Blogs (Blogues) = crónicas (quase) diárias; registo periódico de factos, opiniões e críticas ; as impressões íntimas, a política, o social.
segunda-feira, setembro 15, 2008
Vivi intensamente o PREC, de 1974 em diante. Não vou entrar em detalhes,mas vivi-o por dentro. Nessa altura, eramos todos frequentemente confrontados com posições políticas muito radicais, a que chamavamos esquerdistas, denunciando tudo e todos. Para essa gente radical, só existiam em Portugal eles, os puros, e todos os outros eram ou corruptos ou fascistas.
Por formação e carácter, sempre recusei essa abordagem. Também nunca fui grande adepto das teorias conspirativas e dos arautos das desgraças cataclísmicas. Sempre achei que a realidade era, por natureza, moderada e que a percentagem de casos de corrupção e de falta de honestidade eram mínimos.
Pois bem : nestes dias que correm, a pouco e pouco, vou-me sentindo envolto numa atmosfera irreal de manobras sujas, atmosfera quase invisível, dando a ideia de que já ninguém liga muito a estas coisas. Ou que a corrupção e o roubo são coisas comuns que não vale a pena investigar e punir.
Viram aquele caso do burocrata do desporto ( chefe da missão olímpica e tudo !! ) que se amerezendou com uns dois ou três vencimentos, carros e eu sei lá que mais ?
Tchiiiiiiiiiiii, e o desgraçado do sujeito diz que em seu tempo vai esclarecer tudo !
A seu tempo ? E ele é que diz quando é que decide explicar-se ?
Sabem o que eu acho, por vezes ?
Vai sair bronca, já aviso.
Então é assim : á semelhança do que tem vindo a suceder com o consumo de drogas, com a homosexualidade ( e com os casamentos homosexuais) , com a ausência da prisão preventiva, etc ... não me admiro nada, mas mesmo nada, que daqui a alguns anos seja descriminalizada a ... corrupção.
Desde que seja para uso pessoal, bem entendido.
Não acreditam ?
quinta-feira, setembro 11, 2008

OS NOSSOS ORÁCULOS DE DELFOS
Os americanos ( leia-se made in USA ) nem sempre são modelo de comportamento para ninguém. Ou mesmo raramente o são.
Dito isto, note-se como o banco central americano ( o Federal Reserve ) e o Banco Central Europeu ( BCE ) tem tido comportamentos diferentes, com resultados também bem diferentes.
A economia americana apresentava, como a europeia, indicadores de fraco crescimento económico, receios de estagnação ( crescimento nulo ) ou mesmo recessão ( crescimento negativo ), sinais de inflação, sobreendividamento das famílias, forte especulação no imobiliário com o desmonoramento financeiro desse sector. Na Europa, o senhor Trichet, á frente do BCE, fiel como um cão aos estatutos do Banco que mandam privilegiar o controlo da inflação, vá de fazer subir a taxa de juro, uma, duas e mais vezes, estando actualmente nos 4,25%. A ideia é que o alto preço do dinheiro desincentive o consumo ( e o investimento, pergunto eu ? ) e logo, por essa via, faça baixar a inflação. E o senhor persiste nisto há mais de um ano.
Bem, e fez ? A inflação foi contida ?
Não, como se sabe. E a economia ressentiu-se, claro, e sucedem-se as revisões em baixa para o crescimento no espaço europeu.
Alguém se chateou com isto, alguém questionou o sr. Trichet porque é que a sua teimosia está a dar tão maus resultados ?
No outro lado do Atlântico, o Federal Reserve fez exactamente o oposto, baixou corajosa e progressivamente a taxa de juro, embaratecendo o dinheiro. O Governo Federal, numa atitude sem precedentes a esta escala, introduziu no circuito recentemente milhares de milhões de dólares, tomando conta das duas maiores imobiliárias ( financiadoras ) do país.
Resultado : os indicadores económicos nos EUA começaram milagrosamente a recuperar ( enquanto os nossos se afundam ) e a inflação não disparou coisa nenhuma, quedando-se no mesmo patamar.
Então, quem fez melhor o seu papel ?
Moral da história : a economia, como ciência, é uma treta. Nunca vi uma ciência apresentar panaceias diferentes para a mesma situação. E não me venham com a conversa mole dos diferentes objectivos e estatutos dos dois bancos centrais, porque estatutos há muitos e mudam-se quando é preciso. A economia usa e abusa de modelos que me parecem obsoletos para fenómenos como a inflação, o crescimento, a bondade ou não do consumo interno no crescimento, etc ... A realidade, ano após ano, ridiculariza muitos desses modelos, mas os senhores do establishment fingem que não percebem, assobiam para o ar ou para o lado e continuam a dizer e a fazer as mesmas coisas, vezes sem conta.
Quem se lixa, sempre ? Eles não, são muito bons e muito bem bem pagos !
A hipocrisia e o faz de conta são a pior praga dos países desenvolvidos nos nossos dias, não acham ?
quarta-feira, setembro 10, 2008
Hoje vieram a lume estatísticas do ensino compiladas pela OCDE. Os nossos jornais, cumprindo a sua missão, desataram a publicar títulos meio escandalizados meio perplexos, porque uma dessas estatísticas revela que em Portugal, o numero total de alunos de todos os níveis de ensino divididos pelo numero total de professores conduz ao valor de 8 alunos por professor, dos mais baixos existentes no espaço da OCDE.
Baralhação total : começaram aí os nossos jornalistas a tecer considerações, espantando-se que esse numero seja tão baixo enquanto que, ao mesmo tempo, o racio do numero de alunos por turma seja tão elevado ! Um deles ( desses jornalistas ) comenta mesmo que tal se poderia entender se os nossos professores trabalhassem pouco, mas um outro indicador divulgado sustenta precisamente o contrário ! Óh espanto ! Óh maravilha das estatística !
