segunda-feira, janeiro 26, 2004


EVANESCENCE

São uma banda nova - e de gente muito nova - de Little Rock, Arkansas, Estados Unidos da América. A minha filha falou-me neles, compramos o CD, ouvi e gostei bastante. A moça é a vocalista e chama-se Amy Lee. É ela a compositora do grupo e, se bem que as letras das canções revelem ainda alguma imaturidade ( natural, não, aos 20 anos ? ), têm já aquela marca que, a par de uma música muito simples e de uma voz cativante, fazem deste grupo algo que vale a pena ser ouvido. Não sei nada deles a não ser isto que vos digo, mas a sonoridade faz-me lembrar os grupos irlandeses.
Vejam abaixo a letra de "My immortal", uma das canções de maior sucesso deste CD que comprei e se chama FALLEN.
Pode VER AQUI um video desta canção, se possuir uma ligação à internet de banda larga.
Ou pode ir AQUI e ouvir esta ou outras canções !
Enjoy !

"My Immortal" - EVANESCENCE

I'm so tired of being here
Suppressed by all my childish fears
And if you have to leave
I wish that you would just leave
'Cause your presence still lingers here
And it won't leave me alone

These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase

[CHORUS:]
When you cried I'd wipe away all of your tears
When you'd scream I'd fight away all of your fears
I held your hand through all of these years
But you still have
All of me

You used to captivate me
By your resonating light
Now I'm bound by the life you left behind
Your face it haunts
My once pleasant dreams
Your voice it chased away
All the sanity in me

These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase

[Chorus]

I've tried so hard to tell myself that you're gone
But though you're still with me
I've been alone all along

[Chorus]

domingo, janeiro 25, 2004


A IMPROVÁVEL TERNURA

Sofia Coppola realizou o seu segundo filme, a que chamou Lost in Translation. A história é banalíssima e contudo aborda um dos segredos mais tocantes do ser humano, o milagre da empatia profunda entre duas pessoas. Neste caso, uma delas um velho actor em crise de carreira, a filmar um anúncio no Japão, e a outra uma jovem de 20 e poucos, recém-casada com um fotógrafo quase sempre sem tempo para ela. O envelhecimento bem humorado de um homem e o inicio de vida desencantado de uma jovem mulher. A improvável cumplicidade entre os dois. A ternura urgente embora impossível.
Ela pergunta, referindo-se à vida que a espera no futuro, à incerteza da relação com o marido : “Com o tempo isto torna-se mais fácil ?”. Ele hesita, demora o seu tempo e sussurra : “Não”. E lentamente, hesitantemente, singelamente, acaricia-lhe um pé.
Nunca se abraçam, nunca se beijam, nunca pensam em sexo um com o outro. Apenas sabem que se sentem bem os dois, que lhes apetece sorrir um para o outro, que existe uma grande ternura mútua.
Tudo os separa : a diferença de idades, a mulher e os filhos dele, o marido dela. A separação é um fim óbvio quando ele regressa a casa, nos EUA... Aí, e só no último momento, ele corre atrás dela e a abraça e beija comovidamente. E parte, olhando aturdido o espectáculo dos anúncios nos edifícios da cidade.
Sentimos perfeitamente o carinho e a ternura no ar, também nós.
E a esperança, também.
Coisas simples da vida, uma realização discreta e sóbria, um filme que faz de nós pessoas melhores, na saída.
Vão ver, façam favor.

sexta-feira, janeiro 23, 2004

.
A GREVE DA FUNÇÃO PUBLICA E A FALTA DE VERGONHA DOS PARTIDOS POLÍTICOS

Estive a escrever umas linhas sobre esta greve da função pública. Depois, desisti. A raiva surda é tão forte que nem consegui dizer o que sinto. Estes senhores, tal como antes deles já outros o tinham feito, usaram e abusaram da máquina estatal para fornecer emprego e benesses ás suas clientelas partidárias e aos seus amigos. E como os salários normais da função publica não são principescos, londe disso, trataram de inventar subterfúgios legais para lhes pagar salários chorudíssimos. Como é que julgam que apareceram os Institutos ? E não pensem que é um ou dois : são centenas, caramba, centenas !
Depois, inventaram o estatuto especial do gestor público, os administradores dos hospitais SA, eu sei lá que mais, tudo sentado à mesa do orçamento do Estado.
Foram dezenas e dezenas de milhares os novos “funcionários públicos” que entraram por esta via nos ultimos anos. Normalmente, gente com pretensões, com ligações a partidos ou familiares, gente que veio para ganhar bem e fazer pouco. Inexperientes, sem qualquer qualificação especial, a quem foram distribuidas colocações na ordem dos 3000 ou 4000 0u 5000 euros mensais. Um escândalo partidário e nepotista, que nunca será trazido à luz do dia já que quase todo o país foi conivente ! Usaram os dinheiros públicos de uma forma obscena, distribuiram tachos como nunca o regime de Salazar ousou, meteram na função pública todos os amigos, apaniguados, primos, sobrinhos, cunhados, amantes, eu sei lá ....
E depois de tudo isto vêm agora reclamar que há muitos funcionários públicos, que o peso dos salários no orçamento do Estado é exagerado, que é preciso ter paciência e aguentar com reduções do salário real e reduções nas reformas !!!
Não é preciso ter lata ? Não é mesmo falta de vergonha e hipocrisia ? Mas quem é que criou a situação que eles mesmo denunciam ? Não foram eles ? Ou foram os funcionários públicos que meteram lá todos aqueles tipos de que falei ?
Senhores de todos os partidos, neguem o que afirmo, se puderem ! Mesmo o PCP, que nunca tendo estado no poder ( à excepção dos primeiros Governos provisórios pós-25 de Abril ) tem o controlo de várias Autarquias locais onde se passa exactamente o mesmo !

quinta-feira, janeiro 22, 2004


EU E O OUTRO

Quando estou muito tempo sózinho, sem falar nem ouvir vozes ( sequer da TV ) acontece-me algo semelhante a uma dissociação entre mim ( a minha capacidade de pensar ) e o meu corpo. É como se o meu eu pensante fosse alguém distinto daquele paspalhão que está ali sentado. Chego a falar com ele, normalmente para o insultar e perguntar o que está ali a fazer, em vez de ir tomar uma imperial à beira do Tejo, no fim de tarde ...
Não sei muito bem se isto não será uma daquelas doenças de personalidade de que os psiquiatras tanto gostam.... seja como for, não vou perguntar a nenhum, ficava a saber o mesmo e com menos 100 ou 150 euros, não era ?
Também não vou ao ponto de pensar num desdobramento de personalidades. Não, aqui há sempre apenas uma personalidade, embora em diálogo com o outro eu. Mas esse outro eu não tem sequer personalidade, que eu saiba.
É mais como se me visse a mim próprio, de um ponto exterior ao meu corpo. O meu ser pensante ( ia a dizer inteligente, mas isso já seria imodéstia ehehehe ! ) está nesse ponto exterior, e sou capaz de olhar para mim próprio com um distanciamento semelhante áquele que teria se estivesse a olhar uma outra pessoa.
Esquisito, não é ? Não sei nada de psicologia que me possa explicar esta sensação e, francamente, não estou muito interessado em pesquisar.
Está baralhado e perplexo, leitor, com este meu post de hoje ? Olhe, foi aquilo que me veio à cabeça...
Mas, pensando melhor, interpelo-o agora a si, leitor ! Nunca esteve em frente a um espelho, a olhar aquele tipo ( ou tipa ) que está na sua frente ( ainda por cima a imitá-lo nos movimentos ... ) e lhe apeteceu perguntar, em voz alta : “Quem és tu ?” ? Nunca fez isso ?
Então aconselho-o a experimentar. Talvez fique mais ciente deste extraordinário mistério que é o ser humano inteligente. Com capacidade de se olhar a si próprio e de se colocar questões.
Não será esta capacidade, esta duplicidade de ser e de se interrogar que distingue o ser humano dos outros animais todos ?
Bem, para não pensarem que estou vidrado de todo, informo-os que vou jantar esta noite a um restaurante italiano, com amigos do peito de longa data. Pasta e chianti ... e que se lixe a dieta.
Isto é o outro eu a falar, eu não digo alarvidades destas e cumpro a minha deita à risca.
Até amanhã. Sejam felizes.

