segunda-feira, abril 28, 2008

A ESPERANÇA E A PRODUTIVIDADE

Ser dinheiro antes de ser humano, ter olhos em cifrão, vender fome e morte a baixo custo. Inventar deuses inexistentes ou irresponsáveis. Alienar principios, bondade, verdade.
Correr depressa, sempre cada vez mais depressa , fomentar sempre a competição. Fabricar perdedores obrigatórios. Crescer sempre para ganhar.
Produtividade, religião moderna : vamos todos para a China , lá trabalha-se muito e come-se pouco, apenas uma malga de arroz, abençoada globalização, agora quero ver os sindicatos ...
Possuir, possuir, cada vez mais, que se lixem os deserdados, que façam pela vida, são um bando de preguiçosos ...
Estou preocupado, contudo : a esperança fugiu daqui ! E na China também não a vi ... poderei continuar a ganhar assim tanto sem a esperança ao lado dos meus escravos ???

quinta-feira, abril 24, 2008

OBRA JOCOSERIA ...



Há algo em Portugal que eu nunca entendi, confesso. Já vivi em outros países por tempo suficiente para perceber que é algo de profundamente lusitano. E também profundamente pernicioso. Dir-se-ia algo entre o masoquismo e o narcisismo ao contrário.Sabem do que falo ?


Deste sentimento tão português de descrença, de cinismo, de fatalismo, de miserabilismo.Mas não é tudo. Para lá desta mescla de sentimentos enviesados nota-se algo ainda mais surpreendente : um certo gosto pelo trágico-cómico, pelo teatro burlesco. Como entender de outra forma o apelo de Menezes a Jardim para se candidatar a lider do PSD ? Ou a intenção de Santana de se candidatar ?Confesso : não entendo este meu país. A parvoíce, a mediocridade e a desvergonha andam à solta ... ou sou eu que já não percebo nada de nada ?Alberto João Jardim, para lider do PSD ? Eh, eh, eh, eh ... este Menezes é um ponto. A menos que fosse para mostrar ao Mundo que no PSD ainda há piores que ele, no domínio das ideias tontas. Meu Deus ... E é com gente desta que podemos contar para fazer frente a Sócrates ? Sabem o que é pior ? Um destes dias começo a pensar que Sócrates deve ser um génio, de facto, neste país "exíguo", como lhe chama, apropriadamente, Adriano Moreira.
Exíguo de valores humanos.
Exíguo de sensatez.

Que havemos nós de fazer deste nosso País ?

sexta-feira, abril 11, 2008

QUE INGÉNUOS QUE NÓS FOMOS ...

Vivemos uma época de grande balburdia. Confusa, entaramelada, sem regras nem principios consensualmente aceites. É uma época sem brilho, sem grandeza, atafulhada de pequenos e grandes expedientes. Respira-se uma atmosfera de sobre-regulamentação em muitas áreas da nossa vida, ao mesmo tempo que, noutras áreas, pouco ou nada se respeitam outras coisas, com o maior dos à vontades. Somos protegidos de todos os tipos de bactérias e virus, por um lado, mas somos sujeitos a todas as espécies de agressões aos direitos e liberdades individuais, por outro. Que coisa estranha ...Ou talvez não : perante as duas realidades, qualquer pessoa que não seja imbecil, cedo descobrirá que a motivação verdadeira para todas estas coisas NÃO é o respeito pela PESSOA. Será respeito, ou amor, ou conveniência por outras coisas, mas pelo ser humano, não é.
Volto á minha sensação : vive-se uma autêntica peixeirada, não é ? Quais são os valores que ainda estão intactos, no Portugal de hoje ?No meio deste xarope delicodoce, vejo algumas linhas de força perfeitamente delineadas, em progressão subreptícia, lenta mas inexorável .

Uma primeira linha, a dos aprendizes de ditadores. Uns muito pouco experientes, ainda, outros já com tarimba. Uns e outros ultrapassaram a vergonha cultural e colectiva do passado salazarista, acham que é chegado o momento de talhar as coisas a seu gosto. Tanto na economia real das empresas, como na burocracia do poder político, os aprendizes pululam, ansiosos, despudorados, ávidos. A meta é a mesma : cortar, reduzir, mandar para a rua, poupar dinheiro nuns pobres desgraçados ( para poder gastar noutras coisas, mais giras ... ). Proibir está na ordem do dia. Seja o que for, desde o tabaco até ao piercing.

A segunda linha é mais astuta, aproveita as aberturas dos entusiastas da primeira linha ( no futebol chamar-se-ia a estas oportunidades, assistências ... ) para desviarem o máximo de recursos financeiros para os seus bolsos. Esta linha de actuação tem diferentes patamares, é claro : o patamar dos gajos ditos sérios que se deixam colocar em grandes empresas, obviamente pelos seus méritos profissionais ; o patamar dos gajos espertos que, investidos do poder para tal, incentivam hoje alguém a vender por 100 e amanhã arranjam uma empresa publica que o vai comprar por 1000 ; o patamar, mais ao nível do rés-do-chão, dos que aceitam descaradamente luvas em troca de favorecimentos ; o patamar ainda do tipo que angaria donativos para o partido e se esquece de metade desses donativos no porta-luvas do carro ... enfim, nunca mais acaba !

Em síntese : uns ameaçam, proibem e mandam calar, outros enriquecem, paulatinamente, sem alarido.
Como sempre, o Zé Povinho assiste, meio estonteado, meio incrédulo, a este regabofe.
Mas então - vocifera, com a saliva a escorrer-lhe dos lábios - mas então, não era o outro, o Salazar, mais o Tenreiro, que eram os maus da fita ?? Afinal, quantos Salazares e Tenreiros é que este país tem ?

sexta-feira, março 14, 2008

QUE VIDA ESTA, MEU DEUS !

