quinta-feira, outubro 28, 2004

ENTÃO SOMOS TODOS POLÍTICOS, CARAMBA !

Cada vez é mais dificil sentir-me bem nesta cidade onde vivo, esta Lisboa desencantada e desventrada, ou mesmo no meu país, desacreditado, medíocre, estagnado.
Tempos houve em que sonhei, ajudei a reconstruir, vibrei com as esperanças que se abriam. Nesses tempos éramos muitos, homens e mulheres sem sono e sem cupidez, generosos e embriagados de liberdade ... Não sabia ainda, nessa época, que a podridão de espírito custa assim tanto a limpar, que as nódoas são teimosas e aparecem de novo, mal se lhes dá uma aberta, que o fedor da mesquinhez e da corrupção nunca desapareceria completamente das ruas e de muita gente do meu país ...
Agora, nesta fase da minha vida, a raiva e a indignação ainda persistem, é certo, mas mais do que tudo sinto um enorme desalento, um cansaço que vem do fundo da alma e que não vai passar, sei-o bem.
Nós, os portugueses, somos mesmo assim tão pequeninos, tão miseráveis por dentro como aparentamos ? Se não somos, porque nos encarniçamos tanto em parecê-lo ?
Por que motivos singulares andamos décadas – séculos, que digo eu ? – a discutir temas como a saúde, a educação, o crescimento económico, a circulação nas estradas ... tudo, enfim, sem conseguir fazer NADA DE JEITO em nenhum destes domínios ?
Nem com laivos socialistas nem com trejeitos liberais. Aparentemente, a única coisa para que temos algum jeito é para a intriga, a baixa política, a defesa dos interessezinhos e dos tachos...
E não me venham com essa de que os maus são os políticos, esses malandros, cambada de egoístas e outros mimos quejandos ...
Ná, ná, ná, ná ... a questão é bem mais complexa. Ou simples, sei lá.
É que, bem vistas as coisas, então ... somos todos políticos ! Com todos os atributos atrás mencionados ...
O quê ? Ah, bem, você, leitor, abro uma excepção para si, caramba ! Também, há-de escapar alguém, não é ?

terça-feira, outubro 26, 2004


REQUIEM PARA UM AMIGO AMARELO
O meu gato partiu.
O Cenoura foi de viagem para os campos verdes com que sempre sonhou, onde abundam os ratos, gafanhotos e passarinhos que ele nunca conseguiu apanhar por aqui, em minha casa.
O gato amarelo da minha filha, que eu ajudei a criar e que sempre amei, já não está connosco. Desistira de viver, debilitado por uma anemia tremenda que lhe retirara toda a alegria e vivacidade.
Era uma sombra daquele gato brincalhão, de olhos claros e vivos, que nos incitava à brincadeira com sussurrados miaus. Já não vinha ter comigo à mesa de trabalho, por volta da meia-noite, com cabeçadinhas significativas para eu lhe dar comida.
Aos dois anos e pouco, a vida traiu-o . O seu sangue diluiu-se, debilitado por um qualquer virus cruel que nada se interessa por gatos e ainda menos pelos laços profundos que ele tinha estabelecido com os donos.
Sinto-a de novo, a revolta e a angústia. Estou tão farto de perder pessoas e agora companheiros amigos à minha volta ...
Sei que um gato não é uma pessoa, mas a verdade é que foi uma das melhores coisas da minha vida nos ultimos dois anos. Ouvia-me sempre, embora nem sempre concordasse: de vez em quando mostrava-me a sua discordância com uma dentada...
Acho que ainda vou ouvir, por muito tempo, os seus raros miados de prazer ao sol da varanda...
Partiu, o Cenoura. Para sempre. Com ele foi também uma parte da minha vida.
Boas caçadas, amigo, até sempre !

terça-feira, outubro 19, 2004

GARÇAS A DEUS !

Gosto de chuva, já o disse outras vezes. Gosto de chuva, mas assim não ... já vos conto !
Hoje, quando regressava a pé do Colombo para minha casa, o vento atirava-me a água da chuva para as pernas, insistentemente, teimosamente.
Chuva e vento, mistura complicada. Os chapéus viram-se do avesso, a água penetra insidiosamente, as árvores abanam e despejam-nos água em cima...
Então, e no meio desta desventura pluvial, não é que lá estavam elas ? Tranquilas, brancas, paradas, aguardando uma aberta no tempo.
As garças ! As garças do costume, naquela quinta em frente do Colombo de que já vos falei tanta vez. Hoje eram umas doze ou treze, umas gotas de água nos meus olhos não me deixaram contar bem. À chuva, pousadas no chão por entre as ervas, à procura de minhocas ou outra bicharada. Digo eu, sei lá, não conheço muito bem os gostos alimentares das garças.
Pois olhem que as garças não pareciam particularmente impressionadas com a chuva nem com o vento. Também é verdade que todas elas tinham vestido aqueles impermeáveis de penas brancas, e eu não. Mas a questão não é de gabardine, não, é de modelo de vida. Aquelas garças gostam de chuva, não sabem o que é molhar a roupa toda e sentir os pés encharcados.
De onde virão elas ? Do estuário do Tejo, das bandas de Alcochete, onde sei que vivem muitas ?
Como raio é que descobriram que ali há boas minhocas e escaravelhos ?
A verdade é que, graças a elas, as garças, cheguei a casa feliz, apesar de molhado.
Aquelas garças fazem-me sempre bem ao espírito.

domingo, outubro 17, 2004

OS NECRÓFAGOS OPORTUNISTAS

O meu enjôo de ontem foi-se.
Ficou apenas o nojo, uma tremenda repulsa por este bando de necrófagos, aves de rapina oportunistas a quem mão hesitante e imprevidente conduziu ao banquete.
Atiram-se à pouca carne ainda presa aos ossos deste putrefacto país.
Chamam ao festim os amigos, os outros que nem asas têm, hienas de pernas tortas, mandíbulas a tremer e saliva a escorrer pelos beiços bestiais ...
Aprendi que, em democracia, é preciso respeitar as opiniões dos outros. Mas ninguém me preparou para isto, para este golpe da selva palaciana ...Como raio é que deixámos, nós todos, que esta maralha sugadora e esfomeada se chegasse ao festim ?
Como querem que eu respeite as opiniões desta gente ? Sim, como ?? É que, para começar, nem opiniões oiço, apenas sons obscenos do seu mastigar voraz e sem vergonha.
Olho para eles, para os seus cães de fila, e só vejo seres gordos, sebosos, luzidios, inchados de presidências de conselhos de administração e outras prebendas, tão redondos que até os vários cartões de crédito se notam nos femininos peitos, e mesmo assim ainda clamando contra Guterres, a mãe e pai de todos os males.
E eu, que até nunca morri de amores por esse socialista dividido entre o diálogo e a inacção, dou por mim a pensar : bem, pelo menos esse foi mesmo eleito pelos portugueses e nunca notei que tivesse tendências para a necrofagia. Nem tal vi com Cavaco ou com a teimosa Manuela Ferreira Leite, hoje hostilizada pelos seus seguidores de ontem ...
Podem pensar deles próprios o que quiserem, mas a verdade é que Durão Barroso e Jorge Sampaio, entre outros, abandonaram este nosso cadáver à voracidade dos necrófagos !
Agora, temos que ser nós a correr com essa bicharada mal-cheirosa e oportunista.
Vamos a isso ?

sábado, outubro 16, 2004

ANDO TÃO ENJOADO ! ...

Passo muitas vezes por aquilo a que chamo de curas de silêncio. Enjôo-me de falar e de escrever. É como se ficasse doente com a incapacidade de mudar a realidade. Ainda por cima, vivo ( vivemos ) num país de gente que fala e escreve muito ... mas pouco faz. Os pôdres dos portugueses estão cada vez mais a descoberto e, em simultâneo, fala-se e escreve-se cada vez mais...
Vejam o próprio presidente da república : quando foi chamado a agir, nada fez. Porém, agora fala pelos cotovelos, com aquelas frases compridas e inteligentes ( pensa ele, eu penso que se tornam quase inintelegíveis ... ), como se pudesse redimir, pela palavra, a ausência de acção anterior .
Bolas.
Esta semana fiquei calado, portanto. Não da mesma forma que o professor, que o fez ( diz ele ) por razões de educação e de laços de família. Eu fiquei calado apenas por estar enojado com tudo aquilo que se faz hoje em Portugal.
Não é só este governo surrealista e tipo coelho-na-cartola que me provoca este fastio e estes vómitos. São também muitos outros portugueses, vendendo-se e aviltando-se por meia dúzia de eurozitos ...
Não, decididamente os tempos vão maus para quem a corrupção, a vigarice e o interesseirismo fazem mal ao estômago.
Estou agoniado.

domingo, outubro 10, 2004

UM DOMINGO DIFERENTE

Hoje não foi um daqueles domingos de pijama, jornal e televisão. Bem pelo contrário, foi um domingo de surpresas e de sol a brincar por entre as núvens.
Soube-me bem, este domingo de Outono.

Claro que a companhia ajudou. E muito. Gente do norte. Raios de sol, gentis e gráceis.Gotas singulares de amizade nestes aguaceiros precoces e tristonhos. Pessoas simples e povoadas de sonhos, mãos estendidas aos outros.

Manhã ainda cedo, pelos meus parâmetros, e já deambulávamos pelo Museu de Arte Antiga, vasculhando entre pintores portugueses, flamengos, italianos, ourivesaria barroca, cerâmica vaidosa e turistas desengonçados de roteiros nas mãos. Para minha surpresa, o principio sacrossanto do utilizador-pagador não se aplicava hoje, as entradas foram grátis. O dr. Santana Lopes deve andar distraido ou está a preparar o discurso para amanhã, quem sabe ?
O que se calhar também o leitor não sabe é que o Museu das Janelas Verdes tem um pequeno serviço de restaurante no piso inferior, portas abertas para um jardim sobranceiro ao Tejo. Nem o serviço nem o estado de conservação do jardim ganhariam prémio algum, mas o local é simpático e tranquilo, convidando a uma conversa amena e descontraida.
Depois, o Tejo atraiu-nos, convidando-nos para um café, na esplanada do Café In.
Um pouco de vento. Os veleiros aproveitaram e levaram os donos para a água, eram dezenas, enganando o vento, inclinados, mostrando o preto abaixo da linha de água.
A tarde ia a meio quando decidimos uma incursão pelos terrenos de Belém.
Não que o Presidente nos tenha convocado, o chamamento foi mais dos pastéis. Aqueles polvilhados de canela, a besuntar os lábios, mornos e saborosos. Disseram-me que aquela casa vende cerca de 10.000 pastéis daqueles por dia. Imaginam ? Pois bem, hoje venderam 10.008, fiquem a saber !
E assim o domingo se fez sexta ou sábado, dia feliz, contra a rotina. Graças a esses meus novos amigos.
Viva a amizade, abaixo a minha preguiça e a solidão.
Obrigado.

quinta-feira, outubro 07, 2004

SILÊNCIAR A CRÍTICA, ESSA IRRESISTÍVEL TENTAÇÃO !

