domingo, outubro 31, 2004

FIM DE TARDE NA TRAFARIA

O Tejo estava hoje rabujento, quezilento, com má cara. O vento encrespava-o em pequenas ondas irrequietas e toda a gente sabe que ele, Tejo, não gosta mesmo nada desse mexe-que-mexe que o desgasta. O céu também não ajudava nada, indeciso entre o cinzento de chumbo e um branco sujo, ambíguo e pouco duradouro.
Ainda assim, fora do conforto do carro, o ar frio soube-me bem, na cara e nas mãos e o cheiro do Tejo inundou-me de reminiscências de outras épocas e outras felicidades. Eram cerca de cinco horas da tarde e a noite já espreitava, esta hora de Inverno é uma chatice tramada !
Enfim, conhecem a Tasquinha do Aires, na Trafaria ? Se não conhecem, deviam conhecer. Nada como uma saladinha de polvo ou uma morcela assada, acompanhada por um vinhito verde tipo turista mas que, assim mesmo, me soube muito bem.
Juntem ao Tejo e à morcela a companhia e a conversa alegre de pessoa amiga e terão um bom fim de tarde na outra margem do Tejo ...
Sabem lá vocês quão precisado eu ando desta frescura do Tejo e de uma risada simples, inconsciente e cúmplice !
Viva a morcela e o vinho verde a martelo da Tasquinha do Aires, caramba !
QUEM PERMITE - OU IMPEDE - O AUTORITARISMO SOMOS NÓS !

Leitor, alguma vez perguntou a si próprio como é que se faz para instalar um regime ditatorial num país qualquer, seja ele a Alemanha de Hitler, a URSS de Estaline, a Itália de Mussolini, a Espanha de Franco ou o Portugal de Salazar ?
Claro, vai-me responder que a força, a repressão, a violência desempenham um papel essencial nessa transformação. O que é verdade.
Mas há aspectos mais importantes a reter. Há circunstâncias que não podem ser escamoteadas, por mais incómodas que possam ser : a verdade é que qualquer ditador se ergue sobre o silêncio, a cobardia e o egoismo da imensa maioria das pessoas. No início destes processos, o ditador não dispõe, regra geral, de força física ou política para amordaçar uma nação inteira. O que faz, então, é identificar alvos parcelares, bem seleccionados e procura eliminá-los, tão silenciosamente quanto possível. Se a reacção for diminuta ou controlável, o candidato a ditador repetirá o processo em relação a outro alvo, com os mesmos pézinhos de lã ...
Entretanto, muitos cidadãos notam essas iniciativas e pode acontecer que encolham os ombros, convencidos que não é nada com eles. Outros calam-se porque pura e simplesmente têm medo e nunca farão nada que afronte o poder. Poder nenhum. Outros ainda resolvem alinhar com o ditador tirocinante, na mira de umas migalhas que vão caindo...
E o ditador em potência continua a sua marcha, cada vez mais forte e impune. E cada vez mais cidadãos se calarão, por medo, egoismo e conveniência. E cada vez mais será dificil a alguém erguer a voz e denunciar o ditador.
Até que, sem se dar por isso, o candidato já não é candidato, é mesmo ditador. Colocou gente da sua confiança nos locais que controlam a opinião pública, distribuiu benesses criteriosamente a pessoas que lhe irão retribuir os favores, intimidou a maior parte da população e fez calar, com maior ou menor violência, os poucos que tentaram desmascará-lo.
Nesta altura, quem disser mal dele é subversivo e traidor á Pátria, está concluido o processo.
Percebido, leitor ? Se é que tinha duvidas quanto a este mecanismo...
Pois bem, qual é a moral da história ?
É muito mais fácil impedir um tiranete de chegar a ditador do que desalojar um ditador encartado. Para impedir essa progressão, basta NÃO FICAR COM MEDO E CONTINUAR SEMPRE A DENUNCIAR TODAS AS TENTATIVAS PARA NOS CALAR.
Por isso, leitor, em toda a parte, no trabalho, no café, no bar ou até ... na cama, seja com quem for que se encontra, não deixe de afirmar a SUA verdade. Mesmo que lhe chamem chato. Mesmo que a voz lhe doa. Mesmo que a pessoa injustamnete perseguida não seja da sua simpatia ou da sua cor política ou do seu partido.
Seja qual for a sua opinião, por favor, NÃO SE DEIXE NUNCA AMEDRONTAR E CALAR !

quinta-feira, outubro 28, 2004

ENTÃO SOMOS TODOS POLÍTICOS, CARAMBA !

Cada vez é mais dificil sentir-me bem nesta cidade onde vivo, esta Lisboa desencantada e desventrada, ou mesmo no meu país, desacreditado, medíocre, estagnado.
Tempos houve em que sonhei, ajudei a reconstruir, vibrei com as esperanças que se abriam. Nesses tempos éramos muitos, homens e mulheres sem sono e sem cupidez, generosos e embriagados de liberdade ... Não sabia ainda, nessa época, que a podridão de espírito custa assim tanto a limpar, que as nódoas são teimosas e aparecem de novo, mal se lhes dá uma aberta, que o fedor da mesquinhez e da corrupção nunca desapareceria completamente das ruas e de muita gente do meu país ...
Agora, nesta fase da minha vida, a raiva e a indignação ainda persistem, é certo, mas mais do que tudo sinto um enorme desalento, um cansaço que vem do fundo da alma e que não vai passar, sei-o bem.
Nós, os portugueses, somos mesmo assim tão pequeninos, tão miseráveis por dentro como aparentamos ? Se não somos, porque nos encarniçamos tanto em parecê-lo ?
Por que motivos singulares andamos décadas – séculos, que digo eu ? – a discutir temas como a saúde, a educação, o crescimento económico, a circulação nas estradas ... tudo, enfim, sem conseguir fazer NADA DE JEITO em nenhum destes domínios ?
Nem com laivos socialistas nem com trejeitos liberais. Aparentemente, a única coisa para que temos algum jeito é para a intriga, a baixa política, a defesa dos interessezinhos e dos tachos...
E não me venham com essa de que os maus são os políticos, esses malandros, cambada de egoístas e outros mimos quejandos ...
Ná, ná, ná, ná ... a questão é bem mais complexa. Ou simples, sei lá.
É que, bem vistas as coisas, então ... somos todos políticos ! Com todos os atributos atrás mencionados ...
O quê ? Ah, bem, você, leitor, abro uma excepção para si, caramba ! Também, há-de escapar alguém, não é ?