Então ? Em que ficamos ? Porque é que então, entre nós, existe um racio tão baixo de alunos por professor ? Há alunos a menos ? Há professores a mais ? Hummm ... que acha, leitor ?
Uma pista ... professores a mais, provavelmente, mas a mais em relação a quê ?
Que tal pensar que, na estrutura do nosso ensino ( e em quase todo o mundo, com excepção dos níveis etários mais baixos no ensino ), a cada disciplina/cadeira corresponde um professor ? E se há professores a mais, muito provavelmente, é porque o numero de disciplinas/cadeiras individualizadas é muito elevado, em média ? Idem para as respectivas cargas horárias semanais ? Que tal fazer as contas por aí ? Numero de disciplinas, carga horária de cada disciplina, numero de horas nos horários dos alunos,etc ... ?
Dito de outra forma mais simples : se o leitor agarrar em duas turmas de alunos, uma nos EUA e outra em Portugal, se a turma americana tiver uma carga horária semanal igual á portuguesa mas com apenas 7 disciplinas, enquanto a portuguesa tem 10 disciplinas, cada uma dessas disciplinas exigindo um professor diferente, em qual dos sistemas é que vão existir mais professores ? Qual dos sistemas dará um racio de menos alunos por professor, hem ? E já reparou, neste exemplo, que a turma americana até poderá ( e tem, por norma ) ter menos alunos que a portuguesa ?
Não seria honesto fazer primeiro essas contas e tentar perceber depois os tais 8 alunos por professor ? É que, se desligarmos esse indicador destes outros valores, ele não vale nada, porque não está relacionado sequer com o numero de alunos que cada professor, em cada momento, tem diante de si ao mesmo tempo para lhes ensinar algo ( a turma ) ...
Nestas coisas como em outras, exige-se seriedade na análise dos valores e não aquilo que se vê neste nosso país que é esgrimir estatísticas para tentar ter razão e atirar poeira aos olhos dos outros. Ou então, ignorância e/ou falta de hábito de raciocinar.
PS : as especulações por mim efectuadas neste comentário NÃO foram precedidas de nenhum estudo sobre a maior ou menor diversidade das matérias existentes nos currículos dos diferentes graus do nosso ensino. É apenas, como dizem os americanos, um “educated guess”, um palpite com o mínimo de ponderação.
Claro que poderíamos igualmente falar na taxa de horas úteis lectivas nos horários dos professores, claro que teríamos também de averiguar quem executa as actividades burocráticas e administrativas nos restantes países da OCDE ( em Portugal, muitas são feitas pelos professores ), claro que ... muitas outras coisas. Mas aposto que aquilo que lhes indico como possível razão é um bom principio de estudo !
sexta-feira, agosto 29, 2008
Existe a PSP, com o seu Director Nacional, a GNR, com o respectivo Comandante Geral, a PJ mais o Director também Geral ou Nacional, o SEF , com o seu responsável máximo, o Gabinete de Coordenação da Segurança, com um General do Exército, o Ministros da Justiça, que tutela a PJ, o Ministro da Administração Interna, que manda na PSP e GNR , o Procurador-Geral que não se sabe em quem manda mas que usa a PJ ... e, pelos vistos, nenhuma destas Entidades coordena nada, nem há troca de informação nenhuma entre as mesmas, é agora preciso inventar uma outra Entidade ao lado destas todas que se chama o Secretário-Geral da Segurança, com a categoria de Secretário de Estado !
Brilhante. Excepcionalmente bem visto. Perante uma situação de descoordenação óbvia, por excesso de protagonistas, falta de linhas claras de comando, responsabilidades sobrepostas e desfuncionalidades flagrantes ... responde-se com a criação de uma nova instância, com funções dúbias e categoria hierárquica manifestamente insuficiente.
Neste meu País ainda se vê disto todos os dias : aquilo que qualquer aprendiz das artes da organização aprendeu é desprezado pelos homens e mulheres que elegemos para nos governar.
Aquilo que em qualquer País decente já existe há séculos, uma base de dados criminal partilhada por todas as Forças de Segurança, entre nós ainda não existe, apesar de já prevista em legislação anterior a esta em vários anos.
Agora, sim, com um senhor Juiz Conselheiro escolhido para o novo cargo ( seja quem for a pessoa em concreto ) , essa situação vai mudar : todas as polícias vão passar a funcionar coordenadamente e a informação vai estar ali prontinha e à mão de quem dela precisar !
Bem visto, meus senhores. Assim dá gosto ser eleitor e cidadão neste País.
sexta-feira, julho 04, 2008

O problema é que tenho a casa cheia de móveis e bugigangas e as obras vão obrigar a mudar tudo de sítio, tipo puzzle, enquanto que eu serei obrigado a emigrar, ainda não sei bem para onde. Esta perspectiva aterroriza-me, comodista que sou e amante do meu bem-estar primário. Terei de ir para casa da minha filha, entretanto ? Vou para um hotel ? E tirar aqueles livros todos das estantes, para as poder mover ? E a bonecada, tipo bibelots ? Oh que ganda seca !
Que me dizem a isto os leitores ? Sugestões ? Críticas ?
Alguém me quer acolher ?