Sempre pensei – e afirmei – que Jorge Sampaio se iria arrepender da sua decisão de entregar o poder executivo, de mão beijada, a um senhor do género de Santana Lopes.
A realidade recente mostra bem até que ponto aquela decisão foi errada.
Não me lembro, incluindo os velhos tempos de Salazar e Caetano, de ver um primeiro-ministro tão pateticamente à deriva e tão flagrantemente desajustado ás necessidades do nosso País.
Claro que, contrariamente a Salazar e mesmo Caetano, Santana Lopes tem contra si um facto simples mas terrivelmente letal : a liberdade de informação, na imprensa, rádio e televisão. E nos blogues, já agora.
É isto que o faz surgir aos olhos do público tão manifestamente incompetente.
Logo, este é um assunto vital para ele : o controlo, ou pelo menos o apaziguamento, da informação. A emissão de imagens favoráveis.
A estratégia tem vindo a ser levada á prática, de uma forma sorrateira mas visível. Primeiro, a formação daquela “central” de “propaganda”, ao nível da estrutura do governo, com a dignidade de uma direcção-geral. Depois, pela colocação á cabeça do grupo PT Multimédia, de um nome como Luís Delgado, um homem em tempos jornalista que a certa altura se decidiu por outros vôos bem mais lucrativos. Em seguida, algumas medidas avulsas mas concertadas com as anteriores : o silenciar de vozes influentes e com grande audição como Marcelo Rebelo de Sousa ou Pacheco Pereira. .
Começou pelo primeiro. Há uns dias, a JSD do Porto desencadeou as hostilidades. Podia parecer algo desgarrado e espontâneo, mas não era : seguiu-se um discurso bafiento e ressumando a ódio de um senhor ministro deste governo, cujo nome eu não conhecia nem quero conhecer.
O sujeito deu um show de ignorância, raiva, despeito e autoritarismo que eu julgava ser impossível nestes tempos. Ouvia-o e ouvia ao mesmo tempo Moreira Baptista, ministro da propaganda de Salazar, a vociferar contra os comunistas e outros traidores a Portugal. Nos olhos do homenzinho cintilavam chispas de ódio que nem sequer se deu ao trabalho de disfarçar. A bílis corria-lhe dos beiços...
Foi tudo ? Não ...
Vem depois aquele senhor de inefável elegância, o administrador da TVI, o sr. Paes ( com “e” ) de Amaral ( ou “do” ?? ), aconselhar Marcelo a ... enfim.... conter-se um pouco mais. Não seria preciso muito, só para não dar azo ao Governo a inviabilizar uns negócios em que a TVI anda metida. Claro, compreende, Marcelo ?
Marcelo não quis compreender, que coisa ....
O ministro que vomitou a bilis ( a pedido, claro ) vem a público afirmar que nunca quiseram calar Marcelo ( é verdade, queriam era vê-lo a dizer bem deles ... ), o primeiro-ministro reclama-se de um pluralismo a toda a prova – embora ache que o contraditório é que é bom , ehehehehe – o presidente da república chama Marcelo a Belém ... enfim, é vê-los numa azáfama tremenda para remediar o que está mal.
Quando teria sido tão simples.
Quando ainda pode ser tão simples.
Como ? Apenas isto : reconhecer que homens que são apenas invenções mediáticas, sombras da noite lisboeta, seres pusilânimes e voluntaristas que de manhã decidem um túnel e à tarde acabar com uma refinaria, homens cuja preocupação é arranjar um forte á beira mar para passar uns tempos com a família ou contratar assessores de imagem para “dourar” a embalagem e levar os portugueses a comer-lhe nas mãos ... reconhecer que homens desses nunca deveriam chegar a primeiro-ministro de Portugal.
Como quase todos hoje estão a ver.
Espero que o sr. Presidente da República esteja dentro desse grupo, dos que estão a ver, e aja em conformidade.
Por mim, até podem colocar o sr. Santana Lopes ao lado da ex-ministra Cardona. Afinal, o serviço público deve ser recompensado, não é ?

quarta-feira, outubro 06, 2004

VIDAS A PRAZO

A vida é, de facto, um contrato a prazo incerto. A minha e a do meu gato.
Há dois dias, quando fui ao veterinário pela 2ª vez numa semana por causa do “Cenoura”, as novidades não foram nada boas. Mesmo nada.
A minha filha e eu passámos lá um bom par de horas, o veterinário muito simpático a fazer análises sobre análises, e finalmente um diagnóstico : o bicho parece que é positivo na análise à FeLV ( que eu desconhecia ) e que é nem mais nem menos que ... leucemia felina.
Raio, até o nome assusta. Ficámos devastados.
O bichano ficou a soro, levou um antibiótico e mais um anti-inflamatório, ia pondo em pânico toda a gente na clínica com o seu génio de pequena fera e finalmente lá o trouxemos de volta para casa, esbaforido, assustado e um tanto ou quanto sujo. Quem é que na clínica conseguia lavar um leopardo daqueles ?
Bem, a FeLV é um vírus assustador para qualquer dono de gato. Não há cura, apenas há uma vacina contra isso, que ele até tinha : cremos que já tinha o vírus quando foi vacinado, proveniente da mãe.
Que fazer, agora ? A esperança de vida do bichano reduziu-se significativamente : pode durar meses, um ano ou três, mas não muito mais que isso... Como é que se lida com uma amizade a prazo ?
Primeiro, fiquei muito triste e em baixo, agora interiorizei e tenho certezas : tudo será igual para o futuro. Vou continuar a dedicar a mesma amizade que sempre tive ao Cenoura, até mesmo mais, sem pensar que um destes dias ela será interrompida. Vou olhar para ele como sempre. Que se dane o vírus e mais a análise fatal. Não sucedeu nada, o mais certo é o Cenoura ainda cá andar quando eu já tiver partido há muito ...
Afinal, não é esse mesmo mecanismo que usamos para com um ser humano ? Afinal, não são as nossas vidas, todas elas, um contrato a prazo incerto ?
Felizmente, fosse porque fosse, pouco depois de chegar a casa o bicho começou a mostrar o regresso do seu apetite normal ( que é muito, tipo Garfield ) e iniciou uma metódica "destruição" de comida, como quem precisa de recuperar o tempo perdido ! É completamente pateta, eu sei, mas eu e a minha filha entreolhámo-nos, quando vimos o bicho assim, e havia lágrimas nos olhos de ambos.
Lá se vai a minha imagem de duro ...
Bem, e é assim, agora : temos o Cenoura de volta, a sua alegria habitual quase recuperada, a par do seu apetite ...
Ele não sabe que é FeLV positivo, ignora que as suas defesas contra infecções oportunistas são muito reduzidas ... mas não vou ser eu a dizer-lhe, prometo-vos.
Há-de ser nosso amigo e ter a nossa amizade até ao fim. Até ao fim dele ... ou ao meu. Exactamente o mesmo que eu desejo que os meus amigos e amigas façam comigo.
Imitando Manuel Alegre, quanto ao seu cão, apetece-me dizer : Cenoura, um gato como nós !

domingo, outubro 03, 2004

COITADO DO MEU GATO !
É domingo, passa do meio dia e acordei com a neura habitual dos domingos. Ando preocupado com o meu gato amarelo, vejam lá, não come nada há cinco dias penso que por causa daquela história de engolir os pêlos quando se lava. Foi, pelo menos, a sugestão do veterinário. Portanto, logo que me levantei, fui dar-lhe daquela espécie de pasta dos dentes com cheiro horroroso ( e sabor a avaliar pelas contorsões do bicho ! ) que é suposta facilitar-lhe a expulsão dos pêlos. Veremos, mas o bicho anda com um ar infeliz que se farta, olhos doridos, movimentos lentos e inseguros e eu sinto-me mal e impotente.
Enfim, como dirão logo algumas pessoas, certamente muito piedosas, seria muito pior se fosse um ser humano. Como se a nossa afectividade tivesse de ser orientada e graduada de acordo com classificações e taxonomias ... Pois eu proclamo alto e bom som : gosto muito mais do meu gato que de certos seres humanos aberrantes, cretinos, vigaristas e desonestos que por aí andam, disfarçados de seres pensantes. E, para além disso, o meu gato é bem mais bonito que essa gente. Não é, digam lá ?
Bem, não sei bem que fazer, agora. Tomar um banho e ir almoçar fora ? Ficar por aqui a preguiçar, comendo uma sandes de carne assada ? Pondero os prós e os contras : que ganho eu em sair ? Vejo pessoas, uma réstea de sol, um pouco do Mundo, é verdade. Mas isso gastaria as poucas energias que tenho hoje. Hoje acordei velho, está tudo dito, vou ficar em casa. Só mais logo sairei da toca, para uma bica no meu café.
Passem bem.

quinta-feira, setembro 30, 2004

UMA GANGRENA SOCIAL ALARMANTE !

Em carta ao director do “PÚBLICO” de hoje, um professor do 1º Ciclo do Quadro de Zona de Bragança, de nome José Alegre Mesquita, narra o seguinte : pela primeira vez em 24 anos de ensino, e apesar da sua 89ª posição na lista ordenada, este ano não foi colocado em nenhuma escola, tendo-lhe passado à frente mais de 400 ( ! ) outros professores, invocando motivos de saude e juntando atestados médicos obviamente passados com apressada ligeireza, quando não mesmo com leviandade. Mais de 60% dos professores deste quadro apresentaram atestados desses, num caso sem precedentes no nosso país.
O Ministério da Educação determinou uma averiguação a esta situação, é verdade, mas o certo é que este professor não tem colocação e não virá a ser ressarcido das angústias e incómodos que esta gente sem escrúpulos lhe provocou.
O mesmo professor conta que todos os amigos lhe diziam para fazer o mesmo, ao que ele se opôs, na convicção de que a vigarice e o oportunismo não teriam êxito.
Enganou-se. Passaram-lhe todos à frente, fraudulentamnte, com a complacência de Governo e Sindicatos.
E ainda se este fosse caso único ! Mas não, os exemplos de comportamentos enviezados e pouco éticos têm crescido como cogumelos nos ultimos tempos em Portugal : foge-se aos impostos, incluindo um numero crescente de “deficientes”, como foi recentemente noticiado ; passam-se atestados médicos nitidamente “exagerados”; organizam-se golpes e calúnias contra pessoas ou partidos ; conseguem-se pensões de reforma dignas das Mil e Uma Noites ; chega-se a Primeiro Ministro sem votação prévia ou transforma-se uma região autónoma num domínio feudal ...
Nestes casos, como em muitos outros, os portugueses estão a interiorizar a noção de que compensa ignorar a lei e torpedear as normas. A sensação reinante é a de que usar expedientes ilegítimos para obter vantagens pessoais já não é vigarice, é apenas legítimo direito de defesa, é ser esperto numa terra onde vale tudo.
Esta noção deturpada e cínica alastra como uma gangrena pelo tecido social português, acelerada pela quase certeza da impunidade. As situações são bem conhecidas publicamente, há anos, sem vestígio de censura ou penalização.
Em Portugal começa a não haver espaço para a honestidade e seriedade.
Em Portugal os homens e mulheres de bem começam a sentir-se num gueto.
Em Portugal, a vigarice está na moda, a falta de escrúpulos é que está a dar, de cima a baixo, da direita à esquerda.
Enquanto isto se passa, todos nós continuamos calmamente a almoçar e a jantar, a dormir o sono dos justos e a passar umas fériazinhas regaladas no ripanço de uma qualquer praia.
Incluindo o sr. Presidente da República, os membros do Governo, os senhores deputados da Assembleia da República, os senhores procuradores da Procuradoria-Geral da República, os senhores bastonários das Ordens dos Médicos e dos Advogados, os senhores dos partidos políticos, os senhores dos sindicatos ... e todos nós afinal !
Quando iremos nós fazer qualquer coisa para interromper esta gangrena galopante ??
Senhores que detêm o poder político e ou a responsabilidade : ajam, por favor. Ajam. Sem perda de tempo.
Mostrem que o crime não compensa.
Se não o fizerem já, cada dia que passa aumenta a impunidade e faz alastrar o mal a toda a nação.
Ajam. Já não têm ( temos ) muito tempo.

terça-feira, setembro 28, 2004

VELHAS FOTOGRAFIAS NUMA CASA VAZIA

Fui hoje à velha casa de família, em pleno Ribatejo. A casa está desabitada, embora todas as semanas lá vá uma mulher dos arredores abrir as janelas e regar as plantas que ainda resistem. Era a casa dos meus sogros ( já ambos desaparecidos ) mas a ela me ligam circunstâncias muito fortes. Para começar, foi um dos meus primeiros projectos, em engenharia civil : uma moradia de dois pisos, quartos amplos, uma casa de banho do tamanho da do Júlio César, uma cozinha com espaço para dar uma festa de casamento. Depois, ali vivi momentos inesquecíveis, junto de pessoas que gostavam de mim e a quem eu também amava. Ali se criou a minha filha, com os avós, enquanto andei por guerras de África, e mesmo depois disso. Não se admirem, pois, que aquela casa me fale e eu lhe responda, agora que está vazia e triste de tanta saudade.
Curiosamente, nunca sinto o vazio, dentro desta casa. Devia sentir, penso eu, mas não sinto. É como se todas as coisas me falassem e saudassem, felizes de me verem por ali. Sinto-me lá bem.
Hoje, a minha filha decidiu abrir uma velha gaveta, num móvel que alberga um velho e bonito relógio de pêndulo. A gaveta estava cheia de fotografias. Antigas. Algumas do principio do século passado, de 1900 e poucos. Os pais da minha mulher, os avós, o casamento de primas e primos, senhores com ar digno e bigode farfalhudo que eu não soube dizer à minha filha quem eram. A minha mulher em criança e em jovem. Ela própria, a minha filha, em fases diferentes da sua meninice. Algumas minhas, também, com um ar esfomeado e magricelas. Traços de vidas cumpridas e terminadas, umas, etapas já percorridas de vidas ainda em aberto, noutras.
Não me apercebi logo, mas fui-o sentindo à medida que as fotos me iam escorregando pelos dedos : a angústia do irremediavelmente passado ia-se infiltrando em mim, insidiosamente, mansamente...
Desisti de ver as fotos primeiro que a minha filha. Trouxe duas ou três da minha mulher, muito jovem, de uma beleza e juventude que ainda me faz sofrer pela sua perda.
E foi isto, apenas.
Viemos embora, pouco depois, uma refeição simples e apressada na zona de serviço de Torres Novas e pouco depois, Lisboa de novo.
Os vazios da minha vida ficaram lá, a cento e tal quilómetros.
Fotos envelhecidas mal arrumadas numa gaveta de um relógio de pêndulo que há muito esgotou a corda.