quarta-feira, janeiro 21, 2004

.
GARÇAS BRANCAS EM CAMPO VERDE

Voltaram. Quatro garças brancas, a “pastar” naquele espaço verde da ultima Quinta em Benfica, em frente do Colombo. Pensei que seriam dois casais, mas não percebo nada do sexo das garças. Ademais, estavam longe e de longe já nem certos homens eu distingo das mulheres, quanto mais garças macho ou fêmeas.
Houve qualquer coisa que entrou nos eixos, cá dentro de mim. Aquelas garças fazem parte do meu ficheiro de configuração interna. Nos ultimos tempos tinha-lhes sentido a ausência. Continuo sem fazer a mais pequena ideia de onde vêm os bichos e de como descobriram aquele espaço. Devem fazer reconhecimento aéreo para localizar bons locais de caça. Ou de turismo, sei lá o que elas andam para ali a fazer.
Para lá das garças, estive hoje no Colombo. Almocei uma salada ligeira, de frango. Ando a ver se perco dois ou três quilitos, mas fico sempre irritadiço quando me ponho a comer estas saladas magras. Será que as garças fazem dieta ? Duvido, os seres realmente livres não costumam fazer dietas.
Depois daquele simulacro de almoço ( aquilo é lá almoçar ? ) comprei o jornal e duas revistas e fui-me sentar um pouco a ler. Enquanto lia ia olhando à minha volta. A vida dentro de um Centro Comercial é muito variada : vi uma mãe a dar o biberão a um recém-nascido em estágio para a claque do Benfica ( berrava que se fartava ! ) ; dois velhotes a cabecear de sono mas tentando manter um ar de dignidade ( já viram como um gajo a dormir de boca aberta é ridículo ? ) ; três ou quatro teenagers fugidos de alguma Escola perto ; um casal com ar provinciano, sentados muito direitos, ele a olhar para tudo com um ar desconfiado, ela a puxar sempre a saia, não vá o diabo tentar os homens ; finalmente, uma jovem com um ar indefinido, pareceu-me empregada de loja ou coisa parecida, ostentando um daqueles telemóveis que parecem canivetes suiços, sabem, com música, máquina fotográfica, web camera e volante de 3 aros forrado a pele. Esperem, cortem essa ultima, essa ainda os gajos não descobriram. Aqueles telemóveis são caríssimos, como é que aquela miúda anda com um deles ? Arquivei essa pergunta, hei-de perguntar isso ao Pacheco Pereira ou ao Nuno Rogeiro, esses gajos sabem sempre tudo.
Para não parecer do tempo da outra senhora ( que até sou ), rapei do meu próprio telemóvel e .... surpresa, tinha uma mensagem SMS muito engraçada, que me restituiu a boa disposição. Não vos vou falar da mensagem, é um assunto meu, mas dediquei uns minutos a esgaravatar nas teclas minúsculas, a preparar e a mandar uma resposta.
Quando levantei os olhos, a jovem do canivete suiço com telemóvel incorporado olhou-me com mais consideração, embora ainda ligeiramente condescendente. Apesar de tudo, o meu não é forrado a pele, perdão, não tira fotografias, nem tem sons polifónicos, que é uma coisa que eu nem sequer sei muito bem o que é, mas me parece ser tocar a 5ª Sinfonia de Beethoven ( ou será um concerto de violino de Chopin ? ehehehe ) quando alguém nos quer falar.
Seja como for ( este “seja como for” é uma expressão muito boa, não é ? ) .... seja como for, dizia eu, acabei por ler tudo, ficar chateado ( entretanto já eram cinco ou seis velhotes a passar pelas brasas ) e resolvi pirar-me para casa. Sempre faço alguma coisa, posso escrever neste blogue.
Espero que agora os meus leitores não me venham bater, insinuando que esta escrita é muito light e que pareço aquela senhora meio magricela que publica três livros por ano e está convencida que é escritora ...
Ciao.

segunda-feira, janeiro 19, 2004

.
POR FAVOR, ONDE É A SAÍDA ?

Sinto-me sufocar no meu País. Não o reconheço. Não me revejo nesta gente nova-rica, bem falante mas sem dignidade nem grandeza. Não consigo respirar este ar espesso, viscoso e viciado. Não percebo donde sairam tantas (in)competências. Não vislumbro outras explicações para certas escolhas senão a lealdade ao partido ou aos seus donos. Já não existe interesse colectivo, apenas existem partidos e lobies. A solidariedade chama-se competitividade, a dignidade humana depende da produtividade. Desgraçados daqueles que quiserem pensar pelas suas cabeças. Ridícula sociedade onde os heróis não resolvem problemas mas apenas discursam e se desculpam uns com os outros. Discursam sempre, sempre, sempre.
Este País já não existe.
Restam apenas dez estádios de futebol erguendo-se por cima de um mar de palavras.

domingo, janeiro 18, 2004


UMA FLOR AMARELA
Vejam como ela se esforçou por sobressair, naquele fundo verde. Admirem a sua beleza simples, a cor inspirada no Sol, a harmonia da distribuição das folhas. Algumas gotas de água da chuva, redondas, instáveis, trazem uma magia especial à pintura viva. Contemplar estas mini obras de arte leva-nos a um mundo diferente, onde as coisas simples ganham importância e o stress do dia a dia fica esquecido. A flor e a erva à volta são seres pequenos, sem vaidade, que normalmente nem vemos. Um destes dias, num dos meus locais preferidos à beira do Tejo, tive a felicidade de os ver. Olhei-os, fiquei feliz com estes pensamentos e tirei esta foto, muito perto deles.
Acho mesmo que ouvi algumas vozes fininhas, baixinho, e outra um pouco mais alto, a dar-me as boas tardes e a agradecer-me o interesse.
A próxima vez que virem erva e flores, no campo, aproximem-se, ponham os óculos, se for caso disso, afivelem um sorriso ( para não as espantar ) e olhem bem de perto para estas pequenas maravilhas. Vão ver que também se vão sentir felizes, como eu.

sexta-feira, janeiro 16, 2004


SORRIO, LOGO AINDA EXISTO
Eu sei. Por vezes, torno-me chato, obcecado. E não aborreço apenas quem me lê, também eu fico fisicamente indisposto. Não, preciso de descomprimir, de esquecer, ainda que por momentos. Ninguém consegue viver, sem paranóias ou depressões, numa atmosfera permanentemente crispada de crítica ou indignação.
É por isso que hoje me apetece agradecer aos amigos que me enviam diariamente mails com piadas, anedotas e material desse género. Não sei onde tudo isso tem origem, mas algumas piadas são mesmo muito giras.
Dessas todas, destaco uma que me fez sorrir com mais calor :

Não desistas nunca dos teus sonhos : se não os conseguires à primeira, tenta qualquer outra pastelaria próxima !


NÃO SE CONSEGUE ESTAR FELIZ MUITO TEMPO !
Logo hoje que eu estava tão bem disposto, chega-me a notícia daquele choque em cadeia na A23 : 56 veículos num dos sentidos da auto-estrada, mais 29 no outro.
Razão : um nevoeiro denso, com uma visibilidade de 10 metros. Comentário da BT da GNR : havia nevoeiro denso, mas os condutores não respeitaram a distância de segurança.
Boa ! Como se fosse fácil ! Hão-de mostrar-me como se faz !
E pronto, ninguém morreu ( parece ), trata-se da chapa e não se fala mais nisso !
Pois bem : pessoalmente, e com muitos anos e quilómetros de condução, sobretudo em auto-estradas, digo-vos que tenho um verdadeiro pavor a encontrar nevoeiro denso numa auto-estrada. Se repararem bem, a auto-estrada torna-se numa armadilha total : não se pode reduzir demasiado a velocidade, porque nos irão bater por detrás ; não se pode andar mesmo a 50 0u 60 kms/hora, porque não conseguiremos parar antes de bater no da frente; finalmente, não se pode parar e encostar na berma sem comprometer a segurança dos que vêm atrás.
Não se pode fugir. Que fazer, portanto ?
Há muito que, conversando com amigos, venho reclamando contra a inexistência de zonas de refúgio nas auto-estradas, sobretudo onde se sabe aparecer habitualmente nevoeiro denso. Uma zona de cada lado, para onde o automobilista possa retirar-se, saíndo da auto-estrada e esperando que o nevoeiro levante.
Recentemente, li que a Brisa começa a construir zonas dessas. Muito lentamente, claro.
Tal como estamos, se o leitor se vir envolvido em nevoeiro numa auto-estrada, que há-de fazer ? Qual o comportamento mais correcto ?
Não acham que conselhos quanto a estas situações, e outras, deviam ser lançados pela DGV ou sei lá por quem ligado à Prevenção de Acidentes ?
Não acham que a Brisa poderia investir um pouco mais em segurança ?
Claro, é mais simples dizer que os condutores não respeitaram a distância de segurança ...

quinta-feira, janeiro 15, 2004

.
APETECE-ME DIZER : PORRA, ESTOU FARTO !

