razoável, vá de meter areias na engrenagem, mais cartas, cheques, vales e sei lá que mais !!! Não é de doidos ?
Claro : fui lá pagar o raio das páginas a mais da certidão e trouxe-a logo ...
No caminho, estacionei na Av. Rovisco Pais, ali mesmo junto ao IST, numa zona de parquímetros ... andei avenida acima e abaixo, os parquímetros ou estavam avariados ou eram vigaristas, porque meti 1 euro num deles e a máquina riu-se de mim e não me deu papel nenhum !! Furioso, fui à Conservatória. No regresso, andavam uns funcionários da empresa que explora estas maquinetas diabólicas a tentar reparar uma delas ... Pensei cá para mim : se depois disto tudo se atreveram a multar-me, ainda arranco o parquímetro e lhes dou com ele na cabeça !! Porra, pá, isto só nesta merda de país ... ( esta ultima frase só a disse para mim, por isso não me acusem de dizer asneiras na via pública, hem ? ).
Mas não. Afinal está tudo previsto : a malta que usa a zona arruina os parquímetros todos e depois já ninguém paga !!!
De facto, este País merece bem os Santana Lopes que lhe cabem em sorte ...

terça-feira, janeiro 11, 2005

CULINÁRIA É CULTURA

Há um ou dois dias, falei aqui sobre uma receita da cozinha indiana, o frango tandoori, e pedi ajuda porque não sabia que coisa era essa do tandoori. Bem, uma leitora esclareceu-me que se trata de um forno cilindrico e alto, feito de tijolos e barro, onde o calor de uma fogueira de carvão ou lenha é concentrado.
Mais do que isso : essa mesma leitora, simpática, forneceu-me uma receita para esse frango tandoori, fácil de concretizar aqui no nosso país.
Para a malta interessada, aí está a receita :

Frango Tandoori

Ingredientes

- ½ kg de sobrecoxas de frango
- ½ xícara de iogurte
- 1 cebola pequena picada
- 1 dente de alho amassado
- 1 pimenta dedo de moça sem semente bem picada
- 1 colher (sopa) de gengibre picado
- 2 colheres (sopa) de suco de limão
- 1 colher (chá) de cominho
- 1 colher (chá) de cúrcuma (espécie de açafrão)
- sal a gosto
Modo de Preparo
Bata a cebola, o alho, o gengibre e a pimenta no liquidificador. Misture-os com o iogurte, o suco de limão, o cominho, a cúrcuma e o sal. Coloque o frango numa travessa, cubra-o com o tempero e deixe-o marinar pelo menos duas horas. Quanto mais tempo marinar mais sabor ele terá. Coloque-o num tabuleiro e asse-o no forno em lume médio-alto por uma hora ou até que fique no ponto.
NOTA: Também poderá fazer o frango na churrasqueira, desse modo ele ficará mais parecido com o original


Um beijo para a nossa leitora ! E viva a boa cozinha !!
A QUALIDADE NÃO NASCE DA MEDIOCRIDADE

Hoje apetece-me falar pouco e de uma forma clara.

Por isso, aí vai : penso que as nossas elites, os políticos, sindicalistas, empresários e outros quadros dirigentes são medíocres, na sua imensa maioria. Medíocres. Incompetentes. Pouco imaginativos. Completamente incapazes de concretizar seja o que for. Invejosos. Pouco honestos intelectualmente ( pelo menos ). Preguiçosos. Pouco cultos. Ávidos de estatuto, de dinheiro e de poder. Palavrosos.

O que é ainda pior, a omnipotência esterilizante dos nossos partidos políticos mostra-se incapaz de mudar esta situação, de criar uma mística de mudança e de renovação, de dar uma pitada de esperança às pessoas de boa-fé ( olhem para as listas de candidatos às próximas eleições legislativas ... ).

Então, com estes mesmos tipos, as mesmas manias e comportamentos baixinhos, a mesma mediocridade, como é que vamos alguma vez deixar de ser um País medíocre ?