sábado, setembro 25, 2004

A ESTRANHA RELAÇÃO ENTRE BAGÃO FÉLIX E OS LAVAGANTES

- E aquelas ali, todas pretas, o que são, pai ?
- Aquelas são lavagantes, filho ....
Estava hoje a olhar para um daqueles aquários-tipo que existem nas cervejarias, enquanto almoçava, quando estas palavras me vieram à memória, muitos anos depois do meu pai me ter ensinado o nome daqueles bichos que estavam no meio das lagostas mas pareciam mais guerreiros japoneses com armaduras negras.
Alguns deles passeavam-se lentamente pelo fundo do aquário, com as tenazes atadas, provavelmente louvando ministros como a Drª Manuela Ferreira Leite e o Dr. Bagão Félix : graças a esses distintos gestores da coisa pública, poucas famílias, nesta zona, se atreverão a perturbar o seu sossego ...
Enquanto esperava umas sardinhas assadas ( obviamente menos beneficiadas pelo regime fiscal em vigor ), fui-me enternecendo a pensar no meu pai ( há muitos anos falecido ) e nas muitas coisas que aprendi com ele.
Coisas como andar de bicicleta, fazer uma fisga para atirar aos pardais ( ainda não tinham direitos, os pardais, naquele tempo ! ), fazer brinquedos de madeira, com o auxílio de algumas ferramentas e sobretudo ...pescar. Passei muitas tardes com ele, à sombra de um salgueiro, na margem do Tejo ou então nas rochas da praia dos Salgados, perto de S. Martinho do Porto, sua terra natal.
Falava pouco, mas junto dele sentia-me sempre bem, em paz, como se tudo na vida fosse simples e tranquilo. Nunca conheci ninguém mais despojado das coisas materiais da vida que o meu pai. Era feliz ( penso eu ) com muito pouco e a sua filosofia de vida consistia em tentar viver tranquilo e sem chatices.
Acho que, mesmo sem dar por isso, parte dessa sua essência passou para mim. Sempre fugi das coisas chatas e incómodas da vida, nunca me atrairam honras ou popularidade ou riqueza. Fiquei em pânico, uma ou duas vezes na vida, só porque um desmiolado qualquer queria à viva força fazer de mim ministro, naqueles conturbados anos de 74/75 .... ainda hoje tremo só de pensar nisso.
Pois é. O meu pai. Tenho saudades dele... Da minha mãe também, com quem sempre tive uma relação agitada, de amor e desentendimento. Um dia hei-de falar disso, talvez. Mas sinto mais a falta de uma pessoa como o meu pai. Gostava de mim e eu sabia-o mesmo sem ele dizer uma palavra que fosse. Bastava ir com ele, de bicicleta, a pedalar por carreiros fora direitos ao Tejo, com as canas de pesca atadas ao longo das bicicletas.

Voltemos ao protector dos lavagantes. Ao dr. Bagão Félix. ( raio de nome ... ). Este circunspecto senhor tem mesmo um ar digno, sério, lavado, educado, não tem ? E diz coisas a favor dos pobrezinhos, contra os ricos ! Pessoa minha amiga disse dele que lhe achava um ar de padre, querem maior elogio ?
Gosto mesmo muito deste senhor tão sério. Portugal precisa de homens destes. Contudo, ando a ficar um pouco baralhado : primeiro, quando ele disse que eu pertencia ao grupo de 30% das pessoas mais ricas deste país. É que eu faço todos os anos um PPR . Bem, aí ainda acreditei ... Mas agora é que fiquei mesmo baralhado : se o senhor é assim tão asceta, sério, anti-corrupção e anti-PPR, porque diabo é que arranjou aquele tacho na CGD à ex-ministra Cardona ? Então o Estado não pode beneficiar-me em 250 euros por ano como incentivo no meu PPR mas pode pagar pr’aí uns 15.000 euros POR MÊS àquela senhora que NADA sabe daquilo ??
Decididamente, a vida está é para os lavagantes ...

sexta-feira, setembro 24, 2004

DESCULPAS

Peço desculpas a dois dos meus leitores que fizeram comentários ao meu ultimo post. Eu li-os, mas não consegui que eles ficassem disponíveis no blog, por motivos técnicos que não consegui decifrar.
Será que estamos - os meus leitores e eu próprio - a sofrer represálias pelas críticas ao processo da colocação dos professores ??
O vírus COMPTA/ME estará a atacar ?
Veremos se este problema se resolve no futuro ...

quarta-feira, setembro 22, 2004

TACHOCRACIA INTER-PARTIDÁRIA DE FACHADA DEMOCRÁTICA

Já o disse muitas vezes, mas repito agora : não sou extremista, em termos políticos. Com isto quero dizer que não acredito na eficácia de preconizar medidas políticas extremas no que respeita à evolução das sociedades. Pertenço, acho eu, a uma esquerda um pouco romântica, acredito em valores humanos e sociais básicos ( como justiça social, solidariedade, honestidade... ), penso que as transformações sociais se fazem gradualmente, com luta sim, mas sem balas nem mortes.
Sou isto tudo ... mas não sou parvo.
E como não me considero parvo, apetece-me hoje falar-vos de um fenómeno das nossas sociedades que de tão rotineiro e persistente se arrisca a ser considerado “normal”. Trata-se do fenómeno da distribuição inter-partidária dos bons tachos. A tacharia inter-partidária.
Vejamos como funciona : os senhores e senhoras das camadas superiores dos partidos de governo constituem-se numa espécie de clube de elites do país. Possuem formações académicas superiores, vestem bem, frequentam os mesmos círculos sociais e todos ostentam idênticos sinais exteriores de bem-estar social. São educados, simpáticos, bem falantes, não deixam que a ideologia dos partidos a que pertencem provoquem entre eles divisões ou atritos. São amigos dos membros do Governo e dos dirigentes partidários. Estão sempre presentes em todas as cerimónias de tomadas de posse, de director-geral para cima. Telefonam-se, convidam-se, fazem-se notar.
Depois ... é fácil : são sempre eles, e só eles, os elegíveis para todos os cargos públicos ou semi-públicos onde se ganha bem. É como se possuissem um alvará que mais ninguém tem. Rodam de empresa em empresa, de conselho de administração em conselho de administração. Sempre eles. Só eles. Mais ninguém tem acesso a este clube altamente restrito e ferozmente defendido da vil populaça.
Neste clube não interessa ser-se do PSD ou do PS ou do CDS. Quanto muito, ser-se do partido que está no poder apenas confere prioridade para os melhores lugares. Mas os outros podem sempre contar com lugares igualmente bem remunerados ...
E digo-vos mais : o mesmo fenómeno se nota, embora em grau muito inferior ( como convêm ... ) nas autarquias onde o PCP manda !
Ah, não pensem que os membros deste clube têm andado distraidos ... durante estes anos arranjaram maneira de se aumentarem, de aprovarem benesses várias, honrarias e distinções... por algum motivo os vencimentos dos gestores portugueses estão dentro dos maiores praticados na Europa !! Sim, ouviram bem !! Em valor absoluto, euro por euro. E, espertos como são, ainda passam a vida a afirmar que ganham pouco ...
Quanto a benesses, é melhor que ponham os olhos na pensão que o pobre do engº Mira Amaral vai usufruir por ter estado um ano e pouco no conselho de administração da CGD : mais de 3.000 contos por mês, coitado ! Leram bem, três mil contos mensais, uma bagatela, nada de especial. Nós, os tesos, é que não temos noção do que custa vestir bem e ter de ir almoçar a bons restaurantes, levar a família de férias para as praias das Caraíbas e ter de comprar e manter o Audi A-8 e a vivenda na Quinta da Marinha, para não falar da outra, naquela urbanização fechada da costa nordeste do Brasil. Experimentem, e vejam lá se não precisam mesmo dos 3.000 contos mensais... está tudo pelas horas da morte !
Bom, o que podemos fazer contra isto ? Confesso que não sei. Suponho que a primeira coisa que podemos e devemos fazer é tomar conhecimento.
Depois, podemos expressar a nossa indignação e o nosso cansaço deste vício tremendo.
Cada um de nós pode dizer : basta !
É que isto assim não é democracia, não é nada. Parodiando os outros, diria mesmo que a ser alguma coisa é tachocracia de fachada democrática ...

terça-feira, setembro 21, 2004

UMA IMENSA TRISTEZA ...

Inacreditável.
Confrangedor, mesmo.
O que me perturba não é o fracasso reiterado e quase suicidário das listas de colocação de professores. O que me faz calafrios é a ignorância, incompetência e incapacidade de decisão de tanta gente que anda lá pelo ministério á volta desta questão.
Como é possível esta gente toda estar colocada no ME ? Então é a gente desta que estamos “entregues” ? E nos outros ministérios, há alguns motivos para pensar que a situação seja diferente ?
Leitores : tenho mais de quinze anos a trabalhar em informática, como gestor num departamento público responsável pelo desenvolvimento de sistemas de informação ( vulgo programas ) de grau de complexidade elevada.
Sei muito bem como se processa este tipo de trabalho, aprendi, antes de mais, que todo o cuidado é pouco nas fases iniciais dos projectos, a de definição dos requisitos operacionais ( o que se pretende que o programa faça, de facto ) e a da análise dos fluxos e processamentos de dados, a que também poderíamos chamar a da definição das regras do jogo.
Estas fases exigem um trabalho permanente e íntimo entre dois grupos de pessoas : as donas do projecto, que devem conhecer exactamente os objectivos a atingir e todas as regras do jogo e aquelas outras pessoas que sabem analisar estas regras e convertê-las numa lógica de programação simples. Estes dois tipos de pessoas devem ser competentes nas áreas respectivas e devem também saber trabalhar em equipa, todos eles liderados por um chefe de projecto prestigiado, idóneo e experiente.
Esta interacção é tão íntima, tão estreita e imprescindível, que muitas vezes deve começar mesmo ANTES da definição das regras do jogo, ANTES da sua tradução em lei.
E aqui começam os factos aberrantes neste caso concreto : as regras do jogo de colocação de professores ( o DL 35/2003 e demais legislação posterior ) são obtusas, mal redigidas, pouco claras e muitas vezes quase incompreensíveis, numa perspectiva da sua conversão para linguagem binária. Em algumas das regras parece mesmo ter havido a preocupação de complicar as coisas, de forma a que não funcionem. E eu sei porquê : a concepção do modelo do concurso foi feita essencialmente por técnicos de gestão do pessoal docente e por juristas, uns e outros sem quaisquer preocupações de viabilidade do tratamento informático posterior.
Querem um exemplo ? Leiam as regras para afectação dos professores dos QZP a horários surgidos nesses QZP. Os horários são divididos em grupos, consoante o numero de horas, os professores declaram as suas preferências por escolas mas a estas acaba por se sobrepor o maior número de horas dos horários ... um pesadelo, concretizar estas regras baralhadas num programa informático. A hesitação do legislador, as suas duvidas e incertezas acabam por se tornar numa armadilha mortal para algum incauto que vá definir uma lógica de decisão para o sistema informático.
Depois ... estão mesmo a ver a dinâmica de uma equipa de projecto conjunta com técnicos do ME e de uma firma privada exterior, não estão ? Uns sem ideia nenhuma do que é a lógica binária, os outros sem qualquer contacto ou experiência do que é o mundo da colocação de professores !
Juntem a isto uma orientação política incapaz, desde o nível de director-geral até ao próprio ministro, e terão a fotografia completa do desastre.
Mais : em alturas de contingência, há que saber escolher alternativas, sem hesitações. Não é o que tenho visto suceder. Em diversas ocasiões, lembro-me de pensar que a decisão óbvia e sensata não fora tomada.
Por exemplo, quando se notaram milhares de erros na primeira lista de ordenações, decidiu o ME continuar o processo, avaliando as dezenas de milhares de reclamações entradas.
O mais elementar bom-senso aconselharia outro caminho : reconhecer que grande parte dos erros foram devidos aos impressos de recolha abstruzos que inventaram e á recolha dos dados pela leitura óptica desses impressos, com reconhecimento óptico de caracteres.
Qualquer pessoa com experiência destas coisas teria seguido outro caminho : redesenho do impresso de recolha e repetição dessa fase com maior garantia de dados sãos.
Outro exemplo : algumas das lógicas de validação dos dados recolhidos, nessa fase das listagens provisórias e definitivas, estavam totalmente erradas, numa perspectiva funcional, denunciando uma ligação imperfeita entre o ME e a firma de informática.
Aparentemente, ninguém se preocupou com isso.
Qualquer pessoa com experiência neste domínio teria ficado com os cabelos em pé e teria feito uma autêntica revolução na equipa de projecto, exigindo que os informáticos fossem totalmente esclarecidos quanto às regras das colocações ou optando por mudar a empresa responsável ... ou ambas as medidas.
Tal não foi feito, muitos erros forma considerados “erros informáticos” sem mais consequências.... Mas como é possível, já nesta fase final, afectar um professor de um determinado QZP a uma escola de outro QZP ? Pensam que isto é um erro informático ? O tanas é que é : isto é pura e simplesmente um erro de coordenação dentro da equipa e um erro na incapacidade de detecção de erros na fase de testes.
Enfim ... uma infinita tristeza, é o que tudo isto me provoca.
Como já disse, bem gostaria de pensar que a gestão da coisa pública estivesse entregue em mãos mais experientes ... mas a verdade é que está entregue a amadores. E maus.