terça-feira, outubro 26, 2004


REQUIEM PARA UM AMIGO AMARELO
O meu gato partiu.
O Cenoura foi de viagem para os campos verdes com que sempre sonhou, onde abundam os ratos, gafanhotos e passarinhos que ele nunca conseguiu apanhar por aqui, em minha casa.
O gato amarelo da minha filha, que eu ajudei a criar e que sempre amei, já não está connosco. Desistira de viver, debilitado por uma anemia tremenda que lhe retirara toda a alegria e vivacidade.
Era uma sombra daquele gato brincalhão, de olhos claros e vivos, que nos incitava à brincadeira com sussurrados miaus. Já não vinha ter comigo à mesa de trabalho, por volta da meia-noite, com cabeçadinhas significativas para eu lhe dar comida.
Aos dois anos e pouco, a vida traiu-o . O seu sangue diluiu-se, debilitado por um qualquer virus cruel que nada se interessa por gatos e ainda menos pelos laços profundos que ele tinha estabelecido com os donos.
Sinto-a de novo, a revolta e a angústia. Estou tão farto de perder pessoas e agora companheiros amigos à minha volta ...
Sei que um gato não é uma pessoa, mas a verdade é que foi uma das melhores coisas da minha vida nos ultimos dois anos. Ouvia-me sempre, embora nem sempre concordasse: de vez em quando mostrava-me a sua discordância com uma dentada...
Acho que ainda vou ouvir, por muito tempo, os seus raros miados de prazer ao sol da varanda...
Partiu, o Cenoura. Para sempre. Com ele foi também uma parte da minha vida.
Boas caçadas, amigo, até sempre !

terça-feira, outubro 19, 2004

GARÇAS A DEUS !

Gosto de chuva, já o disse outras vezes. Gosto de chuva, mas assim não ... já vos conto !
Hoje, quando regressava a pé do Colombo para minha casa, o vento atirava-me a água da chuva para as pernas, insistentemente, teimosamente.
Chuva e vento, mistura complicada. Os chapéus viram-se do avesso, a água penetra insidiosamente, as árvores abanam e despejam-nos água em cima...
Então, e no meio desta desventura pluvial, não é que lá estavam elas ? Tranquilas, brancas, paradas, aguardando uma aberta no tempo.
As garças ! As garças do costume, naquela quinta em frente do Colombo de que já vos falei tanta vez. Hoje eram umas doze ou treze, umas gotas de água nos meus olhos não me deixaram contar bem. À chuva, pousadas no chão por entre as ervas, à procura de minhocas ou outra bicharada. Digo eu, sei lá, não conheço muito bem os gostos alimentares das garças.
Pois olhem que as garças não pareciam particularmente impressionadas com a chuva nem com o vento. Também é verdade que todas elas tinham vestido aqueles impermeáveis de penas brancas, e eu não. Mas a questão não é de gabardine, não, é de modelo de vida. Aquelas garças gostam de chuva, não sabem o que é molhar a roupa toda e sentir os pés encharcados.
De onde virão elas ? Do estuário do Tejo, das bandas de Alcochete, onde sei que vivem muitas ?
Como raio é que descobriram que ali há boas minhocas e escaravelhos ?
A verdade é que, graças a elas, as garças, cheguei a casa feliz, apesar de molhado.
Aquelas garças fazem-me sempre bem ao espírito.

domingo, outubro 17, 2004

OS NECRÓFAGOS OPORTUNISTAS

O meu enjôo de ontem foi-se.
Ficou apenas o nojo, uma tremenda repulsa por este bando de necrófagos, aves de rapina oportunistas a quem mão hesitante e imprevidente conduziu ao banquete.
Atiram-se à pouca carne ainda presa aos ossos deste putrefacto país.
Chamam ao festim os amigos, os outros que nem asas têm, hienas de pernas tortas, mandíbulas a tremer e saliva a escorrer pelos beiços bestiais ...
Aprendi que, em democracia, é preciso respeitar as opiniões dos outros. Mas ninguém me preparou para isto, para este golpe da selva palaciana ...Como raio é que deixámos, nós todos, que esta maralha sugadora e esfomeada se chegasse ao festim ?
Como querem que eu respeite as opiniões desta gente ? Sim, como ?? É que, para começar, nem opiniões oiço, apenas sons obscenos do seu mastigar voraz e sem vergonha.
Olho para eles, para os seus cães de fila, e só vejo seres gordos, sebosos, luzidios, inchados de presidências de conselhos de administração e outras prebendas, tão redondos que até os vários cartões de crédito se notam nos femininos peitos, e mesmo assim ainda clamando contra Guterres, a mãe e pai de todos os males.
E eu, que até nunca morri de amores por esse socialista dividido entre o diálogo e a inacção, dou por mim a pensar : bem, pelo menos esse foi mesmo eleito pelos portugueses e nunca notei que tivesse tendências para a necrofagia. Nem tal vi com Cavaco ou com a teimosa Manuela Ferreira Leite, hoje hostilizada pelos seus seguidores de ontem ...
Podem pensar deles próprios o que quiserem, mas a verdade é que Durão Barroso e Jorge Sampaio, entre outros, abandonaram este nosso cadáver à voracidade dos necrófagos !
Agora, temos que ser nós a correr com essa bicharada mal-cheirosa e oportunista.
Vamos a isso ?

sábado, outubro 16, 2004

ANDO TÃO ENJOADO ! ...

Passo muitas vezes por aquilo a que chamo de curas de silêncio. Enjôo-me de falar e de escrever. É como se ficasse doente com a incapacidade de mudar a realidade. Ainda por cima, vivo ( vivemos ) num país de gente que fala e escreve muito ... mas pouco faz. Os pôdres dos portugueses estão cada vez mais a descoberto e, em simultâneo, fala-se e escreve-se cada vez mais...
Vejam o próprio presidente da república : quando foi chamado a agir, nada fez. Porém, agora fala pelos cotovelos, com aquelas frases compridas e inteligentes ( pensa ele, eu penso que se tornam quase inintelegíveis ... ), como se pudesse redimir, pela palavra, a ausência de acção anterior .
Bolas.
Esta semana fiquei calado, portanto. Não da mesma forma que o professor, que o fez ( diz ele ) por razões de educação e de laços de família. Eu fiquei calado apenas por estar enojado com tudo aquilo que se faz hoje em Portugal.
Não é só este governo surrealista e tipo coelho-na-cartola que me provoca este fastio e estes vómitos. São também muitos outros portugueses, vendendo-se e aviltando-se por meia dúzia de eurozitos ...
Não, decididamente os tempos vão maus para quem a corrupção, a vigarice e o interesseirismo fazem mal ao estômago.
Estou agoniado.

domingo, outubro 10, 2004

UM DOMINGO DIFERENTE

Hoje não foi um daqueles domingos de pijama, jornal e televisão. Bem pelo contrário, foi um domingo de surpresas e de sol a brincar por entre as núvens.
Soube-me bem, este domingo de Outono.

Claro que a companhia ajudou. E muito. Gente do norte. Raios de sol, gentis e gráceis.Gotas singulares de amizade nestes aguaceiros precoces e tristonhos. Pessoas simples e povoadas de sonhos, mãos estendidas aos outros.