Como, digam-me lá ???

domingo, janeiro 09, 2005

QUEM SABE O QUE É O FRANGO "TANDOORI" ?

Reencontrei uma amiga que já não via há mais de dois anos. Conversámos, demos conta do tempo que vai passando, sentimos saudades de nós próprios.

Vi um filme, o ultimo do Woody Allen. A mesma história-base, tratada em duas versões opostas : como comédia e como um drama. Melinda e Melinda. Pelo meio, cenas idênticas, desfechos semelhantes. A vida , a mesma vida, pode ser sempre olhada sob estes dois ângulos. Por mim, acho que fui sempre um dramático do caraças, dou-me agora conta...

Experimentei a cozinha indiana, pela primeira vez. Frango “tandoori” e arroz “basmati” com legumes e um toque de caril. Gostei do sabor e do cheiro. A minha filha ficou de averiguar que coisa é essa do “tandoori”... O mais provável é que se esqueça de o fazer, como é hábito, portanto, quem souber que mo diga !

Fui colocar nos “vidrões” uma catrefada de (1) garrafas, garrafões e similares (2) papéis, cartões e coisas do género (3) embalagens de plástico ... Como vêem, sou muito modernaço, em minha casa já tenho um mini-ecoponto e levo a sério as recomendações dos senhores da TV ...
Mentira : quem fez isso tudo foi a minha filha, contra o meu cepticismo e cinismo. Eu acho que é tudo uma treta do caneco, descobriram foi uma forma de ganhar dinheiro a reciclar esses materiais e eu vou dar-lhes de mão beijada a matéria-prima para eles recircularem e ganharem a massa. Em troca, longe de me entregarem a minha parte nos lucros, ainda tenho de pagar as taxas autárquicas para o tratamento de lixo e esgotos ( veja a factura da água, em Lisboa ... ). Chama-se a isto a ecologia no tratamento dos resíduos sólidos, mas a mim parece-me que a ecologia tem umas costas muito grandes...E , se acham que estou a exagerar, reparem na quantidade de empresas municipais para tratamento de lixos que apareceram em todas as autarquias e os dinheiros que movimentam. E, já agora, vejam também quem são os respectivos administradores e quanto ganham ...

Ainda uma ultima, quanto a estas coisas dos residuos : porque será que em Portugal ainda não existe tratamento para os resíduos sólidos tóxicos e perigosos ( lembram-se da co-incineração ? ) e para estes, do vidro, papel e plásticos até campanhas porta-a-porta já fizeram ? Porque será ??

Acabou mais um fim de semana. Ou melhor, mais uma semana, da qual o fim de semana é a ponta. Virá outro a seguir. E depois ainda outro, para aqueles que ainda cá estiverem.
De novo Woody Allen, agora numa entrevista que deu recentemente, aqui em Portugal : “o dramático é que já nos apercebemos que estamos no mundo por acaso, sem qualquer finalidade ou objectivo. Todo o nosso esforço para ser feliz consiste em tentar esquecer esse vazio”.

Tentem ser felizes, acreditando ou não que estamos aqui com um objectivo e uma finalidade. Nem que seja vermos o Sporting a ganhar a Liga este ano.

sábado, janeiro 08, 2005

SANTANA WHO ???

Hoje pensei no estado do país e nas próximas eleições.
Hummm, Santana ? Já vimos esse filme, uma epopeia burlesca de guião duvidoso. O homem não tem emenda, há-de morrer trapalhão e ambicioso, a abrir buracos por onde passar ...
Sócrates ? Não sei porquê mas não acredito, o homem fala demais sem dizer nada e não me dá confiança nenhuma. Nunca lhe ouvi uma só ideia original e sólida, e a teimosia com que tornou agora a agarrar-se à co-incineração abona pouco quanto à sua capacidade em entender o que é um lider político.
Paulo Portas ? Beeemm, esse pelo menos pretende ser um lider político, embora eu não tenha já paciência para ouvir aquele verdadeiro giroscópio de opiniões.Ninguém me tira da cabeça que ele foi um dos penetra na maternidade, à procura da tal incubadora ...
E mais ? O simpático e insinuante sedutor demodé, lider do PC e voluntarioso dançarino-marxista-leninista ? Claro que tem os seus fãs, mas já nem sequer enche meia praça, a malta já não grama cassettes, agora é tudo DVDs, por isso emigram que se farta para o PS e o BE ...
Resta-nos o outro Portas, o Miguel, e companheiros, gente simpática, com uma visão aberta e descomprometida, mas ... demasiado correctos naquilo que dizem, com opiniões sempre muito definitivas e certinhas, nunca tiveram nem vão ter tão depressa a responsabilidade de passar essas coisas à prática ...

