quarta-feira, maio 30, 2007

QUATRO QUESTÕES

Penso que as coisas se passam assim muitas vezes : um homem ( ou mulher ) sente-se atraido pelo poder e canditata-se a umas quaisquer eleições. Faz promessas, escreve um programa de acção, tenta dar de si uma imagem de credibilidade.
É eleito ... e logo depois de eleito começam a acontecer coisas estranhas.
A primeira de todas é que esse eleito se vê rodeado, por norma, por um grande numero de pessoas que o adulam, sempre dispostas a satisfazer todas as suas necessidades ou caprichos. Gabinetes bem decorados, palácios lindos, bons carros, batedores na estrada quando se desloca, guarda-costas, ajudantes, restaurantes caros, viagens por esse Mundo, eu sei lá. Tudo em nome do prestígio que o cargo deve ter. Tudo em nosso nome e por nós pago ( naturalmente, what else ?, como diz o George Clooney em recente comercial ), tudo para que esse senhor ou senhora tenha boas condições do exercicio da função.

Primeira questão : todas essas mordomias são assim tão importantes para o bom exercício do cargo, ou trata-se claramente de um aproveitamento da situação ?

Segunda questão : com a vida tão “blindada” e “fashion” que esses eleitos levam, como é que de facto conhecem a nossa vida e os nossos problemas ? Apenas por ouvir falar, não é ?

Continuemos.
O nosso eleito, uma vez no poder, esquece-se rapidamente do seu programa e das suas promessas e faz exactamente o oposto, como se fosse a coisa mais natural.
Ao fim de algum tempo, dentro da sua cabeça, surgem conceitos e motivações estranhos. Começa a convencer-se daquilo que os seus acólitos lhe dizem, ele ( ela ) é que tem razão, ele ( ou ela ) são uma dádiva de Deus ao povo. As opiniões contrárias são cansativas e desmotivadoras, por um lado, por outro impedem o êxito das acções que tão inteligentemente iniciou.
É mais ou menos por essa altura que se esboça a tendência ( natural, afinal ... ) de tentar impedir as vozes contrárias. Qualquer discussão é estúpida e infecunda, todos os que se lhe opõem apenas o fazem porque lhe invejam o poder. Quem pode levar o País a bom porto é ele ( ou ela ), como se atrevem a fazê-lo perder tempo ?
Esta auto-ilusão é tanto maior quanto menor for a capacidade intelectual do nosso eleito ( ou eleita ), isto é, os “pequenos cérebros” são muito mais rápidos a acreditarem na sua genialidade que os realmente lideres. Se bem percorrerem a lista dos ditadores vão encontrar, de uma forma muito generalizada, homens com pouca cultura e capacidade intelectual. De facto, se pensarmos bem, só um idiota se julga um deus, não é ?

Terceira questão : recusemos como nossos lideres os homens iluminados, que pensam ter sempre razão. Escolhamos homens e mulheres que saibam ouvir e só depois decidir, não idiotas que se julgam génios e se recusam a ouvir os outros.

Prossigamos.
O nosso candidato a génio começa a sentir-se perseguido. Ninguém o entende, ninguém admira a sua devoção á Pátria. Começa então com o comportamento do acossado : compra pessoas, oferece tachos aos seus inimigos, move influências para calar vozes incómodas, manipula dentro do seu partido.
Numa fase seguinte, e se o ambiente geral é propício, encerra estações de TV ou jornais, ou impõe a censura prévia, ou cria um clima de medo.

Quarta questão : NUNCA se deixem calar, essa é a condição sine qua non de um regime livre. Digam as asneiras que quiserem, berrem ou falem baixinho, mas NUNCA, NUNCA se deixem calar.
Se se calarem, se se deixarem amordaçar, estarão a transformar um qualquer pseudo-iluminado num ditador e irão sofrer-lhe as consequências.


Tudo isto dito, perguntarão de quem estou eu a falar. De Sócrates ?
Não, senhoras e senhores, não é de Sócrates que falo, é de todos os homens ou mulheres que escolhermos para nos representar. A natureza humana é aquilo que é, e já Sócrates, o filósofo, o sabia.
Nunca deixem as rédeas muito soltas, os homens ( e as mulheres ) são apenas seres humanos ...

quarta-feira, maio 23, 2007

APRESENTO-LHES A LILI

Esta é a Lili, a minha nova gatinha residente. Como podem ver é branca, tem o rabo e as orelhas cinzento escuro e o pelo é maior que o habitual para estes bichanos sem raça.
É uma jovem gata de forte personalidade, corajosa e muito faladora. Trouxemo-la ( a minha filha e eu ) para casa com o pretexto de fazer companhia ao Pipoca, o nosso outro gato amarelo de que se lembrarão os leitores mais "velhotes".
Agora, aqui em casa, é o desassossego total : são correrias intermináveis, frequentemente pautadas por agudas guinchadelas da Lili, quando o Pipoca a lambe mais furiosamente ou lhe dá uma mordidela de namorado menos terna numa perna. Vinga-se logo a seguir, não se preocupem ( ou não seja uma ela ... ), atirando-se em vôo picado para lhe morder o rabo. O Pipoca fica com um ar vagamente ofendido, mas depressa lhe passa. Finalmente, extenuados ( ele mais depressa que ela ) estiram-se ao comprido nos pés da minha cama e adormecem ao pé um do outro.
A verdade é que estes bichanos me transmitem ternura e tranquilidade, ao contrário dos dignos senhores que escolhemos para serem governantes.
Mérito dos gatos ? Demérito dos governantes ?