Manhã ainda cedo, pelos meus parâmetros, e já deambulávamos pelo Museu de Arte Antiga, vasculhando entre pintores portugueses, flamengos, italianos, ourivesaria barroca, cerâmica vaidosa e turistas desengonçados de roteiros nas mãos. Para minha surpresa, o principio sacrossanto do utilizador-pagador não se aplicava hoje, as entradas foram grátis. O dr. Santana Lopes deve andar distraido ou está a preparar o discurso para amanhã, quem sabe ?
O que se calhar também o leitor não sabe é que o Museu das Janelas Verdes tem um pequeno serviço de restaurante no piso inferior, portas abertas para um jardim sobranceiro ao Tejo. Nem o serviço nem o estado de conservação do jardim ganhariam prémio algum, mas o local é simpático e tranquilo, convidando a uma conversa amena e descontraida.
Depois, o Tejo atraiu-nos, convidando-nos para um café, na esplanada do Café In.
Um pouco de vento. Os veleiros aproveitaram e levaram os donos para a água, eram dezenas, enganando o vento, inclinados, mostrando o preto abaixo da linha de água.
A tarde ia a meio quando decidimos uma incursão pelos terrenos de Belém.
Não que o Presidente nos tenha convocado, o chamamento foi mais dos pastéis. Aqueles polvilhados de canela, a besuntar os lábios, mornos e saborosos. Disseram-me que aquela casa vende cerca de 10.000 pastéis daqueles por dia. Imaginam ? Pois bem, hoje venderam 10.008, fiquem a saber !
E assim o domingo se fez sexta ou sábado, dia feliz, contra a rotina. Graças a esses meus novos amigos.
Viva a amizade, abaixo a minha preguiça e a solidão.
Obrigado.

quinta-feira, outubro 07, 2004

SILÊNCIAR A CRÍTICA, ESSA IRRESISTÍVEL TENTAÇÃO !

Sempre pensei – e afirmei – que Jorge Sampaio se iria arrepender da sua decisão de entregar o poder executivo, de mão beijada, a um senhor do género de Santana Lopes.
A realidade recente mostra bem até que ponto aquela decisão foi errada.
Não me lembro, incluindo os velhos tempos de Salazar e Caetano, de ver um primeiro-ministro tão pateticamente à deriva e tão flagrantemente desajustado ás necessidades do nosso País.
Claro que, contrariamente a Salazar e mesmo Caetano, Santana Lopes tem contra si um facto simples mas terrivelmente letal : a liberdade de informação, na imprensa, rádio e televisão. E nos blogues, já agora.
É isto que o faz surgir aos olhos do público tão manifestamente incompetente.
Logo, este é um assunto vital para ele : o controlo, ou pelo menos o apaziguamento, da informação. A emissão de imagens favoráveis.
A estratégia tem vindo a ser levada á prática, de uma forma sorrateira mas visível. Primeiro, a formação daquela “central” de “propaganda”, ao nível da estrutura do governo, com a dignidade de uma direcção-geral. Depois, pela colocação á cabeça do grupo PT Multimédia, de um nome como Luís Delgado, um homem em tempos jornalista que a certa altura se decidiu por outros vôos bem mais lucrativos. Em seguida, algumas medidas avulsas mas concertadas com as anteriores : o silenciar de vozes influentes e com grande audição como Marcelo Rebelo de Sousa ou Pacheco Pereira. .
Começou pelo primeiro. Há uns dias, a JSD do Porto desencadeou as hostilidades. Podia parecer algo desgarrado e espontâneo, mas não era : seguiu-se um discurso bafiento e ressumando a ódio de um senhor ministro deste governo, cujo nome eu não conhecia nem quero conhecer.
O sujeito deu um show de ignorância, raiva, despeito e autoritarismo que eu julgava ser impossível nestes tempos. Ouvia-o e ouvia ao mesmo tempo Moreira Baptista, ministro da propaganda de Salazar, a vociferar contra os comunistas e outros traidores a Portugal. Nos olhos do homenzinho cintilavam chispas de ódio que nem sequer se deu ao trabalho de disfarçar. A bílis corria-lhe dos beiços...
Foi tudo ? Não ...
Vem depois aquele senhor de inefável elegância, o administrador da TVI, o sr. Paes ( com “e” ) de Amaral ( ou “do” ?? ), aconselhar Marcelo a ... enfim.... conter-se um pouco mais. Não seria preciso muito, só para não dar azo ao Governo a inviabilizar uns negócios em que a TVI anda metida. Claro, compreende, Marcelo ?
Marcelo não quis compreender, que coisa ....
O ministro que vomitou a bilis ( a pedido, claro ) vem a público afirmar que nunca quiseram calar Marcelo ( é verdade, queriam era vê-lo a dizer bem deles ... ), o primeiro-ministro reclama-se de um pluralismo a toda a prova – embora ache que o contraditório é que é bom , ehehehehe – o presidente da república chama Marcelo a Belém ... enfim, é vê-los numa azáfama tremenda para remediar o que está mal.
Quando teria sido tão simples.
Quando ainda pode ser tão simples.
Como ? Apenas isto : reconhecer que homens que são apenas invenções mediáticas, sombras da noite lisboeta, seres pusilânimes e voluntaristas que de manhã decidem um túnel e à tarde acabar com uma refinaria, homens cuja preocupação é arranjar um forte á beira mar para passar uns tempos com a família ou contratar assessores de imagem para “dourar” a embalagem e levar os portugueses a comer-lhe nas mãos ... reconhecer que homens desses nunca deveriam chegar a primeiro-ministro de Portugal.
Como quase todos hoje estão a ver.
Espero que o sr. Presidente da República esteja dentro desse grupo, dos que estão a ver, e aja em conformidade.
Por mim, até podem colocar o sr. Santana Lopes ao lado da ex-ministra Cardona. Afinal, o serviço público deve ser recompensado, não é ?