sábado, setembro 18, 2004

MAIS UMA IDEIA ORIGINAL EM SEDE DE IRS !
( os cidadãos que não fogem ao fisco devem pagar a crise ! )


A ideia é SEMPRE a mesma, inapelavelmente, infatigavelmente, desavergonhadamente : extorquir MAIS dinheiro àqueles que já pagam IRS.
Sim, todos nós sabemos que é mais fácil fazer isso do que ir incomodar e aborrecer os nossos ( deles ... ) amigalhaços que não se dignam pagar o seu IRSzito ... ainda se iam ofender connosco, sei lá ...
Apenas um aparte : sabem que os rendimentos médios declarados por engenheiros, advogados, médicos, etc ... em 2003 andavam à roda dos 800 euros mensais ? Taditos, ganham mesmo mal para quem tem tantos estudos e tanto trabalho ! Só os dentistas declararam um pouco mais, cerca de 1250 euros, imaginem !
Pois bem : em vez de fazer pagar essa malta toda, em vez de obrigar os bancos a pagar mais que uns míseros 13 a 14% de IRC, vá de acabar com os benefícios fiscais de quem faz contas poupança, tanto de reforma como de habitação ! Ora toma ! Vai-se buscar aos mais ricos, diz o Ministro ...
Aos mais ricos ???
Vai-se é buscar sempre aos mesmos, sempre aos mesmos, digo eu.
Até que esses mesmos acordem, de uma vez por todas, e resolvam dar um belo pontapé no rabo a quem assim os trata, deixando de lado, intocáveis e descansadinhos, todos os figurões acima referidos !
Hem ? Que acham da ideia ? Vamos a isso ?

sexta-feira, setembro 10, 2004

UMA VISÃO DE FUTURO PARA OS PROFS, PRECISA-SE !

Nos ultimos dias, por pressão dos atribulados concursos de professores para o próximo ano lectivo, surgiu uma grande polémica centrada na gestão do pessoal docente de nomeação definitiva dos quadros de escola ( QE ) e dos quadros de zona pedagógica ( QZP ). A discussão tem sido feita mais em termos emotivos e egoistas do que outra coisa, passando ao lado das verdadeiras ( e incómodas ) questões de ordem estratégica e conceptual.
Sim, a verdade é que tem faltado uma noção do que são os QZP e de qual virá a ser o modelo futuro da relação contratual com o Estado de TODOS os professores.
Os QZP surgiram há poucos anos, como uma resposta à dificuldade do ME – e à sua pouca vontade política – em determinar as necessidades reais das diversas escolas em pessoal docente profissionalizado. Estas necessidades, no microcosmo de cada escola, têm vindo a variar muitissimo, nos ultimos anos, face a um cenário de diminuição da população estudantil nacional, a oscilações regionais e também a reestruturações da rede escolar.
O modelo exclusivo até há uns anos, de vínculos definitivos a cada escola ( os profs dos QE ) é extremamente pouco flexível, de facto, dada a dificuldade de introduzir ajustes na afectação dos professores às necessidades das escolas, em mudança permanente.
... De onde que a ideia da criação de “bolsas” regionais de professores é lógica e responde a essa mutabilidade das necessidades : assim, anualmente ou mesmo no meio de um ano escolar, os profs são redistribuidos pelas escolas em função da realidade existente.
Assim foi feito.
No actual panorama, co-existindo estes dois modelos de gestão do pessoal docente com vínculo definitivo, é totalmente compreensível ( diria mesmo que é indispensável para o funcionamento do sistema ) que seja dada prioridade aos professores de cada QZP na ocupação das vagas docentes inventariadas em cada ano para ESSE QZP( para além das que são asseguradas pelo pessoal QE das escolas desse QZP ).
Fazer o oposto seria negar a própria lógica da criação destas bolsas regionais de pessoal. Dito de outra forma, o vínculo destes profs dos QZP aos lugares surgidos no seu QZP é exactamente do mesmo tipo que o vínculo dos profs dos QE aos seus lugares das escolas : eles pertencem-lhes, ponto final, parágrafo.
Até aqui, creio que é insustentável outra visão, a menos que seja o interesse pessoal, legítimo ou ilegitimo, a falar e não a razão das coisas.
Dito isto, há algo contudo que parece faltar em toda esta amálgama de situações ... falta um quadro de intelegibilidade ultima, falta uma estratégia de transição que indique o caminho para uma situação final que seja transparente e funcional e que corrija eventuais injustiças !
Em meu entender, essa estratégia de transição poderia ser a de se caminhar, gradualmente, para uma situação onde os QE desaparecessem, sendo substituidos pelos QZP, na totalidade do pessoal docente. De resto, como em qualquer grande empresa com unidades geograficamente dispersas, ou mesmo como nas organizações militares. O pessoal pertence a um quadro único, ou a poucos quadros regionais e depois movimenta-se pelos diferentes locais de trabalho de acordo com regras específicas e, eventualmente, incentivos adequados.
Se assim fosse, se este conceito existisse bem claro pelas bandas do Governo ( depois de discutido com os sindicatos, claro ) então seria exigível definir uma forma de caminhar da realidade actual para a futura : não me parece complicado, por exemplo, criar um acréscimo de vagas anuais, em cada QZP, destinadas ao pessoal QE que a elas se candidatasse. Sempre que um professor QE entrasse num QZP a “sua” vaga QE na escola seria extinta, claro, embora pudesse continuar a ser um horário existente.Caso exista a necessidade de renovar os quadros, seria destinada a esses casos uma quota específica de vagas nos QZP, para os novos efectivos.
Esta solução iria encontrar oposição de muitos profs dos QE, claro, é natural. Mas também a transição seria longa e, no fim, a quase totalidade dos profs mais velhos, com maiores graduações profissionais, acabaria ou por nunca passar pelos QZP ou, mesmo que o fizessem, acabariam por ir parar às mesmas escolas da sua preferência.
Bom, se o ME pensasse assim, então daria uma perspectiva de futuro a todos esses professores dos QE que agora se angustiam por não terem o “seu” destacamento ... é que lhes seria dada oportunidade de ficarem, eles também, nas condições dos QZP, a quem eles agoram acusam de privilegiados ...
Depois se veria, mas eu acredito que muitos seriam tentados a concorrer aos QZP, uma vez que , dentro desses quadros, a sua posição relativa na lista ordenada seria boa, dadas as suas graduações profissionais.
O que sucedeu este ano, sem lhes dar uma “ideia” do futuro nem a possibilidade de concorrer aos QZP, onde não existiam vagas, foi mesmo muito MAU, em termos políticos e de gestão de pessoal, tendo pressionado tanta gente a ficar “doente”, como se viu !
Claro que esperar estas ideias e esta noção de futuro deste ME ( ou do anterior, para ser mais justo ), embora sendo o “abc” de qualquer gestor de recursos humanos, seria esperar MUITO de uma equipa que primou pela mais inacreditável incompetência, ainda por cima a par de uma arrogância tremenda.
Mas este Governo, esta nova senhora Ministra, tem agora ocasião de fazer melhor, de inovar e de corrigir esses erros. Aqui fica a sugestão de um possível caminho.
Ah, e já agora : substituam aquela senhora directora-geral dos recursos humanos, ela já demonstrou que não faz a mínima ideia do que deve ser um director-geral nesse sector complicado do Ensino. E vejam, já agora também, se dentro dos inúmeros boys que passam a vida a admitir, arranjam alguém que tenha experiência ou ideias ou inteligência ...
Já agora.

domingo, agosto 15, 2004

O HORROR NACIONAL À CONCRETIZAÇÃO

Em Portugal, tanto na Educação como na Justiça, continua imparável o mito de que basta mudar legislação para que estes sistemas funcionem.
Esta é, de resto, talvez a maior fragilidade dos portugueses : perante algo que não funciona, fingem que a culpa é das leis que regulam esse funcionamento e não das estruturas e das pessoas envolvidas.
Assim, a Educação é o caos que é por causa dos currículos e da lei de bases do ensino. Modiquem-se estes e ver-se-á logo tudo a mexer, impecavelmente.
A Justiça está pura e simplesmente paralizada ? Não há que ver, a culpa é dos Códigos Penal e do Processo Penal. Alterem-se estes e pronto.
Matamo-nos todos na estrada, lenta e inexoravelmente ? Altere-se o Código da Estrada.
Ninguém ( ou poucos e sempre os mesmos ) paga impostos ? Modifique-se a lei.
O mercado funciona mal, em muitos sectores ? Legisla-se e inventam-se umas regras diferentes.
Por aí fora.
Percebe-se porquê.
Num país de líricos e especialistas do paleio, onde poucos possuem uma cultura “do fazer”, é quase impossível perceber que todo um sistema tem que ser mexido, quando não funciona. Estruturas, pessoas, procedimentos e, claro, depois de tudo também as regras do jogo, a legislação.
É muito mais fácil nomear uma comissão que prepare uma simples modificação apenas da lei, fingindo desconhecer que, depois, ninguém irá cumprir essa lei.
É toda uma mentalidade perante as coisas da vida real que importa mudar, não este ou aquele código ou lei. Exige-se um olhar integral sobre os sistemas, sem medo de mexer neles, em vez de considerações cosméticas sobre os mesmos.
A mentalidade reinante em Portugal há muitos anos é consistente com esta táctica de avestruz legislativa. A formação das elites portuguesas é maioritariamente orientada para actividades “de paleio” e muito menos para questões técnicas e operacionais. Todos são doutores ( juristas, economistas, consultores que sei eu ), muito poucos sabem de facto FAZER. Seja o que for. De um simples buraco na parede, em casa, com um berbequim, a uma nova organização bem montada, a funcionar sobre esferas.
Sabem, contudo, perorar sobre códigos, incluindo os romanos, e sobre as pseudo-leis da oferta e da procura e do efeito macro-económico da subida das taxas de juro.
Quem os ouvir e não conhecer Portugal há-de pensar que somos um país de génios, de gente de qualidade, com sistemas nacionais bem pensados e a funcionar suavemente ...
O que é curioso é que, de facto, estas duas perspectivas entram por vezes em choque, como no caso recente da TAP, entre um homem com experiência de gestão no sector ( Fernando Pinto ) e um outro, de há muito só habituado a mandar bocas e a ocupar cargos de favor.
Bom, sendo assim as coisas, que há de esperar deste país ?
A minha resposta é esta : infelizmente, nada há a esperar, nos tempos mais próximos. Os sectores públicos que precisavam urgentemente de ser renovados e colocados em funcionamento irão permanecer estagnados e à deriva. Enquanto ouvirem falar apenas em modificar a legislação , podem ter a certeza que tudo vai permanecer tal como está.
E, no fundo, não é isto que todos merecemos ? Os portugueses qualificados para fazer ( bem ) coisas não vão todos para o estrangeiro ou para o sector privado, à procura do vil metal ? Então o que seria de esperar ?
Lamento o pessimismo, mas acho que é assim que as coisas se passam.

Por mim, sempre tentei fazer com que as coisas funcionem, antes de mais, seja qual for a legislação em pano de fundo. Esta logo se modifica, mais tarde.
Quando me ouvem falar assim, não pensem que sou igual a eles, “só paleio”. Tenho horror a isso. Embora goste e respeite, por formação, o estudo e o projecto, para mim ambos só se justificam se depois forem levados à prática.
Sou daqueles que acredita que é melhor uma obra sem projecto ( embora minimamente pensada ) , que um projecto bonitinho ... que nunca se transforma em obra feita.
Sou sincero : detesto o espírito português de inventar sempre formas complicadas ... de não fazer nada que funcione.
Tolero mal advogados e economistas e outros que tais, enquanto actores da mudança, enquanto agentes do fazer.
Com eles, no século XV, apenas descobriríamos o caminho marítimo para Belém ou para S. Bento.
Tal como no Séc. XXI, afinal.

sexta-feira, agosto 13, 2004

É TEMPO.