Esta noite estou cansado. Cansado, gasto, desiludido.
Passei o dia a resolver um problema informático, no computador de um amigo. Aquilo ia dando comigo em doido. Depois, de repente, apercebi-me que era sexta-feira e que não tinha combinado nada com ninguém. Por motivos vários, dei por mim como tantas e tantas vezes já me vi : sózinho, cansado, sem saber que fazer.
Á falta de melhor, fui recordando outras situações em que me senti assim, ao longo da vida : logo no início, quando estudava ainda no Técnico e vivia num quarto alugado para as bandas da Fonte Luminosa ; depois, em África, Moçambique, para onde a guerra colonial me atirou, por vezes em locais onde nem Deus saberia encontrar-me ; mais tarde, nos EUA, para onde fui estudar umas porcarias que de pouco me serviram ... outras vezes, como hoje, na minha casa, no meu quarto, sem vontade para sair e ir beber um copo ou ver um filme tardio.
Muitas vezes penso em mim como um homem solitário. Apesar de ter amigos e amigas, a minha filha e tudo isso. Sou, na essência, um tipo solitário e mal humorado, agora cada vez mais consciente da idade e do caminhar inexorável para outras paragens.
Sim, a morte, essa ideia que todos tentamos desesperadamente evitar ... como se isso fosse possível. Mas hoje também não quero pensar nisso : estou cansado e dá muito trabalho pensar no futuro. Acho que não consigo pensar, pura e simplesmente. As palavras que aqui vêem atrás umas das outras, são os meus dedos que as escrevem, não vieram do meu interior, acreditem.
Sei que, como eu, há milhões de outras pessoas, no Mundo, igualmente sós e igualmente cansadas e chateadas. Dá uma sensação de coisa normal, de algo que não é notícia. É verdade, somos muitos, os chateados deste Mundo, valha-nos isso.
Vai um brinde a todos nós ?

terça-feira, março 11, 2008

OS MECANISMOS DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA

Factos : Sócrates venceu as ultimas eleições com maioria absoluta ; do respectivo programa eleitoral constavam algumas medidas para o ensino semelhantes ás que têm vindo a ser tomadas, sem entrar em pormenores ; os professores manifestaram-se contra a forma como essas medidas têm vindo a ser levadas à prática e contra alguns dos pormenores entretanto surgidos ; Sócrates afirma que não muda nem uma vírgula e que é ele que tem legitimidade política porque venceu as eleições ; se as coisas assim continuarem, a instabilidade tomará conta das Escolas e, no final, não se vê como é que o Ensino vai melhorar.

Comentários : a representatividade, em democracia, não pode NUNCA ser definitiva, irrevogável ou independente das condições concretas sob as quais se desenvolve.
Sendo uma forma de resolução de conflitos, em sociedade, a representatividade baseia a sua eficácia na permanente aceitação por todas as partes envolvidas, ou, pelo menos, pela maioria dessas partes. Quando tal equilíbrio se rompe, assumindo a contestação formas graves e ou muito expressivas, é preciso que a sociedade política possua mecanismos de regulação para estas roturas, designadamente :

- a re-análise por parte do Governo, com os novos dados do problema ;
- a intervenção da Assembleia da República, no âmbito do seu papel de fiscalização dos actos do Governo ;
- a intervenção do Presidente da República ( PR ).

No caso do actual conflito do ensino, em Portugal, seria de esperar que não fosse preciso passar do primeiro passo atrás referido : o Governo deveria reanalisar o assunto, com calma e ponderação, e introduzir as correcções indispensáveis. Tal como fez na escolha do novo aeroporto, tal como fez no caso da Saúde, pelo menos até certo ponto.
Neste caso, a obstinação de Sócrates e da senhora doutora Maria de Lurdes Rodrigues, não vão permitir tal coisa.
E lá vamos nós para o segundo nível de intervenção, a Assembleia da Republica (AR ).
Aí chegados, um novo obstáculo se levanta : alguém acredita na independência face ao Governo dos deputados eleitos pelo PS ? Pode a AR ser de facto um orgão de fiscalização do Governo, quando o Governo é que “manda” nos deputados da maioria ?
Cada um que responda, a minha resposta é NÃO ou MUITO DIFICILMENTE.
Sendo assim, resta-nos a ultima esperança constitucional de solução de conflitos : poderá o PR chamar o Governo ao bom-senso, forçando-o a olhar a realidade com flexibilidade e a esquecer ódios ( porque de ódio se trata, parece-me ... ) ?
Acredito que sim, Cavaco Silva é pessoa para isso, não impondo, que não está nas suas atribuições, mas convencendo, acalmando, sugerindo ...
Na minha opinião, será nessa instância que as coisas tomarão rumo, de uma forma mais ou menos expressa, provavelmente um pouco encapotada.
Para já, estamos na fase 2. Está agendada a discussão, na AR, no próximo dia 26, de duas propostas ( do CDS e PP, mas o PSD concorda ) para a suspensão da avaliação até ao próximo ano lectivo.
Veremos.

sábado, março 08, 2008

CARTA A UMA MINISTRA MAL AMADA

Digª Senhora Ministra da Educação :

Permita-me V.Exª que lhe explique algo que, pelos vistos, lhe tem escapado, não obstante a argúcia de que V.Exª tem dado mostra : sendo V. Exª uma pessoa dedicada de corpo e alma ao seu País, e, em particular, á nobre causa da Educação, empenhando-se V.Exª com todo o seu ser na identificação dos males do nosso Ensino e na adopção das consequentes medidas correctivas, sendo, portanto, V. Exª uma Ministra que ama o seu País e tão bem compreende as vicissitudes da Educação ... porque é que, aparentemente, 70 ou 75% dos Exmos Professores a detestam e afirmam que V. Exª já não tem mais condições de exercício do seu cargo ?
Suponho que V.Exª tem dado inumeras voltas no seu leito, intrigada, sem conseguir dormir, tentando entender esta intrigante contradição : amando V.Exª tanto o seu País e a Educação, como é que a Educação não ama V.Exª ?

Pois bem, eu tenho e ofereço a V. Exª a chave do imbróglio : a razão pela qual ninguém ama V.Exª esteve hoje bem patente na entrevista que V.Exª concedeu, em directo, á SIC. Afirmou então V.Exª que o facto de terem estado na rua 100.000 professores a protestar contra si é IRRELEVANTE.
Aí tem, Senhora Ministra, porque não a amam : V.Exª é possuidora de um raro dom de insensibilidade humana e política, V. Exª está-se nas tintas para as pessoas que neste momento são professores, V. Exª é fria como o aço, V.Exª não sente nunca empatia, nem respeito, nem consideração ... V. Exª nem se dá conta que, ao afirmar que 100.000 pessoas na rua são IRRELEVANTES, V.Exª desprezou-os totalmente, desprezou a realidade e tornou-se, a si própria, irrelevante.
Afinal, Senhora Ministra, era fácil perceber o segredo : V.Exª ama o seu País e o Ensino, mas quanto aos Professores ... a esses, odeia-os.