quarta-feira, outubro 06, 2004

VIDAS A PRAZO

A vida é, de facto, um contrato a prazo incerto. A minha e a do meu gato.
Há dois dias, quando fui ao veterinário pela 2ª vez numa semana por causa do “Cenoura”, as novidades não foram nada boas. Mesmo nada.
A minha filha e eu passámos lá um bom par de horas, o veterinário muito simpático a fazer análises sobre análises, e finalmente um diagnóstico : o bicho parece que é positivo na análise à FeLV ( que eu desconhecia ) e que é nem mais nem menos que ... leucemia felina.
Raio, até o nome assusta. Ficámos devastados.
O bichano ficou a soro, levou um antibiótico e mais um anti-inflamatório, ia pondo em pânico toda a gente na clínica com o seu génio de pequena fera e finalmente lá o trouxemos de volta para casa, esbaforido, assustado e um tanto ou quanto sujo. Quem é que na clínica conseguia lavar um leopardo daqueles ?
Bem, a FeLV é um vírus assustador para qualquer dono de gato. Não há cura, apenas há uma vacina contra isso, que ele até tinha : cremos que já tinha o vírus quando foi vacinado, proveniente da mãe.
Que fazer, agora ? A esperança de vida do bichano reduziu-se significativamente : pode durar meses, um ano ou três, mas não muito mais que isso... Como é que se lida com uma amizade a prazo ?
Primeiro, fiquei muito triste e em baixo, agora interiorizei e tenho certezas : tudo será igual para o futuro. Vou continuar a dedicar a mesma amizade que sempre tive ao Cenoura, até mesmo mais, sem pensar que um destes dias ela será interrompida. Vou olhar para ele como sempre. Que se dane o vírus e mais a análise fatal. Não sucedeu nada, o mais certo é o Cenoura ainda cá andar quando eu já tiver partido há muito ...
Afinal, não é esse mesmo mecanismo que usamos para com um ser humano ? Afinal, não são as nossas vidas, todas elas, um contrato a prazo incerto ?
Felizmente, fosse porque fosse, pouco depois de chegar a casa o bicho começou a mostrar o regresso do seu apetite normal ( que é muito, tipo Garfield ) e iniciou uma metódica "destruição" de comida, como quem precisa de recuperar o tempo perdido ! É completamente pateta, eu sei, mas eu e a minha filha entreolhámo-nos, quando vimos o bicho assim, e havia lágrimas nos olhos de ambos.
Lá se vai a minha imagem de duro ...
Bem, e é assim, agora : temos o Cenoura de volta, a sua alegria habitual quase recuperada, a par do seu apetite ...
Ele não sabe que é FeLV positivo, ignora que as suas defesas contra infecções oportunistas são muito reduzidas ... mas não vou ser eu a dizer-lhe, prometo-vos.
Há-de ser nosso amigo e ter a nossa amizade até ao fim. Até ao fim dele ... ou ao meu. Exactamente o mesmo que eu desejo que os meus amigos e amigas façam comigo.
Imitando Manuel Alegre, quanto ao seu cão, apetece-me dizer : Cenoura, um gato como nós !

domingo, outubro 03, 2004

COITADO DO MEU GATO !
É domingo, passa do meio dia e acordei com a neura habitual dos domingos. Ando preocupado com o meu gato amarelo, vejam lá, não come nada há cinco dias penso que por causa daquela história de engolir os pêlos quando se lava. Foi, pelo menos, a sugestão do veterinário. Portanto, logo que me levantei, fui dar-lhe daquela espécie de pasta dos dentes com cheiro horroroso ( e sabor a avaliar pelas contorsões do bicho ! ) que é suposta facilitar-lhe a expulsão dos pêlos. Veremos, mas o bicho anda com um ar infeliz que se farta, olhos doridos, movimentos lentos e inseguros e eu sinto-me mal e impotente.
Enfim, como dirão logo algumas pessoas, certamente muito piedosas, seria muito pior se fosse um ser humano. Como se a nossa afectividade tivesse de ser orientada e graduada de acordo com classificações e taxonomias ... Pois eu proclamo alto e bom som : gosto muito mais do meu gato que de certos seres humanos aberrantes, cretinos, vigaristas e desonestos que por aí andam, disfarçados de seres pensantes. E, para além disso, o meu gato é bem mais bonito que essa gente. Não é, digam lá ?
Bem, não sei bem que fazer, agora. Tomar um banho e ir almoçar fora ? Ficar por aqui a preguiçar, comendo uma sandes de carne assada ? Pondero os prós e os contras : que ganho eu em sair ? Vejo pessoas, uma réstea de sol, um pouco do Mundo, é verdade. Mas isso gastaria as poucas energias que tenho hoje. Hoje acordei velho, está tudo dito, vou ficar em casa. Só mais logo sairei da toca, para uma bica no meu café.
Passem bem.

quinta-feira, setembro 30, 2004

UMA GANGRENA SOCIAL ALARMANTE !

Em carta ao director do “PÚBLICO” de hoje, um professor do 1º Ciclo do Quadro de Zona de Bragança, de nome José Alegre Mesquita, narra o seguinte : pela primeira vez em 24 anos de ensino, e apesar da sua 89ª posição na lista ordenada, este ano não foi colocado em nenhuma escola, tendo-lhe passado à frente mais de 400 ( ! ) outros professores, invocando motivos de saude e juntando atestados médicos obviamente passados com apressada ligeireza, quando não mesmo com leviandade. Mais de 60% dos professores deste quadro apresentaram atestados desses, num caso sem precedentes no nosso país.
O Ministério da Educação determinou uma averiguação a esta situação, é verdade, mas o certo é que este professor não tem colocação e não virá a ser ressarcido das angústias e incómodos que esta gente sem escrúpulos lhe provocou.
O mesmo professor conta que todos os amigos lhe diziam para fazer o mesmo, ao que ele se opôs, na convicção de que a vigarice e o oportunismo não teriam êxito.
Enganou-se. Passaram-lhe todos à frente, fraudulentamnte, com a complacência de Governo e Sindicatos.
E ainda se este fosse caso único ! Mas não, os exemplos de comportamentos enviezados e pouco éticos têm crescido como cogumelos nos ultimos tempos em Portugal : foge-se aos impostos, incluindo um numero crescente de “deficientes”, como foi recentemente noticiado ; passam-se atestados médicos nitidamente “exagerados”; organizam-se golpes e calúnias contra pessoas ou partidos ; conseguem-se pensões de reforma dignas das Mil e Uma Noites ; chega-se a Primeiro Ministro sem votação prévia ou transforma-se uma região autónoma num domínio feudal ...
Nestes casos, como em muitos outros, os portugueses estão a interiorizar a noção de que compensa ignorar a lei e torpedear as normas. A sensação reinante é a de que usar expedientes ilegítimos para obter vantagens pessoais já não é vigarice, é apenas legítimo direito de defesa, é ser esperto numa terra onde vale tudo.
Esta noção deturpada e cínica alastra como uma gangrena pelo tecido social português, acelerada pela quase certeza da impunidade. As situações são bem conhecidas publicamente, há anos, sem vestígio de censura ou penalização.
Em Portugal começa a não haver espaço para a honestidade e seriedade.
Em Portugal os homens e mulheres de bem começam a sentir-se num gueto.
Em Portugal, a vigarice está na moda, a falta de escrúpulos é que está a dar, de cima a baixo, da direita à esquerda.
Enquanto isto se passa, todos nós continuamos calmamente a almoçar e a jantar, a dormir o sono dos justos e a passar umas fériazinhas regaladas no ripanço de uma qualquer praia.
Incluindo o sr. Presidente da República, os membros do Governo, os senhores deputados da Assembleia da República, os senhores procuradores da Procuradoria-Geral da República, os senhores bastonários das Ordens dos Médicos e dos Advogados, os senhores dos partidos políticos, os senhores dos sindicatos ... e todos nós afinal !
Quando iremos nós fazer qualquer coisa para interromper esta gangrena galopante ??
Senhores que detêm o poder político e ou a responsabilidade : ajam, por favor. Ajam. Sem perda de tempo.
Mostrem que o crime não compensa.
Se não o fizerem já, cada dia que passa aumenta a impunidade e faz alastrar o mal a toda a nação.
Ajam. Já não têm ( temos ) muito tempo.