Eh eh eh eh ...
sábado, junho 28, 2008
Faço hoje 65 anos. Não faço ideia nenhuma como aconteceu isto, não me lembro de nada, ainda ontem andava no Liceu. Se querem saber, acho que isto é um sonho, ou melhor, um pesadelo. Quando acordar, tudo estará na mesma e eu terei 40 e tal anos, se tanto.Pode lá ser, tantos anos, sessenta e cinco ! Se for verdade, é uma grande injustiça. Que chatice, ainda por cima sou obrigado a festejar. Festejar ?? O quê ? Ter chegado aqui e não ter morrido antes ? Mas isso deve ser festejado ? O que há para festejar, esta minha idade é a velhice, a idade em que ficamos transparentes, até as mulheres nos sorriem e tudo, dizendo com os olhos que velhote simpático ... Mas há mais, muito mais.Chega um homem a esta idade e o que vê ? Um mundo bonito, feliz, onde se possa descansar tranquilamente e deixar a velhice entrar em nós ?Não, o que vejo á minha volta é um mundo doido, desgovernado, um mundo em regime de pilhagem acelerada.O petróleo nos 140 dólares, 71% das ordens diárias de compra são especulativas e todos encolhem os ombros; o Oceano Ártico em degelo acelerado, teme-se que este Verão se derreta a fina camada de gelo sobre as suas águas e ninguém faz nada ; a Siemens diz que vai despedir 15.000 pessoas e todos pensam "não é nada comigo" ; no Zimbabué, o ditadorzeco faz o que quer, corre com a oposição vencedora e a ONU nem sequer um papel consegue escrever ...Aparentemente, ninguém, nenhum Governo, nenhuma organização pode ou quer fazer nada. NADA. Mas para que pagamos nós a estes gajos todos se nenhum deles resolve seja o que for ? É como se tudo fosse inevitável. Como se já estivéssemos todos condenados. É desesperante, porra, chega um homem aos 65 anos e o que vê é um mundo de interesses, um mundo de dinheiro e ganância, um mundo sem deus, nem esperança nem amanhã. ...Sabem uma coisa ? É pela negativa, bem sei, é egoismo, também, mas que hei-de fazer ? A ideia é perturbante ( tenho uma filha e gente de quem gosto ) mas tentadora : chegar á velhice num mundo destes talvez nem seja mau de todo. Menos coisas lamentamos perder, menor será a dor da partida.
PS - que ideia parva esta minha última ... desculpem-me, é a esclerose a atacar !
sexta-feira, junho 20, 2008
Nos ultimos anos, quando se fala em políticas sociais, tornou-se moda virar a atenção exclusivamente para “os mais desfavorecidos” ou para “os sectores mais vulneráveis”. Á partida, parece uma boa ideia, os ricos não têm problemas e os assim-assim podem bem com esta ou aquela subida de preços.
Oferecem-se rendimentos mínimos a quem pouco tem, garantem-se subidas nas pensões abaixo de um certo valor, beneficiam-se os juros de quem tem rendimentos abaixo de um certo limiar, oferecem-se benefícios aos pescadores, depois aos camionistas, em breve aos taxistas, sei lá a quem mais ...
Parece tudo justo, não parece ?
Mas é um jogo perigoso. Quem define as fronteiras ? Quem decreta “tu precisas, tu não precisas” ? Que espécie de justiça é esta que exclui milhões de pessoas, pressupondo á partida que estão e ficam bem, que podem suportar os custos ?
De há muito que sucessivos governos brincam aos robins dos bosques, mas este então tem sido fértil nesta perigosas e demagógicas políticas pseudo-sociais.
A verdade é que os estratos populacionais ditos da classe média estão cada vez mais empobrecidos, cada vez mais esquecidos. A verdade é que esta forma de olhar a sociedade é falsa e, no nosso caso, apenas proporcionou cobertura política a um desenfreado processo de sobre-enriquecimento das classes médias-altas e altas. Como contraponto político, como que para fazer esquecer o “gamanço” desavergonhado, lá vinha o interesse pelos “mais desfavorecidos”. Reparem bem, por exemplo, como Sócrates se defende quando o criticam por governar á direita ... Lá salta o complemento ás pensões mais miseráveis, lá aparece o abono de família, etc ...
Rejeito uma política social feita de migalhas, feita de mentiras, onde os muito pobres são apenas mantidos no limiar da fome e toda a outra gente da classe média é esbulhada em nome do sobre-enriquecimento dos poderosos.
Chega de mentiras e de hipocrisia. Chega de roubos, é isso que tem acontecido.
Quero uma sociedade onde todos possam ter dignidade, onde todos possam ter uma vida razoável, onde os imensos lucros das petrolíferas sejam taxados e essas taxas sejam colocadas ao serviço de todos e não só de pescadores, taxistas e camionistas.
Chega, estou farto de ser considerado como condenado a estiolar e a esperar que acabe por ser considerado, no fim da minha vida, como “sector mais desfavorecido” ...
Que é, afinal, o que nos espera a todos se não quebramos esta política anti-classe média, levada a cabo por aprendizes de feiticeiro ao serviço dos grandes interesses.
quarta-feira, junho 11, 2008
Vejam só esta maravilha : que medidas propôs o Governo à ANTRAM e aos outros transportadores para desbloquear as acções de paralização que, como sabem, têm como origem o preço exorbitante dos combustíveis ?
Entre outras, relacionadas com a dedução dos custos com o combustível em sede de IRC, o Governo propôs-lhes a introdução de uma fórmula automática que aumentará o preço a cobrar pelos serviços de transporte em função do custo do gasóleo !
Boa ! Bem visto !
Ou seja, se porventura o leitor ainda não percebeu : o Governo aplacou os transportadores deixando-os atirar automaticamente os aumentos do gasóleo PARA CIMA DE NÓS !
Brilhante. Devia ser esta a solução a que Sócrates aludia ontem, ao afirmar que a ajuda a prestar aos sectores prejudicados não poderia por em causa o bem colectivo.