segunda-feira, maio 21, 2007

SÃO PROIBIDAS AS BOCAS SOBRE A LICENCIATURA DO SR. PRIMEIRO-MINISTRO !
Leram o meu post anterior ? Se não leram, sugiro que comecem por aí.
Hoje é imperioso que fale de algo inaudito acontecido num orgão do Ministério da Educação, a Direcção Regional do Norte.
O caso conta-se em três palavras : um professor destacado nesse orgão do Estado ( notem bem, ser um orgão do Estado não significa ser um orgão do Governo ... ), enquanto trabalhava, deu uma “boca” para um colega do lado, sobre a licenciatura do Primeiro-Ministro. A piada ( de que se desconhece o teor ) chegou ao conhecimento da senhora directora regional, que, pasme-se, logo ordenou a abertura de um auto de averiguações a que logo se seguiu, segundo parece, o respectivo processo disciplinar. Enquanto isso, o professor foi preventivamente suspenso e logo mandado regressar á sua Escola de origem, que quem trabalha num Ministério não pode mandar bocas ao Governo !
Claro que o caso foi imediatamente levado a Tribunal Administrativo pelo tal professor. E bem.
Mas que raio de importância viu a senhora directora regional numa piada sobre algo que toda a gente sabe que foi um processo atribulado, pouco ortodoxo e ainda por clarificar totalmente ? Quem lhe encomendou tal atitude persecutória, porque motivo se abespinhou daquela forma por uma boca ?
Este caso terá alguma importância ou tratar-se-á apenas de um fait divers, uma funcionária pública excessivamente zelosa ?
Em meu entender, é paradigmático, e ilustra bem o teor do meu anterior post. É assim que “as coisas” começam, é assim que os “intocáveis” são criados, é desta forma que se pretende colar fita adesiva na boca das pessoas, é a maneira que a gente pequena tem de evitar a oposição.
Não acredito que a zelosa funcionária pública tenha recebido ordens de alguém do Governo para não permitir desaforos relacionados com a licenciatura do Primeiro-Ministro. No que acredito é no excesso de zelo, misturado com temor reverencial, temperado com uma pitadinha de fé na divindade sacrossanta de um Primeiro-Ministro. Ou quem sabe, na esperança de que esse zelo seja recompensado na vida eterna. Ou na actual, bem terrena. De qualquer forma, aqueles a quem chamamos mais papistas que o Papa são frequentemente os primeiros ( ou segundos, não me interessa a ordem ! ) responsáveis pela criação de um clima horroroso de intolerância e de perseguição.
Conheci bem o processo nos tempos de Salazar, com a simpática Pide a policiar tudo e todos, mesmo cafés, bares e cinemas, e nem mesmo nessa época os funcionários públicos dos escalões médio/alto denunciavam ou perseguiam os seus colegas por uma boca contra o Governo.
Este caso é totalmente inaudito, reafirmo.
Preocupante, mesmo.
Vamos seguir este assunto com interesse.

segunda-feira, maio 14, 2007

Autoridades ...

Não sei o que vocês pensam, mas este país está demasiado autoritário para o meu gosto. Autoritário, ouviram bem.
Vivi no tempo de Salazar e Caetano ( e não gostei ), vivi o 25 de Abril ( e tive esperança ) , atravessei o turbulento PREC ( e senti-me mal, francamente ), mas nunca vivi uma época como a que atravessamos : enquanto formalmente tudo leva a crer que se trata de uma democracia, vive-se de facto uma época pré-autoritária.
O registo auto-suficiente e convencido do Primeiro-Ministro, a sua impaciência para com as discordâncias e críticas, a sua pose de iluminado, a sua reacção no caso da licenciatura, tentando silenciar os orgãos de comunicação, todos estes tiques indiciam um modo autoritário de entender e exercer o poder.
Os autoritarismos começam sempre por atitudes deste género, potenciadas e ampliadas depois pela indiferença, complacência ou adesão entusiástica de parte significativa dos governados.
Ademais, sabemos bem como os autoritarismos nascem e se alimentam de certas circunstâncias : uma situação económica dificil ( um déficit a combater, por exemplo ) e um inimigo comum a grande parte da população, sejam eles os monárquicos, os seguidores do imperador, os comunistas, os ricos, os judeus ou ... os funcionários públicos.
Estou a acusar o Primeiro-Ministro de tentar instalar um regime autoritário ? Não, não é isso que afirmo. O que sustento é que o seu estilo, as suas opções políticas e os homens de que se rodeou fazem-nos andar á deriva em águas turbulentas, muito perigosas, sem verdadeiramente sabermos para onde vamos e, o que é pior, sem termos consciência do perigo.
Olhem á volta : o fisco e a segurança social penhoram tudo aos devedores, contas bancárias, salários, automóveis, certificados de aforro, imóveis ; a ASAE invade feiras, restaurantes, mercados, armazéns, põe tudo a ferro e fogo, multa, prende, encerra, apreende ; o Governo muda todas as regras do jogo, baixa pensões, sobe idades para a reforma, destrói vínculos de trabalho e subsistemas de saúde no funcionalismo público, fecha hospitais, maternidades e circulos judiciais, a Ministra da Educação trata os professores como meliantes, corta-lhes direitos e sorri, convencida da sua razão.
Tudo é feito apressadamente, atabalhoadamente, sem estudos nem explicações, como se nos quisessem apanhar a todos distraidos, estilo aeroporto da Ota. As coisas são feitas acintosamente, com uma espécie de raiva surda que não se sabe de onde vem mas que se lê claramente no semblante das diversas autoridades no exercício das suas funções. De resto, elas, essas mesmas autoridades, proliferam como cogumelos, cada uma delas mais autoridade que as outras, umas por expressa recomendação superior, outras por impregnação osmótica do estilo autoritário do chefe, as restantes para não ficarem atrás das primeiras, todas elas empenhadas na sua nobre missão de serem autoridade.
Ainda por cima, muitas dessas autoridades invocam a defesa dos nossos direitos, defesa que não me lembro de lhes ter delegado ; sim, eu até gosto de comer uma fartura nessas feiras populares que agora a ASAE tão diligente e afanosamente persegue por atentado á saude publica !!
As polícias crescem por toda a parte, neste frenesim autoritário, neste verdadeiro bacanal da tutela das nossas vontades : agora já há polícias municipais, polícias da higiene alimentar, polícias da empresa de estacionamento de Lisboa, inspectores da TV Cabo, que sei eu ...
Mas há mais, há mecanismos de segurança : se alguma destas autoridades, por excesso de zelo e manifesta incompreensão dos governados, acabar por cair no furioso desagrado publico, chama-se a RTP e faz-se um daqueles programas de absolvição e desculpabilização que todos conhecem, com convidados escolhidos a dedo.
Acham que não, que eu exagero ? Viram atentamente o “Prós e Contras” da RTP1 sobre a política de educação ou sobre a ASAE ? São capazes de me dizer para que serviram aqueles programas ?
Tudo isto sem esquecer a actuação da inefável Entidade Reguladora para a Comunicação Social ( essa, não sei se por vergonha ou falta de atrevimento, não se chama autoridade ... ) a impor quotas á RTP, para tratar o Governo e a oposição, metade para o Governo e PS e a outra metade para o resto do mundo. A isto se chama equitatividade e independência, não é ?
Vejam ainda os sinais preocupantes da constituição de uma designada Comissão da Carteira ( profissional dos jornalistas ), destinada não se sabe a que tipo de controlo sobre os mesmos, que provavelmente tenderá, no futuro, a chamar-se Autoridade para o Controlo da Ética Jornalística, ou coisa do género.