Uma vez mais, pelo segundo ano consecutivo, Durão Barroso impõe aos trabalhadores da Função Pública uma REDUÇÃO dos seus salários reais. Para todos com vencimentos superiores a 1000 euros que, como se sabe, é o limite da riqueza neste país. A partir de 1000 euros são todos ricos, ninguém precisa de aumentos.
Sejamos claros e rudes : não há qualquer justificação económica ou financeira para proceder desta forma. O défice não seria incomportável, se pelo menos todos os funcionários fossem aumentados em 2%.
Porque toma o Governo esta medida ?
Primeiro, como sempre, porque pode. Não sendo o sector público um negócio, ainda que a reacção seja violenta, com greves demoradas, o Governo encolhe os ombros : a sua capacidade de sobrevivência é muito maior que a capacidade de resistência dos funcionários públicos. Mais : ainda ganha dinheiro com as greves, não paga nem salários nem subsidios de refeição.
Segundo, quer dar o exemplo ao sector privado. Porém, neste sector as regras são outras e as negociações vão conduzir decerto a aumentos entre 2 a 3% para muitas empresas privadas.
Terceiro, e porventura mais importante : o Governo quer ganhar credibilidade política. Mostra que está a governar com rigor. Dá o exemplo. Ganha apoios em todo o centro e direita. Suscita aplausos entre todos aqueles que querem acabar com o Estado. É uma medida que lhes dá gozo pessoal. Tomem, cambada de malandros, chupistas do orçamento !

A todas estas razões, apetece dizer : vão gozar com as famílias deles, caramba ! Eu estou a ficar farto de ser o bombo da festa. Se querem mostrar-se convincentes numa política de austeridade, então que seja todo o País a pagar os custos dessa política e não apenas sempre os mesmos. Por exemplo, porque não fazem uma redução de 5 ou 10% em todos os vencimentos superiores a 5000 euros ?
Estou a ficar sem paciência, de facto. Não vejo apontarem nenhum objectivo mobilizador. Não vejo um só sinal de esperança. Não vejo equidade nos sacrifícios pedidos. Não vejo seriedade nesta política. Não vejo caminho nenhum traçado. Tenho a certeza que assim, não vamos a lado nenhum mesmo. Não é assim que se mobilizam pessoas como estas que vou mencionar e que, quer se goste ou não, fazem funcionar este país no dia a dia : Médicos e enfermeiros, Professores a todos os níveis, Juízes e oficiais de justiça, funcionários de Ministérios mais sensíveis, como os das Finanças ( cobrança de impostos ), Polícia e GNR, Forças Armadas, etc ...
Sim, porque NÃO é VERDADE que os funcionários públicos sejam uma espécie de sanguessugas da nação, como este Governo e os seus apoiantes andam a querer fazer crer.
Entre eles trabalham muitos técnicos de grande qualidade, de grande devoção, a troco de meia dúzia de amendoins, ainda por cima. Bolas, estou farto de ouvir disparates e mentiras sobre este tema.

Espero, bem sinceramente, que sejam MUITOS os que no dia 23 lhes vão dizer o que pensam deles.
Eu estou a fazê-lo já aqui e agora : se só sabem fazer isto, senhores do Governo, então porque não se vão embora ?
RESCALDO DOS INCÊNDIOS DO VERÃO PASSADO I

Eu ontem não lhe disse, leitor, que em Portugal todos os problemas se resolvem com mais legislação, que nunca é cumprida ? Pois bem, o MAI vem anunciar que a reforma da lei orgânica do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil vai avançar em Março !!
Ufa, o país respirou de alívio ! Agora podem vir todos os incêndios do Mundo, agora estamos prontos, caramba !
( a formação dos bombeiros, o treino efectivo operacional, as estruturas de comando e o treino respectivo, a decisão sobre a aquisição de meios aéreos, as medidas na disciplina das florestas ... continua tudo por fazer, mas também não interessa muito, vamos é fazer uma nova lei orgânica ... )

RESCALDO DOS INCÊNDIOS DO VERÃO PASSADO II

O responsável do NÚCLEO DISTRITAL INTERSECTORIAL DE ANÁLISE E COORDENAÇÃO DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS ( !!!! ) afirma que a legislação sobre florestas não está a ser cumprida.
Esta notícia suscita de imediato algumas perguntas : mas há alguma outra legislação que seja cumprida ? E depois, quem foi o criativo que inventou um nome daqueles para o serviço, ou lá o que é ??
Já repararam bem ? Agora já percebo porque é que, nos incêndios maiores, os bombeiros se queixavam que apareciam várias frentes de incêndio, ao mesmo tempo, em locais muito afastados .... deviam ser os gajos deste serviço a coordenar tudo isso, só podia ser. Só agora é que percebi, ao olhar bem para o nome...

RESCALDO DOS INCÊNDIOS DO VERÃO PASSADO III

Afinal, depois daquela tragédia toda do Verão passado, o que é que já se FEZ para melhorar as coisas ? E não me venham falar em leis orgânicas, regulamentos ou coisas do género que me dá um ataque !!
Fazer, fazer mesmo ? Fizeram alguma coisa ?




quarta-feira, janeiro 14, 2004

.

THE PORTUGUESE WAY
Hoje preparei um pequeno esquema gráfico, muito simples, para ilustrar a maneira portuguesa de transformar a sociedade. Claro que isto não acontece apenas desde 1974, são manias que vêm de longe ...
Não vou estar a aborrecer-vos com grandes teorizações. Disso estamos todos fartos. Vou apenas lembrar meia dúzia de temas actuais.
A pergunta-chave a que o leitor deve responder é sempre a mesma : COMO ESTÁ A SER RESOLVIDO O PROBLEMA QUE EU VOU INDICAR ?
Vamos a isso então.
1) A hecatombe nas estradas ? -> Novo Código da Estrada, a entrar em vigor em breve
2) A eterna fuga ao fisco ? -> páginas e páginas acrescentadas ao Código IRS e IRC
3) A violação do segredo de justiça ? -> em estudo alteração da lei respectiva ....
4) Situação calamitosa do ensino secundário ? -> aprovado novo programa recentemente !
5) O problema das falências ? -> Nova legislação sobre falências
6) O problema do emprego, desemprego e produtividade ? -> novo Código Trabalho e outra legislação sobre produtividade e emprego em preparação ;
7) Entupimento crónico dos Tribunais ? -> Novas leis em preparação
8) Problema crónico dos incêndios ? -> no Verão 2003 tinha acabado de entrar em vigor nova legislação sobre o sector. Irá mudar agora, presumo...
9) Todos os problemas de atraso geral da nossa sociedade -> vai-se mudar a Constituição, a culpa é dela !

Caro leitor : acertou nas respostas todas ?
Também não admira, havemos de convir que esta maneira portuguesa de resolver os problemas da sociedade é velha, velhíssima, embora ainda faça espantar os países que não nos conhecem bem. E é curioso que esta fúria legisladora atravessa todos os partidos, é algo em que se consegue facilmente o consenso !
Assim como fomos um País de marinheiros, agora somos um País de produtores de legislação. Somos imparáveis nisso ! Orgulhemo-nos, portanto, conforme nos recomendam os nossos maiores. Em alguma coisa havemos de ser bons, caraças !

terça-feira, janeiro 13, 2004

.

ATÉ O MEU GATO SE ESPANTA !
O folhetim da Casa Pia continua. Agora estendeu-se aos Açores e Madeira. Alberto João, como é hábito sempre que se publica algo de menos bom quanto à Madeira, afirma que é um ataque à Madeira. La Madeira c’est lui, portanto deve ter razão.
Pedro Santana Lopes continua a preparar a sua candidatura a candidato às eleições presidenciais. Publicou um livro, imagine-se. O prof. Cavaco Silva, convidado a estar presente no lançamento do livro, escusou-se. Eh, eh ...No dia em que Santana Lopes for eleito presidente da República a arte de viver ( bem ) à custa de todos nós chega a Belém.
Manuel Maria Carrilho declara-se desejoso de disputar a Câmara de Lisboa. Ou qualquer outra coisa que lhe dê estatuto, digo eu. Temos que ver que vai ser pai ...
Edite Estrela deu um tiro no pé, com aquela história da Câmara de Sintra. Ana Gomes continua a falar demais e num registo demasiado estridente. Vão ambas fazer uma cura de repouso ( e esquecimento ) ao Parlamento Europeu.
A Comissão Europeia, na pessoa do seu chefe, Romano Prodi ( em estágio para lider nas próximas eleições italianas ), resolveu apresentar queixa no Tribunal Europeu contra ... os países integrantes da Comunidade, por terem decidido não ligar pêvas aos défices francês e alemão. É assim mesmo, quem é que pensam que o Prodi é ? Agora até se queixa dos legítimos donos da Europa. É no que dá quando se concede demasiado poder aos burocratas.
Jorge Sampaio, o nosso Presidente da República, afirma não sei bem onde, pela enésima vez, que 2004 é muito importante, é agora ou nunca. Como já se disse em todos os anos dos ultimos 30.
Durão Barroso, vai ao Norte em sessão de marketing governativo e diz que é um Governo a falar nortenho. Promete mais uns milhões ( já me esqueci quantos ) para outra travessia do Douro. Um destes dias nem sequer vamos conseguir ver o rio, tantas são já as pontes.
A excelentíssima senhora ministra das Finanças, reconhece que a sua política causa desemprego e proclama que a competitividade nacional só poderá melhorar quando o Estado desistir das suas funções. A Auto-Europa ouve e pasma. Por mim, para acabar com o Estado, vou começar a fugir aos impostos.