Pois, assim também eu resolvia bem os problemas todos : atirava sempre os custos para cima de nós.
Cabe então aqui a pergunta : e nós, simples cidadãos, que podemos fazer para defender os nossos direitos ? Que estradas podemos cortar ? Que abastecimentos podemos interromper ?
Só vejo uma solução : podemos interromper o fornecimento de votos a um Governo como este. Bem o merece.
‘Bora fazer isso ?
sábado, junho 07, 2008
Para que serve lamentarmo-nos sobre a escalada vertiginosa do preço do petróleo ? Porque é que algumas pessoas só agora descobriram o mundo miserável em que vivemos ? Porque é que, durante tanto tempo, essas pessoas distraidas desculparam e entenderam os arautos do neo-liberalismo, os feiticeiros dos mercados pseudo-livres ? Porque é que, desde há muitos anos, presenciámos cenas vergonhosas nos mercados financeiros com um encolher de ombros ?
Saberão os leitores que, neste momento, circulam nas águas de todo o Mundo, gigantescos petroleiros carregados de crude, a aguardar o seu destino, sem saberem muito bem a sua rota final, a aguardar pela indicação do comprador ? Saberão os leitores que a mansa tremenda de investidores financeiros não produtivos ( não criam realmente nada, a unica coisa que fazem é comprar, contribuir para a elevação dos preços e vender, depois ) se atiraram ao petróleo como um bando de gatos a bofe, comprando quantidades tremendas e esperando, apenas, até que dois dias depois o vendem com o lucro líquido de milhões de dólares ? Essas compras fictícias ( porque esse bando não quer o petróleo, realmente ) reduzem a quantidade de petróleo disponível, fazem aumentar os preços e depois ... é só vender !
Mas então, dirão os leitores, se o processo é esse – é-o sem duvida, em grande parte da realidade ! – não seria relativamente fácil acabar com essas compras especulativas de petróleo, num mundo de gente séria ? Por exemplo, aceitando apenas compras de petróleo a pessoas credenciadas, representantes das refinadoras ? Por exemplo, taxando muito fortemente as mais valias provenientes desta especulação com o petróleo ?
Claro que sim. Então porque não é feito ?
Ah, caro leitor, aí somos conduzidos para o que de pior o ser humano possui. No mundo moderno, pouca gente se move pelo interesse comum, como se calhar já percebeu. E então, o que tem isso a ver com o petróleo ?
Tudo.
Quem se poderia opor a estas especulações com o petróleo ?
Os governos, claro, e os organismos internacionais, também.
Mas quer saber uma coisa, leitor ? São esses mesmos governos e organismos que estão a ganhar milhões, também, com estes preços do petróleo. E as refinadoras. E as distribuidoras. E as grandes empresas de comercialização. E as cleptocracias normalmente no poder dos países produtores de petróleo. E os outros países produtores de petróleo. Toda esta gentinha anda deslumbrada com este acréscimo gigantesco de receitas, caramba !
Já viu alguém, caro leitor, dar tiros nos próprios pés ? Acha que os governos vão fazer algo contra isto ? Ahhhhhhhhhhhhhhh .....
Sabe, leitor, qual seria a unica coisa a obrigar os governos – todos os governos – a intervir nesta matéria ?
O mesmo de sempre. Todos nós, as vítimas, unidas e furiosas, nas ruas a gritar contra eles. Todos nós a dizer claramente que não queremos aceitar este jogo sujo, viciado.
Todos nós a gritar, ao mesmo tempo : “PAREM A ESPECULAÇÃO, JÁ !”
De outra forma, todos os Sócrates do Mundo vão permanecer surdos e cegos, acredite.
Afinal, eles nem sequer andam nos seus carros e ainda recebem uns milhõezitos adicionais para os seus orçamentos ...
terça-feira, junho 03, 2008
Os hábitos actuais de vida e de comunicação em sociedade estão completamente cheios de meias-verdades, falsidades, lugares comuns e mitos. Não conheço o panorama dos outros países europeus, mas quanto a nós, nunca imaginei que se pudesse DESCER tanto na escala da qualidade.
Querem ver algumas preciosidades ?
- O mito das médias europeias. ( a má estatística como mentira ao serviço da ilusão )
Nos ultimos tempos, em tudo o que é meios de informação e sobretudo a nível do discurso laudatório do Governo, são usadas todos os dias comparações dos preços praticados em Portugal com as médias europeias. Ah, a gasolina não é das mais caras da Europa ... afinal é só 20 e poucos cêntimos mais cara que em Espanha.
Os bens alimentares não subiram tanto em Portugal como no resto da Europa.
Um bilhete de cinema em Portugal não é caro, é igual ao de Paris ...
E por aí fora.
Quem usa estes indicadores está a fazer passar gato por lebre, está a querer enganar os portugueses. São mentiras ! São balelas ! A gasolina em Portugal para estar ao mesmo preço da França ou da Alemanha teria de ser MUITO mais barata ! Não me interessa o valor absoluto dos preços, interessa-me sim o esforço financeiro que tenho de fazer para comprar essas coisas, com os salários portugueses. Os preços não deviam ser comparados em valor absoluto mas sim corrigidos em função dos índices de poder de compra !
Assim, não vale !
- O mito do populismo. ( a tentativa de calar a verdade pelo agitar de um chavão )
Os gestores portugueses das grandes empresas ( sector privado e do Estado ) auferem vencimentos totalmente desproporcionados aos dos restantes sectores da vida nacional ? Populismo ... populistas é o que estes gajos sabem ser ! Que é que queriam ? Que deixássemos fugir os melhores gestores ? Que lhes oferecessemos tuta e meia ?