Desejo a V. Exa as maiores felicidades. E, sobretudo, desejo-lhe que consiga aprender a gostar dos outros e a não viver em conflito permanente com eles.

sexta-feira, março 07, 2008

HUMILDADE NA GOVERNAÇÃO, PRECISA-SE ...

A senhora ministra da educação bem podia ser uma criatura mais sensata e sensível.
Alguém lhe disse que, para ser ministra, tinha que ser assim, implacável, surda e cega ... acho que a enganaram.
Se foi o senhor primeiro-ministro quem assim a aconselhou, bem mal andou. Embora outra coisa não fosse de esperar, já que também ele padece do mesmo mal.
Digo-vos, sinceramente : por muito medíocre que Portugal seja, estas duas pessoas não nos fazem falta nenhuma como governantes. Assumo claramente : o meu país estaria bem melhor se ambos se retirassem, num rasgo de clarividência e humildade.
Vindas não se sabe de onde, assumem-se na política como semi-deuses que tudo sabem e tudo podem, não se permitindo nunca uma duvida ou uma atitude de consenso, esticando até aos ultimos limites a noção de democracia representativa, desprezando arrogantemente todos os que se lhes opõem.
Pessoas destas, tão enquistadas, tão convencidas das suas poções milagrosas, tão soberbas, tão absurdamente fechadas aos outros, não deviam nunca ser governantes. Falta-lhes a humildade de quem sabe poder estar errado, falta-lhes a tolerância para as ideias dos outros e a sensibilidade para os seus problemas, falta-lhes a paciência dos que sabem operar a mudança, falta-lhes a sabedoria e o instinto de verdadeiros lideres.
Um lider, ainda que conduza a sua gente para ambientes de perigo e sacrifício, é capaz de suscitar entusiasmo e mesmo paixão.
Estes dois governantes, o que conseguem é fazer quase o pleno de entusiasmos e paixões … contra os seus projectos e ideias. Não é assim que se muda nada, a mudança não pode ser feita á força e de afogadilho, por mais votos que se tenham recolhido nas eleições.
A representatividade política, em democracia, não pode excluir o respeito pelas opiniões e legítimos interesses dos outros. Muito menos podem os eleitos retirar aos outros a sua dignidade.
Quando se olha muito para o umbigo não se enxerga o país.

quarta-feira, março 05, 2008

EM RECONQUISTA DA DIGNIDADE PERDIDA

É nova, esta dinâmica de luta e oposição que tem vindo a reunir professores por todo o país.
Sábado iremos assistir a uma grande manifestação, tudo o indica, talvez a primeira da era das novas tecnologias de comunicação.
Telemóveis, correio electrónico, blogues, todos estes novos meios uniram pessoas e ultrapassaram os velhos sindicatos, lentos, legalistas e burocratizados.
Na sua mágoa de iluminado incompreendido, Sócrates vai notar, afinal, que estas coisas das tecnologias da comunicação podem funcionar de muitas formas, umas boas ... e outras igualmente boas, mas para os outros.
Presumo que este venha a ser um dos raciocínios do Primeiro-Ministro, surpreendido por esta atitude daqueles a quem alguém chamou “professorzecos”, na Assembleia da República.
Que eu saiba, ele não lhes chamou isso, mas fez pior : directa ou indirectamente, por processos directos ou mais enviezados, acusou-os de trabalhar pouco e ganhar demasiado, de quererem todos chegar ao topo da carreira, de faltarem muito, de terem horários reduzidos, de serem os responsáveis pelos variadíssimos males do ensino.
Privilegiados, foi a palavra que circulou por toda a parte.
Este Governo fez isso de que o acuso directamente : caluniou os professores. Fez o mesmo com os militares, a quem dedica idêntico desprezo. Fez isso com a generalidade dos servidores do Estado, que assistiram a tudo, atónitos, enquanto viam os Valas deste País tomar de assalto as máquinas de dinheiro ...
Por isso, declaro alto e bom som a minha profunda simpatia pela manifestação de sábado dos professores, em reconquista da dignidade perdida.
Espero que todos eles sintam, bem fundo dentro de si, a dignidade de quem luta, a força de quem não desiste nem abdica de ser português e profissional do ensino.
A todos eles, do fundo do meu coração, o meu grito de solidariedade !
E o meu obrigado. Estão a restituir-me fé no povo português.

terça-feira, março 04, 2008

APOIO OBAMA ... E A MINHA GATA LILI !

Estou farto de política, esta noite. Estou com um olho nas primárias americanas, ando secretamente a torcer pelo Obama, como de resto 3/4 do Mundo, não sei bem porquê. O homem trouxe a palavra mágica mudança e mudança é esperança. Bem, mas dizia eu que entre Obama, a senhora Clinton e a nossa inesquecível senhora ministra da educação, hoje apostei ... na Lili, a nossa gata voadora. Está mais crescida, embora seja pequenita . É de uma raça originária da Turquia, chamada Van Turca, porque o seu habitat originário é nas margens do lago Van. É isso ... e é uma gata totalmente ás avessas das gatas normais e decentes : imaginem que gosta de água, gosta de se equilibrar em cima das ombreiras das portas ... e gosta de derrubar para o chão tudo que apanha em cima de mesas e armários. Uma doçura ! Nem tudo é mau : é uma gata muito faladora e gosta muito de estar onde nós estamos, faz uma boa companhia. Mia que se farta, embora me seja ainda dificil perceber a sua linguagem. Excepto quando me acorda, ás 6 ou 7 da manhã, a miar desalmadamente aos meus ouvidos ou a puxar-me um dos braços para fora da cama. Aí percebo bem : quer uma latinha de salmão ou coisa do género. E as unicas alternativas que me restam são expulsá-la do quarto e fechar-lhe a porta ... ou ir-lhe dar mesmo a latinha, porque de resto é uma chata do caraças e não se cala !
Para que possam apreciar um pouco da Lili, mostro-vos hoje um video que fiz com ela, a partir da minha webcam. O video não ficou famoso, mas ainda assim podem vê-la a tentar destruir á dentada a antena do meu router wireless de ligação á internet. É mesmo uma gracinha !
E por hoje é tudo, fiquem-se com a Lili, sim ?
( clicar na seta para ver o video )