Então ?
Então ?? Então, digo-vos : estamos lixados, todos nós. Vamos ter mais do mesmo, paleio, paleio, muita discussão, muita luta, mas ... pouca obra, como sempre.
Não sei para onde se há-de virar o meu coração, ou a minha cabeça, sabem ?
Só sei contra quem está virada, desde o início.
Mas isso já os leitores o sabem, também, não é verdade ?

segunda-feira, janeiro 03, 2005

A TRAGÉDIA NA ÁSIA E A LIÇÃO DE GEOGRAFIA

Não se consegue ficar indiferente à tragédia provocada por aquelas vagas enormes em vários países asiáticos. Eu vi mortes, na guerra de África e ajudei a desenterrar dezenas de pessoas afogadas nas grandes cheias de 67 ou 68 ( ? ), perto de Vila Franca de Xira, aldeia de Quintas. Mesmo assim, não consigo abarcar todo o sofrimento humano de que vi marcas nas imagens da TV. Vi traços de incredulidade e incompreensão nas caras dos sobreviventes. Vi essa gente erguer ao céu olhos e mãos em busca de um porquê que ninguém lhes vai dar, deus ou homem.
Imaginem a banalização do horror ( a expressão não é minha, vem de um autor referindo-se ao genocídio praticado pelos alemães sobre os judeus ) que vai ficar agarrada á alma daquelas pessoas, dias e dias a enterrar ou a queimar corpos humanos, numa corrida contra as epidemias. Aqueles mortos, muitos deles, nem sequer vão ser identificados ou chorados. As ondas repentinas não os afogaram só : roubaram-lhes também a dignidade humana na hora da morte.
Apesar de tudo, dois acontecimentos diferentes trouxeram-me esperança.
Um deles, a rápida mobilização mundial para ajuda às vitimas, primeiro das organizações não governamentais, depois dos Estados e logo após de cada um de nós, como pessoas. Esta vontade de ajudar mostra que ainda somos todos humanos, coisa que os neo-liberalismos modernos bem têm tentado fazer esquecer.
O outro caso foi um hino ao conhecimento, à necessidade de investir a sério na educação, na formação, na prevenção : uma miuda de 10 anos acabou por salvar centenas de pessoas que estavam numa das praias atingidas, só porque soube identificar a causa provável da súbita maré vazia, do esquisito e pronunciado recuo da água do mar. Numa das ultimas aulas antes de férias, uma aula de Geografia, tinham sido explicadas as causas dos maremotos e os sinais característicos dos mesmos, como o tal abaixamento repentino da linha de água.
A nossa jovem olhou, viu o que todos estavam a ver, mas havia algo de diferente nela : ela sabia o que aquilo podia significar ! Explicou à mãe, a mãe acreditou e gritou para os outros, toda a gente fugiu ... e não houve mortes ali.
Já viram ? Centenas de pessoas salvaram-se só porque uma miuda de 10 anos tinha estado atenta na sala de aula ...
Isto é ou não um hino ao saber ??
E se acharem que sim, que o conhecimento é importante e pode salvar vidas nestas emergências, perguntem a vocês próprios que raio de incompetência, incúria ou ignorância impede os governos ( os de lá e os de cá ) de tomar medidas para que esse conhecimento chegue até nós ...

sábado, janeiro 01, 2005

2005, UMA NOVA OPORTUNIDADE !