Vá lá, não se distraiam, por favor : olhem atentamente á nossa volta. Olhem, vejam, sintam, reajam.
Que nunca ninguém venha a dizer , mais tarde, que nunca pensou que ... ou que foi apanhado desprevenido.
É que sim, senhor, é preciso autoridade ... mas, com mil demónios, tanta autoridade assim já irrita, ninguém lhes passou procuração para criar um Estado tutelar, paternalista e autoritário, onde já nem fumar se pode.

quarta-feira, maio 09, 2007

Portugal tornou-se uma imensa lixeira.
Por toda a parte se sente o cheiro nauseabundo de um país em decomposição.
Deambulamos por este País, tontos e sufocados de tanta podridão, sem uma réstea de esperança, sem um pouco de ar limpo.
Os partidos políticos tornaram-se em clubes de emprego e em promotores de negócios, as juventudes partidárias em escolas de oportunismo, os clubes de futebol em lobbies de interesses, agências de negócios e viveiros de deliquentes, as câmaras municipais em escolas práticas de corrupção, as televisões e jornais em simulacros de contrapoder, as escolas e universidades em fábricas de canudos e de ignorantes, as forças de segurança e os militares em gente desmotivada e amordaçada, a generalidade do povo num bando de subnutridos e mal pagos.
No meio desta lixeira, eles, os que gostam destes ambientes, singram com vento pela popa, velas enfunadas, a toda a velocidade. Combinam-se negócios chorudos, compram-se terrenos por um e vendem-se por dez, aceitam-se milhões por aquele empurrãozito, deliberam-se em assembleia salários principescos mesmo em empresas arruinadas, inventam-se empresas e institutos públicos, arranjam-se empregos chorudos para os filhos, netos, primos e primas, até para o filho da mulher a dias, compram-se os ultimos modelos dos carros topo de gama, os andares de luxo, as vivendas na quinta da marinha ...
De onde vem o dinheiro para tudo isto ?
É fácil. Muito simples, mesmo : enquanto a conta bancária deles cresce todos os meses 20 ou 25.000 euros, vai-se impondo a moderação salarial, que não se pode pagar mais a quem trabalha, a produtividade é muito baixa, baixam-se os salários reais todos os anos, retiram-se regalias, corta-se nas despesas de saúde dos outros ... enfim, de corte em corte, são muitos os milhões que ficam disponíveis para eles, percebem não percebem ?
Entretanto, vão eles preparando também o futurozinho ... neste estado de coisas, não há melhor segurança na velhice que fazer uns favorzitos aos grupos económicos, abrir-lhes caminho para investimentos em áreas de grande lucro, como a saúde e as reformas, por exemplo, eles hão-de lembrar-se de nós mais tarde ...

E o povo ? E o País ?
Ora, o povo sempre resistiu a tudo, o País há-de sobreviver ... e, se não sobreviver, os espanhóis compram o que sobrar...
Portanto, who cares ?

terça-feira, março 29, 2005

HOJE ESTOU NUMA DE INTELECTUAL !