A AVALIAÇÃO DE PROFESSORES E OS APRENDIZES DE FEITICEIRO

Paula é professora de Matemática do Ensino Secundário. Jovem ainda, vai nos seus 35 anos e quase 12 de profissão. É uma professora devotada, prepara as suas aulas, elabora os seus testes com todo o cuidado. É também exigente, acredita nas virtudes do trabalho, passa TPC, corrige-os sempre e procura dar o máximo apoio aos seus alunos. Alguns, porém, por atrasos impossíveis de recuperar, outros por nítida falta de esforço e trabalho, ficam-se pelas notas fraquinhas,muito fraquinhas, mesmo.
Paula é mãe de 2 filhos ainda pequenos e, ocasionalmente, tem que faltar para dar apoio aos filhos, embora se esforce para compensar o tempo perdido e acabe sempre por cumprir as metas do programa. Não é muito comunicativa, a nossa Paula, e apesar de ter algumas amigas, prefere dar as suas aulas e , após isso, isolar-se na preparação das aulas seguintes, a ver testes, etc ... Paula é uma mulher-lider, não obstante a sua idade, criando sempre um ambiente de respeito na sua sala de aulas, embora onde talvez se respire um pouco de tensão reprimida.
A Escola da Paula desenvolveu dois grupos distintos de grelhas de avaliação. Dois conjuntos de factores.
O primeiro usa os seguintes factores : planeamento das aulas, assiduidade, ligação á comunidade, resultados na progressão dos alunos e capacidade de empatia na sala de aula.
O outro escolheu planeamento das aulas, cumprimento do programa, adesão ás iniciativas extra-curriculares da Escola, resultados na progressão dos alunos e capacidade de liderança na sala de aulas. Todos os factores têm igual peso e uma escala de valores de 1 a 10.
Vejamos como foi ( ou podia ter sido ) avaliada a Paula.


Num caso, a Paula teria uma boa avaliação, enquanto que no outro a avaliação seria para o fraquito.
Qual seria a diferença ? A Paula é a mesma, o seu trabalho é o mesmo, os avaliadores até teriam sido os mesmos ... então ?
A grelha de avaliação NÃO foi a mesma !!!! E a "habilidade" da Paula na escolha dos objectivos também não foi a mesma ...
AH, CLARO, A GRELHA DE AVALIAÇÃO ... pois é, é apenas o factor mais importante e decisivo de qualquer sistema de avaliação. Também é o mais complexo e dificil de escolher. Andei envolvido num projecto de sistema de avaliação em que esse trabalho nos levou cerca de ano e meio !!!
Então agora PASME-SE : A GRELHA DE AVALIAÇÃO FOI REMETIDA PELO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PARA TRABALHO DAS ESCOLAS .... a fazer em algumas poucas semanas !!!
Assim mesmo : as Escolas que façam esse trabalho. Mesmo sem perceberem nada de avaliação e dos multiplos cuidados a ter no desnvolvimento de uma grelha de avaliação. As Escolas que escolham umas quantas de uma lista fornecida ...
Claro que não vão existir duas grelhas iguais. Claro que estará á partida comprometida a equidade no tratamento dos professores. Claro que só por acaso é que surgirão grelhas boas nas Escolas ... o Ministério da Educação fugiu do trabalho mais complicado, mais delicado e que mais controvérsia poderia suscitar.
Para mim, ao atirar esta responsabilidade para as Escolas, tirou coerência, credibilidade e mais do que isso, LEGITIMIDADE, a todo o Projecto.
A avaliação de Professores NUNCA deverá avançar nestes moldes, por estar ferida de morte na sua concepção inicial.
Nunca deve ser tarde demais para tornar boa uma coisa má.
Ou é mais importante que a Srª Ministra e o Sr. Primeiro-Ministro não percam a face ?

segunda-feira, março 03, 2008


ESTA MINISTRA DA EDUCAÇÃO ESTÁ ERRADA !