A sociedade portuguesa é das mais desequilibradas da Europa, as diferenças são colossais entre sectores populacionais ? Lá vem o Paulinho das Feiras outra vez ... que querias tu ? Que alinhassemos pelo cavador alentejano ? Ai estes populistas !
- O mito da responsabilização indevida ( a tentativa de evitar vozes críticas )
Então o gajo é do nosso Partido e nada pr’aí a dizer umas coisas contra o nosso Governo ? Eh pá, o gajo é indecente, é um irresponsável. Há que estarmos unidos nesta fase dificil. Temos a razão do nosso lado, não endireitamos aquela coisa do déficit ? Que mais queriam estes gajos ?
- O mito do défice público. ( a grande desculpa do neo-liberalismo bacoco )
Provavelmente, este é o maior dos actuais mitos. Lembro-me de que,com Cavaco, na época do “betão” das autoestradas, o défice chegou a ser de 9%. Era preciso investir, andar para a frente. Era o chamado défice virtuoso.
Depois, o Euro veio impor o limite máximo anual de 3%, para que a solidez da moeda fosse constante e credível. Agora, só por causa disso, inventou-se a teoria económica da bondade do défice pequeno ou nulo. Já não há défices virtuosos, todas as medidas são boas para atingir os 3% ou menos. É preciso baixar os rendimentos do trabalho dos funcionários públicos ? Baixem-se. É preciso cortar nos custos da defesa e da segurança interna ? Corte-se, os gajos que andem menos de carro e de avião e de navio ! É preciso estrangular os profs ? Fechar umas maternidades e centros de saúde ? Faça-se !
O importante é o défice pequeno, mesmo que já não exista povo para o admirar !
-O mito da indispensabilidade dos partidos políticos. ( ai que vou levar dos democratas todos ... )
Os partidos políticos são indispensáveis à democracia, sem eles seria o populismo, o caudilhismo, a anarquia. Sim, está bem, aceito que tenham um papel importante na sociedade.
Mas não estes que temos.
Estes que temos são uma merda, desculpem. Repositórios dos piores tiques da nossa vida actual. Inchados e putrefactos de carreirismo, de nepotismo, de oportunismo. Vi-os nascer e hoje não são uma sombra do que já foram. Nunca foram organizações isentas de mácula, claro, mas hoje ...
Estão tão desacreditados, hoje, os partidos políticos que sempre que algum dos seus líderes locais é impedido de concorrer a eleições em nome desse partido, por motivos de ética política ou moral ... acaba por ser eleito como independente. Lembram-se do Major, da Fátinha, do Isaltino ? Pois é ... Os partidos mentiram e aldrabaram tantas vezes os portugueses que agora já não adianta, já ninguém acredita neles, mesmo quando têm razão.
Poderia continuar ad-infinitum. Mas já estou cansado, é muito deprimente escrever sobre estes temas. Deprimente ... e populista !
sexta-feira, maio 16, 2008
Quando reflicto um pouco sobre a forma como a vida económica está organizada, neste nosso mundo moderno, acabo sempre por ficar com uma sensação de fúria e de impotência. Mas também fico sempre com a ideia de que tudo isto é surreal, de que ninguém sabe muito bem como é que a coisa funciona nem o que vai acontecer num futuro próximo.
Há crise ? É o sector financeiro ? Há especulação com o petróleo e com os cereais ? Há tipos, grupos, empresas a usar o petróleo e o arroz como quem compra e vende acções ? Quem está a provocar o quê ? O mercado funciona mesmo livremente ou é apenas uma grande balela, todos estas variações são provocadas pela mão humana ?
É que, ao acompanhar diariamente estas odisseias, surge-me sempre a sensação de inevitabilidade, como se nada pudesse ser feito para evitar estes descalabros. Então foi este caos completo a que o neo-liberalismo nos conduziu ? Onde estão agora os arautos da desregulação e da liberalização ? A menos que estejam a comprar e vender arroz e trigo ...
Bom, mas voltemos ao assunto : então não se pode fazer nada ? Vamos assistir a fomes, desempregos, misérias várias, com um encolher de ombros ? Vamos continuar a tolerar a rapinagem, a podridão, a corrupção sem limites, a especulação desenfreada ? Oh, triste condição a de ser lúcido e impotente, antes não perceber nada do que se está a passar...
Pois bem, no meio de tudo isto, prossegue a actividade imbecil da ASAE. Imbecil porque paranóica e cega. Como se vivessemos num mundo a caminho da perfeição. Como se os nossos problemas fossem as colheres de pau ou o sistema H não-sei-quantos da gestão da refrigeração dos alimentos. Um destes dias, aplicaram uma coima de 15.000 e tal euros a um desgraçado dono de um barzito algures neste Portugal maluco ... Ahhhhh, mas afinal parece que foi engano, não era bem aquilo ...
Meu Deus, já não há paciência para aqueles tipos.
Já nem sei porque fui agora buscar a ASAE.
Talvez porque pior que sofrer todas estas convulsões da economia mundial seja aturar as diatribes e prepotências dos pequenos títeres, de ares vagamente mussolinianos, cheios de um afã enorme de mostrar serviço e prosseguir carreira ...
quarta-feira, maio 14, 2008
Leitor, aqui fica o aviso, muito sério : o capital financeiro ( e algum do outro, também ) perdeu totalmente a inibição e a vergonha e os mecanismos de controlo estão a revelar-se incapazes ou inexistentes. Uma enorme avalanche de desgraça e miséria está ( e ainda vai piorar ) a abater-se sobre todos nós. Não sei em que momento estes gajos tomaram o freio nos dentes, em Portugal e no resto do Mundo, mas o ataque é frontal, descarado e sem tréguas. Todas as frentes de ataque foram abertas, os homens sem rosto estão a armadilhar completamente os nossos caminhos : os juros sobem diariamente, as matérias primas principais também, a inflação começou o seu ciclo vicioso, a extorsão é vertiginosa.Notem isto, a título de exemplo : os lucros da BP em Portugal, no 1º trimestre deste ano, cresceram 63% em relação ao trimestre homólogo de 2007. Hem, nada mau, hem ? O aumento do preço do petróleo é tanto e ainda dá para este acréscimo de LUCROS ? Não é óbvio ? A matéria prima sobe 10 e eles reflectem 20 no consumidor !!