Aí está ele, novo, reluzente, ainda imaculado. Tem um nome bonito, chama-se 2005, já se livrou do estigma do Orwell, tem á sua frente 365 dias completamente novos e virgens, para cada um gravar como quiser.
Ao contrario daquilo em que muita gente acredita, não é a ele, 2005, que cabe ser bom ou mau, feliz ou infeliz : ele é apenas o invólucro, o papel do diário onde agora nos cabe a nós escrever a vida. Vamos ver o que escrevemos, portanto, vamos desejar que nos tornemos pessoas decentes, boas e capazes de olhar para o Mundo e para os outros. Bem precisados estamos todos desse milagre. Porque de milagre se fala, quando se acredita e se deseja a bondade como regra geral, a sensatez e a genuinidade como formas habituais de viver o dia-a-dia.
Que não seja isso que nos trave, porém : ousemos todos construir o milagre, pensemos todos que o impossível é apenas um futuro que temos de construir e que um dia vai estar ao nosso alcance !
Se tivermos a grandeza suficiente para ter esse sonho e se formos suficientemente persistentes para o concretizar.
Vamos a isso ?

sábado, dezembro 25, 2004

NATAL 2004

O dia de Natal deste 2004 está a chegar ao fim. Como sempre, deixa um sabor a desilusão atrás de si.
O Natal é isto ? - perguntava-me eu nos meus dez ou onze anos.
Pergunto-me ainda hoje.
É, é apenas isto.
Uma ocasião passageira, uma convenção bonita, uma espécie de sedativo anual das nossas consciências culpadas. Uma vez por ano fingimos que somos bonzinhos, que amamos não só a nossa família como o resto do Mundo, fingimos que homenageamos o Menino que havia de ser Homem ...
E contudo, apesar de tudo, há sempre uma magia especial que não sei de onde vem. Talvez das memórias de mil presépios de barro inventados, em miudo. Talvez do cheiro do musgo quando o arrancava da terra ou das árvores. Talvez dos olhos extasiados de esperança de milhões de putos em todo o Mundo. Sei lá.
Este Natal foi a três. A minha filha, o Pipoca e eu. Divertimo-nos, partilhamos com ele o perú estaladiço e saboroso e, por fim, até o deixei saciar a sede no meu copo de água ...
Porque não ? Afinal, é Natal, não é ?
E você, leitor ? Como passou este dia ?


terça-feira, dezembro 21, 2004

O MEU AMIGO FRANCISCO FREIRE DA SILVA

As nuvens voam baixo, hoje.
O Sol retirou-se cedo.
Levantou-se um vento súbito, gélido, que trespassa tudo e arrefece os velhos ossos.
O cérebro recusa aceitar a notícia, lembra tempos de alegria, camaradagem e luta, em terras banhadas por oceanos diversos, sob céus de outras estrelas.
Rejeito a notícia, não me interessa a verdade, não quero saber, não quero que me digam onde, nem a que horas nem para onde vai ... o meu velho amigo vai continuar por aí, por Lisboa, a enfrentar a doença com estoicismo e fé, a ter esperança no futuro e a lutar pela justiça social em que acreditava.
Não quero saber se este ou aquele me vem dizer, com ar compungido, que ele coitado ... Não é, não pode ser, nunca será verdade : da ultima vez que jantámos juntos ele contou-me que andava a tirar a carta de mota, deve ser isso, anda é por aí a acelerar, feito puto reguila como era há mais de quarenta anos atrás, quando nos conhecemos.
Não vou, nunca vou acreditar, não é verdade.
E contudo, o vento tornou-se muito mais frio e já não vejo nenhuma estrela no céu.
Mesmo assim, não aceito, digo apenas : adeus, Xico, amigo, até um destes dias ou meses ou anos ou quando fôr, não penses que te livras assim das minhas secas !