A Educação funciona mal, em Portugal, em todos os níveis. Há mais de 40 anos que começou a entrar pelo cano ... e eu tenho sido espectador atento, diga-se.
O sistema está hoje em colapso quase completo e não há sinais de recuperação. Nem sequer de um início de recuperação. Não há qualquer esperança para a educação no nosso País, nos próximos tempos. Acham que sou pessimista ? Vejamos.
O que é educar ? É assim algo tão extraordinário e dificil ?
Claro que não. Educar é apenas um processo que os humanos inventaram para transmitir, de geração em geração, conhecimentos e atitudes, em muitas áreas ; é apenas uma forma de evitarmos recuos no saber e no saber fazer. Nos primeiros tempos do homem, esta transmissão era feita dentro dos clãs, na tribo, a partir dos pais, mães e de todos, no fundo, ao mesmo tempo que as coisas iam acontecendo.
Mais tarde, descobriu-se uma forma diferente e muito mais especializada para a transmissão do saber : a escola. Arranjava-se um espaço, metiam-se os putos lá dentro, punha-se um professor com uma chibata á frente dos alunos, ele falava e os putos ouviam e repetiam, era a escola no seu paradigma inicial.
Foi um descanso ! Essa invenção poupava os pais do trabalho de ensinar os meninos, agora era só verificar, á noite, se eles tinham aprendido alguma coisa ou não ... excelente.
O tempo correu, os pais cada vez mais ocupados e com menos tempo, as escolas cada vez maiores, os conhecimentos a transmitir cada vez mais numerosos e complexos !
Não me vou meter por essa discussão, mas o importante é que hoje há milhões de bits de informação, provindos de cada vez mais áreas humanisticas e técnicas, que queremos meter nas cabeças de um numero cada vez maior de putos, pelos processos habituais ... mas a um custo cada vez menor e, se possível, num tempo mais curto.
Ainda por cima, queremos fazer isto sem dor nem suor, como se de um jogo de computador se tratasse, sem necessidade de estudo e de reflexão.
Mais, tudo isto num ambiente em que, no fundo, ninguém está disposto a mexer uma palha, lá em casa, para ensinar aos meninos a ser disciplinados, a trabalhar, a respeitar os professores, etc ... Quanto a essa de respeitar os professores, até se vive exactamente ao invés, tentando a todo o custo que os putos percam todo o respeito por eles, seja por via dos estatutos de alunos seja a desacreditar publicamente os mesmos.
Bom, seja como for, esta é a situação a que se chegou. Um caos, de facto. Há que mudar paradigmas, formas de resolver o problema, sei lá ...
E é aqui que se revela o génio deste Governo e desta Ministra : olhando esta realidade, o Governo achou que se devia mexer ... nas regalias dos professores. ( Lembram-se do cientista maluco que ia cortando as pernas a uma rã, uma a seguir a outra, e depois assustava a rã com um grito, fazendo a rã saltar ? Esse tipo concluiu que a rã, quando se lhe cortava a quarta pata, fica ... surda. )
Está-se mesmo a ver : o ensino está a desordem, o caos que está, não é ? Tumba, tira-se da cartola os professores titulares, com um novo estatuto dos professores em que só metade é que irá progredir, fixam-se quotas, faz-se á pressa um sistema de avaliação côxo e atamancado, cuja unica preocupação é legitimar a não-promoção dos professores, edita-se um novo estatuto do aluno ( que logo depois se suspende ) decretando-se que podem faltar á fartazana sem consequências, etc ... etc ...
Como podem ver, se tiveram paciência de ler até aqui, tudo medidas apropriadíssimas, apontadas ao cerne do problema ! Com medidas destas, o ensino vai mesmo melhorar, caramba, são medidas inteligentes, bem vistas, próprias de pessoas excepcionalmente dotadas para estas coisas do ensino !
Agora notem o requinte : sabendo á partida que os professores são gente esconsa e fugidia, sempre prontos a boicotar o ensino, o ministério adoptou desde o início uma postura própria de um ministro das cadeias a legislar para com os reclusos : força na marreta e eles que se lixem, não queremos saber deles para nada ! Uma simpatia, medidas bem discutidas e acertadas com os professores, cuidado na defesa do seu estatuto de vida, tudo com uma enorme simpatia e respeito, não me venham dizer o contrário !

Pois. E é exactamente por causa disto tudo que os professores agora dizem ( e ainda vão dizer mais ) BASTA !
É que, seja eu de que partido for ( nenhum ), não sou estúpido, e não consigo encontrar em NENHUMA das diversas medidas do Ministério uma preocupação sincera com a degradação do ensino.
Apenas encontro a preocupação de reduzir a factura com o pessoal, no Ministério. Misturada com uma espécie de raiva surda e inconfessada contra eles, os professores.
Sabem, não posso deixar de lhes dar razão, não posso deixar de os aplaudir, não posso deixar de lhes gritar : FORÇA, rapaziada, FORÇA, professores, LUTEM PELA DIGNIDADE QUE VOS É DEVIDA !

domingo, março 02, 2008

PARA QUE RAIO SERVEM AS ASSOCIAÇÕES DE PAIS ?

Leitor : acha que existem mais professores ou pais de alunos ? Hem ?
Pais ? Se calhar, existem 30 ou 40 pais e mães para cada professor.
Pois bem : li no jornal de hoje que se reuniu, em Gondomar, uma qualquer Confederação de Pais, juntando a extraordinária quantidade de 300 pais/mães, em representação de cerca de 200 associações de pais em todo o País…
A notícia ocupava quase 2/3 da página do jornal e dava conta que esses interessados pais achavam muito bem a actuação da srª Ministra e das suas reformas e aconselhava os senhores professores a abandonar as suas atitudes de luta.
Boa : 300 pais, reunidos em Gondomar, acham que mais de 20 ou 30.000 professores que se têm manifestado em todo o País por estes dias são mentecaptos, irracionais e que quem tem razão é a senhora Ministra.
É desolador : quando as pessoas deixam de ter liberdade de opinião e preferem ser mensageiros acéfalos dos seus partidos é nisto que dá.
Então mas aqueles senhores da Federação ou Confederação ou lá o que é ainda não perceberam que não deviam falar em nome dos pais dos alunos deste País, tão reduzida é a expressão da sua representatividade ?
Nestas pequenas questões, como nas grandes, os portugueses não abandonam as suas poses seguidistas e ridículas.
Pronto, já muitos me irão bater, mas eu quero que se lixe : esta cena fez-me lembrar o início da UGT .
E mais não digo, porque não me apetece.

sábado, março 01, 2008


OS FAMOSOS E AS CAUSAS HUMANITÁRIAS
De há uns anos para cá, as Nações Unidas têm recorrido aos célebres deste nosso mundo para missões de ajuda humanitária.
Trata-se de uma actividade que essas pessoas abraçam empenhadamente, segundo parece.
A minha proposta de hoje é aproveitar essas actividades para suscitar uma discussão, muito simples na sua formulação, mas que pode servir para mostrar como é difícil, tantas vezes, formar uma opinião fundamentada sobre a realidade.
Antes de mais, notemos que os factos apresentam diferentes valorações consoante o local onde nos situemos :

- Se estivermos do lado das Nações Unidas, a medida é inteligente e não duvido que tenha algum impacto : a notoriedade dos e das embaixadoras escolhidas garante a presença nos meios de comunicação de todo o Mundo do problema para o qual se pretende chamar a atenção ;

- Do lado das celebridades escolhidas, o terreno é mais movediço. Podemos admitir que algumas dessas pessoas sejam sensíveis, de facto, às atrocidades humanitárias que presenciam; ainda assim, parece insofismável que para eles advém igualmente um acréscimo de popularidade, potenciada pelo facto de se tratar de uma actividade que a opinião publica valoriza grandemente ;

Após esta análise, poderemos afirmar que, com estas iniciativas, todos ganham ? As Nações Unidas, as vítimas das atrocidades e ... as próprias celebridades.
Assim parece.

E contudo, porque é que ainda sinto uma certa crispação quando leio notícias destas ?
Então, hoje, neste Mundo maluco e desnorteado, para que uma causa justa seja conhecida, para levar as pessoas a preocuparem-se com o que se passa á sua volta, é preciso ouvirem a Angelina Jolie ou o Brad Pitt ou a Maddona a falar disso ?