terça-feira, setembro 28, 2004

VELHAS FOTOGRAFIAS NUMA CASA VAZIA

Fui hoje à velha casa de família, em pleno Ribatejo. A casa está desabitada, embora todas as semanas lá vá uma mulher dos arredores abrir as janelas e regar as plantas que ainda resistem. Era a casa dos meus sogros ( já ambos desaparecidos ) mas a ela me ligam circunstâncias muito fortes. Para começar, foi um dos meus primeiros projectos, em engenharia civil : uma moradia de dois pisos, quartos amplos, uma casa de banho do tamanho da do Júlio César, uma cozinha com espaço para dar uma festa de casamento. Depois, ali vivi momentos inesquecíveis, junto de pessoas que gostavam de mim e a quem eu também amava. Ali se criou a minha filha, com os avós, enquanto andei por guerras de África, e mesmo depois disso. Não se admirem, pois, que aquela casa me fale e eu lhe responda, agora que está vazia e triste de tanta saudade.
Curiosamente, nunca sinto o vazio, dentro desta casa. Devia sentir, penso eu, mas não sinto. É como se todas as coisas me falassem e saudassem, felizes de me verem por ali. Sinto-me lá bem.
Hoje, a minha filha decidiu abrir uma velha gaveta, num móvel que alberga um velho e bonito relógio de pêndulo. A gaveta estava cheia de fotografias. Antigas. Algumas do principio do século passado, de 1900 e poucos. Os pais da minha mulher, os avós, o casamento de primas e primos, senhores com ar digno e bigode farfalhudo que eu não soube dizer à minha filha quem eram. A minha mulher em criança e em jovem. Ela própria, a minha filha, em fases diferentes da sua meninice. Algumas minhas, também, com um ar esfomeado e magricelas. Traços de vidas cumpridas e terminadas, umas, etapas já percorridas de vidas ainda em aberto, noutras.
Não me apercebi logo, mas fui-o sentindo à medida que as fotos me iam escorregando pelos dedos : a angústia do irremediavelmente passado ia-se infiltrando em mim, insidiosamente, mansamente...
Desisti de ver as fotos primeiro que a minha filha. Trouxe duas ou três da minha mulher, muito jovem, de uma beleza e juventude que ainda me faz sofrer pela sua perda.
E foi isto, apenas.
Viemos embora, pouco depois, uma refeição simples e apressada na zona de serviço de Torres Novas e pouco depois, Lisboa de novo.
Os vazios da minha vida ficaram lá, a cento e tal quilómetros.
Fotos envelhecidas mal arrumadas numa gaveta de um relógio de pêndulo que há muito esgotou a corda.

sábado, setembro 25, 2004

A ESTRANHA RELAÇÃO ENTRE BAGÃO FÉLIX E OS LAVAGANTES

- E aquelas ali, todas pretas, o que são, pai ?
- Aquelas são lavagantes, filho ....
Estava hoje a olhar para um daqueles aquários-tipo que existem nas cervejarias, enquanto almoçava, quando estas palavras me vieram à memória, muitos anos depois do meu pai me ter ensinado o nome daqueles bichos que estavam no meio das lagostas mas pareciam mais guerreiros japoneses com armaduras negras.
Alguns deles passeavam-se lentamente pelo fundo do aquário, com as tenazes atadas, provavelmente louvando ministros como a Drª Manuela Ferreira Leite e o Dr. Bagão Félix : graças a esses distintos gestores da coisa pública, poucas famílias, nesta zona, se atreverão a perturbar o seu sossego ...
Enquanto esperava umas sardinhas assadas ( obviamente menos beneficiadas pelo regime fiscal em vigor ), fui-me enternecendo a pensar no meu pai ( há muitos anos falecido ) e nas muitas coisas que aprendi com ele.
Coisas como andar de bicicleta, fazer uma fisga para atirar aos pardais ( ainda não tinham direitos, os pardais, naquele tempo ! ), fazer brinquedos de madeira, com o auxílio de algumas ferramentas e sobretudo ...pescar. Passei muitas tardes com ele, à sombra de um salgueiro, na margem do Tejo ou então nas rochas da praia dos Salgados, perto de S. Martinho do Porto, sua terra natal.
Falava pouco, mas junto dele sentia-me sempre bem, em paz, como se tudo na vida fosse simples e tranquilo. Nunca conheci ninguém mais despojado das coisas materiais da vida que o meu pai. Era feliz ( penso eu ) com muito pouco e a sua filosofia de vida consistia em tentar viver tranquilo e sem chatices.
Acho que, mesmo sem dar por isso, parte dessa sua essência passou para mim. Sempre fugi das coisas chatas e incómodas da vida, nunca me atrairam honras ou popularidade ou riqueza. Fiquei em pânico, uma ou duas vezes na vida, só porque um desmiolado qualquer queria à viva força fazer de mim ministro, naqueles conturbados anos de 74/75 .... ainda hoje tremo só de pensar nisso.
Pois é. O meu pai. Tenho saudades dele... Da minha mãe também, com quem sempre tive uma relação agitada, de amor e desentendimento. Um dia hei-de falar disso, talvez. Mas sinto mais a falta de uma pessoa como o meu pai. Gostava de mim e eu sabia-o mesmo sem ele dizer uma palavra que fosse. Bastava ir com ele, de bicicleta, a pedalar por carreiros fora direitos ao Tejo, com as canas de pesca atadas ao longo das bicicletas.

Voltemos ao protector dos lavagantes. Ao dr. Bagão Félix. ( raio de nome ... ). Este circunspecto senhor tem mesmo um ar digno, sério, lavado, educado, não tem ? E diz coisas a favor dos pobrezinhos, contra os ricos ! Pessoa minha amiga disse dele que lhe achava um ar de padre, querem maior elogio ?
Gosto mesmo muito deste senhor tão sério. Portugal precisa de homens destes. Contudo, ando a ficar um pouco baralhado : primeiro, quando ele disse que eu pertencia ao grupo de 30% das pessoas mais ricas deste país. É que eu faço todos os anos um PPR . Bem, aí ainda acreditei ... Mas agora é que fiquei mesmo baralhado : se o senhor é assim tão asceta, sério, anti-corrupção e anti-PPR, porque diabo é que arranjou aquele tacho na CGD à ex-ministra Cardona ? Então o Estado não pode beneficiar-me em 250 euros por ano como incentivo no meu PPR mas pode pagar pr’aí uns 15.000 euros POR MÊS àquela senhora que NADA sabe daquilo ??
Decididamente, a vida está é para os lavagantes ...

sexta-feira, setembro 24, 2004

DESCULPAS

Peço desculpas a dois dos meus leitores que fizeram comentários ao meu ultimo post. Eu li-os, mas não consegui que eles ficassem disponíveis no blog, por motivos técnicos que não consegui decifrar.
Será que estamos - os meus leitores e eu próprio - a sofrer represálias pelas críticas ao processo da colocação dos professores ??
O vírus COMPTA/ME estará a atacar ?
Veremos se este problema se resolve no futuro ...