segunda-feira, dezembro 20, 2004

DIVAGAÇÕES EM TEMPO DE FRIO

Hoje à tarde começou a ficar um frio do caraças. Bom, muito frio, pelo menos. Aqui em Lisboa nunca está um frio do caraças, isso é lá para as Penhas da Saúde, Trás-os-Montes, e sítios assim. Aqui nunca me lembro de nevar, nem de gelar a água nos canos. O mais dramático que me lembro era de haver gelo nas poças de água, quando ia para o Liceu, de manhã. Ainda assim a malta ria-se muito e andava toda feliz de poça em poça, a partir o gelo com as botas.
Agora acho que já nem poças existem. Ehehehehehe. Ou, se existem, os putos nem sequer reparam nelas. As playstations destronaram essas coisas todas.
As poças actuais, em Lisboa, são os buracos do metro, no Terreiro do Paço, o buraco do túnel do Santana Lopes e o outro buraco do Terreiro do Paço, aquele do Bagão. E essas poças, que me conste, não fazem gelo nem fazem as delícias de ninguém. Isto digo eu, que sou ingénuo, mas se calhar até fazem as delícias de alguém. Há sempre alguém a ganhar dinheiro com os buracos dos outros. Ou melhor, é porque há sempre alguém a ganhar dinheiro que aparecem os buracos nos outros.
Brrrr ... chega de buracos, isto está a dar-me voltas à cabeça !
Volto à minha, está um frio do caraças, para Lisboa. Tenho o aquecedor a óleo ligado, aqui ao pé de mim e também liguei o que está ao pé do gato, não quero que o bicho congele. Se bem que talvez não fosse má ideia, se conseguisse que só os dentes dele congelassem. Mas acho que não é possível.
Queria escrever umas linhas para o meu blogue e vejam lá os efeitos do frio : saiu-me isto, assim, meio desconexo. Que se lixe : o que me apetecia agora era ir comprar pão quente e comê-lo, com manteiga, acompanhado de um café também bem quente. Uma amiga minha falou-me hoje em ir à padaria, e essa ideia não me sai da cabeça desde então ...
E é o que vou mesmo fazer. Até.

sábado, dezembro 18, 2004

A COSTA DOS MURMÚRIOS



Ontem fui ver “A costa dos murmúrios”, de uma jovem cineasta portuguesa, baseado no livro do mesmo nome de Lídia Jorge. Confesso que não li o livro, mas sei que a autora esteve em Moçambique, por volta de 69/70, época em que decorre o livro/filme. Era então casada com um oficial paraquedista e assistiu, digamos que de camarote, a certos aspectos da guerra colonial.
É claro que uma obra de ficção é tão ficção quanto se queira. Mas também é claro que qualquer ficção com base numa certa realidade acaba sempre, inevitavelmente, por mostrar quanto e como essa mesma realidade afectou a artista.
Neste caso, a ficção construida pela escritora e decalcada pela cineasta acaba por reduzir uma realidade extremamente rica e complexa numa série de clichés sequenciais : os militares são todos violentos, machistas, criminosos de guerra e politicamente alienados ; as mulheres desses oficiais aborrecem-se de morte enquanto os maridos fazem a guerra e entretêm-se portanto todas elas a dar umas quecas por fora do casamento, para manter a prática ; os jornalistas locais são esclarecidos e sabem o que se passa mas não podem fazer nada, a não ser participar entusiasticamente na actividade lúdica anteriormente mencionada das esposas sózinhas ; finalmente, os maridos corneados, quando regressam da guerra, dedicam-se a jogar à roleta russa com os amantes das mulheres e umas vezes safam-se ... outras vezes morrem...
Brilhante. Fiquei estarrecido com a riqueza e pureza cristalina da criação artística de Lídia Jorge.
Eu bem sei que ela era então casada com um paraquedista e que estes eram acusados de usarem boinas verdes para disfarçar o musgo que lhes crescia nas cabeças ...ehehehehe .... Neste caso, porém, acho que o musgo a afectou a ela, também ...
É que, leitores, eu também fazia parte deste filme que agora vi, mas na época e no local original do “crime”. E mesmo respeitando o direito à ficção e percebendo até algum ressentimento e horror da autora perante tal realidade, ainda assim me surpreendo com a miopia e o preconceito revelados.
Quanto à linguagem cinematográfica usada, apenas um comentário : um filme não pode, não deve ser uma sequência de planos filmados e depois colados, com uns textos em voz off para dar coesão. Eu não sei fazer filmes, mas sei ler um filme. E aquilo que vi é apenas uma tentativa de filme, nada mais.
Fiquei com lágrimas não choradas, por dentro. Um dia hão-de sair.