Valha-me Jesus Cristo, que apesar de tudo, dentro das celebridades, ainda é aquela que mais admiro e em quem mais confio : tem outros méritos, não faz filmes, não canta e, ao que parece, nunca foi a Hollywood.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

LIDERES POLÍTICOS A SÉRIO, PRECISAM-SE ...

Este PS é um espanto.
Não me entendam mal, o PSD é hoje um Partido suicida, mas o PS ... é o máximo.
Para quem conheceu o PS de Soares, Salgado Zenha ou Alegre, mesmo o PS de Ferro Rodrigues, este partido neo-liberal, acobertado na antiga sigla, é bem o sinal dos tempos que vivemos. Vou começar a chamar-lhe PS*, é forçoso que sejamos rigorosos. Uma coisa é ( era ) o PS, outra bem diferente é o PS*.
Hoje, bem cedo, veio o inefável e simpático porta-voz do partido afirmar em público, por causa de sondagem recente, que o PS* continua com “níveis altíssimos” de popularidade, enquanto o PSD desceu 3 pontos percentuais... e o senhor estava felicíssimo, ao fazer esta afirmação. Conclui logo que isso se devia ao apoio dos portugueses ás medidas do Governo.
Tristeza ... é isto a política, hoje ? A arte de fingir que não se percebe a realidade ?
Claro que o PS* não tem culpa de NÃO EXISTIR ALTERNATIVA CREDÍVEL á sua política. Claro que o PSD não precisou para nada do PS* para se auto-mutilar, com lideres que nunca o deveriam ter sido. O PS* não é responsável, é verdade, mas os portugueses ainda o são menos, diga-se em aparte.
Estranho, estranho e mesmo preocupante é que o PS leia os resultados da sondagem como se os numeros significassem um apoio e concordância á sua política. As pessoas atingidas pelas medidas do PS* reagem, um pouco em todos os sectores, um pouco por todo o país. Do Governo temos visto discordar professores, médicos, juízes, utentes do SNS, militares, EMPRESÁRIOS ( localização do novo aeroporto, por exº, Belmiro de Azevedo, outro exemplo, quanto ao fisco ) , fiscalistas, reformados actuais e futuros ... mas toda esta gente é irrelevante para o Governo. Para eles, só o mundo virtual onde vivem é que conta e todas estas pessoas um bando de privilegiados. Estão a prejudicar gravemente todos estes sectores sociais, estão a despertar em toda a sociedade uma agressividade que não augura nada de bom ... mas estão muito felizes, acham que estão a governar lindamente.
Ainda não perceberam : NUNCA MAIS vão ter outra vez a maioria absoluta que o desvario do governo de Santana Lopes provocou. NUNCA MAIS se vão poder armar em ditadores eleitos, arrogantes e provocadores, insultando tantos grupos sociais, provocando tantas feridas e tão graves no nosso tecido social.
Mais : no dia em que o PSD se deixar de brincadeiras e arranjar um lider credível que saiba transmitir esperança ao país, este PS* vai á vida.
É essa realidade que este PS* se recusa a ver.
E daí, talvez não. Talvez até o percebam.

PS – Obviamente que não é apenas o PSD que precisa inventar um líder credível, com um PROJECTO POLÍTICO para o país.
O PS* também.

VIVER EM PORTUGAL HOJE DESMORALIZA-ME

Ninguém é obrigado a gostar do seu país, mas eu gosto. Por muitos motivos.
Gosto tanto que abracei, muito novo, uma carreira que me exigia uma disponibilidade total, incluindo a da minha própria vida, na defesa desse mesmo país.
Nunca me arrependi dessa decisão, continuo a amar o meu país, embora seja dificil hoje descortinar esse país no meio da floresta de horrores que alguém nele plantou.
É verdade, mudou muito, este meu país.
Era um país infeliz, atrasado e amordaçado.
Hoje é um país amedrontado, paralizado, desorientado e profundamente desigual.
Cheira a incerteza, a desânimo, a falta de esperança.
Portugal é de novo um país infeliz.
Cansa muito, é extenuante, viver agora no meu país.
Dói, cada minuto que passa. Custa a respirar.
Luto, todos os dias, para não cair no ódio.
Quero voltar a amar o meu país, não adianta odiar quem não o respeita.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

O GAMANÇO EM BANDA LARGA

No Portugal de hoje, a unica coisa genuina é o gamanço. Nunca vi tantos a sacar como agora. Em toda a parte. Empresas publicas e privadas, a unica diferença é onde se saca, se no bolso do povo em geral se no do accionista. O saque é contínuo e atingiu o nível do despudor, ou seja, em Portugal , sacar deixou de ser mal visto em sociedade. Perdeu-se a vergonha. Não se hesita em subir escandalosamente os vencimentos, nos conselhos de administração, para quantias que fariam corar de vergonha qualquer pessoa, há bem pouco tempo. Oferecem-se milhões de euros para que os cirurgiões operem, para que os médicos das unidades de familia trabalhem, enquanto em contrapartida se mantêm os outros funcionários sem aumentos nem promoções há anos. Um ministro despacha uns problemas da Iberdrola e logo após o fim do seu mandato vai para administrador da mesma Iberdrola.Temos um responável do nosso banco central a ganhar muito mais que o seu congénere nos EUA. Há cidadãos impedidos de se reformarem, porque ainda não têm não sei quantos anos ou não sei quantos anos de serviço, enquanto outros acumulam várias pensões, bem boas por sinal, arranjadas em meia duzia de anos de serviço aqui e acolá.
No Governo, gastam-se anualmente uns bons milhões de euros a pagar estudos, projectos, assessorias a empresas privadas, enquanto os serviços do Estado que poderiam desnvolver esses trabalhos são desprezados.
Pedem-se sacrifícios ao povo, enquanto esse mesmo povo lê, atónito, que o senhor fulano tal levou 10 ou 20 milhões de euros de indemnização, quando saiu do banco. MILHÕES, amigos, MILHÕES.
Fica-se banzado, não é ?
Quem são estes gajos, estes supra-sumos, estas inteligências avassaladoras ? Quem é toda esta gente apressada, venal, sem vergonha, criaturas cinzentas, de olhar esconso, mãos velozes e dissimuladas, ávidos, a salivarem, empurrando-se uns aos outros por mais um tachozito ?
Quem são, afinal, estes senhores ?
A resposta é simples : são, apenas e tão sómente, vulgares saqueadores.
Ou rapineiros, se preferirem.
E nós, os outros, somos os saqueados, os rapinados.
Ou parvos, se preferirem.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