quarta-feira, setembro 22, 2004

TACHOCRACIA INTER-PARTIDÁRIA DE FACHADA DEMOCRÁTICA

Já o disse muitas vezes, mas repito agora : não sou extremista, em termos políticos. Com isto quero dizer que não acredito na eficácia de preconizar medidas políticas extremas no que respeita à evolução das sociedades. Pertenço, acho eu, a uma esquerda um pouco romântica, acredito em valores humanos e sociais básicos ( como justiça social, solidariedade, honestidade... ), penso que as transformações sociais se fazem gradualmente, com luta sim, mas sem balas nem mortes.
Sou isto tudo ... mas não sou parvo.
E como não me considero parvo, apetece-me hoje falar-vos de um fenómeno das nossas sociedades que de tão rotineiro e persistente se arrisca a ser considerado “normal”. Trata-se do fenómeno da distribuição inter-partidária dos bons tachos. A tacharia inter-partidária.
Vejamos como funciona : os senhores e senhoras das camadas superiores dos partidos de governo constituem-se numa espécie de clube de elites do país. Possuem formações académicas superiores, vestem bem, frequentam os mesmos círculos sociais e todos ostentam idênticos sinais exteriores de bem-estar social. São educados, simpáticos, bem falantes, não deixam que a ideologia dos partidos a que pertencem provoquem entre eles divisões ou atritos. São amigos dos membros do Governo e dos dirigentes partidários. Estão sempre presentes em todas as cerimónias de tomadas de posse, de director-geral para cima. Telefonam-se, convidam-se, fazem-se notar.
Depois ... é fácil : são sempre eles, e só eles, os elegíveis para todos os cargos públicos ou semi-públicos onde se ganha bem. É como se possuissem um alvará que mais ninguém tem. Rodam de empresa em empresa, de conselho de administração em conselho de administração. Sempre eles. Só eles. Mais ninguém tem acesso a este clube altamente restrito e ferozmente defendido da vil populaça.
Neste clube não interessa ser-se do PSD ou do PS ou do CDS. Quanto muito, ser-se do partido que está no poder apenas confere prioridade para os melhores lugares. Mas os outros podem sempre contar com lugares igualmente bem remunerados ...
E digo-vos mais : o mesmo fenómeno se nota, embora em grau muito inferior ( como convêm ... ) nas autarquias onde o PCP manda !
Ah, não pensem que os membros deste clube têm andado distraidos ... durante estes anos arranjaram maneira de se aumentarem, de aprovarem benesses várias, honrarias e distinções... por algum motivo os vencimentos dos gestores portugueses estão dentro dos maiores praticados na Europa !! Sim, ouviram bem !! Em valor absoluto, euro por euro. E, espertos como são, ainda passam a vida a afirmar que ganham pouco ...
Quanto a benesses, é melhor que ponham os olhos na pensão que o pobre do engº Mira Amaral vai usufruir por ter estado um ano e pouco no conselho de administração da CGD : mais de 3.000 contos por mês, coitado ! Leram bem, três mil contos mensais, uma bagatela, nada de especial. Nós, os tesos, é que não temos noção do que custa vestir bem e ter de ir almoçar a bons restaurantes, levar a família de férias para as praias das Caraíbas e ter de comprar e manter o Audi A-8 e a vivenda na Quinta da Marinha, para não falar da outra, naquela urbanização fechada da costa nordeste do Brasil. Experimentem, e vejam lá se não precisam mesmo dos 3.000 contos mensais... está tudo pelas horas da morte !
Bom, o que podemos fazer contra isto ? Confesso que não sei. Suponho que a primeira coisa que podemos e devemos fazer é tomar conhecimento.
Depois, podemos expressar a nossa indignação e o nosso cansaço deste vício tremendo.
Cada um de nós pode dizer : basta !
É que isto assim não é democracia, não é nada. Parodiando os outros, diria mesmo que a ser alguma coisa é tachocracia de fachada democrática ...

terça-feira, setembro 21, 2004

UMA IMENSA TRISTEZA ...

Inacreditável.
Confrangedor, mesmo.
O que me perturba não é o fracasso reiterado e quase suicidário das listas de colocação de professores. O que me faz calafrios é a ignorância, incompetência e incapacidade de decisão de tanta gente que anda lá pelo ministério á volta desta questão.
Como é possível esta gente toda estar colocada no ME ? Então é a gente desta que estamos “entregues” ? E nos outros ministérios, há alguns motivos para pensar que a situação seja diferente ?
Leitores : tenho mais de quinze anos a trabalhar em informática, como gestor num departamento público responsável pelo desenvolvimento de sistemas de informação ( vulgo programas ) de grau de complexidade elevada.
Sei muito bem como se processa este tipo de trabalho, aprendi, antes de mais, que todo o cuidado é pouco nas fases iniciais dos projectos, a de definição dos requisitos operacionais ( o que se pretende que o programa faça, de facto ) e a da análise dos fluxos e processamentos de dados, a que também poderíamos chamar a da definição das regras do jogo.
Estas fases exigem um trabalho permanente e íntimo entre dois grupos de pessoas : as donas do projecto, que devem conhecer exactamente os objectivos a atingir e todas as regras do jogo e aquelas outras pessoas que sabem analisar estas regras e convertê-las numa lógica de programação simples. Estes dois tipos de pessoas devem ser competentes nas áreas respectivas e devem também saber trabalhar em equipa, todos eles liderados por um chefe de projecto prestigiado, idóneo e experiente.
Esta interacção é tão íntima, tão estreita e imprescindível, que muitas vezes deve começar mesmo ANTES da definição das regras do jogo, ANTES da sua tradução em lei.
E aqui começam os factos aberrantes neste caso concreto : as regras do jogo de colocação de professores ( o DL 35/2003 e demais legislação posterior ) são obtusas, mal redigidas, pouco claras e muitas vezes quase incompreensíveis, numa perspectiva da sua conversão para linguagem binária. Em algumas das regras parece mesmo ter havido a preocupação de complicar as coisas, de forma a que não funcionem. E eu sei porquê : a concepção do modelo do concurso foi feita essencialmente por técnicos de gestão do pessoal docente e por juristas, uns e outros sem quaisquer preocupações de viabilidade do tratamento informático posterior.
Querem um exemplo ? Leiam as regras para afectação dos professores dos QZP a horários surgidos nesses QZP. Os horários são divididos em grupos, consoante o numero de horas, os professores declaram as suas preferências por escolas mas a estas acaba por se sobrepor o maior número de horas dos horários ... um pesadelo, concretizar estas regras baralhadas num programa informático. A hesitação do legislador, as suas duvidas e incertezas acabam por se tornar numa armadilha mortal para algum incauto que vá definir uma lógica de decisão para o sistema informático.
Depois ... estão mesmo a ver a dinâmica de uma equipa de projecto conjunta com técnicos do ME e de uma firma privada exterior, não estão ? Uns sem ideia nenhuma do que é a lógica binária, os outros sem qualquer contacto ou experiência do que é o mundo da colocação de professores !
Juntem a isto uma orientação política incapaz, desde o nível de director-geral até ao próprio ministro, e terão a fotografia completa do desastre.
Mais : em alturas de contingência, há que saber escolher alternativas, sem hesitações. Não é o que tenho visto suceder. Em diversas ocasiões, lembro-me de pensar que a decisão óbvia e sensata não fora tomada.
Por exemplo, quando se notaram milhares de erros na primeira lista de ordenações, decidiu o ME continuar o processo, avaliando as dezenas de milhares de reclamações entradas.
O mais elementar bom-senso aconselharia outro caminho : reconhecer que grande parte dos erros foram devidos aos impressos de recolha abstruzos que inventaram e á recolha dos dados pela leitura óptica desses impressos, com reconhecimento óptico de caracteres.
Qualquer pessoa com experiência destas coisas teria seguido outro caminho : redesenho do impresso de recolha e repetição dessa fase com maior garantia de dados sãos.
Outro exemplo : algumas das lógicas de validação dos dados recolhidos, nessa fase das listagens provisórias e definitivas, estavam totalmente erradas, numa perspectiva funcional, denunciando uma ligação imperfeita entre o ME e a firma de informática.
Aparentemente, ninguém se preocupou com isso.
Qualquer pessoa com experiência neste domínio teria ficado com os cabelos em pé e teria feito uma autêntica revolução na equipa de projecto, exigindo que os informáticos fossem totalmente esclarecidos quanto às regras das colocações ou optando por mudar a empresa responsável ... ou ambas as medidas.
Tal não foi feito, muitos erros forma considerados “erros informáticos” sem mais consequências.... Mas como é possível, já nesta fase final, afectar um professor de um determinado QZP a uma escola de outro QZP ? Pensam que isto é um erro informático ? O tanas é que é : isto é pura e simplesmente um erro de coordenação dentro da equipa e um erro na incapacidade de detecção de erros na fase de testes.
Enfim ... uma infinita tristeza, é o que tudo isto me provoca.
Como já disse, bem gostaria de pensar que a gestão da coisa pública estivesse entregue em mãos mais experientes ... mas a verdade é que está entregue a amadores. E maus.