O meu gato, o Cenoura, olha espantado para estes senhores ...

segunda-feira, janeiro 12, 2004

.
O LIBERALISMO ECONÓMICO TRADUZIDO PARA PORTUGUÊS : OS OUTROS QUE SE LIXEM !

Olhemos para a fotografia tal qual ela se apresenta. Tornou-se moda ser liberal de direita. O liberalismo libertador. A ideia base é simples, claro ( se não o fosse também nunca a teriam escolhido ): o Estado consome uma percentagem elevada da riqueza anual produzida, não é ? Então, se não existir Estado, essa quota parte da riqueza anual pode ir para os bolsos dos outros, dos verdadeiros homens de trabalho que são eles... Percebido ? É muito simples, quase o ovo de Colombo. Acabe-se com quase todos os serviços do Estado, baixem-se os impostos e conseguem-se dois milagres : mais dinheiro disponível para o investimento privado e mais áreas de negócio para o mesmo sector.
O objectivo, tal como eles o afirmam publicamente, é que assim haverá mais oportunidades para todos, mais emprego e o país desenvolver-se-à muito mais depressa.
O objectivo que eles visam, não divulgado, é óbvio : libertarem-se da solidariedade obrigatória colectiva. Cada um deve pagar do seu bolso a educação dos filhos, a sua saúde e a dos seus familiares, a sua própria pensão de reforma futura. Quem não o puder fazer, paciência, passe sem essas coisas, desenrasque-se de outras formas. Se calhar é porque não quer trabalhar. E mesmo em caso de desemprego, que história é essa de todos lhe pagarmos um subsídio de desemprego ?? Isso só os faz ainda mais preguiçosos, dessa forma é que não querem mesmo trabalhar.
Bom, então já toparam, caros leitores ? Qual Estado nem meio Estado, eles estão-se nas tintas para existir Estado ou não existir. O que eles acham que não devem pagar é a solidariedade colectiva. O que eles recusam é pagar algum do seu dinheiro para as pensões de reforma dos que já não trabalham ou para os estudos dos jovens.
Cada um para si próprio, é o seu lema. Não lhes peçam dinheiro para os outros. Eles nem sequer utilizam as escolas oficiais, nem os hospitais públicos, para que hão-de pagar esses serviços para os outros ??
Não tenhamos medo de dizer a verdade : esta gente, os novos liberais, embora disfarçados sob a capa de uns quantos palavrões de política económica, como a produtividade e a eficácia, não passam de uns perfeitos e frios egoístas, incapazes do menor instinto de construção colectiva de um país de gente digna.
Embora já tenham nos seus bolsos, em regra, muito mais do que merecem e produzem, ainda querem mais, muito mais !
Ah, quase me esquecia de lhes dizer : estas lindas teorias, embora nunca levadas aos seus extremos, mesmo assim já produziram TENEBROSOS resultados sociais em alguns países onde foram aplicadas. Desemprego, aumento vertiginoso da desigualdade, ausência de oportunidades para os mais desprotegidos, conflitos sociais, criminalidade, infelicidade.
Mas é curioso : os arautos desta moderna barbárie económica nunca preconizam que o Estado abandone as suas funções de polícia e de defesa da ordem ... porque será ??

domingo, janeiro 11, 2004

.
A REALIDADE NÃO É NUNCA A PRETO E BRANCO

Nunca na história do ser humano as relações inter-sexo foram tão fáceis como nos nossos dias. O primeiro contacto, em bares, discotecas ou concertos, ou ainda pelos meios electrónicos, chats, e-mails, messengers, SMS, etc... tornou-se bem mais imediato e simples do que há 50 anos. Quebraram-se tabus, derrubaram-se barreiras, destruiram-se preconceitos. Começa-se tudo bem mais cedo, nestes dias de hoje. O sexo banalizou-se, coisificou-se, democratizou-se. O único senão é a SIDA, já que aprendemos a usar todo o género de anti-conceptivos. Alguns deles, os veteranos preservativos, modernizaram-se até com pretensões policromáticas e sabores a frutas exóticas ! ( Essa dos sabores a frutas ainda não entendi muito bem ...eheheh... ). Mesmo quando as coisas aquecem subitamente e não há nem tempo nem lucidez para jogar à defesa, pode-se sempre recorrer no dia seguinte a uma pílula especial de efeitos retroactivos. Retroactivos apenas quanto à limitação das consequências, note-se ; o prazer havido já ninguém o tira, valha-nos a clarividência da ciência !
Em paralelo, aumentou a tolerância das sociedades para com relacionamentos não ortodoxos. A homosexualidade passou ( ou muitos pretendem que passe ) à categoria de opção, de livre escolha do homem ou mulher, deixando de ser entendida como um comportamento enviesado ou aberrante.
Enfim, pouca gente ainda haverá, nestas sociedades de vida fácil, que não consiga estabelecer e manter uma relação com um outro individuo, do sexo oposto ou do mesmo, de acordo com as suas preferências. Isto aparentemente.
Concordam com estas afirmações, em termos gerais ?
Então expliquem-me, se fazem favor, como e porquê cresceram, em simultâneo com estas realidades, outras bem mais perturbantes e enigmáticas, tais como :


--> a incapacidade de vida em comum, por um período razoável ( por vezes, as relações surgem totalmente como descartáveis ) ;
--> aumento, ou pelo menos a persistência, da solidão na vida de muitas pessoas;
--> um egoismo assustador, no que respeita a ter filhos e ou a educá-los, quando eles já existem ;
--> ainda no tema egoismo, uma incapacidade de gostar dos outros, uma falta impressionante de sentimentos de humanismo básico;
--> a subsistência de um grau de ignorância sexual assustador, motivando o fenómeno de mães adolescentes ;
--> o crescimento do fenómeno homosexual, seja ele um resultado de opções individuais, de fenómenos sociais ou de origens genéticas ;

Penso muitas vezes nestas questões, sem grandes dúvidas sobre a sua inter-relação, mas sem certezas nenhumas sobre as verdadeiras causas e explicações.
Querem avançar alguns comentários ? Têm opiniões sobre estes temas ?
Será que há sempre um preço a pagar por cada muro de Berlim que se derruba ?

sexta-feira, janeiro 09, 2004



A FRAUDE COMO NORMA DE VIDA

No ultimo Benfica-Sporting, o primeiro golo do Sporting resultou de uma grande penalidade “fabricada” por um jogador do Sporting, o Silva ( ver banda desenhada de Luis Afonso, ao lado, com a minha vénia ao autor ), ao simular que tinha sido derrubado por um jogador do Benfica.
Diga-se desde já que esta não é uma polémica clubística, era o que me faltava meter-me nessas. Não se trata, portanto, do Sporting. A verdade é que, em Portugal, a quantidade de golos obtidos desta forma fraudulenta é enorme, em todos os clubes.
Em recentes declarações, Fernando Santos, treinador do Sporting, reconheceu perante a imprensa ter havido simulação, achando o facto normal no futebol e adiantando que não manda os jogadores deitarem-se para o chão, mas também não lhes recomenda que o não façam...
Estas declarações são prova de uma insensibilidade tremenda sobre o que devia ser a ética de um treinador. A única explicação possível para estas palavras é que a fraude se tornou prática corrente, perdeu a conotação negativa e, pelo contrário, é algo valioso e eficaz no desempenho dos clubes.
Com a visibilidade que o futebol tem e a tendência dos adeptos para reproduzir modelos que lhes chegam por esta via, imaginem agora os danos éticos e morais que estas fraudes provocam na formação e comportamento de milhares e milhares de pessoas.
A mensagem é única e simples : a fraude compensa, desde que não seja descoberta e punida. E um treinador de futebol ( um ? dezenas ! ), e toda a Liga e a Federação, e todos os dirigentes dos clubes, e todos os adeptos sabem disto e ninguém se rala muito. A não ser quando o seu clube é prejudicado.
Acham que seria muito dificil acabar com este espectáculo degradante ? Eu não acho, desde que todos quisessemos acabar com isso. E não me venham tentar resolver o assunto com mais leis, as leis do futebol já punem a simulação. O que é preciso é vontade de acabar com a mentira e obrigar os jogadores a actuarem com verdade.
Bom, dirão vocês, leitores : mas isto é apenas futebol, que se lixe .... já se sabe que é um mundo sem grandes éticas !
Ah é só no futebol ? Mas então não é nítido que esta mesma permissividade perante a fraude e o ilícito ( e a falta de verdade e de fair play ) se estendeu já a toda a sociedade ?
Pensam que os penalties fabricados acontecem apenas no futebol ???