É tempo.
Definitivamente.
É tempo de falar verdade.
Cruamente.
Mal educadamente.
É assim, então ( como agora se diz ):
estou farto de figurões que, em cargos de destaque,
usam a sua posição para favorecer o seu grupo,
o seu partido,
a sua classe,
ou os gajos da sua rua.
Despudoradamente.
Cínicamente.
Impunemente.
( vai ficar impune, mesmo ? )
Desavergonhadamente.
Digam-me, leitores :
Não começam também a ficar muito fartos ?
Vem agora o outro, armado em bonzinho,
propor um pacto de regime perante os problemas da Justiça ...
Ah ah ... essa é boa :
primeiro colocam-se pessoas na PJ para fazerem as tarefas sujas,
depois fala-se em pacto de regime.
Ingenuamente.
Não seria melhor chamar-lhe o regime do pacto ?
Do pacto entre amigos ?
Ah, já me esquecia :
Esse figurão, de tão fino recorte ético e humano,
pasme-se : é juiz desembargador.
É um homem desses que julga outros homens e mulheres ...
Meu Deus, se ainda por aí andares,
regressa !
Regressa, pois bem preciso és.
Há vendilhões, vigaristas e outros homens sem escrúpulos por toda a cidade !!
COISAS QUE ACONTECEM NESTE NOSSO MUNDO TÃO CERTINHO ...

Hoje vou-vos falar de petróleo, para começar, e de professores, para finalizar.

Petróleo : o preço do barril de petróleo não para da subir. Vai nos 45 dólares. Bom, será que o preço sobe assim porque a procura superou a oferta ?
Há escassez de petróleo, no Mundo ?
Não, as reservas actuais darão para mais 40 anos de consumo, ao ritmo actual. A produção diária actual cobre as necessidades, também.
Então qual é o drama ? Porque sobe o petróleo ?
Por medo. Quem compra o petróleo receia que venha a haver escassez da oferta, num futuro próximo. A instabilidade no Médio Oriente : o caos do Iraque, as eleições do fim do ano na Arábia Saudita. A instabilidade na Rússia : a maior produtora em situação financeira periclitante, por alegadas fugas ao fisco. As eleições na Venezuela.
Enfim : uma vez mais, as expectativas comandam a economia. Há medo. Há instabilidade.
Há descrença na acção dos Estados Unidos.
Agradeçam em especial ao Sr. Bush, quando os preços de vários artigos começarem a subir. Porque vão subir.
Lembrem-se dele quando também começarem a pagar taxas de juro mais altas pelos empréstimos.
Esperemos que a situação no Iraque não piore ainda mais. Esperemos sobretudo que as próximas eleições nos EUA rectifiquem o erro perigoso de colocar um tolo a dirigir um País daqueles.

Professores : não sei se têm acompanhado o folhetim que foi, este ano, o concurso de colocação de professores do ensinário secundário. Um autêntico festival de incompetência técnica, autismo, sobranceria e provincianismo primário. Repito : nunca na minha vida vi tanta estupidez e incompetência juntas, neste sector que tão bem conheço há dezenas de ano, por envolvimento de familiares meus.
Erros tremendos ( e elementares ) na concepção do concurso, no desenho dos impressos de recolha de dados, na fase de passagem dos dados do papel para suporte digital, na programação da validação dos dados recolhidos, na programação da listagem dos candidatos .... enfim, não houve fase nenhuma em que não tivessem pura e simplesmente metido os pés pelas mãos. Totalmente. Com completa impunidade dos responsáveis políticos. E técnicos, também.
Pois bem, agora, com outro ministro, quando se esperava que algum bom senso tivesse finalmente chegado àquelas bandas, eis a ultima : depois das listas definitivas publicadas ( se o conseguirem, digo eu, com uma percentagem aceitável de erros ) espera-se que os professores concorram às escolas pretendidas ( os profs dos QZP e os dos destacamentos ) UNICAMENTE por via da internet.
Óptimo. Excelente. Para não perderem mais tempo a digitar dados, é lógico.
Quer dizer : seria excelente, se alguém se tivesse lembrado de verificar se equipamentos e canais de acesso vão aguentar o acesso concentrado de milhares de professores em todo o país, todos ao mesmo tempo !! Palpita-me que acharam que não valia a pena preocuparem-se com este pequeno pormenor. Como é hábito.
Querem apostar comigo que vai ser a loucura e a angústia de muita gente ? Vai haver muito menino e menina a tentar aceder ao sistema às 4 da matina, vão ver ...
Ah, mas é de esperar que um minitro ( ou ministra ) se preocupem com detalhes insignificantes ?

terça-feira, julho 27, 2004

QUERIAM LIMPEZA DO CADASTRO, NÃO ERA ? ...

Um destes dias, e a propósito dos fogos, perante as críticas ao Governo, comentava um dos novos Ministros : “Este Governo tem apenas oito dias ! “
Entenda-se nas suas palavras : não somos responsáveis pela situação, não fomos nós que fizemos ou deixámos de fazer alguma coisa.
À primeira vista, pode parecer que o referido senhor tem toda a razão.
Mas é só à primeira vista.
A verdade é que se este Governo se reclama da mesma fonte de legitimidade que o anterior, o de Durão Barroso ( as ultimas eleições legislativas ) então a sua responsabilidade política deve ter a mesma data de origem que a sua legitimidade. Ou seja, este não é um Governo diferente, é apenas um Governo de continuação. Melhor ainda : este Governo é responsável por tudo aquilo que o anterior fez e não fez.
Se não gostarem desta situação, então arranjem a sua própria legitimidade e não se sirvam da mesma que o Governo anterior.
Em suma : é falso que este Governo tenha apenas 8 dias de funcionamento. Na verdade, tem bastante mais que 2 anos !
E para quem duvidar desta minha argumentação : se assim não fosse, como poderia o eleitorado julgar um Governo, no final de uma legislatura ? Bastaria que o partido mais votado dividisse em dois o período da legislatura : na primeira metade funcionava o governo “mau”, das medidas duras e impopulares; na parte final, entrava o Primeiro-Ministro bonzinho, com medidas mais suaves e pacíficas, para que os eleitores esquecessem as outras medidas ....
Simples, não era ?
Não se deixem enganar, portanto. Este Governo É o outro, se a sua legitimidade é a mesma, e deve responder por tudo aquilo que o Governo de Durão fez e deixou de fazer.

segunda-feira, julho 26, 2004



Ainda os fogos de Verão.
Desta vez, mais a sério que ontem.
Li hoje que o nosso Governo pediu auxílio à EU ; no seguimento desse pedido a Grécia ( a Grécia !!!! ) vai enviar para cá dois aviões Canadair ...
Amigos : todos os anos é esta história. Toda a gente se interroga porque motivo Portugal não adquire uns quantos Canadair, aqueles aviões bimotores que largam grandes quantidades de água e depois vão reabastecer-se outra vez a barragens, lagos ou até ao mar, se estiver calmo. Não devia ser dificil para quem construiu 10 novos estádios de futebol. Mais : talvez não saibam, mas aqui não há muitos anos a nossa Força Aérea tinha um kit de combate a fogos que era instalado num C-130, um tanque cheio com uma mistura líquida de eficácia muito superior à simples água. Foi abandonada a ideia, porque a Força Aérea cansou-se de ter o avião preparado sem que o Serviço Nacional de Bombeiros o requisitasse, em épocas de fogos intensos.
Proponho-vos as seguintes linhas de raciocínio :

--> porque razão Portugal não compra pelo menos dois ou três Canadair, quando se vê que são indispensáveis todos os anos e que o seu custo seria rapidamente amortizado ?

--> porque razão esse C-130 da FAP com o kit de combate a incêndios deixou de ser utilizado ?

--> quem terá vantagens económicas com o facto de Portugal ( o Estado ) não possuir esses meios e ter que estar sempre a pagar o seu aluguer ( caríssimo ! ) ? Quem estará ligado a essas actividades directamente interessadas na industria do combate ao fogo ?

--> Será que não há interesses económicos que lutam, por detrás das cortinas, pela manutenção deste caos e a quem não interessa nada que o Estado possua meios aéreos próprios de combate aos fogos ?

--> Ou será, em alternativa, que as pessoas ligadas a este problema em vários Governos anteriores são todas incompetentes, medrosas ou cegas ??


Bem sei que este calor sahariano não convida muito a grandes esforços mentais ... mas, co’os diabos, são só dois micro-segundos de raciocínio !
Vá lá !
HÁ COISAS QUE PARECEM INEVITÁVEIS

É inutil.
Não vale a pena estar sempre a falar nos fogos e no que se havia de fazer para acabar com eles ou pelo menos para lhes diminuir as consequências.
É totalmente inútil : todos os anos sucede o mesmo, com uma regularidade monótona. Todos os anos nos queixamos da falta de meios dos bombeiros, todos os anos dizemos que a culpa é das altas temperaturas e do vento.
A coisa é tal que começo mesmo a acreditar que os fogos só param quando querem, com ou sem os esforços dos bombeiros... assim sendo, não seria melhor aplicar o dinheiro que se gasta com bombeiros, viaturas, aviões, etc ... pura e simplesmente a limpar as matas, a seccioná-las e a dotá-las de caminhos ? Depois, quando acontecesse um fogo, deixava-se arder até acabar. A diferença para agora não seria muita e poupava-se aquele esforço inglório, aquele aparato dramático, aquela ostentação penosa da mais gritante descoordenação e ineficácia.
Isto que digo pode ser uma enorme parvoíce, é verdade. Porém, desafio alguém a demonstrar-me que estou londe da verdade ...
Claro que só estou a falar de fogos florestais, amigos, não dos fogos urbanos nem dos industriais.
E já agora, que estou com as mãos na massa, digam-me lá se não se ganhava também mais em não ter governo nenhum do que em ter este ?
Pensem bem nisso.

quarta-feira, julho 21, 2004

A LIBERDADE DE USAR A INTELIGÊNCIA

Acabei de ver uma entrevista de Maria João Avilez a Pacheco Pereira e apetece-me dizer : vivam a inteligência, a honestidade intelectual e a liberdade de espírito !
Pacheco Pereira não é um homem da minha família política ; contudo, oiço-o sempre com um prazer imenso, mesmo se dele discordar, em parte ou no todo. Isto não me acontece com muitas outras pessoas, infelizmente.
Não é apenas a lucidez da análise e a facilidade de expressão, é também, e provavelmente antes de mais, a enorme sensação que transmite da sua liberdade de pensamento. Quando fala, é ele que fala, não um partido, um grupo económico ou um sindicato. A verdade é que todos estes anos me cansaram de frases repetidas, de ideias estereotipadas, de escravizantes opiniões de grupo. Agrupar as nossas opiniões e os nossos comportamentos, cristalizando-as em partidos, sindicatos, clubes de futebol ou outras coisas semelhantes, tem inegáveis vantagens na viabilização de uma sociedade plural e democrática, é verdade. Mas é também uma espécie de tirania intelectual e algo profundamente redutor para o espírito humano.
Por isso gosto das pessoas, como Pacheco Pereira, que se vão libertando do jugo das opiniões de grupo pré-definidas, nunca desistindo de ser livres e inteligentes.
Claro que nem todos o podem ser, nem todos o devem ser, nem todos o querem ser.
Contudo, é importante, muito importante, que existam pessoas assim.

domingo, julho 18, 2004

A VERDADE SOBRE A CONSTITUIÇÃO DESTE GOVERNO
 
Este primeiro-ministro é um finório !
As suas influências noctívagas foram determinantes na constituição deste cocktail, perdão, deste governo : uns quantos ingredientes, umas pedras de gelo, vai tudo ao shaker e ... aí está uma bela bebida, pronta a ser servida aos portugueses.
No fundo, não foi bem assim. Foi um pouco mais elaborado, o processo : foram produzidas duas listas diferentes, a das pessoas ministeriáveis e a dos ministérios. Depois, a cada pessoa, lida da primeira lista, foi feita a correspondência com um ministério tirado da outra lista, completamente à sorte !
Brilhante, esta táctica.
Assim ninguém se vai queixar de favoritismos ou de cunhas na distribuição das pastas, não é ? Quem vai contestar um sorteio ?

sábado, julho 17, 2004

COMO É QUE SE MUDA ?
 