sábado, setembro 18, 2004

MAIS UMA IDEIA ORIGINAL EM SEDE DE IRS !
( os cidadãos que não fogem ao fisco devem pagar a crise ! )


A ideia é SEMPRE a mesma, inapelavelmente, infatigavelmente, desavergonhadamente : extorquir MAIS dinheiro àqueles que já pagam IRS.
Sim, todos nós sabemos que é mais fácil fazer isso do que ir incomodar e aborrecer os nossos ( deles ... ) amigalhaços que não se dignam pagar o seu IRSzito ... ainda se iam ofender connosco, sei lá ...
Apenas um aparte : sabem que os rendimentos médios declarados por engenheiros, advogados, médicos, etc ... em 2003 andavam à roda dos 800 euros mensais ? Taditos, ganham mesmo mal para quem tem tantos estudos e tanto trabalho ! Só os dentistas declararam um pouco mais, cerca de 1250 euros, imaginem !
Pois bem : em vez de fazer pagar essa malta toda, em vez de obrigar os bancos a pagar mais que uns míseros 13 a 14% de IRC, vá de acabar com os benefícios fiscais de quem faz contas poupança, tanto de reforma como de habitação ! Ora toma ! Vai-se buscar aos mais ricos, diz o Ministro ...
Aos mais ricos ???
Vai-se é buscar sempre aos mesmos, sempre aos mesmos, digo eu.
Até que esses mesmos acordem, de uma vez por todas, e resolvam dar um belo pontapé no rabo a quem assim os trata, deixando de lado, intocáveis e descansadinhos, todos os figurões acima referidos !
Hem ? Que acham da ideia ? Vamos a isso ?

sexta-feira, setembro 10, 2004

UMA VISÃO DE FUTURO PARA OS PROFS, PRECISA-SE !

Nos ultimos dias, por pressão dos atribulados concursos de professores para o próximo ano lectivo, surgiu uma grande polémica centrada na gestão do pessoal docente de nomeação definitiva dos quadros de escola ( QE ) e dos quadros de zona pedagógica ( QZP ). A discussão tem sido feita mais em termos emotivos e egoistas do que outra coisa, passando ao lado das verdadeiras ( e incómodas ) questões de ordem estratégica e conceptual.
Sim, a verdade é que tem faltado uma noção do que são os QZP e de qual virá a ser o modelo futuro da relação contratual com o Estado de TODOS os professores.
Os QZP surgiram há poucos anos, como uma resposta à dificuldade do ME – e à sua pouca vontade política – em determinar as necessidades reais das diversas escolas em pessoal docente profissionalizado. Estas necessidades, no microcosmo de cada escola, têm vindo a variar muitissimo, nos ultimos anos, face a um cenário de diminuição da população estudantil nacional, a oscilações regionais e também a reestruturações da rede escolar.
O modelo exclusivo até há uns anos, de vínculos definitivos a cada escola ( os profs dos QE ) é extremamente pouco flexível, de facto, dada a dificuldade de introduzir ajustes na afectação dos professores às necessidades das escolas, em mudança permanente.
... De onde que a ideia da criação de “bolsas” regionais de professores é lógica e responde a essa mutabilidade das necessidades : assim, anualmente ou mesmo no meio de um ano escolar, os profs são redistribuidos pelas escolas em função da realidade existente.
Assim foi feito.
No actual panorama, co-existindo estes dois modelos de gestão do pessoal docente com vínculo definitivo, é totalmente compreensível ( diria mesmo que é indispensável para o funcionamento do sistema ) que seja dada prioridade aos professores de cada QZP na ocupação das vagas docentes inventariadas em cada ano para ESSE QZP( para além das que são asseguradas pelo pessoal QE das escolas desse QZP ).
Fazer o oposto seria negar a própria lógica da criação destas bolsas regionais de pessoal. Dito de outra forma, o vínculo destes profs dos QZP aos lugares surgidos no seu QZP é exactamente do mesmo tipo que o vínculo dos profs dos QE aos seus lugares das escolas : eles pertencem-lhes, ponto final, parágrafo.
Até aqui, creio que é insustentável outra visão, a menos que seja o interesse pessoal, legítimo ou ilegitimo, a falar e não a razão das coisas.
Dito isto, há algo contudo que parece faltar em toda esta amálgama de situações ... falta um quadro de intelegibilidade ultima, falta uma estratégia de transição que indique o caminho para uma situação final que seja transparente e funcional e que corrija eventuais injustiças !
Em meu entender, essa estratégia de transição poderia ser a de se caminhar, gradualmente, para uma situação onde os QE desaparecessem, sendo substituidos pelos QZP, na totalidade do pessoal docente. De resto, como em qualquer grande empresa com unidades geograficamente dispersas, ou mesmo como nas organizações militares. O pessoal pertence a um quadro único, ou a poucos quadros regionais e depois movimenta-se pelos diferentes locais de trabalho de acordo com regras específicas e, eventualmente, incentivos adequados.
Se assim fosse, se este conceito existisse bem claro pelas bandas do Governo ( depois de discutido com os sindicatos, claro ) então seria exigível definir uma forma de caminhar da realidade actual para a futura : não me parece complicado, por exemplo, criar um acréscimo de vagas anuais, em cada QZP, destinadas ao pessoal QE que a elas se candidatasse. Sempre que um professor QE entrasse num QZP a “sua” vaga QE na escola seria extinta, claro, embora pudesse continuar a ser um horário existente.Caso exista a necessidade de renovar os quadros, seria destinada a esses casos uma quota específica de vagas nos QZP, para os novos efectivos.
Esta solução iria encontrar oposição de muitos profs dos QE, claro, é natural. Mas também a transição seria longa e, no fim, a quase totalidade dos profs mais velhos, com maiores graduações profissionais, acabaria ou por nunca passar pelos QZP ou, mesmo que o fizessem, acabariam por ir parar às mesmas escolas da sua preferência.
Bom, se o ME pensasse assim, então daria uma perspectiva de futuro a todos esses professores dos QE que agora se angustiam por não terem o “seu” destacamento ... é que lhes seria dada oportunidade de ficarem, eles também, nas condições dos QZP, a quem eles agoram acusam de privilegiados ...
Depois se veria, mas eu acredito que muitos seriam tentados a concorrer aos QZP, uma vez que , dentro desses quadros, a sua posição relativa na lista ordenada seria boa, dadas as suas graduações profissionais.
O que sucedeu este ano, sem lhes dar uma “ideia” do futuro nem a possibilidade de concorrer aos QZP, onde não existiam vagas, foi mesmo muito MAU, em termos políticos e de gestão de pessoal, tendo pressionado tanta gente a ficar “doente”, como se viu !
Claro que esperar estas ideias e esta noção de futuro deste ME ( ou do anterior, para ser mais justo ), embora sendo o “abc” de qualquer gestor de recursos humanos, seria esperar MUITO de uma equipa que primou pela mais inacreditável incompetência, ainda por cima a par de uma arrogância tremenda.
Mas este Governo, esta nova senhora Ministra, tem agora ocasião de fazer melhor, de inovar e de corrigir esses erros. Aqui fica a sugestão de um possível caminho.
Ah, e já agora : substituam aquela senhora directora-geral dos recursos humanos, ela já demonstrou que não faz a mínima ideia do que deve ser um director-geral nesse sector complicado do Ensino. E vejam, já agora também, se dentro dos inúmeros boys que passam a vida a admitir, arranjam alguém que tenha experiência ou ideias ou inteligência ...
Já agora.