SÓCRATES E O ZORRO

Sócrates é uma espécie de Zorro ao contrário, um Zorro em negativo.
Em vez do poderoso cavalo negro, monta apenas umas sapatilhas Nike, em despropositadas cenas de jogging nos locais mais inverosímeis.
Em vez de tirar aos ricos, deixa-os enriquecer ainda mais, enquanto vai esmifrando os desgraçados dos funcionários e da classe média para tapar o buraco das contas públicas.
A espada que celebrizou o Zorro, em Sócrates é apenas um telefone, mais virado para as redacções dos jornais e das televisões que para os vilões deste País.
A célebre mascarilha do Zorro é diferente em Sócrates : Zorro usava-a para não cair nas mãos do poder, Sócrates usa-a para que o poder lhe caia nas mãos.
Num, a mascarilha era de tecido negro e colocava-a nos olhos, durante a acção; no outro, a mascarilha é invisível e usa-a nas palavras, para camuflar a acção.
Zorro tinha como inimigos o Governo e os grandes senhores da terra ; para Sócrates, os inimigos são os professores, os utentes que ainda restam do Serviço Nacional de Saúde, os privilegiados do passe social, os chatos dos desempregados, a classe média em geral.
No final, Zorro transformou-se num mito romântico de homem de bem, herói querido pelo povo.
Sócrates, se Deus e os homens não adormecerem, há-de voltar a ser aquilo que nunca deveria ter deixado de ser : um homem anónimo como tantos outros, sem grandeza nem generosidade, sem qualquer visão de futuro para o seu País, a quem ninguém nunca amou.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

A NOVA TRAVESSIA FERROVIÁRIA DO TEJO PARA O NOVO AEROPORTO DE LISBOA

Hoje vou dar a conhecer o trabalho de um grande amigo meu. O engº de aeródromos José Lopes, distinto oficial da Força Aérea Portuguesa, é um amigo de longos anos, companheiro de andanças várias e senhor de uma sólida formação técnica. Para além de tudo isso, é pessoa voluntariosa e ainda suficientemente bem intencionada para gostar da sua Pátria e lhe querer dar o seu esforço e contributo.
Deste modo - assim mesmo, sem desejo de honras nem proventos - resolveu dedicar tempo e massa cinzenta ao problema que está em cima da mesa, depois da decisão governamental de construir o Novo Aeroporto de Lisboa ( NAL ) nos terrenos do Campo de Tiro de Alcochete.
É preciso agora pensar nas ligações ao NAL, tanto ferroviárias como rodoviárias, e na(s) consequente(s) travessias do Tejo. Acresce que essas ligações devem ser pensadas em conjunto, obviamente, com o traçado das ligações do TGV para Norte, Sul e Madrid. E ainda, com a actual rede ferroviária da REFER.

Se dedicarem 5 minutos a este tema ( sei que não é dos tópicos mais agradáveis para uma boa digestão ... ) depressa chegarão á conclusão que há aqui muitas variáveis e portanto muitas soluções diferentes : a empresa responsável pela futura rede de alta velocidade ( a RAVE ) tem uma solução, implicando a travessia do Tejo de Chelas ao Barreiro, mas o meu amigo José Lopes descobriu uma solução mais simples e elegante : a travessia Olaias-Montijo, começando no alto das Olaias e terminando quase junto da margem sul da Vasco da Gama, perto daquela zona de serviço que lá existe, lembram-se ?

Pessoalmente, acho que a solução J. Lopes tem vantagens e olha para o problema de uma forma integrada, isto é, tenta encontrar um equilíbrio entre todas as componentes do problema.



Podem fazer uma ideia da solução, ao examinar a figura junto. Cliquem na figura e vê-la-ão ampliada em todo o écran, regressem depois a esta página, OK ?

Há alguns pontos a destacar nesta solução que agora vos apresento :



1) Liga todos os pontos importantes : Portela, novo aeroporto, TGV, rede clássica da REFER, etc ...




2) A ponte Olaias-Montijo evita qualquer problema ( como rebaixamento em tunel, sobre-elevação, etc ... ) de cotas sobre o Tejo, para salvaguarda dos canais de navegação, uma vez que parte, nas Oaias, da cota +50 ( 50 m acima do nível do mar ) e chega á margem sul á mesma cota da Vasco da Gama ( mais ou menos ), com um pequeno acerto na trajectória para não "incomodar" as operações aéreas da Base da Força Aérea no Montijo.


3) O trajecto Olaias-Montijo é mais curto que na solução da REFER ( que podem ver no gráfico seguinte ) ; o trajecto total até ao Novo Aeroporto é também bastante mais curto.


4) As ligações para Norte do TGV são redesenhadas, passando a correr, até Santarém, pela margem esquerda do Tejo, com melhores condições de orografia e espaço disponível.


5) A nova Estação Central de Lisboa, nas Olaias, onde confluem a rede clássica da REFER, na linha de cintura de Lisboa, o TGV, o shuttle para o novo aeroporto e a rede de Metro passa a constituir o nó central de todas estas redes.



Enfim... é só vantagens, creio eu. Mas como não quero que "engulam" isto sem conhecimento de causa, vejam neste segundo gráfico o traçado proposto pela RAVE, incluindo a travessia Chelas-Barreiro.


Espero não vos ter aborrecido muito com este tema. Achei que era meu dever ajudar a divulgar as ideias do meu amigo, dado que se trata de um especialista nestas coisas mas que, apesar de tudo, não tem facilidade na sua divulgação.
Devo ainda acrescentar que esta proposta foi defendida pelo Engº Lopes no recente seminário que sobre este tema decorreu no LNEC, com a presença de todas as entidades intervenientes.

Se gostarem, divulguem o endereço do blogue pelos vossos amigos, OK ?
Um até breve e ... o meu obrigado !