Confesso-lhes que não faço a menor ideia do que deverá ser feito para tornar Portugal um País próspero e justo, sem desigualdades sociais graves.Tenho alguns palpites, é verdade, mas não tenho certezas nenhumas.
Estas minhas dúvidas não são graves : ninguém espera de mim decisões importantes, as minhas dúvidas não comprometem o futuro do país e o dos meus concidadãos. Já acho grave, porém, que a maior parte dos nossos políticos, homens e mulheres, partilhem comigo essa ignorância : é que é bem visível que nenhum deles tem a mínima ideia de futuro, a mínima estratégia, o mínimo sonho ! Em todos eles noto a ausência de um projecto, sequer de um esboço. À esquerda e à direita limitam-se a navegar à vista da costa, não há rasgos, não há aceitação de riscos, não há caminhos.
Mesmo a magistratura de topo do Presidente da República é tímida e pantanosa, não ousando os gestos purificadores e que abrem soluções, preferindo a comodidade à incerteza, a mediania à possibilidade de uma saída.
Se Martin Luther King tivesse sido português nunca teria dito “Eu tenho um sonho...”, teria antes proclamado “Sede pacientes, irmãos, a estabilidade antes de tudo!”.
Aqui, neste meu país, joga-se sempre pelo seguro. Jogo rasteiro, baixinho, que o guarda-redes é anão, como se ironizava aqui há uns anos, antes do Ricardo ser herói.
Aqui nunca há grandes ondas, nem grandes arroubos. Nem nunca houve Hitlers, Mussolinis, Stalinis ou Francos, apenas um Salazar de botas rurais, ditador de meias tintas, sonhando com um país onde nada nunca mudasse ...
O horror à mudança parece ser a nossa essência. Também não gostamos muito daquilo que somos, é verdade, mas ainda gostamos menos de mudar. É isso que explica a nossa persistência em continuar a ser um país de merda.
Por essas e outras é que eu digo : não faço a mínima ideia de como podemos mudar Portugal.
Talvez Pedro Santana Lopes e Paulo Portas saibam... eheheheh ....quem sabe ?

quarta-feira, julho 14, 2004

ANDO A TER PESADELOS

Por vezes olho este meu país como que num sonho. Num daqueles sonhos onde acontecem coisas estranhíssimas, como voar ou atravessar paredes. Olho as imagens na televisão e sinto-me no meio de um desses sonhos. Só pode ser sonho mesmo, sim. Aquele não é aquele puto cheio de paleio que girava na sombra de Sá Carneiro ? Aquele que passa a vida a mandar bocas que nunca cumpre e deixa sempre tudo a meio, mesmo as relações com mulheres ? Só pode ser sonho, imaginem, aquele gajo Primeiro-Ministro do meu país ! Será grave isto que sinto ? Para que me havia de dar, ter estes pesadelos, já viram ? Tenho que marcar uma consulta com o dr. Macedo, já não vou lá desde que deixei de fumar e me andava a sentir miserável de todo ...
Mas lá que este meu cérebro tem piada, isso tem ... onde raio é que iria ele buscar esta ideia de fazer do Santana Lopes Primeiro-Ministro de Portugal ...
Livra, tenho que deixar de ter estes sonhos, deixam-me angustiado de todo !

domingo, julho 11, 2004

SER ISENTO É ESTAR SEMPRE CONTRA QUEM NOS ELEGEU ???

O impensável aconteceu.
Depois de grande meditação e de ouvir tanta gente, o Presidente fugiu, também.
Está na moda, de resto, no meu país. Durão Barroso fugiu, Sampaio imitou-o . Ambos fugiram das suas responsabilidades ( ou algo de muito parecido ! ), ambos optaram pelo mais fácil.
Mas esperem, não ficou por aqui ... Ferro Rodrigues também se baldou, pois então !
Durão alegou a importância de um português na Europa, Sampaio justificou-se com a estabilidade política, Ferro Rodrigues não aceitou a “traição” do “seu” Presidente !
Tretas ! Nem é importante estar um português na Europa nem a estabilidade é algo que os portugueses comam ou lhes dê emprego. Já viram se em 24 de Abril alguém se declarasse contra a revolução com o argumento da estabilidade política ?
E quanto a Ferro Rodrigues, um político deve ter ética e verticalidade, é certo, mas também deve ter um estômago de ... ferro.
Pois é ... a verdade é que aí estamos nós com um governo de ocasião, saído da cartola do Presidente. Governo em que ninguém votou.
Pior : Governo em que poucos votariam, se nos tivessem dado voz.
Se nos tivessem deixado.
A partir desta solução, Portugal só formal e legalmente é uma democracia.
No fundo, vamos ter um Governo não escolhido por nós, eleitores.
E um Presidente que acha que estabilidade é isso mesmo : aturar um Governo que ninguém escolheu.
Acha ele, mas não acho eu. Fiquei terrivelmente desiludido e desestabilizado. E irritado. E com um sentimento de que alguém me enfiou um grande barrete.
Então e foram precisos 15 dias para esta brilhante decisão ?
Sampaio, Sampaio, hás-de arrepender-te tanta vez, tanta !

quinta-feira, julho 08, 2004

COM O TEMPO, A VERDADE VEM AO DE CIMA

A gestão da crise política pelo presidente Jorge Sampaio tem sido exemplar. Desde logo por não se isolar e, pelo contrário, ouvir não só os partidos políticos como uma longa série de notáveis, pessoas com experiência política e económica. Mas exemplar sobretudo pela utilização do factor tempo. Ao invés de Durão Barroso e de Santana Lopes, Sampaio percebeu que a passagem dos dias iria clarificar posições e atitudes. Assim aconteceu : a oposição sedimentou esperanças e iniciou um discurso mais agressivo e confiante, enquanto Paulo Portas e Santana Lopes evidenciaram um nervosismo tremendo, acumulando erros sobre erros. De facto, a paupérrima exibição destes dois lideres partidários nestas circunstâncias delicadas mostraram a muitos portugueses de que massa são feitos, esclarecendo mesmo aqueles que andam distraidos ou esquecidos quanto à personalidade política ( melhor, quanto à falta dela ) daqueles a quem ficariam entregues os nossos assuntos públicos.
Aqui chegados, talvez fosse bom clarificar a seguinte ideia ao PSD: os erros de “casting” pagam-se muito caro, em política. Um partido da dimensão e com a representatividade do PSD, em Portugal, não pode deixar-se conquistar por um homem como Santana Lopes, sem outras ideias ou projectos que não sejam os de vender a sua própria imagem. Seria bom para a democracia, em Portugal, que o PSD percebesse que Santana Lopes é um político vazio e sem estofo de estadista e se livrasse dele.
Fosse outro o actual lider do PSD e talvez a solução política para a crise pudesse ser outra. Assim, com Santana Lopes, seria uma palhaçada. O PSD não merece isto e Portugal muito menos.
Inteligente, Sampaio percebeu que uns dias de arrastamento da solução fariam vir à tona a essência das coisas : o ridiculo completo de um governo formado por um playboy da política e por um travesti de homem de Estado.
Vamos a votos, senhoras e senhores.
Nota ao PSD : no fim das eleições, se acontecer a derrota que pressinto, sugiro ao PSD que se livre de Santana Lopes. Se tal não suceder, será muito mau.

terça-feira, julho 06, 2004

O MEDO DE PERDER O PODER

A posição dos partidos que não querem eleições antecipadas é cínica e despudorada. Ninguém que ocupe uma posição de poder legitimada pelo voto popular pode alguma vez, seja em que circunstâncias for, recusar novas eleições. Em democracia, a soberania não se delega em representantes eleitos, o que se delega é apenas o exercício temporário do poder. Em principio, por um período de tempo pré-determinado, sim, mas sempre sujeito a interrupção, caso as circunstâncias o justifiquem.
Alguns dos senhores e senhoras que são nossos representantes eleitos tendem a esquecer-se destas verdades básicas e nem mesmo têm vergonha de revelar que NÃO querem eleições. Esta é a verdade : FOGEM de eleições, EVITAM perguntar às pessoas como querem ser governadas.
Há que respeitar as eleições de 2002, dizem. Mas não seria melhor respeitar umas frescas, que sejam feitas AGORA ? O que é melhor, a vontade do povo em 2002 ou a vontade do mesmo povo AGORA, depois de tudo o que aconteceu ?
Vamos então fingir que as pessoas permanecem com as mesmas intenções de voto que em 2002, depois de uma união de partidos que surgiu á posteriori, depois de uma longa série de promessas eleitorais esquecidas, depois daquele em quem votaram ter desertado para Bruxelas, depois de dois anos infernais de uma contenção orçamental que foi só para alguns e sem resultados positivos visíveis ? Hem ? Votaríamos hoje como votámos em 2002 ? O tanas é que votávamos ... Viu-se nas ultimas eleições para o parlamento europeu. Viu-se.
QUEM TEM MEDO DE PERGUNTAR AOS PORTUGUESES O QUE QUEREM ?
Ao contrário do que toda a gente parece acreditar, não penso que a estabilidade política seja o bem absoluto a preservar na gestão da coisa política. A legitimidade e a genuinidade do poder são valores bem mais importantes.

segunda-feira, julho 05, 2004

IDEIAS EM CONTRAMÃO

De repente, a ideia atinge-me como um clarão : a morte de alguém querido é muito mais penosa para os que ficam que para aquele que se finou. Se isto for verdade, a minha verdadeira morte está a acontecer agora, antes da outra, a biológica. Sinto a falta de pessoas que sempre me rodearam e eu admirei. Pessoas que eram parte do meu pequeno mundo. Pessoas de que ainda guardo o sorriso, o cheiro, o som das palavras.
Se isto é assim, morre-se aos poucos, lentamente, até já pouco restar que nos prenda á vida.
E, como todas as dívidas que não se pagam a pronto, morremos pagando juros e amortizações, morremos mais do que devíamos, muito mais.
A longo prazo, acabamos por morrer duas ou três vezes.
Por outro lado, a dor vem gradualmente, vamo-nos habituando a ela, insidiosamente, quase sem darmos por isso. Um mês fazemos um pagamento, no mês seguinte dois, lá vem depois um mês onde somos dispensados da prestação.
A morte financiada a prazo com prestações suaves.
Suaves ... mas mortíferas, não se esqueçam.

domingo, julho 04, 2004

A ARTE DE NÃO FAZER NADA

Um país em transe. Um país inteiro à espera. Como sempre. Não sei bem como, mas os portugueses arranjam sempre forma de estarem à espera de alguma coisa. Estar à espera significa que não é preciso fazer nada, nem sequer mexer, apenas respirar.
Agora espera-se pela final do Europeu 2004 e também pela decisão do Presidente. Depois há-de esperar-se pelo novo Governo, para ver como as coisas vão parar. E se houver eleições antecipadas ainda melhor : o tempo de espera aumenta e aumenta o período em que há justificação para não se fazer nada.
Hoje de manhã, no café, ouvi o seguinte comentário de uma senhora para o empregado de balcão : “Amanhã devia ser feriado nacional, se ganharmos hoje a final ! “ ... Com o meu melhor sorriso acrescentei : “E se perdermos também, para nos recompôrmos ...”
O sorriso de cumplicidade foi geral. Somos assim, uns mestres na arte de arranjar pretextos para não fazer nada.
Quem sabe se, afinal, não é essa a grande mais valia da cultura portuguesa ? Sim, porque essa história de que só o trabalho dignifica e dá valor à existência humana está muito mal contada, eheheh ...
Acho eu, claro.

quinta-feira, julho 01, 2004

NÃO GOSTO DE POLÍTICOS PROFISSIONAIS, PRONTO !

A vida política tem destas coisas : os políticos profissionais, homens que nunca foram pedreiros, médicos, advogados, engenheiros ou funcionários administrativos, embora muitas vezes sejam titulares de diplomas e carteiras profissionais. Nunca tiveram qualquer profissão, foram sempre homens “dedicados” ao seu partido e à coisa pública. Leia-se : viveram do seu partido ou do nosso dinheiro. Profissão : político. Podem ser políticos centrais, ministros ou homens do aparelho partidário ou podem ser locais, autarcas e similares. Une-os porém o entusiasmo de representar o povo e de gerir as coisas que são de todos nós. Nunca trabalharam em nada de concreto, nunca demonstraram aptidão particular para nada além de se fazerem eleger ou nomear. Falam sempre com um ar categórico, possuidores de visões e certezas inabaláveis, vendem sempre uma ideia de convicção e segurança.
Nunca gostei desses tipos que nunca fizeram nada de prático na vida. Assim como nunca gostei de vadios, chulos ou vigaristas.
Por mim, faço-lhes sempre esta pergunta : oiça lá, óh mister, afinal quem é você e o que é que já produziu de útil na vida ? E se nunca fez nada de concreto, como quer que eu acredite que é capaz de governar este país ?
Não se espantem nem abespinhem : gajos destes, conheço-os de todas as cores ... embora nem todos se arrisquem a acabar em Primeiro-Ministro !

terça-feira, junho 29, 2004

CONDECOREM-O !

Proponho que o Presidente da Republica, no 10 de Junho de 2005, agracie o Dr. Durão Barroso com a mais alta condecoração nacional para premiar actos extraordinários na defesa dos interesses nacionais. Homens destes não temos muitos : combativos, abnegados, estóicos, persistentes, indiferentes a dificuldades e prejuízos pessoais, imunes á cobiça e ao deslumbramento das grandes benesses ...
Condecorem o homem, pois !

domingo, junho 27, 2004

APENAS ALGUMAS PERGUNTAS SIMPLES ...