Se hoje parecer um pouco pedante ou fora do meu registo habitual, peço desde já desculpa ao leitor. Mas leiam, não se vão já embora, isto não é assim tão chato como pensam ...
No PÚBLICO de hoje, Eduardo Prado Coelho ( EPC ) lembra Jean Paul Sartre, a quem chama o intelectual dos intelectuais , tanto no título da crónica como no seu final, em jeito de conclusão, lembrando embora figuras contemporâneas de Sartre, e que dele divergiam, como Michel Foucault ou Raymond Aron.
É claro que a figura de Sartre foi omnipresente, na geração de EPC ( que é a minha, mais ou menos ). Sartre multiplicou as suas actividades pelas obras de filosofia, teatro, jornalismo e política, pelo menos. Sartre foi uma espécie de ícone do pensamento de esquerda para várias gerações. Sartre era um homem com um apetite voraz pelo reconhecimento público, pela notoriedade. Sartre foi, de facto, um intelectual com uma influência enorme no seu tempo.
Contudo, quem conheça os aspectos mais pragmáticos da vida de Sartre, sabe que ele foi obrigado a fazer “cambalhotas” diversas, tentando acomodar as suas ideias á realidade que ia sendo conhecida. Frequentemente errou análises políticas, desprezou ou não viu nenhuma ameaça em fenómenos como o surgimento do nazismo, com Hitler, tentou justificar os campos de concentração soviéticos ( os gulags ), não se importou nada de permanecer na França ocupada pelos nazis na 2ª Guerra Mundial ( enquanto R. Aron, por exemplo, fugiu para Inglaterra e combateu de lá, como pôde, os alemães ) e mais uma série de actos falhados, errados, incoerentes ...
Conheci Sartre durante o PREC, quando veio a Portugal tentar perceber in loco o que tinha sido a Revolução dos Cravos. Eu ainda não tinha 30 anos e Sartre estava velho, viria a falecer pouco tempo depois. Ele fez perguntas, teceu comentários, deu conselhos : achei-o meio tonto, incoerente, sem ter percebido o que estava a ver ( insistia nos soldados, que eles é que deviam fazer isto e aquilo, etc ... ).
Bom, não liguem á minha opinião, atentem só nos outros factos que vos contei.
Agora reparem : que estranha noção de intelectual é esta, que faz Eduardo Prado Coelho chamar o intelectual dos intelectuais a um homem que quase nunca percebeu a realidade que o cercava ( lembrem-se que Sartre era sociólogo, hem ... ) e cujas apostas na mudança da sociedade foram quase sempre falhadas ??
Aparentemente, somos tanto mais intelectuais quanto maiores forem os nossos erros ao teorizar sobre a sociedade e a sua mudança. Desde que publiquemos uma data de livros, façamos artigos em jornais e revistas e andemos pelo mundo fora a "mandar" bocas. E desde que saibamos também cair nas boas graças dos auto intitulados revolucionários de todo o Mundo.
Ah, antes que me acusem : eu até gostava ( e gosto ) de Sartre e li dele muita coisa. Mas, como dizia o maluco á porta do manicómio, "sou maluco mas não sou estúpido !".

quinta-feira, março 24, 2005

NOTÍCIAS DA FUGA ( ATRAVÉS DO RASGO NO NEVOEIRO )

Já há muito que não escrevo neste blogue. Daí não vem nenhum mal ao Mundo, claro. Mas sinto-me incomodado, quando noto nas estatisticas que meia dúzia de leitores vieram cá frequentemente ver se “o gajo escreveu qq coisa de jeito” ... e não encontram nada !
É que as coisas nem sempre correm de molde a empurrar-me para a escrita. Ou as musas foram de férias, ou eu não fui e precisava, ou o assunto escasseia ou eu é que escasseio.
Uma coisa dessas, rica, sei lá ... como diria uma tia da linha. Está a veeeer ?
A verdade é que tenho andado um pouco baralhado. Aquele salto no desconhecido, através do buraco no nevoeiro, não resultou tão bem quanto eu esperava ...
Quando caí, tive azar : em vez de terra macia mas firme, encontrei uma espécie de terreno movediço, tão depressa sólido como logo a seguir completamente líquido e borbulhante, capaz de tragar até a minha alma, quanto mais o meu corpo. Ou seja, a liberdade tem os seus custos e eu ando ainda a pagá-los. Com juros, claro.
Bem, a coisa não foi assim tão má como isso. Simplesmente, tenho dificuldade em perceber as mulheres. Tão depressa me parecem dizer que sim como logo a seguir percebo que afinal era não, mas um não que poderia ser um talvez ou até mesmo um sim desde que ... adiante, acho que a auto-estrada para os Açores já vai adiantada, sabem?, tenho que ir ver as obras.
Mas já agora fiquem-se só com esta : a coisa até meteu um bailarico á maneira numa tenda instalada no Centro Cultural de Belém ... mas sobre isso contar-vos-ei depois, a coisa foi complicada, com tangos, valsas, paso-dobles e outras relíquias de antanho. E o vosso amigo, atrapalhado e a suar, esquecido do manual dos anos 60 !
Enfim, sabem que mais ? Tempus trampis, que é como quem diz : está um tempo da trampa, nem chove nem é Primavera. Preparem-se, um destes dias a hora vai mudar e então não sei como vai ser : se com esta hora já as coisas iam mal nem quero saber o que será com a nova, ainda inexperiente, novinha em folha ...
Vou-me mas é embora, por hoje. Façam loucuras, em especial antes de morrer. Depois é mais dificil.
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sexta-feira, março 18, 2005

A INEFÁVEL SANTIDADE DOS DEFENSORES DA CASA PIA

Este processo da Casa Pia já me faz cócegas nos neurónios há muito tempo. É um daqueles casos que servem de catarse colectiva e, o que é pior, de fervoroso e hipócrita júbilo de “beatos” compungidos, armados em defensores da moralidade pública e das normas dos bons costumes sociais, preparados para colher, mais cedo ou mais tarde, os louros bem terrenos dessa sua enorme firmeza moral !
Por mim, confesso, pouco me preocupam os aspectos sexo-morais do caso, a menos que me demonstrem que os putos envolvidos são, de facto, vítimas e não pequenos prostitutos e homossexuais a ganharem uns trocos e umas passeatas.
Tremo só de pensar nos danos que este famigerado caso já provocou neste país de bons costumes ( quando os outros estão a ver ... )e das atenções que desviou de coisas verdadeiramente importantes da nossa vida colectiva. Lembram-se, por exemplo, dos ataques ao PS ? Bem, acho que o tiro lhes saiu pela culatra, mas apesar de tudo o Ferro Rodrigues não é o líder do PS, pois não ?
Agora, essa inefável e beatífica figura que se chama Catalina Pestana ( integra defensora e prosélita de Santana Lopes nas ultimas eleições, diga-se ) imbuída de um fervor justiceiro e de uma auréola de imaculada, vem dizer coisas espantosas no seu testemunho em pleno Tribunal. Pasmem : diz a senhora ( a fazer fé na comunicação social ) que uns alunos lhe disseram que na década de 70 e 80 havia uma organização de pedofilia holandesa ( ou algo do género ) à qual pertencia Carlos Cruz e outros... E acrescenta, uma jovem aluna disse-lhe que, uma vez que tinha ido a casa do embaixador Ritto, tinha lá visto uma foto do mesmo Carlos Cruz !
Pérolas autênticas, estas afirmações. Disseram-lhe uns alunos, vítimas da pedofilia, diz ela. E diz isto em pleno Tribunal.
Se isto é mesmo assim, já não sei que raio é o direito, em Portugal. Então eu vou a Tribunal, como testemunha, afirmar que houve uns gajos ( sempre em segredo, para não os matarem, decerto ) que me disseram que a Dª Catalina Pestana não faz a mínima ideia do que deveria ser uma gestão séria da Casa Pia ???
Até pode ser verdade, notem, mas isto não é ético, caramba. Eu devo dizer aquilo que sei, não aquilo que ouvi dizer, sem garantia nenhuma de que seja verdade.
Ou já não é assim ??? Já vale tudo ?
Por falar em gestão séria da Casa Pia, já leram que há uma data de putos, num dos colégios da Casa Pia que já acham que podem fazer o que quiserem ? Como estão protegidos ... então vá de bater em professoras e outras coisas idênticas ...
Mas claro que nada disto é grave : as professoras são de maior idade e o caso não tem o impacto de uma orgia pedófila, não é ? É pouco grave, não dá direito a julgamento nenhum e a Dª Catalina Pestana pode dormir sossegada.
Enfim, vamo-nos vendo por aí ...
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quarta-feira, março 16, 2005