quinta-feira, janeiro 08, 2004



GOSTO DE BENFICA

Vivo em Benfica há muito tempo. Desde que o 25 de Abril decidiu tornar-se cravo vermelho e feriado. E gosto. É uma zona com resquícios de um passado não muito longínquo, de quintas e casas solarengas. O bairro mantem um ar de velho fidalgo, talvez arruinado nos haveres mas não nos princípios. É um daqueles bairros lisboetas, tal como Campo de Ourique ou a Graça, onde saímos de casa e temos ainda ali à mão cafés, pastelarias, padarias, farmácias, bancos, sapatarias e sapateiros, lugares de frutas e hortaliças, um grande mercado, lojas de ferragens, drogarias, lojas de tecidos e até retrosarias ! Ainda sabem o que é uma retrosaria ? Com todos aqueles carrinhos de linhas, agulhas, fechos éclair e bugingangada do género ?
Claro, não falta uma igreja matriz, antiga, sólida. Perto dela, um velho chafariz, encimado por um brasão do tempo da monarquia, agora normalmente escoltado por pombos cinzentos e brancos. É um bairro onde ainda se podem ver casas antigas, muitas recuperadas, de apenas rés do chão e primeiro andar, um traçado simples, limpo, puro. magnificas cantarias nas portas e janelas.
Num muro anexo à Igreja, a Junta de Freguesia mandou fazer uns painéis de azulejos com algumas figuras típicas da velha Lisboa : a lavadeira, o aguadeiro, a galinheira ( a mulher que vendia galinhas ), etc ...
Num dos restaurantes da zona existe um outro painel de azulejo, mostrando um ribeiro que corria exactamente em frente da Igreja ( onde é a pastelaria Nilo ) com as lavadeiras a lavar a roupa dos clientes. Isto há menos de um século !

Em Benfica, as pessoas mais "antigas" ainda se cumprimentam na rua, mantendo os hábitos tradicionais portugueses. Isto dá um sentimento de pertença colectiva, uma sensação agradável de sermos e pertencermos. Gosto de sair à rua, seja a que horas for, e deambular um pouco pelos passeios.
Hoje, foi diferente : lembrei-me de levar a máquina fotográfica, tirar algumas fotos e falar-vos desta zona onde vivo.
Espero que me desculpem o bairrismo. Em minha defesa, notem que nem sequer vos falei no clube de futebol que retirou de Benfica o seu nome. Talvez por pudor .... ehehehehe !

quarta-feira, janeiro 07, 2004

À TARDE, JUNTO DO TEJO, NUMA PRAIA COM LIXO
Sabem onde é agora o centro de controlo do porto de Lisboa ? Aquela espécie de torre de Pisa do Tejo ? Em frente da gare de caminho de ferro de Algés, perto da Doca-Pesca. Há aí ainda uma pequena praia, com areia, ondas e gaivotas.
Vê-se de tudo, na areia dessa praia, trazido pela corrente e pelas marés. Canas, pneus velhos ( os barcos têm pneus ?? ), bocados de redes e de bóias, tábuas de barcos apodrecidos e desmantelados, sei lá que mais.
Uma ou outra vez, agarrei numa cana comprida e lembrei o lançamento do dardo, para a água. No Verão, tenho visto por ali pessoas em fato de banho, na areia, á procura do bronzeado miraculoso. Agora, só se vêem gaivotas a sobrevoar a água e andorinhas do mar a andar pela areia, esperançadas em qualquer petisco que surja.
Em frente fica a Trafaria, com aquelas silhuetas escuras e feias dos silos e das gruas para descarregar e carregar os navios. Quando olho para a Trafaria, lembro-me sempre de uma ou outra boa refeição que já ali comi. Hoje, enquanto olhava, pensei nos petiscos da “Tasquinha do Aires” : morcela e chouriço assado, salada de polvo, um vinho verde tirado à pressão.
Vinda não sei donde, uma fragata da nossa Armada entrava no Tejo, imponente e rápida, sem precisar do barco dos pilotos da barra. Um pouco atrás, um navio a abarrotar de contentores ; é um milagre como aqueles navios não perdem os contentores todos em alto mar, quando há tempestades.
A meio caminho da outra margem, cerca de duas dezenas de pequenas embarcações com uma ou duas pessoas, suponho que de pesca artesanal. Pescarão o quê, ali e a estas horas ?
A partir dessa praia há um cais que corre ao longo da marina da Doca-Pesca. Foi pavimentado há uns dois anos e tem uns bonitos candeeiros e tudo. É claro que já arrancaram do chão uma série de lajes de pedra e que as lâmpadas dos candeeiros estão quase todas partidas. Nunca conseguimos esquecer o país que somos, não é ?
Fui andando por esse cais, entretido a ver os pescadores desportivos que por ali estavam. Não vi ninguém apanhar sequer um peixito, mas também suponho que não é isso que é importante para eles. Era gente nova, conversavam, gorros na cabeça e camisolas de lã, umas chupadas nos cigarritos. O que interessa é a perspectiva, a esperança de apanhar algo, não é ? Pescar assim é ter esperança.
Uma bonita cadela cor de mel corria de um lado para o outro, veio até junto de mim, quando passei, para uma festa na cabeça. Bichita linda ! O dono olhou-me e sorriu, antes de virar a cara para o mar, não fosse o sargo escolher aquele momento para picar.
Dei a volta, olhei o céu de um cinzento feio ( tinham previsto aguaceiros ... ) , caminhei para o carro e regressei a casa.
Eram 5 da tarde de um dia vazio com muitos pormenores à volta.

terça-feira, janeiro 06, 2004

À ESPERA QUE A CRISE PASSE ...

Ah, a CRISE ! O Monstro ! O dragão de sete cabeças ( não confundir com os dragões do Norte que esses só têm uma cabeça ) !!
Toda a comunicação social, nos intervalos da Casa Pia, pisa e repisa na CRISE. Pedem-se comentários a senhores sisudos e competentes, a presidentes de Bancos, a empresários, a simples passantes na rua : será que a CRISE vai terminar em 2004 ?? Hem ?? Ou só em 2005 ou 2006 ? Quando iremos ver o rabo da CRISE ?
Hum, talvez no 2º semestre de 2004, dizem os mais optimistas ou mais comprometidos com este Governo ! Não, só em 2005 se não for em 2006, diz outro, mais prudente, céptico ou filiado na oposição ...
Seja como for, é preciso esperar pelos bons ventos. É preciso esperar pelo que vier da Europa e dos EUA. Talvez, pá, tenhamos esperança ...
Caro leitor, mesmo que nada entenda de economia e da crise ( no que estará bem acompanhado, dá a ideia que o Governo também não ! ) não desanime e pense um pouco. Repare como tudo na nossa vida se passa sempre a ESPERAR alguma coisa !
Esperámos pelo D. Sebastião. Em vão.Esperámos que o 25 de Abril resolvesse os problemas económicos do país. Em vão. Esperámos que a integração europeia fizesse de nós um país moderno e com riqueza para todos. Em vão. Esperámos que o EURO ajudasse a Europa a competir no Mundo. Em vão, está tão alto que parece uma moeda alpinista, só prejudica. Esperámos que este Governo ( alguns de nós, alguns de nós ... ) resolvesse os grandes buracos financeiros do maléfico Engº Guterres. Em vão, está tudo na mesma ou pior. E agora ?
AGORA ESPERAMOS QUE PASSE A CRISE. Tipo esperar que passe a trovoada.
Já viram ? NUNCA FAZEMOS NADA ! LIMITAMO-NOS A ESPERAR !
E esta é a marca indelével da nossa maneira de ser. ESPERAR é que é bom. Pode ser que as coisas melhorem, pá !
Malta, que tal deixar apenas de esperar e começar a ajudar a sorte ? Que tal ( agora é convosco, senhores do Governo ) começarmos a ter políticas activas que ajudem o país a ser melhor ? Alguém conhece alguma estratégia nossa para sair da crise que não seja esperar ?
É que estou ( estamos, não estamos ? ) farto de esperar, farto de apertar o cinto, farto de ser um país pobrezinho, farto de papões como a CRISE, farto de ser parvo.
Ah, já me esquecia : também estou farto ( estamos, não é, leitor ? ) de ser só eu a pagar essa tal CRISE ! É que, a avaliar pelos salários de muitos gestores de empresas nacionais, publicas e privadas, iguais ou superiores aos seus congéneres europeus, parece-me que ou não há crise nenhuma ou ela é só para alguns. Os mesmos de sempre.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