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

UM INFELIZ CONVICTO

Não consigo ser feliz.
Nunca consegui, acho eu.
Oiço os outros falar da sua felicidade, das coisas que lhes dão prazer e só consigo pensar que não os entendo.
Se tenho tido ao longo da minha vida momentos de alguma alegria e esquecimento, tenho sempre a sensação que foram breves e um pouco por acaso.
Não gosto de muitas coisas que parecem agradar a quase todos os outros, o que é receita certa para não conseguir ligar-me bem a ninguém.
Não gosto de viajar, pelo menos da maneira que a maior parte gosta.
Não gosto de concertos de música séria, e fujo a sete pés dos outros, tipo Tina Turner em Alvalade.
Não gosto de teatro, óh blasfémia.
Não sinto prazer em ballet, clássico ou moderno.
Coisas como o flamengo fazem-me sono.
Nos ultimos tempos, dei por mim a aborrecer a praia, a achar estupido secar ao sol.
( Continuo a gostar do mar, mas isso não é popular ! )
Não me seduz o jogo, seja ele roleta ou slot-machines. Nem acho ponta de piada em ir jantar ao Casino e ver umas boazudas a rebolarem-se no palco.
Não gosto de conversas amáveis, desprovidas de emoção ou de polémica.
Não gosto de pessoas tolas, mesquinhas, egoistas ou que têm pavor da morte.
Odeio filmes tipo Harry não sei quantos, o jovem feiticeiro.
Sempre senti aversão pelo fado de Lisboa, nunca fui a uma casa de fados.
Odeio pessoas que dizem “está provado que” a anteceder uma qualquer afirmação patusca.
Odiei a Expo, percebi perfeitamente para que iria aquilo servir e a quem iria favorecer, nunca lá pus os pés.
Odeio a trafulhice, a mentira, a hipocrisia, o carreirismo, o partidarismo, o oportunismo, a mediocridade de valores.
Odeio os novos-ricos e também alguns dos velhos.
Odeio a maior parte dos padres e aquilo que esqueceram de Jesus Cristo, um dos meus heróis de puto.
Odeio muito daquilo em que Portugal se está a transformar.
Detesto festas com muita gente, todos muito determinados em se “divertirem”.
Sou indiferente a parques temáticos tipo Walt Disney.
As ultimas vezes que vi futebol só consegui pensar em árbitros venais e dirigentes corruptos. E jogadores pançudos de tanto dinheiro e tão pouco interessados em jogar futebol.
Conservo ainda valores dentro de mim, acho eu, mas já nem me lembro exactamente de quais.
Há ainda muita coisa de que gosto, claro, mas com todas estas coisas que odeio ou ás quais sou indiferente, como vou conseguir ligar-me aos que me rodeiam e ser “feliz” ?
Acham que alguém como eu, com tantos pontos negros, tantos “não gosto” e “odeio” poderia alguma vez ser feliz em Portugal ?

Acho que me vou resignar a ser infeliz.
Como sempre.

PS – Não tentem experimentar estas habilidades em casa, são coisas perigosas que só devem fazer na presença de profissionais qualificados em cinismo e em pessimismo e com todas as medidas de segurança activadas. Fiquem-se pelo gostar de todas estas coisas, é muito mais seguro.

sábado, fevereiro 09, 2008

DIREITO Á INDIGNAÇÃO OU INCAPACIDADE DE INDIGNAÇÃO ?

A divulgação na imprensa de actos pessoais de figuras públicas, ilícitos ou anti-éticos, é um imperativo de qualquer regime democrático. É um mecanismo de controlo, por excelência, sem o qual esses actos ficarão sempre ocultos e, consequentemente, sem sanção jurídica ou política.
Concordamos todos que é assim ?
Beeeeeeeeemmm, nem sempre, diria eu.

Quando essas denúncias acontecem em Portugal, no tempo presente, nada se passa.
Pelo menos, nada de visível.
É como se nada nos pudesse já indignar ou fazer admirar. Como se já tivéssemos visto tudo, sem qualquer consequência. Descremos da equidade e oportunidade da justiça, não acreditamos também nas consequências eleitorais futuras desses actos. O que sabemos, isso sim, é que Isaltino Morais e Fátima Felgueiras andam para aí há ANOS para ser julgados ... e nunca mais se vê nada. Entretanto, são reeleitos.

Em Portugal, quando alguém como o actual bastonário da Ordem dos Advogados diz publicamente algo QUE TODOS NÓS SABEMOS, cai-lhe em cima o Carmo e a Trindade, clamam que o homem é populista e demagogo, um desmiolado, um perigo para a sociedade ...
Pois, é mesmo : um perigo ! Só que não é para a sociedade, é um perigo para este reino da paz podre e do faz de conta, um perigo para o saque desavergonhado em que a nossa vida publica se está a transformar.

Como entidade colectiva, a parte urbana da sociedade portuguesa apodreceu. Cheira mal, tal como a boca do Dantas, nas palavras de Almada Negreiros, embora ele próprio não cheirasse a rosas, acho eu.
Portugal urbano perdeu o pudor, perdeu a capacidade de se indignar. Há demasiada gente entretida a sacar o que pode, enquanto outros andam distraidos a olhar para o futebol. Há demasida gente pronta a culpar os jornais, em vez de censurar os autores dos actos investigados pelos jornais. Há sempre alguém que resiste, dizia o Adriano Correia de Oliveira, mas isso era dantes : agora há sempre alguém que encolhe os ombros e diz : “O gajo fez isso ? Então e depois ? Onde está a gravidade ? Todos eles são assim, uma cambada, que se lixe !”

Mário Soares falava do direito á indignação, certo ? Pois agora do que se trata é da incapacidade de indignação, já não há quem queira exercer esse direito.

Não é verdade, ainda há Pessoas. Mas são poucas, muito poucas.

Nada disto vem a propósito de Sócrates e das suas assinaturas em projectos de moradias lá para as faldas da serra ... Não, desta vez não é Sócrates que me entristece. Ou não é apenas Sócrates.
É o País.
Este País que eu sempre amei, este País que eu jurei defender, mesmo com o risco da própria vida, este País está a ficar um esgoto putrefacto e nauseabundo.
Este desgraçado País está cheio de merda !