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O RASGO NO NEVOEIRO
Há assim momentos, como o de hoje, em que o denso nevoeiro se abre um pouco e consigo vislumbrar vultos, movimento, até cores, do outro lado da estrada. Pouco interessa conhecer os detalhes, acho que tu vais entender. Na tua vida já também aconteceram episódios destes : de repente, tudo parece possível, até mesmo aquela fatia de luz, cor e calor pela qual anseias há tanto tempo. Mas tem cuidado, é preciso aproveitar a aberta, atravessa o nevoeiro enquanto ele não se refaz e recobre de novo o buraco. Não hesites, estas oportunidades não se compadecem com medos, tibiezas ou duvidas exageradas. É preciso estar pronto para saltar, como se a tua vida disso dependesse. E depende, acredita.
Por mim, estou farto deste nevoeiro cinzento, húmido e opaco que me cerca há algum tempo. As coisas à minha volta perdem o contorno, esbatem-se, ficam reduzidas a uma massa informe e incolor. Asfixio. Esbracejo. Grito por vezes. Outras vezes vivo conformado e triste. A maior parte do tempo, finjo que sou homem, mas no fundo sou uma espécie de plasticina cinzenta que já nem sequer se cola a nada. Na verdade, tenho tido medo, algumas vezes, de atravessar o buraco no nevoeiro.
Hoje vai ser diferente. Hoje não há nevoeiro que me impeça de ver a verdade. Vou saltar pelo rasgo que se abriu, mesmo sem saber bem onde ele me leva.
Também, que tenho a perder ? Pior que este vazio não é de certeza.
Desculpem, tenho de ir, vou tentar a minha sorte ... ooooooops ....

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sábado, março 12, 2005

UM NOVO GOVERNO

O novo governo do engº José Socrates toma hoje posse. Começo por não saber exactamente de que é que eles vão tomar posse, uma vez que nestes tempos desvairados o lugar de ministro pouco conteúdo tem. Por um lado a Europa omnipresente, tonta e burocrática, por outro o poder dos grupos empresariais. A verdade nua e crua é que ser ministro já não é o que era.
Apesar de tudo, a actividade de um governo ainda pode ser importante no bater o pé á Europa, por exemplo, ou na escolha interna das prioridades, dentro de um leque de opções cada vez mais reduzido. Assim sendo, desejo sinceramente êxito a este novo governo. Este desgraçado e sempre adiado país bem o merece. E as oportunidades são cada vez mais escassas. Penso mesmo que, para a solução de algumas questões importantes, pura e simplesmente ... já passou o prazo.
Felicidades, ainda assim.

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terça-feira, março 08, 2005

PARA GANHAR, É PRECISO LUTAR !

Hoje, a propósito do Dia da Mulher, vários pensamentos atravessaram os meus neurónios, ou o que deles ainda resta. Pensei na evolução, relativamente recente, dos direitos da Mulher, muitos deles ainda hoje por alcançar em pleno na nossa sociedade. Pensei nos direitos dos trabalhadores, como têm vindo a mudar ao longo dos ultimos séculos. Pensei sobretudo nas alterações dramáticas que tiveram que ocorrer, para que tais direitos viessem a ser admitidos e respeitados. Pensei, mastiguei e vejam lá se concordam comigo em duas grandes ideias fundamentais :

Nas relações entre seres humanos, a lógica do aproveitamento de muitos, para benefício de alguns, tem sido uma constante ao longo da vida do ser humano. Ou seja, apesar do que é afirmado por religiões e doutrinas políticas, o ser humano, no seu enquadramento normal na sociedade, não se regula por critérios de solidariedade e de respeito pelos outros seres humanos, mas antes pela defesa dos seus interesses pessoais e privados.

Os direitos de largos sectores de seres humanos apenas foram conquistados pela luta, unindo esforços e obrigando os sectores dominantes da sociedade a reconhecerem esses direitos. Nunca nenhum direito foi oferecido, todos foram conquistados, através da pressão e da força social e política, com maior ou menor sacrificio.

Hoje é o Dia da Mulher. Aproveitemos para reflectir nas lutas que foram necessárias para que tivessem o seu lugar de direito na sociedade, para que pudessem votar, trabalhar, filiar-se em sindicatos, dispor do seu corpo, decidir se fazem ou não aborto e todas as outras coisas ...
Pensem nisso, pensem naquelas duas ideias fundamentais que acima descrevi - se concordarem com elas, claro - e decidam se é preciso muito mais para se ser de esquerda, fundamentadamente, num mundo que ainda tem tanto para mudar ! É que nas grandes alterações que se verificaram na vida das Mulheres ( assim como nas outras alterações ) , que eu saiba, nunca a Direita foi uma aliada : muito pelo contrário, foi sempre a Direita que, sob diferentes rostos, se opôs a essa mudança, por vezes com uma violência tremenda.