EM VEZ DE MUDAR DE ANO, DEVÍAMOS MUDAR DE ATITUDE !!
Hoje acordei a pensar que devia passar a ser mais optimista na minha forma de olhar os portugueses e a evolução do nosso país. Está decidido. Vou deitar fora a minha ideia de sermos um povo sem emenda. Vou acreditar. Vou fechar os olhos, os ouvidos e o nariz aos sinais de mal-estar. Vou estar atento às pequenas coisas boas que possam surgir.
Acho que vou precisar de toda a minha boa-vontade, mas vou tentar ...
Se for preciso, até passo a acreditar que Portugal vai ganhar este ano o campeonato europeu de futebol, o EURO 2004. E que a inflação em Portugal, este ano, se vai ficar pelos 2%. Vou mesmo ao ponto de acreditar na Justiça portuguesa e no fim das filas de espera nos hospitais. Já agora, se querem saber, acredito que quem deve ao fisco vai pagar tudo e que mais ninguém vai fugir aos seus impostos daqui em diante. Acho que a mania de meter os nossos familiares e os filhos dos nossos amigos naquelas vagas da empresa também vai terminar. E já agora, num esforço supremo, acredito até que o comportamento dos portugueses na estrada vai mudar drasticamente e que vamos passar a conduzir civilizadamente.
Palavra, vou fazer um esforço para acreditar nisto tudo.
Só resta um pequeno problema : é que para tudo isto mudar seria indispensável que a maneira de pensar dos portugueses mudasse MUITO a curto prazo ...
E nisso é que eu não posso acreditar, porque não vejo ninguém a tentar fazê-lo de uma forma eficaz.
Acho que vou passar a ser um optimista ... céptico. Ehehehehehe ...

domingo, janeiro 04, 2004

SÃO CAMINHOS DIFERENTES, ÓH SUSANA, NÃO CHORES MAIS POR MIM !

Tenho tido uma experiência muito enriquecedora com este pequeno blogue, lido diariamente por uma escassa dezena de pessoas. Pois bem, algumas dessas pessoas acham que eu devia deixar de escrever sobre as coisas erradas que vejo no nosso país ou, pelo menos, de não ser tão obsessivo quanto a elas. O que é mais curioso ainda é que, segundo julgo saber, são pessoas que também não aprovam as coisas que eu tento denunciar.
Então, que as leva a pedirem-me para falar de outros assuntos ?
Só posso especular. E penso que essa sua atitude revela um traço fundamental da nossa cultura portuguesa, quem sabe se ainda herdado do fatalismo árabe. Reconheço esse traço, embora nem sequer seja capaz de o caracterizar completamente. Trata-se de algo que nos leva a pensar que as coisas hão-de mudar, mais tarde ou mais cedo, sem ser preciso fazermos nada quanto a isso. O que for, soará. Não vale a pena matarmo-nos. Ora, eles que se lixem. Por mim, não lhes passo cartão. São todos iguais, para que me hei-de ralar ?
Muitas vezes, a par desta atitude, criamos focos de interesse e de paixão nas nossas vidas. Podem ser a Arte, a Ciência, a Literatura, a Dança, o Teatro, o Amor ao próximo, que sei eu ... o que importa é procurar o sentido ultimo da vida na Beleza que nos rodeia ... e o resto que vá para o Inferno.
Sabem ? Eu já deixei de utilizar e de acreditar em argumentos éticos, do género “é um dever procurar o bem social antes do bem individual”. Nada disso. Admito e aceito que cada ser humano é livre de escolher as suas prioridades e de procurar a sua felicidade pessoal. Tempos houve em que não pensava assim, achava que existiam imperativos sociais indeclináveis válidos para todos.
Mas agora, penso que cada um que escolhe o seu caminho, não é ?
Eu também escolhi o meu, deixem-me construi-lo até ao fim, por favor. Nunca serei capaz de ser feliz sabendo que há tanta coisa horrorosa a passar-se no dia a dia nas nossas costas.
Embora á minha escala microscópica, quero sentir que posso influenciar a mudança, que posso ajudar a melhorar. É afinal dessa atitude – e de alguma mudança que por milagre aconteça – que retiro o prazer de viver.

sábado, janeiro 03, 2004

GALILEU, A CASA PIA E O EXEMPLO DE ANGOLA
Para mim, seria relativamente simples perceber o que se passa. QUEM revelou publicamente que a tal carta anónima continha referências a Jorge Sampaio e António Vitorino ? QUEM ?
É que não é dificil perceber porque o fez. Há algum tempo atrás, QUEM divulgou excertos de conversas telefónicas ( das célebres escutas ) que comprometiam Ferro Rodrigues e António Costa ? QUEM ?
Não é óbvio que alguém anda a tentar retirar dividendos do processo Casa Pia, comprometendo o PS na pedofilia ? QUEM lucra com isso ?
O Ministério Público, tão zeloso das suas responsabilidades que até anexa ao processo cartas consideradas como irrelevantes, não desconfia de nada nestas coincidências todas ?
Ou lava daí as suas mãos ? Talvez ache que são actos irrelevantes...mas sendo assim, deveria anexá-los ao processo, de acordo com a sua prática anterior, não era ?
Porque é que o MP vem falar em intoxicação do processo, AGORA, depois de Adelino Granja ter indicado que há também um ministro do actual Governo que foi mencionado por uma testemunha como sendo pedófilo ? Porquê só AGORA e não há dois dias, quando os nomes de Jorge Sampaio e António Vitorino vieram para a praça publica ?
Há dois dias AINDA não havia intoxicação ??
.......
E, contudo, ela move-se, dizia o infeliz Galileu ácerca da Terra, depois de o terem obrigado a “confessar” que ela estava parada e o Sol é que girava em torno dela...
Eu nem sequer sou do PS ou voto neles. Só que a verdade é a verdade.

PS - para se divertirem um pouco : a TVI indica que um português foi expulso de Angola por ser pedófilo !!! Boa, finalmente vê-se uma justiça actuante num país como deve ser ! Pode-se assistir ao roubo de um povo inteiro, pode ver-se deixar morrer à fome esse mesmo povo, o que não se pode é tolerar um pedófilo ... que grande lição recebemos desse país !

sexta-feira, janeiro 02, 2004

2004, ANO DE ARRANQUE DA ECONOMIA ?
Ontem saí à rua. Quase não se via ninguém. Bom, é feriado, primeiro dia do ano, descanso merecido, disse para mim.
Hoje, sexta-feira, saí de manhã, para beber um café e fazer algumas compras. Muitas lojas ainda fechadas, incluindo o quiosque onde costumo comprar o jornal.
Bom, é Portugal, disse a mim próprio desta vez.

quinta-feira, janeiro 01, 2004

O DÉFICE É DE PRINCÍPIOS, NÃO FINANCEIRO
Uma amiga minha dizia-me, há dias, para eu escrever mais sobre as coisas belas da vida ...Eu sei, torna-se chato estar sempre a ler sobre as desgraças deste País e do Mundo, não é ? Se eu vivesse da escrita, se tivesse uma coluna numa revista ou jornal, teria que ter em atenção esse aspecto, sim. Mas isto é um blogue. No fundo, destina-se mais a ser uma válvula de escape para mim que algo feito a pensar no prazer do leitor. A verdade é que é muito dificil fruir a beleza quando à nossa volta vemos que crescem pântanos de corrupção e montanhas de interesses ilícitos. A maior parte dos dias tenho a sensação de um país a esboroar-se, parece-me ver a podridão moral a crescer por toda a parte, como um fungo preto numa velha parede.
Não me quero armar em homem de grande sensibilidade ou em lutador político infatigável. Nada disso. Só que , ultimamente, em cada sorriso de um ministro eu vejo contas na Suiça ( dos primos, é claro ), entendimentos com empreiteiros, filhas a entrar na Universidade por cima dos outros, professores colocados com cunhas, o Primeiro-Ministro todo sorridente, a título pessoal, no casamento da filha do Presidente de Angola, um dos regimes mais corruptos do Mundo ...
Vamos falar de amor, e esquecer isto ?
E os outros, os ilustres cidadãos anónimos deste meu país, não ficam melhor na foto : vigarice nos impostos, a corrupçãozinha em toda a parte, a moral hipócrita dos que se opõem ao aborto e o vão praticar a Londres ou Espanha, os olhos rasteiros de quem nunca nada lhe diz respeito, a mentira descarada e sem vergonha nas declarações de um mero acidente de carro .... quem não viu já estes filmes ?
Vamos falar de amor, e esquecer isto ?
Claro, a beleza (ainda) existe e temos que a olhar e sentir, a menos que sejamos masoquistas e candidatos a uma neurose galopante. Mas lá que é dificil, é. Nos ultimos tempos, é raro o dia em que saio de casa e não sou assaltado por uma qualquer circunstância que me destrói o humor e a ( pouca ) esperança.
De tal forma que ando a matutar neste tema curioso : actualmente, em Portugal, pode-se ser uma pessoa medianamente informada e, ao mesmo tempo, uma pessoa feliz ?
Os leitores que respondam ...