sexta-feira, dezembro 17, 2004

O SEGREDO PORTUGUÊS

Os portugueses são tontos. Somos mesmo totalmente ridiculos, tomados no seu conjunto. Ou então totalmente sábios, vá-se lá saber.
Vamos vivendo neste doce rame-rame, sem esforços nem iniciativas de maior, sem grandes motivos de alegria, mas também sem grandes motivos de pesar, essa é que é a verdade.
Isto ao longo dos ultimos séculos, não é de agora.

A essência dos portugueses é dificil de compreender pelas modernas sociedades de mercado. Talvez só mesmo os nossos ancestrais avós, os árabes, nos consigam compreender : nós somos os grandes especialistas em ser felizes com o esforço mínimo !
Produtividade ? Qualificações ? Hummm ... isso não dá muito trabalho ? - perguntamos logo ! E como dá ...

Isto porque, sem perceber nada disto, há economistas e políticos que vêm, de vez em quando, questionar a organização económica da nossa sociedade. O prof. Cavaco Silva veio agora, por exemplo, afirmar que até 2006 vai ser a mesma miséria de economia, que nos estamos cada vez mais a afastar da média europeia, que precisávamos era de aumentar as nossas exportações !
Concordo, devo dizer. E acho que todos os outros portugueses também concordam. Vamos lá então aumentar as nossas exportações, hem ? Bora ?

O único problema é que para exportar é preciso produzir coisas que os outros queiram comprar. E que raio de coisas havemos nós de produzir, sem grande suor ? Esse é que é o problema, pá ! Que sabemos nós fazer que os outros queiram comprar e que não nos obrigue a trabalhar no duro ??
Espera ... deixa-me pensar ... só se for a nossa secular habilidade para ir vivendo feliz sem saber nem querer produzir nada !
É isso .... Uauuuuu .... descobri !
Vamos exportar o nosso “know-how” para viver de papo para o ar, sem preocupações. Olhem que esta técnica vale dinheiro, vão ver !

terça-feira, dezembro 14, 2004

O CIRCO DESCEU À CIDADE

Ando de novo numa de preguiça. Não me consigo convencer a escrever. Os factos que vão surgindo na vida do nosso país ora me deprimem ora me dão uma enorme vontade de rir.
É como se Portugal fosse um imenso Circo Chen : umas vezes angustiamo-nos com os homens e mulheres do trapézio voador, outras vezes rimo-nos com os palhaços... ainda por cima, estes palhaços fazem as suas rábulas com um ar muito sério, como se fossem senhores competentes e responsáveis, e isso ainda me dá mais vontade de rir.
Pelo meio, os equilibristas, um pouco trapalhões, e os ilusionistas, que tão depressa mostram as cartas todas juntas como as fazem desaparecer, cada uma para seu lado ...
E com isto tudo, confesso, perco a vontade de escrever e começo a cansar-me do espectáculo.
Quando é que raio vai acabar o espectáculo de circo ?

sábado, dezembro 11, 2004

O ESTRANHO CASO DO SECRETÁRIO DE ESTADO SEM TEMPO NA AGENDA...