Aqui fica a minha homenagem à Mulher, neste dia, da mesma forma que já o fiz em vários outros dias. Convêm, contudo, que nos lembremos sempre do que foi preciso fazer, ao longo dos tempos, para que as coisas sejam como hoje são. E mais : convem perceber quem foram os aliados, ao longo desse processo, e quem foram os inimigos. Para que não existam ambiguidades e confusões.

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segunda-feira, março 07, 2005

LYING DOWN COMEDY

Há um mundo bem melhor que este onde eu vivo e se calhar você também ... só que é caríssimo e não chego lá. Mas, felizmente, dizem que a verdadeira felicidade está nas pequenas coisas... e acho que já percebi onde : um pequeno iate, um pequeno Porsche, uma pequena mansão, uma pequena fortuna, uma "pequena" bem gira ... não é ?
Assim sendo, vivo cada dia como se fosse o último. Bem sei que um dia vou mesmo acertar, mas que hei-de fazer ? Nesse dia, já pedi para escreverem na minha lápide "A partir de hoje não contem mais comigo, desisti de ir a festas e jantares".
Sigo também outras normas, para me sentir mais feliz. Por exemplo, nunca acordo antes do meio-dia, não gosto de me sentir mal disposto pela manhã. Como fico horrorosamente mal humorado antes de tomar café, tomo-o na cama, antes de sair. E já que estou na cama, aproveito para tratar de alguns problemas pendentes com a minha secretária.
Mais tarde, muito mais tarde, vou trabalhar. Tenho uma equipa que trabalha comigo : é que assim, quando algo der errado, posso sempre culpar alguém.
Nessa equipa, seguimos o principio de nunca roubar as ideias de ninguém, seria plágio, punido por lei. Fazemos antes pesquisa na internet e aproveitamos as ideias de muitos, já não é plágio neste caso.
Comigo, na equipa, trabalham várias mulheres : é preciso alguém com imaginação e criatividade para fazer o trabalho, já se vê. E não ia ser eu a fazer isso, não é ? Já me dá tanto trabalho ser empresário, ia agora esforçar-me e ter ideias ainda por cima ?
E pronto, vou-me raspar da empresa antes que me venham pedir os cheques dos vencimentos : afinal a Cofidis existe para quê ?



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quinta-feira, março 03, 2005

O PEDIDO IMPOSSÍVEL
Esta é um bocadinho machista e já conhecida mas é muito gira.
Gira e verdadeira, ehehehehe !
Então leiam e meditem :


Um homem caminhava pela praia de Cascais e tropeçou numa velha lâmpada. Pegou nela, esfregou-a e... um génio saltou lá de dentro, que disse:

"O.K! Libertaste-me da lâmpada, blá, blá, blá! Esquece aquela história dos três desejos! Tens direito a um desejo apenas e ponto final!"

O homem disse:

"Eu sempre quis ir aos Açores, mas tenho um medo enorme de voar... e no mar costumo ficar enjoado. Podes construir uma ponte até aos Açores, para eu poder ir de carro?"

O génio riu muito e disse:

"Impossível. Pensa na logística do assunto. Como é que os pilares chegavam ao fundo do Oceano Atlântico? Pensa em quanto betão armado, em quanto aço, em quanta mão de obra... Não, de maneira nenhuma! Pensa noutro desejo..."

O homem compreendeu e tentou pensar num desejo realmente possível.

"Fui casado e divorciado 4 vezes. As minhas mulheres disseram sempre que eu não me importava com elas e que era um insensível. Então, é meu desejo compreender as mulheres; saber como se sentem por dentro e o que estão a pensar quando não falam connosco; saber porque estão a chorar... saber realmente o que querem quando não dizem nada... saber como fazê-las realmente felizes!"

O génio respondeu:

"Queres a merda da ponte com três ou quatro faixas?"

....
( A história do génio de Cascais foi-me enviada em mail pelo meu amigo J. Andrade. O meu obrigado. )

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

MILLION DOLLAR BABY
Falar agora deste filme talvez seja fácil, mas não me importo : torci para que o filme ganhasse pelo menos o Óscar do melhor Realizador e acabou por ganhar esse, mais os de melhor actriz principal, melhor actor secundário e melhor filme de 2004. Arrazador. De vez em quando os tipos dos óscares até acertam.
Sempre admirei Clint Eastwood, já do tempo dos velhos westerns e do "Dirty" Harry, uma figura inesquecível de detective em luta pela verdade e pela justiça nas ruas míticas de San Francisco. Talvez seja a sua figura de homem alto e seco, bonitão, voz grave e rouca, poucas falas ; talvez uma certa qualidade indefinível de elegância simples e de bom gosto ou talvez também por me ter com ele cruzado, anos atrás, numa rua da cidadezinha de Carmel ( California ), onde ele era Mayor. Certo é que sempre foi um dos meus actores ( e mais tarde realizador ) favoritos. Mas vamos ao que interessa : hoje com 74 anos ( uma criança ao pé dos 90s de Manuel de Oliveira, note-se ) Clint Eastwood dirigiu nos ultimos anos filmes como Mystic River e agora este Million Dollar Baby. Mystic River tocava temas de pedofilia e dos segredos e traumas associados. Million Dollar Baby elege o desencanto e a solidão, a pobreza, o esforço para a vencer, o amor que restitui a vida e, finalmente, a relação entre o amor e a morte. Filme de uma grande simplicidade narrativa, sem jogos de sombras e de ilusões à francesa, tudo nele respira genuinidade e verdade da vida. As interpretações de Clint Eastwood e de Hilary Swank ( na foto, premiada com o Óscar para a melhor actriz principal ) valem bem a ida a um cinema perto de si, garanto-lhe que sairá de lá mais identificado/a com o ser humano, senão mesmo com uma lagrimita ao canto do olho ... Vá, não hesite, e depois diga-me o que achou do filme.
Pode também ver um pequeno excerto do filme AQUI