domingo, agosto 15, 2004

O HORROR NACIONAL À CONCRETIZAÇÃO

Em Portugal, tanto na Educação como na Justiça, continua imparável o mito de que basta mudar legislação para que estes sistemas funcionem.
Esta é, de resto, talvez a maior fragilidade dos portugueses : perante algo que não funciona, fingem que a culpa é das leis que regulam esse funcionamento e não das estruturas e das pessoas envolvidas.
Assim, a Educação é o caos que é por causa dos currículos e da lei de bases do ensino. Modiquem-se estes e ver-se-á logo tudo a mexer, impecavelmente.
A Justiça está pura e simplesmente paralizada ? Não há que ver, a culpa é dos Códigos Penal e do Processo Penal. Alterem-se estes e pronto.
Matamo-nos todos na estrada, lenta e inexoravelmente ? Altere-se o Código da Estrada.
Ninguém ( ou poucos e sempre os mesmos ) paga impostos ? Modifique-se a lei.
O mercado funciona mal, em muitos sectores ? Legisla-se e inventam-se umas regras diferentes.
Por aí fora.
Percebe-se porquê.
Num país de líricos e especialistas do paleio, onde poucos possuem uma cultura “do fazer”, é quase impossível perceber que todo um sistema tem que ser mexido, quando não funciona. Estruturas, pessoas, procedimentos e, claro, depois de tudo também as regras do jogo, a legislação.
É muito mais fácil nomear uma comissão que prepare uma simples modificação apenas da lei, fingindo desconhecer que, depois, ninguém irá cumprir essa lei.
É toda uma mentalidade perante as coisas da vida real que importa mudar, não este ou aquele código ou lei. Exige-se um olhar integral sobre os sistemas, sem medo de mexer neles, em vez de considerações cosméticas sobre os mesmos.
A mentalidade reinante em Portugal há muitos anos é consistente com esta táctica de avestruz legislativa. A formação das elites portuguesas é maioritariamente orientada para actividades “de paleio” e muito menos para questões técnicas e operacionais. Todos são doutores ( juristas, economistas, consultores que sei eu ), muito poucos sabem de facto FAZER. Seja o que for. De um simples buraco na parede, em casa, com um berbequim, a uma nova organização bem montada, a funcionar sobre esferas.
Sabem, contudo, perorar sobre códigos, incluindo os romanos, e sobre as pseudo-leis da oferta e da procura e do efeito macro-económico da subida das taxas de juro.
Quem os ouvir e não conhecer Portugal há-de pensar que somos um país de génios, de gente de qualidade, com sistemas nacionais bem pensados e a funcionar suavemente ...
O que é curioso é que, de facto, estas duas perspectivas entram por vezes em choque, como no caso recente da TAP, entre um homem com experiência de gestão no sector ( Fernando Pinto ) e um outro, de há muito só habituado a mandar bocas e a ocupar cargos de favor.
Bom, sendo assim as coisas, que há de esperar deste país ?
A minha resposta é esta : infelizmente, nada há a esperar, nos tempos mais próximos. Os sectores públicos que precisavam urgentemente de ser renovados e colocados em funcionamento irão permanecer estagnados e à deriva. Enquanto ouvirem falar apenas em modificar a legislação , podem ter a certeza que tudo vai permanecer tal como está.
E, no fundo, não é isto que todos merecemos ? Os portugueses qualificados para fazer ( bem ) coisas não vão todos para o estrangeiro ou para o sector privado, à procura do vil metal ? Então o que seria de esperar ?
Lamento o pessimismo, mas acho que é assim que as coisas se passam.

Por mim, sempre tentei fazer com que as coisas funcionem, antes de mais, seja qual for a legislação em pano de fundo. Esta logo se modifica, mais tarde.
Quando me ouvem falar assim, não pensem que sou igual a eles, “só paleio”. Tenho horror a isso. Embora goste e respeite, por formação, o estudo e o projecto, para mim ambos só se justificam se depois forem levados à prática.
Sou daqueles que acredita que é melhor uma obra sem projecto ( embora minimamente pensada ) , que um projecto bonitinho ... que nunca se transforma em obra feita.
Sou sincero : detesto o espírito português de inventar sempre formas complicadas ... de não fazer nada que funcione.
Tolero mal advogados e economistas e outros que tais, enquanto actores da mudança, enquanto agentes do fazer.
Com eles, no século XV, apenas descobriríamos o caminho marítimo para Belém ou para S. Bento.
Tal como no Séc. XXI, afinal.