- Durão Barroso, quando das eleições legislativas, não se tinha comprometido a exercer o cargo de Primeiro Ministro, se fosse eleito ? Ou era só até arranjar um emprego melhor ?

- Durão Barroso foi “obrigado” pela Europa a aceitar o cargo de presidente da Comissão Europeia ? Aceitou contrariadíssimo ? Mostrou pena de nos abandonar ?

- Porque motivo é que o dr. Durão Barroso aceitou o convite para esse cargo ? Sentido de dever patriótico ? Para poder solucionar a crise portuguesa ? Para dar um contributo á honra e glória de Portugal ?

- Para que raio precisa a Europa de um homem que abandonou o seu próprio país numa altura dificil ? Que esperam de um homem desses ? Ou isto já é como no futebol, o meu clube é quem me pagar melhor ?

- Que motivos levam o PSD e o PP a não desejar que se realizem novas eleições legislativas antecipadas ? O seu desejo de que seja respeitada a vontade dos portugueses ? Evitar as despesas de umas novas eleições ?

- É legítimo que o PSD se reuna e escolha um seu militante para Primeiro Ministro, assim sem dar cavaco a mais nenhum português, só porque o partido ganhou as eleições em 2002, com um OUTRO lider ?

- Afinal quem mais ordena no nosso desgraçado país ? Quem paga as contas, nós todos, ou meia dúzia de senhores empertigados que fazem tudo para não ouvir a nossa opinião ?

- E tu que achas, caro leitor : vamos a votos ou vamos deixar que nos governe alguém que nunca escolhemos ?


sábado, junho 26, 2004

UMA IMENSA VERGONHA ...

Sinceramente, nunca esperei assistir a um espectáculo destes.
Uma falta de ética do tamanho do Mundo, uma ausência de principios completamente despudorada, um cinismo inacreditável !
Vamos por partes.
Durão Barroso prometeu servir os portugueses como Primeiro-Ministro. Mais : prometeu que, depois do apertar do cinto vinham aí agora os dias da retoma.
Prometeu ... e não vai cumprir. Falta de ética.
O País atravessa uma fase particularmente delicada, quanto á confiança dos cidadãos, quanto á sua capacidade de afirmação e de superação de dificuldades.
Abandonar o Governo nesta altura demonstra ausência de principios, demonstra que há outros amores na vida de Durão Barroso que não o amor à causa pública. Durão Barroso está-se nas tintas para os portugueses e para os seus problemas, é agora bem nítido.
Cinismo, por fim. É cinismo pretender que a presidência da comissão europeia seja algo mais que um desejo e sonho pessoais. Não é, nunca foi do interesse de Portugal que esse cargo seja desempenhado por um português. Não é, de forma alguma, uma escolha que nos faça ficar vaidosos. Durão Barroso não foi escolhido pelos seus méritos, foi escolhido por um consenso de indiferenças. A escolha de Durão Barroso não adianta nada aos portugueses, apenas enriquece o curriculo do próprio. Apenas alimenta a sua vaidade pessoal e a da sua corte próxima.
Cinismo, pretender disfarçar a cobiça pessoal com o interesse nacional.
Como se isto não chegasse, há quem sustente que não deve haver novas eleições e que Santana Lopes assuma, tranquilamente, o cargo de Primeiro-Ministro, visto que é o nº 2 do PSD ...
Meu Deus : então, depois da chapada violenta das ultimas e recentes eleições europeias, teremos que aturar como Primeiro-Ministro um qualquer senhor em que ninguém votou ?
Um foge das dificuldades e enriquece o curriculo e o outro fica Chefe de Governo como por artes mágicas ??????
Mas isto é assim ??
Fica-me uma duvida angustiante : o que pensarão os portugueses ( todos, mesmo os que votaram no PSD e em Durão Barroso nas ultimas legislativas ) desta novela ? Ficarão embevecidos com um presidente português na Comissão Europeia ou perceberão o grande barrete que enfiaram quando escolheram este homem ?
Por tudo isto, e porque quem manda nesta merdice toda afinal ainda somos nós, é imperioso fazer novas eleições, logo que possível. Urgentemente.
Talvez Durão Barroso venha a arranjar tempo para vir votar ao seu país.
Uma imensa vergonha !

domingo, maio 16, 2004

AINDA ESTE NOSSO EXCELENTE ENSINO

Diz o povo que não há pior cego que aquele que não quer ver.
Ai, ai ... que lhes havemos de fazer, aos profissionais do ensino ? Andam há tantos anos ofuscados e deslumbrados pelas promessas de um maravilhoso mundo novo que ainda não viram o lindo resultado a que essas miragens conduziram o ensino nos ultimos anos.
Será assim tão dificil compreender que, seja como for, os modelos que têm sido experimentados NÃO FUNCIONAM ?
Ouviram ? NÃO FUNCIONAM !!!!!!!!!!!!!!!!!
Quando algo não funciona, há que procurar as causas e inflectir, não é ? Porque insistem em jogos de palavras ? Porque tornam complicado aquilo que não o é assim tanto ? Que necessidade atávica têm de usar conceitos grandiosos e frases cabalísticas ( de resto de validade bem duvidosas ) para teorizarem .... não sei bem o quê, só se for para explicar o desastre onde nos atolámos todos.
E é sempre assim. Se o Governo mudar ( não é se, é quando ) aparecerão mais uns iluminados e iluminadas a mudar curriculos ( ou devo dizer curricula, para ser mais erudito ? ? ) , programas, sei lá eu mais o quê ?
Percebem ?
Ninguém se interessa pelo ensino, interessam-se é por eles mesmos, pela sua afirmação pessoal, pela tentativa de imprimirem o seu cunho pessoal.
Tristeza ....
Depois, oiço sempre a frase de um milhão de euros, a frase miraculosa que fará calar os opositores, reduzindo-os à categoria de fósseis ainda por cima conservadores e de costela totalitária : a escola de ontem morreu, não voltará a ser a mesma ...
Ehehehe ... como se alguém, aqui este escriba incluido, pretendesse ressuscitar a escola de ontem !
O que eu quero, isso sim, é uma Escola que funcione, onde os alunos aprendam ( têm um pavor desta palavra tremendo, não têm ? ), seja conhecimento, seja atitudes, e donde não saiam permanentemente fraudes totais, em percentagens escandalosas .... com a excepção dos alunos dedicados a Medicina que, de repente, passaram todos a ter médias de 20 !! Ehehehehe ... isto é um gozo pegado, e eles não vêem !
Bom, sejamos mais claros. Eu sou adepto de visitas de estudo ( fiz algumas por iniciativa minha e proporcionei outras, do outro lado, como entidade visitada ), acho que os jovens devem aprender conceitos de cidadania, piano, música, código da estrada e essas coisas todas. Não é aí que está o busilis, pois não ?
O problema está no Português, kd x + pobre ( né ? ), na Matemática, na Filosofia, no domínio das ferramentas básicas da estruturação mental, na posse dos conceitos indispensáveis ao raciocínio, meu Deus ....
Até quando vamos a andar a enganarmo-nos uns aos outros ?
Ou será que ESTA escola, esta nossa escola de miséria e de ignorância é que É, VERDADEIRAMENTE, a Escola de HOJE e de AMANHÃ ?

segunda-feira, maio 10, 2004

O meu ultimo texto mereceu o seguinte comentário de uma amiga minha, de resto professora experimentada e com êxitos averbados na sua carreira.
Cito :
“Hoje em dia, é convicção geral que a aprendizagem depende, antes de mais, da actividade do aluno. E se assim é, isso obriga a redefinir o papel do professor. Assim sendo, não faz qualquer sentido uma perspectiva que continue a encarar o trabalho dos docentes como o de distribuidores exclusivos do saber. Qualquer docente tem de saber assumir-se essencialmente como criador de situações de aprendizagem e como organizador de trabalho escolar. O discurso magistral tem de ceder lugar a um saber construído interactivamente através de uma actividade disciplinada, com regras comumente assumidas e estabelecidas e que justifique, verdadeiramente, a designação de trabalho.”

Leram ? Concordam ?
Também eu.

E, contudo, não vos sei bem explicar porquê, foi sempre assim desde que o 25ABRIL levantou a tampa do caldeirão : no sector da Educação, nunca duas pessoas concordaram com nada, houve sempre a tentação de transportar para o interior do sector as realidades e análises da vida política circundante. Desta forma, todo o ensino que existia foi apelidado de autoritário, fascista, elitista, magister dixit, eu sei lá. E não era ? Era um pouco disso tudo, sim, mas era também outra coisa : um sistema profundamente testado pelo tempo e do conhecimento de todos os agentes de ensino, quase de olhos fechados. O numero de alunos abrangidos era ínfimo ( aí sim, aí é que residia o essencial NEGATIVO do seu carácter elitista, não nos programas nem na relação professor-aluno, mas enfim ... ) o que permitia uma grande eficácia no seu funcionamento.
O 25ABRIL destapou, como já disse, o caldeirão. Tudo foi posto em causa. Programas, métodos, formas de acesso, professores ... a palavra de ordem foi abater, destruir. E foi isso que sucedeu, note-se. A relação professor-aluno foi destruida, “fascista” que era, e em seu lugar apareceu ... nada, apareceu um granel incomensurável, o vazio total de autoridade, como se sabe. E é óbvio que, numa situação caótica, não há programa nem método que resultem ....
Contudo, sabem o que suedeu então ? Vindos das profundezas de uns vagos mestrados em Ciências da Educação tirados não sei bem onde, uma pleiade de arautos ( arautas, tb ! ) dos novos métodos invadiram o Ministério, chateando o juízo a quem os queria ouvir : que nada, que era preciso centrar o ensino no aluno, que a criatividade assim e assado, que era preciso destruir o ar magistral do ensino, que as criancinhas sabiam muito bem como queriam aprender, etc..etc ...
E tumba, saía reforma.
O pior é que mudava o Governo ou os funcionários superiores do Ministério e tumba, os outros eram uns estúpidos e eles é que sabiam, vá de fazer outra reforma.
Entretanto, como traço comum a todas estas reformas, aquilo a que eu chamo a política da cobardia pedagógica : era preciso fazer coisas cada vez mais atraentes, era preciso que os programas pudessem competir com os jogos de computador, o objectivo era o ensino sem dor, a aprendizagem alegre, tudo numa boa sem qualquer tipo de trabalho ou suor ...
E o mito do bom aluno ganhava raízes, como já anos antes ganhara o do bom selvagem. Os homens tendem muito a esquecer, sabem ? A verdade é que o ambiente nas nossas Escolas era e ainda é , em muitos casos, o do encontrão de alunos aos professores nos corredores ... o medo dos professores de verem os seus carros riscados, a subserviência perante alunos cretinóides que ameaçam bater em professores e os apelidam de filhos da puta, em plena aula e nas calmas, sem que nem sequer uma repreensão mereçam em seguida ... E se julgam que minto ou exagero é porque, de facto, nunca viram uma Escola nos dias de hoje. Eu vi e trabalhei numa, pelo menos.
Resultado de tudo isto : os alunos acabaram por fazer aquilo que é o seu interesse imediato, ou seja fugir ao trabalho e dedicarem-se aos shots do Bairro Alto, com a complacência dos papás e dos senhores professores, ambos absolvidos pelos pedagogos da liberdade no ensino.
( exceptuam-se sempre aqueles alunos que são sempre bons alunos seja qual for a tormenta, claro )
E depois ?
Bem, quando me falam em interactividade, fico com os cabelos em pé. Percebem porquê ?
Hoje entende-se que a aprendizagem depende essencialmente da actividade do aluno .... diz-me a minha querida amiga.
E quando é que não era assim ?
Precisamente por se saber que dependia em muito da atitude do aluno é que , sabiamente, se criavam mecanismos para incentivar e controlar essa atitude. Desde trabalhos para casa até aos exames nacionais obrigatórios, passando pelas chamadas, perguntas para o lugar, etc ...
Hoje, toda esta panóplia de armas do professor está posta em causa. São armas fascistas que ameaçam ou a liberdade dos alunos ou o seu tempo livre, tadinhos ...
Então, como vamos criar neles essa atitude ?
Reune-te com os teus colegas e discute o conceito de batata ? Ehehehe, esta é màzinha, não é ?
Ou vamos todos discutir em conjunto e escolher o tema da aula de hoje ?
Ou quem acha que se não devia aprender Matemática ?
Ai meu Deus, que grandes confusões e buracos Abril abriu ...
Já longo este solilóquio, ainda lhe junto mais estas farpas, dirigidas a ninguém em especial, apenas a todos nós que somos sempre tão prontos a aderir a todas as coisas novas :

1º) o discurso magistral conduziu a resultados práticos incomparavelmente superiores aos actuais, em termos de eficácia e até de eficiência. A sua não aplicabilidade, nos dias de hoje, deriva mais da sua não adequação “democrática” que da falta de eficácia técnica.
O autor, e muita gente ainda como ele, foi “vítima” desse tipo de ensino e a verdade é que aprendeu. E nem sequer recorda os seus professores como algo distante e “magistral”.