De todos os factos que têm vindo a lume, nos ultimos tempos, sobre a forma de actuar deste Governo, vou destacar apenas um, para vos mostrar como as coisas são na prática.
O Governo recorreu a um militar para o cargo de presidente do serviço nacional de protecção civil, o que não espanta para quem conheça o tipo de treino e a forma de pensar dos militares em relação ás exigências daquele cargo.
Desta vez, era um Major-General do Exército.
O senhor bateu com a porta há dias, com estrondo, dizendo publicamente que não tinha confiança nenhuma no Secretário de Estado que o tutelava e explicando porquê : o jovem governante, do alto da sua importância e certamente também competência política e técnica sobre as áreas tuteladas, dava-se ao luxo de não o receber, para despacho, há qualquer coisa como quatro ( 4 ! ) meses .... Este governante exemplar nem sequer tinha ido conhecer o Serviço Nacional de Protecção Civil ( sabem o que é, não sabem ? incêndios, ambulâncias, catástrofes ... ) e estava-se nas tintas para os problemas que o general lhe queria colocar ...
As diferenças da forma de estar na vida entre políticos e militares são conhecidas e fáceis de descrever, numa pincelada : enquanto uns fazem da arte de conquistar votos e do jogo das aparências a sua essência, os outros foram ensinados a dizer a verdade, frontalmente e sem papas na língua. É assim e pronto, eu conheço bem os dois tipos de pessoas de que falo. Com algumas excepções nos dois sectores, como sempre, claro.
Mas neste caso, nem sequer é essa a questão que me chocou.
O que me indigna é que um governante ( apesar de ser um ajudante na terminologia de Cavaco Silva ) se dê ao luxo de estar quatro meses sem discutir os assuntos de um Serviço como o SNPC só porque não gosta do general seu presidente ...
Este facto evidencia uma falta de respeito enorme pelo país, por todos nós, até pelo seu dever como governante. Mas mais : o senhor Ministro da Administração Interna sabia disto e achava muito natural ...
Pensem bem nesta história.
Que raio de gente é esta que pensa que pode fazer o que quer, quando está no poder ?
Quando é que nós vamos eleger um bom administrador deste nosso condomínio á beira mar plantado e dar um pontapé no rabo a tipos que andem a gozar com o nosso dinheiro ?

terça-feira, dezembro 07, 2004

A MAGIA DAS LUZES

Acho que já o disse, pelo menos no ano passado : não gosto muito do Natal, pelos clássicos motivos da solidão e da inveja da alegria dos outros. Bem sei que há muitos como eu, e que a alegria de outros é mais fingida ( ou convencionada ... ) que sentida. Mas ainda assim, não gosto.
Deveria existir um Natal para as pessoas sós ou de famílias incompletas e pequenas. Afinal, toda a gente sabe que são cada vez mais as famílias nestas condições, pelo que seria uma medida bem acolhida, pela certa! O Natal das Famílias Incompletas. O presépio poderia, por exemplo, não ter o S. José, nem a vaca e o burro. Enfim, só sugestões valiosas que aqui deixo a quem de direito nesta questão do Natal.
Mas apesar destas minhas reservas, a verdade é que há coisas no Natal de que sempre gostei. Coisas simples. Como ficar deslumbrado a olhar as pequenas luzinhas com que decoramos as nossas vidas neste tempo. Luzes brancas, amarelas, azuis, verdes, fixas ou a piscar, made in Taiwan ou China. É algo de mágico, esta ingenuidade de homens e mulheres, presos nas luzinhas, esquecidos temporariamente das suas lutas e dos seus problemas. Poucas coisas conheço tão tranquilizantes como uma simples árvore de Natal, mesmo artificial, cheia de luzinhas a apagar e a acender ... Vá, montem uma em vossa casa e percam-se na contemplação das vossas memórias, ou dos vossos sonhos de futuro, enquanto olham as luzinhas do Natal e bebem um golo de qualquer coisa quente.
Aproveitem. Embora digam que o Natal é quando um homem quer, não acreditem : Natal só é uma vez em cada ano e apenas enquanto não decidirem acabar com ele, já que está a dar pouco lucro. Qualquer dia fecha ou é deslocalizado, mas, por enquanto, a magia ainda funciona.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