Não há mesmo nem vergonha nem quem os obrigue a tê-la.
Estamos entregues aos bichos.
QUEM VAI TRAVAR ESTES GAJOS ?
domingo, maio 11, 2008

OS SALVADORES E OUTROS ARTISTAS
Já repararam como vai o mundo ? Zimbawé, Myanmar, para os que gostam do exotismo e da aventura, o nosso Portugal, para os mais comodistas que preferem a excitação local.
Traço comum ? O despudor, a inesgotável sede de poder, a enorme capacidade de avidez e rapinagem do ser humano. Descanse o leitor, não irei fazer nenhuma teoria geral da podridão humana. Apenas notar, uma vez mais, o que a ganância provoca no género humano.
segunda-feira, maio 05, 2008
Qual é o sentido das nossas vidas ?
Atingir aqueles grandes objectivos profissionais com que sonhámos, quando jovens e ingénuos ?Alcançar a riqueza e o bem estar material ? A notoriedade, a fama ?Praticar o bem, espalhar a ajuda e consolação ?
Qual é o sentido profundo da nossa vida ?
Ah, queriam uma resposta, não era ? Pois, também eu. Queriam, mas não vão ter essa resposta.
Ao fim destes anos todos, apenas vos sei dizer assim : se quisermos uma resposta, cada um de nós tem que a descobrir. Não há uma resposta padrão, acho eu.
Nem mesmo uma daquelas respostas vazias tipo "o nosso grande objectivo é concretizar a felicidade", porque então a pergunta aí muda e passa a ser : "O que é a felicidade ?".
Estão a ver o imbróglio ? Não há ajudas, a tua resposta não serve para mim e a minha não te vai satisfazer.
Para mim, o sentido da minha vida muda como o vento ou a temperatura.
Tempos houve - parvo que eu sou - em que pensei que o amor fazia sentido, o amor podia ser tão forte que desse significado á minha vida.
Depois, as coisas mudaram e passou a ser a política : toda a minha vida ganhava cor e sabor se ajudasse á mudança, á criação de uma sociedade mais justa e fraterna. Tretas, de novo : vi pessoas passarem de pobres dignos a novos ricos mais miseráveis que antes. Vi a minha incapacidade e ineficácia nessa tarefa gigantesca de antecipar o tempo, de mudar pessoas e comportamentos. Desisti, confesso, entrego ao tempo a mudança.
Houve também um tempo para me sentir místico, religioso, para entrar e me sentar numa qualquer igreja e ali estar, sentado, calado, tentando ouvir ou ver a verdade ou a bondade ou fosse o que fosse.
Tentei as artes, a literatura, as engenharias, a informática. Nada.
O prazer, o sexo, a boa comida. Que sentido pode existir nisso tudo ?
Também passei pela guerra - embora essa não tenha sido escolha minha - essa grande mestra da natureza humana e das grandezas e indignidades a ela associadas.
Nada me deu respostas. Continuei sem saber muito bem o que ando para aqui a fazer.
Bah ... tornei-me cínico, claro.
Agora, vou ajudando a minha filha nos inevitáveis desaires da sua vida, vou ajudando uma ou outra pessoa minha amiga, mais por incapacidade de fuga do que por vocação missionária, creio eu.
É este o sentido da minha vida ? Ou, pura e simplesmente, não haverá sentido nenhum para as nossas vidas e elas devem ser vividas descontraidamente, sem preocupações de chegar a lado nenhum ?
Ou, por outro lado, o grande sentido da vida está nas pequenas coisas como ouvir o miado matinal de saudação da minha gata ou dar um abraço a um amigo, borrifando-me totalmente para os grandes e poderosos e para as suas ridículas manias de salvadores do mundo ?
Gosto desta.
O sentido da vida está no sabor das pequenas coisas.
Fiquem-se com esta.
segunda-feira, abril 28, 2008
Ser dinheiro antes de ser humano, ter olhos em cifrão, vender fome e morte a baixo custo. Inventar deuses inexistentes ou irresponsáveis. Alienar principios, bondade, verdade.
Correr depressa, sempre cada vez mais depressa , fomentar sempre a competição. Fabricar perdedores obrigatórios. Crescer sempre para ganhar.
Produtividade, religião moderna : vamos todos para a China , lá trabalha-se muito e come-se pouco, apenas uma malga de arroz, abençoada globalização, agora quero ver os sindicatos ...
Possuir, possuir, cada vez mais, que se lixem os deserdados, que façam pela vida, são um bando de preguiçosos ...
Estou preocupado, contudo : a esperança fugiu daqui ! E na China também não a vi ... poderei continuar a ganhar assim tanto sem a esperança ao lado dos meus escravos ???
quinta-feira, abril 24, 2008

Há algo em Portugal que eu nunca entendi, confesso. Já vivi em outros países por tempo suficiente para perceber que é algo de profundamente lusitano. E também profundamente pernicioso. Dir-se-ia algo entre o masoquismo e o narcisismo ao contrário.Sabem do que falo ?