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

O INSOLENTE PISCAR DO CURSOR

Sento-me á mesa e abro o Word. O cursor pisca, em desafio. A minha mão esquerda esfrega o joelho do mesmo lado, sinto-o frio apesar do quarto aquecido. A mão direita está perto do teclado, não vá a inspiração atacar. Na TV, na RTP1, percebo que vão transmitir o jogo Barcelona – Chelsea. Fico indiferente, a minha paixão pelo futebol já não é o que era. Assim como outras paixões, diga-se de passagem. Afago outra vez o joelho : dói-me levemente. A verdade é que o espaço em branco no processador de texto está ali á frente e fita-me com um ar desdenhoso : tu ? achas que sabes escrever ? deixa-te disso ...
Os meus olhos divagam pelo quarto, demorando-se num ou noutro objecto, sem qualquer ordem ou motivo : um Porsche em miniatura, uma velha Olympus relegada para o canto por uma irmã digital, livros diversos, CDs e DVDs numa caixinha de madeira, outra caixa em porcelana da Vista Alegre, oferecida já não sei por quem, o livro que ando a ler, um relato verídico de uma alemã que foi secretária de Hitler ... Claro que apenas quero ganhar tempo, conheço estes objectos de cor e salteado, nem sequer preciso olhar para eles. A verdade é que não me apetece escolher tema nenhum para esta croniqueta blogueana.
Dou por mim a pensar : ainda bem que não estou no lugar do Sócrates, acho que não ia dormir nos próximos meses ... ... e agora golo do Chelsea, em autogolo de um defesa do Barcelona. Levanto a cabeça para a TV e vejo as imagens. Lucky Mourinho. Enfrento de novo o branco onde o cursor continua a piscar, vagamente insolente. Que se lixe o cursor, eu já lhe digo quem manda aqui ... um clique, e já está, pronto !
Até á próxima. Lá fora, no asfalto, um aguaceiro ligeiro lava os despojos do dia.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

RIEN NE VA PLUS !

E pronto, os dados estão lançados !
Ontem lá foi a malta toda ( menos os desinteressados do costume ) dizer de sua justiça. Com um ar de ajuste de contas, pareceu-me, mas talvez fosse só o meu desejo a torcer a realidade. Tudo somado e pesado, foi o que se viu :

- O PS ainda não acreditou no que lhe aconteceu : a maioria absoluta que desejavam mas em que não acreditavam. Sócrates ficou de tal forma apanhado que nem se dirigiu aos portugueses e portuguesas que o elegeram, limitando-se a falar para os amigos e camaradas da sala onde estava. Mau começo, mas esperemos que tivesse sido a verdura nestas andanças. Vamos ver como corrige.

- O PSD levou uma tareia enorme, como se calculava. Mesmo assim, pergunto a mim mesmo como ainda houve tantos portugueses a votar naquele partido, com aquela liderança ... terá algo a ver com o nosso instinto de desgraça, com o nosso masoquismo encapotado ? Bem, a maior desgraça para o PSD foi – e ainda continuará a ser – Santana Lopes : este homem sem norte nem grandeza agarra-se aos farrapos de poder que ainda tem e recusa-se a abandonar o seu lugar, continuando a acusar outros, dentro do partido, por aquilo que ele próprio provocou. Fez-me náuseas, confesso. Náuseas.

- O CDS/PP falhou em todos os objectivos traçados, mas pelo menos Portas levou a sério o seu perfil dos ultimos tempos e anunciou que sairia de presidente do partido. Não acredito muito que não venha a ser “repescado”, mas pelo menos mostrou alguma grandeza. Acreditam que, intimamente, até insultei a direita portuguesa ? Onde estão esses senhores e senhoras ? Votaram no engº Sócrates ? Ficaram em casa ?

- O BE ficou deslumbrado com os seus oito deputados. Talvez por isso, começaram logo a dizer e a fazer asneiras : desde os lenços brancos de despedida á direita ( mas foram eles, BE, que os afastaram ou quê ? ) até a ameaças imediatas ao PS, de tudo se viu um pouco na noite de vitória. Decididamente, cresceram mais em numero de deputados que em bom senso e maturidade política.

- A CDU foi uma enorme surpresa para mim. Claro que beneficiou do mesmo efeito que o BE, os votos daqueles que quiseram votar à esquerda para impedir a maioria absoluta do PS. Mas mesmo assim, conseguiram um resultado muito satisfatório para os seus objectivos, mais dois deputados. Dou a mão á palmatória : nunca acreditei em Jerónimo de Sousa, mas parece que o homem é genuino, simpático e consegue transmitir uma mensagem credível. Parabéns.

E pronto. Um grande vencedor, o PS, e um grande e duplamente derrotado, o PSD, já que nem mesmo assim se conseguiu ainda livrar de tão peganhento e incómodo lider.
O País, esse, veremos se fica a ganhar ou nem por isso. Espero que alguma coisa venha a ser feita, não temos muito mais tempo para outras santanadas.