O PROBLEMA DO PSD

A grande questão que se coloca agora ao PSD : vão às eleições mantendo um candidato a primeiro-ministro que deu provas insofismáveis que não é capaz de governar , nem tem a mínima ideia de futuro para Portugal, ou vão arranjar outro candidato ?
É que se ficarem com o mesmo candidato, fica por demais evidente que apenas se preocuparam em maximizar as probabilidades de tornar a alcançar o poder, mesmo sabendo que, nesse caso, com o mesmo primeiro-ministro, seria a ruina para o país ...
Não acredito que não exista, dentro do PSD, muita gente que tem este mesmo raciocínio.
Porque não falam ? Porque se calam, à excepção de Pacheco Pereira e Miguel Veiga ?
Porque permitem que um partido que é representante de uma larga faixa de portugueses, gente moderada e sensata, seja liderado por um diletante e incompetente ( na função de primeiro-ministro, noutras será um ás ! ) como Santana Lopes ?
Acharão que a derrota nas próximas eleições é a única forma de se verem livres de tal personagem ? Ou acreditam ainda na capacidade de sedução de Santana Lopes, apesar de tudo, e não hesitam em alcançar o poder a todo o custo ?
Não gosto nada, mesmo nada, do que se anda a passar com as gentes mais responsáveis ( sê-lo-ão ? ) do meu país.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

AS PEQUENAS COISAS HABILIDOSAS DO SHARE POLÍTICO

Caros amigos : aquilo a que se convencionou chamar política, nos orgãos de comunicação e na terminologia dos políticos, mais não é, muitas vezes, que uma série de pequenas "jogadas" mais ou menos habilidosas, dentro de um "timing" bem escolhido, com o objectivo de valorizar a nossa posição e de prejudicar a do nosso adversário.
Pensavam que esta política era sempre e só uma coisa "limpa", de homens e mulheres sem nada nas mangas, de peito aberto e posições claras e desassombradas ?
Sim ? Pensavam isso, a sério ? Ehehehehehe, não acredito, já ninguém é assim tão ingénuo.
Leiam algumas coisas sobre os jogos de bastidores e inter-relações dos ministros deste ainda nosso governo, vão ver como é material do maior valor educativo !
Já repararam, também, na atitude do CDS/PP, nesta crise ? Ooooh, genial, meu Deus : é do tipo "eles é que foram os artolas e confusionistas, o PSD, nós trabalhamos bem e tivemos ministros de categoria ... ". Notem, em termos relativos até é uma meia-verdade, pelo menos, o pior é que é também um tiro pelas costas, logo que o cimento aglutinador do poder desapareceu ...
Mas estas coisas não acontecem apenas no campo da ainda actual maioria, não senhor. Hoje darei apenas um exemplo, não propriamente da oposição mas do senhor Presidente da República.
Reparem : vários foram os sinais de que o Presidente estará interessado em que o orçamento proposto pelo PSD/PP seja ainda aprovado, certo ?
Pergunto eu, então : nesse caso, porque é que o Presidente não esperou uma semana para declarar que ia dissolver a Assembleia ? Se o tivesse feito, o orçamento já estaria então aprovado ...
Porque não esperou então essa semana ?

Oferece-se um prémio ao leitor que der a resposta mais convincente, ehehehe ...

Mas estas breves linhas têm uma moral : a política real, não a dos livros e dos princípios, faz-se destes pequenos truques e não apenas de questões ideológicas e estratégicas.
A táctica destas pequenas malandrices (?)ganhou uma importância tremenda, sobretudo porque o que se disputa, afinal, não passa de uma espécie de "share" televisivo : o espectador, em vez de carregar num botão para sintonizar uma dada estação, irá escrever uma cruz num determinado quadrado de um bocado de papel.
Qual é a diferença, para muita gente ?
Isto é a democracia, gostem ou não gostem. Não sei se é, como afirmava o outro, o menor dos males ... mas lá que é um jogo bizarro, disso não tenho duvidas !
Apesar de o defender com unhas e dentes, se for necessário.
Fiquei farto de lápis azuis, no tempo da outra madame, e de ministros com raivinha de dentes, ou de centrais de informação, nestes ultimos tempos.