Deste sentimento tão português de descrença, de cinismo, de fatalismo, de miserabilismo.Mas não é tudo. Para lá desta mescla de sentimentos enviesados nota-se algo ainda mais surpreendente : um certo gosto pelo trágico-cómico, pelo teatro burlesco. Como entender de outra forma o apelo de Menezes a Jardim para se candidatar a lider do PSD ? Ou a intenção de Santana de se candidatar ?Confesso : não entendo este meu país. A parvoíce, a mediocridade e a desvergonha andam à solta ... ou sou eu que já não percebo nada de nada ?Alberto João Jardim, para lider do PSD ? Eh, eh, eh, eh ... este Menezes é um ponto. A menos que fosse para mostrar ao Mundo que no PSD ainda há piores que ele, no domínio das ideias tontas. Meu Deus ... E é com gente desta que podemos contar para fazer frente a Sócrates ? Sabem o que é pior ? Um destes dias começo a pensar que Sócrates deve ser um génio, de facto, neste país "exíguo", como lhe chama, apropriadamente, Adriano Moreira.
Exíguo de valores humanos.
Exíguo de sensatez.
Que havemos nós de fazer deste nosso País ?
sexta-feira, abril 11, 2008
Vivemos uma época de grande balburdia. Confusa, entaramelada, sem regras nem principios consensualmente aceites. É uma época sem brilho, sem grandeza, atafulhada de pequenos e grandes expedientes. Respira-se uma atmosfera de sobre-regulamentação em muitas áreas da nossa vida, ao mesmo tempo que, noutras áreas, pouco ou nada se respeitam outras coisas, com o maior dos à vontades. Somos protegidos de todos os tipos de bactérias e virus, por um lado, mas somos sujeitos a todas as espécies de agressões aos direitos e liberdades individuais, por outro. Que coisa estranha ...Ou talvez não : perante as duas realidades, qualquer pessoa que não seja imbecil, cedo descobrirá que a motivação verdadeira para todas estas coisas NÃO é o respeito pela PESSOA. Será respeito, ou amor, ou conveniência por outras coisas, mas pelo ser humano, não é.
Volto á minha sensação : vive-se uma autêntica peixeirada, não é ? Quais são os valores que ainda estão intactos, no Portugal de hoje ?No meio deste xarope delicodoce, vejo algumas linhas de força perfeitamente delineadas, em progressão subreptícia, lenta mas inexorável .
Uma primeira linha, a dos aprendizes de ditadores. Uns muito pouco experientes, ainda, outros já com tarimba. Uns e outros ultrapassaram a vergonha cultural e colectiva do passado salazarista, acham que é chegado o momento de talhar as coisas a seu gosto. Tanto na economia real das empresas, como na burocracia do poder político, os aprendizes pululam, ansiosos, despudorados, ávidos. A meta é a mesma : cortar, reduzir, mandar para a rua, poupar dinheiro nuns pobres desgraçados ( para poder gastar noutras coisas, mais giras ... ). Proibir está na ordem do dia. Seja o que for, desde o tabaco até ao piercing.
A segunda linha é mais astuta, aproveita as aberturas dos entusiastas da primeira linha ( no futebol chamar-se-ia a estas oportunidades, assistências ... ) para desviarem o máximo de recursos financeiros para os seus bolsos. Esta linha de actuação tem diferentes patamares, é claro : o patamar dos gajos ditos sérios que se deixam colocar em grandes empresas, obviamente pelos seus méritos profissionais ; o patamar dos gajos espertos que, investidos do poder para tal, incentivam hoje alguém a vender por 100 e amanhã arranjam uma empresa publica que o vai comprar por 1000 ; o patamar, mais ao nível do rés-do-chão, dos que aceitam descaradamente luvas em troca de favorecimentos ; o patamar ainda do tipo que angaria donativos para o partido e se esquece de metade desses donativos no porta-luvas do carro ... enfim, nunca mais acaba !
Em síntese : uns ameaçam, proibem e mandam calar, outros enriquecem, paulatinamente, sem alarido.
Como sempre, o Zé Povinho assiste, meio estonteado, meio incrédulo, a este regabofe.
Mas então - vocifera, com a saliva a escorrer-lhe dos lábios - mas então, não era o outro, o Salazar, mais o Tenreiro, que eram os maus da fita ?? Afinal, quantos Salazares e Tenreiros é que este país tem ?
sexta-feira, março 14, 2008
Esta noite estou cansado. Cansado, gasto, desiludido.
Passei o dia a resolver um problema informático, no computador de um amigo. Aquilo ia dando comigo em doido. Depois, de repente, apercebi-me que era sexta-feira e que não tinha combinado nada com ninguém. Por motivos vários, dei por mim como tantas e tantas vezes já me vi : sózinho, cansado, sem saber que fazer.
Á falta de melhor, fui recordando outras situações em que me senti assim, ao longo da vida : logo no início, quando estudava ainda no Técnico e vivia num quarto alugado para as bandas da Fonte Luminosa ; depois, em África, Moçambique, para onde a guerra colonial me atirou, por vezes em locais onde nem Deus saberia encontrar-me ; mais tarde, nos EUA, para onde fui estudar umas porcarias que de pouco me serviram ... outras vezes, como hoje, na minha casa, no meu quarto, sem vontade para sair e ir beber um copo ou ver um filme tardio.
Muitas vezes penso em mim como um homem solitário. Apesar de ter amigos e amigas, a minha filha e tudo isso. Sou, na essência, um tipo solitário e mal humorado, agora cada vez mais consciente da idade e do caminhar inexorável para outras paragens.
Sim, a morte, essa ideia que todos tentamos desesperadamente evitar ... como se isso fosse possível. Mas hoje também não quero pensar nisso : estou cansado e dá muito trabalho pensar no futuro. Acho que não consigo pensar, pura e simplesmente. As palavras que aqui vêem atrás umas das outras, são os meus dedos que as escrevem, não vieram do meu interior, acreditem.