Os dados ainda não acabaram de rolar mas já estão lançados ...

sábado, fevereiro 19, 2005

AINDA FÁTIMA

Com a morte de Lúcia, voltaram aos jornais e revistas os acontecimentos de 1917, na serra d’Aire. Não muito longe de onde eu nasci, embora uns bons anos antes. Voltei a olhar as fotos da época, os relatos das “aparições”, as dúvidas iniciais da igreja portuguesa, o destino que deram á Lúcia, que esteve longe de ter sido uma escolha da própria, coitada.
Reli, revi e repensei.
Com todos os diabos, nada daquilo faz sentido, é tudo uma grande confusão, um delírio das crianças, induzido quiçá, já que na época houve diversas “aparições” idênticas reclamadas mas que nunca beneficiaram de qualquer atenção.
Os chamados mistérios eram coisas esquisitas, de nenhum interesse ou mesmo de falsa veracidade : a notícia do fim da guerra já para dia 13 ( a guerra 1914-1918 ) revelar-se-ia inexacta, o fim do bolchevismo ainda vinha muito longe e a visão de um sacerdote a ser alvejado a tiro era muito mais adequada ao jacobinismo reinante na época em Portugal ( o anti-clericalismo dos homens da I República roçou o desvario e o ódio puro ! ) do que a um futuro atentado ao Papa, cometido muitos anos após, em plena praça do Vaticano.
Enfim, todos os elementos indiciavam a total ausência de sobrenatural, a inexistência de qualquer “aparição”, a ilusão de uns pequenos pastores cansados e talvez esfomeados, em plena serra.
E então ? Que é que tudo isto interessa a uma multidão de seres sem esperança, em luta contra uma existência medíocre e com a perspectiva inevitável da morte ?
Claro que esta gente toda precisa de “aparições” e de anuncios de milagres. Claro que querem acreditar no céu e na sua libertação da morte inevitável.
Claro que optam pela esperança em vez do tremendo desespero do nada.
Esta será sempre a essência dos seres humanos, confrontados com os limites de uma vida sem sentido e sem dignidade : hão-de sempre criar esperanças nem que seja na ilusão ou no misticismo.
Não escolho essa via, nas minhas concepções pessoais sobre a vida e a morte, mas não tenho coragem de atirar pedras a quem o faz : a realidade é, muitas vezes, demasiado estúpida e aterradora para se poder acreditar nela ...

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

O VOTO NO PURGATÓRIO

As eleições aproximam-se. Começa a ser tempo de fazer uma escolha. O problema é que estou mais dividido que nunca, nesta história das eleições.
Se o voto fosse contra, não teria nenhuma dúvida : Santana Lopes foi um erro trágico para o país e para o PSD, não tenho qualquer hesitação em repudiar esse nome. Oxalá que o resultado das eleições obrigue mesmo Santana Lopes a demitir-se da presidência do seu partido, seria um alívio.
Acabam aqui as minhas certezas, porém.
Votar PS ? Contribuir para a maioria absoluta ? A verdade é que não tenho confiança nenhuma naqueles homens do PS, tão depressa são capazes do melhor como a seguir borram a pintura toda e acabam por ser mais liberais que a própria direita. De resto, o engº Sócrates dá-me uma impressão tremenda de pouca solidez política e económica, acho que ele se viu no papel de Primeiro-Ministro depressa demais. As pessoas que o rodeiam são também as mesmas do tempo do engº Guterres, o que significa que já vimos do que a casa gasta. Não há verdadeiramente lideres naquela equipa, seja o que Deus quiser !
Bem, resta-nos o quê ? O voto num pequeno partido de esquerda como forma de obstar á maioria absoluta do PS e, ao mesmo tempo, contribuir para a derrota do PSD e do PP.
Se me perguntarem se voto descansado no BE, por exemplo, que posso eu dizer ? Admito que os seus dirigentes vieram da “extrema esquerda”, admito mesmo que sejam um pouco folclóricos e sem grande responsabilidade prática política. Admito tudo isso que quiserem. Ainda assim, é gente simpática que, de uma forma geral, se bate por principios que são os meus há dezenas de anos. Pelo menos alguns principios, o que já não é mau.
Por isso, acho que o meu voto vai ser assim : uma espécie de voto no purgatório, já que não há paraíso onde votar e recuso terminantemente votar no inferno ! Tenho dito !

sábado, fevereiro 12, 2005

UMA QUESTÃO DE SOFTWARE EMOCIONAL

Há dias em que sinto no estômago uma bola enorme. No estômago ou no peito, junto do coração ? Seja onde for, é uma bola feita de nada, um vazio frio e concentrado que nada faz passar. Como é que esta bola feita de vazio se apossou de mim ? Em que momento me apanhou desprevenido e se infiltrou ? Será que existe alguma depressão pós-gripe ?
É sábado, são 7.45 da tarde e estou sentado, no meu quarto, a escrever isto. Normalmente, a esta hora, sairia de casa para jantar e ver um filme. Hoje, vou ficar a carpir a minha solidão, mesmo que essa solidão tenha sido por mim procurada. Quando estou realmente em baixo, faço sempre isto, desde criança : uma espécie de cura pelo excesso da causa do mal. Ou então sempre fui masoquista sem o saber, sei lá.
Sabem afinal qual é a verdade ? É que eu nunca mais fui capaz de estabelecer uma relação minimamente estável e satisfatória com uma mulher, desde que fiquei viúvo. Pensei várias vezes que sim, mas não sou capaz. A sensação de insatisfação, de falta, de cansaço, acaba sempre por surgir. Não por culpa delas, as mulheres, bem generosas e gentis , por norma. Culpa minha, exclusiva. Há qualquer pequeno desajuste interno, no meu software, de certeza. E o pior é que já ninguém sabe reparar software destes, isto é ainda anterior ao MS-DOS, imaginem !
Sabem que mais ? Acho que vou ter de aprender a viver com este vazio no estômago ou no coração ou lá onde é ... até que o software ou qualquer peça de hardware estoirem de vez !

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

PERDI UMA GRANDE OCASIÃO DE ESTAR CALADO !

Lamentei-me eu, no meu ultimo escrito, que tinha uma gripe de meias tintas, que não era nem deixava de ser ... Melhor seria ter estado calado, acabei por estar toda a semana em casa, com febre e uma infecção nos brônquios. Ora toma.
A febre não foi muito alta, mas ainda assim não consegui dormir muito bem. O que significou ver quase tudo no canal AXN, Discovery, Odisseia, SIC Mulher, eu sei lá ...
Hoje, sinto-me renascer pouco a pouco.
Veremos amanhã de manhã.