terça-feira, dezembro 30, 2003

CASA PIA, PACIÊNCIA MIA !
O processo da Casa Pia vai entrar na fase de instrução, o que significa que, depois do Ministério Público ( MP ) ter investigado e redigido a acusação aos arguidos, estes podem juntar aos autos todos os dados que considerem relevantes para provar a sua inocência. Esta fase é facultativa, os arguidos devem requerê-la, se quiserem.
Depois, com estes dados de defesa do arguido numa mão e com a acusação do MP na outra, um juiz do Tribunal de Instrução Criminal decide se envia ou não o processo para julgamento no Tribunal “normal”.
Por outras palavras : só agora, ao saber preto no branco de que são acusados, os arguidos podem começar a defender-se. Por exemplo, se o Herman José é acusado de ter cometido um crime no dia tantos do tal em tal parte, e se nesse dia estava no Brasil, é agora a primeira oportunidade de juntar a prova dessa circunstância aos autos. Se isso for assim e se mais nenhuma acusação lhe tiver sido feita, o Juiz de Instrução nem sequer o enviará a julgamento...
Agora notem : passaram dez ou onze meses desde o início do processo até que o Ministério Público tivesse deduzido a acusação. Entretanto, alguns dos arguidos estiveram privados de liberdade com uma capacidade de defesa quase nula, dado não saberem bem de que eram acusados. Pensem um pouco e digam-me : isto é admíssivel ??
Porém, ontem, ao ver uma conferência de imprensa com o sr. Procurador-Geral da República ( chefe do MP ), nunca aquele senhor se referiu a estas delongas, explicando as mesmas. Preferiu tecer elogios em casa própria, afirmando ter sido levado a cabo um trabalho de grande qualidade. A avaliar pela história da estadia do Herman José no Brasil, a qualidade do trabalho é excelente, sim ... para os advogados de defesa !

segunda-feira, dezembro 29, 2003

A VELOCIDADE EXCESSIVA COMO MAIOR CAUSA DE ACIDENTES OU A HISTÓRIA DA RÃ SURDA
Não há disparate maior que atribuir à velocidade excessiva a explicação para a maior parte dos acidentes verificados nas nossas estradas. O pior de tudo é que explicando a tragédia com uma causa errada, as medidas de profilaxia serão também forçosamente erradas.
Claro que a velocidade excessiva tem um papel nesta carnificina, ninguém o pode contestar. Se os automóveis estivessem todos parados ou andassem todos a 40 km/hora o numero de acidentes graves diminuiria, não é ? Contudo, o que eu sustento é que o excesso de velocidade não pode ser responsabilizado como é habitual, trata-se de um erro infantil. A velocidade é apenas um potenciador, um catalizador, não é uma causa. As causas terão sempre de ser encontradas em manobras erradas, desrespeito pelas normas básicas ( sinais de stop, lei da prioridade, riscos contínuos, curvas sem visibilidade, etc .. ) e atitudes dos condutores enquanto andam na estrada ( falta de contenção psicológica, agressividade, leviandade, falta de informação, incapacidade de percepção de situações de perigo, etc ... ). Uma fatia grande de responsabilidade, também, para os traçados das vias, que por vezes parecem mais da autoria do Zé da Esquina do que de um engenheiro qualificado. Idem quanto á sinalização vertical e horizontal, simplesmente aberrantes, como se sabe. Sómente DEPOIS de tudo isto se situa a velocidade excessiva, ela própria motivada por alguns destes factores de índole pessoal que atrás referi.
Logo, insisto, afirmar repetidamente que a má da fita é a velocidade excessiva ou é simplificação excessiva, ou é ignorância ou ... pura e simplesmente a vontade de nada fazer quanto às verdadeiras causas. Eu nem diria verdadeiras causas, diria antes quanto às causas, UMA VEZ QUE A VELOCIDADE EXCESSIVA É UMA CONSEQUÊNCIA DOS MESMOS FACTORES QUE EXPLICAM OS ACIDENTES, não é uma causa.
Faço-me entender ? Quando um condutor segue a 150 kms/hora numa estrada, ultrapassando traços contínuos e seguindo fora de mão em curvas sem visibilidade, como se vê em imagens colhidas pela BT, se se verificar um acidente a CAUSA é o excesso de velocidade ? Digam lá ?
É que, ao insistirem nesta tecla e ao tentarem resolver o problema do numero excessivo de acidentes nas nossas estradas apenas pelo controlo da velocidade, as autoridades fazem-me lembrar aquele cientista que, para estudar o comportamento da rã perante ordens verbais, ia mandando a rã saltar, depois de lhe curtar uma, duas, três e as quatro patas. Quando mandou saltar a rã depois de lhe ter cortado as quatro patas, e perante a quietude do bicho, escreveu no seu bloco : “ Quando se cortam as quatro patas a uma rã, ela fica surda “
Pequenas incorrecções de análise, grandes erros nas conclusões.
ESTE ANO DE 2003 FOI HORROROSO
Sejamos claros e frontais : este ano de 2003, prestes a terminar, foi um ano horroroso, no nosso país. Bom, pelo menos foi-o para a minha sensibilidade. Prisioneiro de uma lógica de direita saudosista, incompetente e hipócrita, um governo em que os portugueses não votaram – não estava nas opções de voto o PSD aliar-se à extrema direita, ou estava ? – encetou um furiosíssimo e raivosíssimo ataque a tudo a que neste país cheira a solidário ou mais justo.
Relembremos algumas das iniciativas deste Governo.
Não acabou com o rendimento mínimo garantido porque não conseguiu, ainda assim reduziu o seu âmbito escandalosamente.
Modificou a legislação do trabalho, com o objectivo visível de facilitar a vida ás empresas.
Introduziu o negócio na gestão dos hospitais.
Está a fazer do notariado uma das maiores e mais despudoradas negociatas dos ultimos anos : transfere directamente lucros do Estado avaliados em largas dezenas de milhões de contos para os bolsos de meia dúzia de senhores.
Baixa o IRC às empresas.
Finge ( mal ) que combate a fraude fiscal, embora na verdade a fraude alcance hoje valores inimagináveis há 10 anos atrás.
Em lugar de uma estratégia de minimização da crise mundial, elege como estandarte os 3% para limite máximo do défice público. Nem esse objectivo consegue atingir, de resto, a não ser através de vergonhosas ( para mim ) operações de venda de bens.
Inicia um combate sem tréguas aos funcionários públicos, identificados como os grandes malandros e vigaristas deste país : não os aumenta, dificulta-lhe as reformas e as promoções, ameaça-os com o quadro de adidos e as avaliações.
Afirma que mais funções do Estado deverão ser privatizadas ( leia-se transformadas em negócio ), porque o Estado não tem vocação para elas.
Deixa que a grande corrupção alastre pela sociedade, transformando-se num cancro gigantesco, enquanto a malta se vai distraindo com a Casa Pia e a Moderna.
Tenta criar um clima de contenção e de moralização do aperto do cinto para quem trabalha por conta de outrém, enquanto ao mesmo tempo largos sectores da sociedade , incluindo do sector público, se fazem pagar a níveis superiores aos da Europa, com uma ostentação e diferenciação chocantes, nunca antes vistas neste país.
Permite que o desemprego atinja níveis há muito não vistos entre nós, sem que sequer se vislumbre um esboço de política de emprego.
Em síntese : um Governo tipicamente de direita, mal coordenado, sem objectivos claros e mobilizadores, unido apenas na raiva da destruição e no afã da “negociarização” máxima possível de sectores públicos.
Reconheço que a oposição a estes senhores é hoje fraca e um pouco desnorteada. Não sei nem como nem quando se irá recompor dos golpes que sofreu.
A verdade, porém, é que com este Governo não vamos a lado nenhum. Já não é uma questão de ideologia política, é uma questão de saúde pública.
Tragam-me outros governantes, estes estão estragados, vão acabar por fazer apodrecer o país ...