Sei que, como eu, há milhões de outras pessoas, no Mundo, igualmente sós e igualmente cansadas e chateadas. Dá uma sensação de coisa normal, de algo que não é notícia. É verdade, somos muitos, os chateados deste Mundo, valha-nos isso.
Vai um brinde a todos nós ?
terça-feira, março 11, 2008
Factos : Sócrates venceu as ultimas eleições com maioria absoluta ; do respectivo programa eleitoral constavam algumas medidas para o ensino semelhantes ás que têm vindo a ser tomadas, sem entrar em pormenores ; os professores manifestaram-se contra a forma como essas medidas têm vindo a ser levadas à prática e contra alguns dos pormenores entretanto surgidos ; Sócrates afirma que não muda nem uma vírgula e que é ele que tem legitimidade política porque venceu as eleições ; se as coisas assim continuarem, a instabilidade tomará conta das Escolas e, no final, não se vê como é que o Ensino vai melhorar.
Comentários : a representatividade, em democracia, não pode NUNCA ser definitiva, irrevogável ou independente das condições concretas sob as quais se desenvolve.
Sendo uma forma de resolução de conflitos, em sociedade, a representatividade baseia a sua eficácia na permanente aceitação por todas as partes envolvidas, ou, pelo menos, pela maioria dessas partes. Quando tal equilíbrio se rompe, assumindo a contestação formas graves e ou muito expressivas, é preciso que a sociedade política possua mecanismos de regulação para estas roturas, designadamente :
- a re-análise por parte do Governo, com os novos dados do problema ;
- a intervenção da Assembleia da República, no âmbito do seu papel de fiscalização dos actos do Governo ;
- a intervenção do Presidente da República ( PR ).
No caso do actual conflito do ensino, em Portugal, seria de esperar que não fosse preciso passar do primeiro passo atrás referido : o Governo deveria reanalisar o assunto, com calma e ponderação, e introduzir as correcções indispensáveis. Tal como fez na escolha do novo aeroporto, tal como fez no caso da Saúde, pelo menos até certo ponto.
Neste caso, a obstinação de Sócrates e da senhora doutora Maria de Lurdes Rodrigues, não vão permitir tal coisa.
E lá vamos nós para o segundo nível de intervenção, a Assembleia da Republica (AR ).
Aí chegados, um novo obstáculo se levanta : alguém acredita na independência face ao Governo dos deputados eleitos pelo PS ? Pode a AR ser de facto um orgão de fiscalização do Governo, quando o Governo é que “manda” nos deputados da maioria ?
Cada um que responda, a minha resposta é NÃO ou MUITO DIFICILMENTE.
Sendo assim, resta-nos a ultima esperança constitucional de solução de conflitos : poderá o PR chamar o Governo ao bom-senso, forçando-o a olhar a realidade com flexibilidade e a esquecer ódios ( porque de ódio se trata, parece-me ... ) ?
Acredito que sim, Cavaco Silva é pessoa para isso, não impondo, que não está nas suas atribuições, mas convencendo, acalmando, sugerindo ...
Na minha opinião, será nessa instância que as coisas tomarão rumo, de uma forma mais ou menos expressa, provavelmente um pouco encapotada.
Para já, estamos na fase 2. Está agendada a discussão, na AR, no próximo dia 26, de duas propostas ( do CDS e PP, mas o PSD concorda ) para a suspensão da avaliação até ao próximo ano lectivo.
Veremos.
sábado, março 08, 2008
Digª Senhora Ministra da Educação :
Permita-me V.Exª que lhe explique algo que, pelos vistos, lhe tem escapado, não obstante a argúcia de que V.Exª tem dado mostra : sendo V. Exª uma pessoa dedicada de corpo e alma ao seu País, e, em particular, á nobre causa da Educação, empenhando-se V.Exª com todo o seu ser na identificação dos males do nosso Ensino e na adopção das consequentes medidas correctivas, sendo, portanto, V. Exª uma Ministra que ama o seu País e tão bem compreende as vicissitudes da Educação ... porque é que, aparentemente, 70 ou 75% dos Exmos Professores a detestam e afirmam que V. Exª já não tem mais condições de exercício do seu cargo ?
Suponho que V.Exª tem dado inumeras voltas no seu leito, intrigada, sem conseguir dormir, tentando entender esta intrigante contradição : amando V.Exª tanto o seu País e a Educação, como é que a Educação não ama V.Exª ?
Pois bem, eu tenho e ofereço a V. Exª a chave do imbróglio : a razão pela qual ninguém ama V.Exª esteve hoje bem patente na entrevista que V.Exª concedeu, em directo, á SIC. Afirmou então V.Exª que o facto de terem estado na rua 100.000 professores a protestar contra si é IRRELEVANTE.
Aí tem, Senhora Ministra, porque não a amam : V.Exª é possuidora de um raro dom de insensibilidade humana e política, V. Exª está-se nas tintas para as pessoas que neste momento são professores, V. Exª é fria como o aço, V.Exª não sente nunca empatia, nem respeito, nem consideração ... V. Exª nem se dá conta que, ao afirmar que 100.000 pessoas na rua são IRRELEVANTES, V.Exª desprezou-os totalmente, desprezou a realidade e tornou-se, a si própria, irrelevante.
Afinal, Senhora Ministra, era fácil perceber o segredo : V.Exª ama o seu País e o Ensino, mas quanto aos Professores ... a esses, odeia-os.
Desejo a V. Exa as maiores felicidades. E, sobretudo, desejo-lhe que consiga aprender a gostar dos outros e a não viver em conflito permanente com eles.