2º) por oposição ao discurso magistral criou-se hoje um discurso quase que maliciosamente inverso, em que, em nome da “interactividade”, aqueles que sabem se diluem na sala de aula, em detrimento daqueles que não percebem patavina da matéria. Lindo. Casos conheço em que a sala de aulas parece uma miniatura da Assembleia da Republica, que, como se sabe, é o paradigma do saber e da eficácia.

3º) toda a gente ligada ao Ensino parece ( curiosamente ) mais interessada na discussão e na experimentação de pedagogias, didácticas, filosofias, etc... que em resultados concretos no sector onde trabalham.

4º) a questão do magistral versus interactividade, bem como da memória versus a sua recusa ( pelos mesmos motivos ideológicos, a negação da autoridade ) conduziram a situações caricatas, como a de alunos de engenharia, entrevistados á porta do IST, evidenciando o seu desconhecimento quanto ao resultado de 8 vezes 9 ...

5º) abandonar um qualquer método estabilizado sem que um outro o substitua, funcionando igualmente de uma forma suave e oleada, resulta em desastre certo.
Toda esta gente ( gente competente e dedicada, na sua maioria ) parece ter esquecido a velha mas sempre infalível verdade : é preferível um mau método que funcione bem, e ao qual toda a gente esteja adaptada, que um método excelente que não funcione minimamente, por ser pouco familiar aos agentes de ensino ou por não existirem condições exteriores que o viabilizem.

6º) Se persistirem objecções ideológicas ou outras a um método que prefira a eficácia à “interactividade”, então que se declare o estado de sítio no ensino. A calamidade bem o merece, e , nesse caso, como se sabe, os direitos e liberdades sofrem algumas restricções em nome do bem comum. Assim se faça, é preciso que a nossa malta comece a saber alguma coisa de jeito, caraças. Mesmo que seja através de métodos magistrais, ditatoriais ou outros que tais.

Que me desculpe a minha amiga este desabafo. As ideias que defende estarão correctas, são generosas, mas talvez não sejam aplicáveis a um “tempo de guerra” como o que se vive no ensino... e a verdade é que os ultimos vinte ou trinta anos no ensino em Portugal foram catastróficos. E ela é uma das que bem o sabem e contra isso lutam no dia a dia.
Apesar de tudo, como sempre assim foi, que cada um faça como quiser ... mas, repetindo a minha divisa criada há dias : ENSINEM, PORRA !!
Quanto aos senhores alunos, interactivos ou estáticos, ESTUDEM, CARAGO !!
Por ultimo, quanto aos papás ... ah, estes nossos seráficos papás : SEJAM PAIS, CARAMBA !

Não sei dizer mais nada, esgotei-me.
Também não admira, sou fruto de um ensino magistral e com laivos fascistas, a imaginação não é o meu forte.

sábado, maio 08, 2004

A APOSTA NA EDUCAÇÃO É UM IMPERATIVO DE TODOS ! URGENTE !

“As escolas não podem viver na permanente expectativa de uma nova lei, de uma nova reforma, de um novo currículo, de um novo modelo de gestão»
Jorge Sampaio, Presidente da República, declarações feitas hoje na Fundação de Serralves

Pois é. É isso mesmo e muito mais. De repente, descobrimos que os novos 10 países que vieram juntar-se a nós na Europa têm, todos eles, índices de literacia melhores que os nossos. Todos.
E mais : descobrimos, de repente também, que por este andar nos tornámos um país de ignorantes chapados que não sabem nada, não produzem nada e apenas gostam de comer, ver futebol, apanhar sol e fazer sexo. Actividades atraentes e altamente motivadoras, diga-se. O mal está em que, no mundo moderno, para se poder fazer essas coisas é preciso um pouco mais que ler mal e atabalhoadamente e dizer que 3 vezes 9 são 29...

Et voilá. E agora ? Como é que vamos inverter esta trapalhice completa ? Não vai ser nada fácil, não ...

Eis a minha sugestão :

1. Os partidos do Governo e da oposição devem atingir uma plataforma de entendimento mínimo quanto a este objectivo e assumir o compromisso solene de não utilizar a educação no combate político nem mudar as regras do jogo do sistema educacional num período de 10 (? ) anos, salvo consenso em contrário.

2. Toda a gente – MAS MESMO TODA, HEM ? – deve reconhecer que este é um assunto VITAL e INADIÁVEL. A questão começa por se jogar em casa, com pais que saibam ser pais e filhos a trabalhar e não apenas “numa boa”, em jogos de computador, internet e saídas até às quinhentas com 15 anos de idade !!!
O maior problema do insucesso na educação COMEÇA EM CASA, gaita ! É assim tão dificil perceber isto ? Deixamos os meninos fazer o que querem, nunca os disciplinamos, obrigamos, estimulamos, o que quiserem ... e depois queremos que os professores façam maravilhas de uma matéria-prima completamente estragada ??

3. Utilizam-se os currículos actuais. Ninguém altera mais nada.

4. Os senhores professores e professoras vão convencer-se, de uma vez por todas, que o seu papel é o de ensinar e não o de andar por aí a inventar uns vagos e poéticos “projectos” que outro objectivo não tem que fugir ao trabalho pesado e ingrato de ensinar. Deixem-se de “áreas escolas” e de outras patetices quejandas. Ensinem Português, Matemática, Física, Literatura, Línguas, Informática, o que quiserem, mas ensinem, por Deus. Até mesmo coisas como Ética, Civismo, etc ...
Não façam tanta reunião sem propósito nem eficácia, não divinizem tanto os paizinhos patetas que vão refilar às Escolas, não fujam tanto aos seus deveres nem os remetam para os pobres contratados, não discutam tanto as pseudo-justificações sócio-psicológicas para o insucesso escolar, não inventem tantos estratagemas para não dar aulas .... ENSINEM, porra ! E percebam que, para poder ENSINAR, é preciso paz e tranquilidade nas Escolas e evitar a demagogia de que os alunos é que são o centro do ensino ...

5. Os senhores Ministros, Secretários de Estado, Directores-Gerais e Regionais da área da Educação devem ser escolhidos SEMPRE por consenso na Assembleia da República e ser personalidades à “antiga portuguesa” : sabedores, empenhados, HONESTOS, dotados de grande ÉTICA PROFISSIONAL e POLÌTICA.
A eles recomendaríamos que deixem as Escolas funcionar, preocupem-se mais em dar-lhes meios e condições, promovam uma grande campanha motivadora de introdução de paz e tranquilidade nas Escolas, restituam aos professores a sua dignidade perdida e sejam com eles exigentes, em seguida.


Pensam que seria dificil ? Ahahahaha .... sabem que eu acredito que até seria fácil ? O que falta é a nossa VONTADE COLECTIVA !
Como sempre. Como Povo, somos medíocres, não sabemos funcionar em conjunto para grandes objectivos. Os exemplos da Expo e do Euro 2004 não servem, nem deviam ser para aqui chamados : estou a referir-me a grandes objectvos colectivos de um povo, não a ideias de meia dúzia de entusiastas sabiamente aproveitadas por empreiteiros civis e sociedades de promoção imobilária.
É preciso não confundir.
VAMOS À EDUCAÇÃO ?

quinta-feira, maio 06, 2004

INCAPACIDADE É ADMISSÍVEL ; FALTA DE VERGONHA, NÃO !

Estão a par da inacreditável trapalhada em que se transformou a fase inicial do concurso de professores para 2004-2005 ?
Sabem o que é estranho, mesmo estranhíssimo neste caso, em meu entender ? A atitude do Ministério, a insistência no erro ( já nas colocações do ano lectivo em curso os erros tinham sido tremendos ) , a leviandade com que se desdramatiza e desculpa uma incompetência aflitiva, a incapacidade política de resolver a situação, como se de uma catástrofe natural e inevitável se tratasse.
Já o inefável Ministro da Administração Interna veio, um dia destes, com a mesma doutrina : avisou o País que, se ocorrerem neste Verão as mesmas condições negativas do ano passado, tudo voltará a ser o mesmo ...
Ou seja, em palavras simples para todos perceberem : eles, esses Ministros, declaram-se incapazes de resolver ou de, pelo menos, minorar, estes problemas nos seus Ministérios.
Muito bem, até admito que isso é humano, ninguém os obriga a saber orientar as soluções.
Nesse caso, porém, como é que têm a lata suprema de continuar a receber todos os meses aquilo que lhes pagamos ( nós, os portugueses ) para servir a coisa pública ?
Que falta de vergonha inexplicável tomou conta dos seus actos ? Foram apresentar a demissão ao sr. Primeiro-Ministro e ele não consentiu na sua saída ? Ou nem sequer levantaram o problema e o Dr. Durão Barroso assobia para o ar, fingindo que não vê e não sabe de nada ?
Seja como fôr, há falta de ética pessoal ou excesso de tácticas partidárias para minizar danos no Governo. Eu, e o resto dos “condóminos” deste nosso país é que não queremos saber dessas questões, e devíamos ser tratados com mais consideração.
Há, de certeza, neste nosso cantinho quem seja capaz de fazer melhor que aqueles dois senhores, tanto na preparação do concurso dos professores como no combate aos incêndios. E, afinal, temos o direito de esperar que os problemas sejam resolvidos.
Estou-me nas tintas para os partidos políticos, se estes apenas se preocuparem consigo mesmos em vez de se preocuparem connosco.
Francamente, acho que um pouco mais de vergonha e de ética da responsabilidade a nível político seria MUITO desejável ...

terça-feira, maio 04, 2004

OS PORTUGUESES E O AMOR AO PORMENOR

Nós, os portugueses, somos assim.
Somos repentistas, improvisadores, desleixados, preguiçosos.
Temos um ódio visceral ao detalhe, ao estudo, à preparação do pormenor.
Falta-nos a paciência, o espírito de rigor.
Odiamos a matemática, adoramos o paleio gratuito.
Para nós, as coisas vão sempre correr bem, porque haveria de não ser assim ?
Para quê identificar as prováveis causas de erro e tomar medidas de antemão ? Se algo de menos bom acontecer, logo se resolve em cima do acontecimento.
Essas coisas de estudar os detalhes são para os povos do Norte, não habituados ao desenrascanço como nós. Nós não precisamos disso.

Segurança no Euro 2004 ? Concursos de Professores bem conduzidos ? Processos judiciais bem preparados e conduzidos ? Obras de construção civil bem projectadas, orçamentadas e sem derrapagens monstras nos custos ? Expo 98 sem esqueletos escondidos ? Futebol sem escândalos e corrupção ?

Quem pensar que pode responder sim a uma única das perguntas anteriores, não é português. Ou é mas nunca viveu em Portugal. Ou anda muito distraído.

A estas características do português comum, já de si nada recomendáveis, juntaram-se ultimamente algumas outras ainda piores.
Se for possível arranjar “algum” por fora, no exercicio da minha profissão ou através do poder que possuo, porque não ? Sou algum parvo ou quê ? Todos os meus conhecidos o fazem ... e se precisar de mentir e vigarizar para isso, qual é o problema ?

Beeeemmmm... nem sei que dizer. Odeio a maneira de ser lusitana, essa é a verdade. Nunca morri de amores pelos alemães ou pelos suecos, mas invejo o seu espírito, a sua determinação, a sua vontade de fazer tudo sem erros, tão perfeito quanto possível.

Será que amor ao pormenor e ao rigor naquilo que se faz é indissociável do frio e da falta de imaginação e alegria ? O nosso desleixo, apatia e desinteresse pela qualidade é o preço a pagar pela nossa exuberância, alegria, humor, gosto pela mesa e pelas coisas boas da vida ?
Recuso-me a acreditar nisso.
Penso que somos assim, mauzinhos naquilo que fazemos e desleixadinhos, porque nunca ninguém foi capaz de nos envergonhar suficientemente, porque nunca nenhum político soube ou quis promover os valores do rigor e da qualidade, porque nunca nenhum português acreditou que seriamos capazes de ser diferentes.
No fundo, no fundo, não serão estas características que explicam a miséria da nossa vida económica ?
Quem é que, na Europa ou no Mundo, compraria um automóvel construido pelos portugueses, oriundo de uma fábrica gerida por portugueses com normas de qualidade portuguesas ? ( Auto-Europas não valem ... ) Ou uma casa ? Ou seja o que for ?
É isso, é.
A miséria da nossa vida deriva directamente da nossa incapacidade de rigor e de amor ao pormenor e à qualidade do que fazemos.