domingo, dezembro 28, 2003

PAÍS DOENTE
Este Domingo o noticiário da RTP1, á hora de jantar, apresentou duas pequenas reportagens que me impressionaram. Numa delas, uma mulher da Marinha Grande, despedida de uma fábrica onde trabalhou dos 14 aos 45 anos, dizia que o despedimento era como se lhe tivesse morrido alguém da família. Isto no campo afectivo, porque em termos práticos, agora até para comprar pão tem de pedir dinheiro à filha ...
Na segunda reportagem, dava-se conta das dificuldades que sentem muitos imigrantes, no dia a dia, por causa da não regulamentação da lei da imigração. Gente que nem sequer pode ir com um filho a um hospital. Gente que é roubada nos seus direitos ( poucos, ainda ) e explorada no pagamento do seu trabalho. Casos muito pouco edificantes sobre os valores morais de muitos portugueses, como o daquela mulher da Bielorússia que trabalhou durante meses num restaurante, propriedade da mulher de um sub-chefe da PSP. Quando pediu o pagamento do subsídio de férias e do Natal foi posta a andar .... e, mais tarde, como fez queixa ao sindicato, foi alvo de chantagem do sub-chefe. Ou se calava e retirava a queixa ou a multavam, porque tinha o carro sem a inspecção feita.
Que grande sub-chefe da PSP !! Em termos disciplinares, não sei que lhe aconteceu dentro da PSP, mas sei muito bem o que ele merecia. O restaurante, pelo menos, foi obrigado a pagar mil e não sei quantos euros de indemnização á mulher. Valeu o sindicato e o Tribunal.
Um caso e outro demonstram até que ponto a nossa sociedade é muito mais rude e impiedosa do que aquilo em que gostamos de acreditar. Os nossos valores morais parecem andar também em crise. O alheamento do Governo em relação a estas questões incomoda, por outro lado. Acho que dentro dos BMW e Mercedes, bem insonorizados, estas coisas não se ouvem.
E assim vamos nós, felizes, uns a pensar que temos um país de brandos e suaves costumes. Outros, cinicamente, a tentarem mostrar-nos que se preocupam muito com estas coisas e as vão resolver.
Este Portugal está estragado, dêem-me outro.

sexta-feira, dezembro 26, 2003

BYE,BYE CHRISTMAS !
O Natal já passou.
Os pobrezinhos já podem estar esfomeados outra vez sem que ninguém os vá chatear com ceias de Natal e entrevistas para a TVI.
Os presos já tiveram a sua oportunidade de indulto presidencial.
Os travestis de Pais-Natal já arrumaram as fatiotas e os barretes vermelhos debruados a branco.
As senhoras do jet set, muito condoídas com os sem-abrigo, já podem voltar ao normal.
A guerra pode continuar, terminadas as tréguas.
Os automobilistas podem acelerar de novo, as patrulhas da BT já não estão todas no asfalto.
As pessoas das aldeias, de Trás-os-Montes ao Algarve, já podem respirar de alívio, os forasteiros natalícios já rumaram de novo a Lisboa, nos seus carros.
Os cafés já reabriram, quase todos.
Os tipos que não gramam o Natal ( como eu ) podem finalmente suspirar de alívio.

quinta-feira, dezembro 25, 2003


O MENINO JESUS E O CAFÉ
O dia de Natal ( tal como o 1º de Maio ) é uma espécie de sentença de prisão no domicílio, em conjunto com a família. E quem não tiver família, fica na “solitária”. É que não vale a pena tentar andar por aí à procura de um café ou pastelaria aberto, para uma simples bica. Nada, tudo fechado. Desesperante, dá a sensação de uma cidade de mortos-vivos. Nas ruas vêem-se pessoas, poucas, todas com um ar translúcido, irreal, movendo-se como fantasmas.
Mas estas pessoas não me preocupam, a falta de café sim. Que coisa mais estranha, um país fechado. Para descanso do pessoal, têm direito ao Natal com a família, não é ?
Acho que sim. Sugiro até que esta razão seja aplicada às transportadoras aéreas, ao pessoal dos combóios e das portagens nas autoestradas, à PSP, GNR, Forças Armadas, bombeiros, pessoal da saúde em todos os hospitais, etc ... Já agora, decretava-se a paragem total do país. Os portugueses pelam-se por legislar, aproveitem e façam lá a leizinha já não do Natal branco mas do Natal negro, às escuras, fechado !! Andem lá, perdido por cem, perdido por mil.
Já sabem que fico um tanto impaciente e agressivo se não beber um café de manhã bem cedo. E tem que ser fora de casa, ao balcão, com aqueles cheiros todos de uma pastelaria nas primeiras horas da manhã. Pois bem, hoje fiquei tão chateado que até culpei o Menino Jesus, tadinho dele, ainda tão pequenino.
Se Ele veio ao Mundo para nos salvar, não devia ter-se esquecido do nosso café pela manhã, não acham ?
Bom, pensando bem, temos que O desculpar, Ele ainda não tinha idade para beber café, nem sabia o que isso era, os Reis Magos só Lhe ofereceram incenso, mirra e essas parvoíces.
Deviam era ter-Lhe levado uma máquina de café Expresso e um pacote do mesmo, pronto.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

DIA 24 DE DEZEMBRO, OITO DA NOITE
Hoje é a véspera do dia de Natal. É o dia da vinda do Pai Natal, lá pela meia-noite ... pelo menos era assim, quando eu tinha 6 anos. Lembro-me de pensar como é que ele conseguia estar na casa de todos os meninos ao mesmo tempo ! Quer dizer, acreditava no Pai Natal, mas parecia-me que havia ali qualquer coisa ...
A minha grande mania nesta época, nessas idades, era arranjar o presépio. As árvores de Natal ainda não se tinham popularizado, ninguém passava sem um presépio, por mais simples que fosse. O meu era um presépio todo “biológico”, como se diria hoje. Passava horas à procura de musgo, nos recantos das oliveiras e dos valados. O presépio tinha que ter lagos, com água “a sério”, com uma cascata. A cascata era indispensável. Um ano, fiz as figuras todas do presépio, em barro, incluindo ovelhas que dariam para vários rebanhos. Os Reis Magos colocaram-me um problema sério, não encontrei tinta para pintar de preto um deles. Acho que as figuras não agradariam nada à Rosa Ramalho ou ao sr. Franco daquele presépio animado que há entre a Malveira e a Ericeira .... mas eu fiquei com uma felicidade tremenda, de artista criador.
Que teria acontecido a essas figuras ?
Ah, e luzes, muitas luzes. As luzes eram feitas de pequeninas torcidas a flutuarem em azeite, dentro de caricas. À noite, o presépio com estas luzinhas indecisas ficava com um ar romântico, quase religioso. Depois de tudo pronto, eu ficava horas, sentado, a olhar para todos os pormenores, a alegrar-me com a minha obra.
Hoje, aqui em Lisboa, nem sequer sei onde poderia ir procurar musgo ...
Vejam bem : são quase 20:00 horas do dia 24 de Dezembro de 2003 e eu estou aqui a escrever estas linhas, com recordações dos meus 6 e 7 anos ...acho que vou acabar isto e comer um sonho. Dos outros.
Tenham um bom Natal, amigos.

segunda-feira, dezembro 22, 2003

AH, ESTE ESTRANHO MUNDO DOS AMERICANOS !

Num desses misteriosos e esquisitos periódicos regionais que são distribuidos à borla ( este chama-se a Dica da Semana ) li uma notícia giríssima. A notícia é sobre o Smoke Free Air Act, lei em vigor em Nova-Iorque que proibe pura e simplesmente o acto de fumar, em toda a parte. Mesmo a posse de cinzeiros, em estabelecimentos abertos ao público, é punível com pesadas coimas. Por enquanto ainda não mandam ninguém para a cadeira eléctrica, mas ...
Notem bem : é proibida a posse de cinzeiros ! Eh Eh Eh .... estes americanos são totalmente paranóicos ! E depois dizem que os árabes é que são fundamentalistas !

domingo, dezembro 21, 2003

FICO NEURA COM O NATAL !!!
Vou deixar-me de mentirinhas socialmente bem aceites. Vou dizer-vos a verdade, nua e crua : não gosto do Natal ! Esta mitologia toda da família reunida, com a lareira acesa enquanto a neve cai, lá fora, é uma treta, para mim.
Não tenho lareira, os aquecimentos a óleo não ficam bem neste quadro pitoresco, lá fora não há neve nenhuma e, o pior de tudo, a minha família quase não existe. Sou viuvo e tenho uma filha, é tudo. E, como eu, há milhões de pessoas em todo o Mundo. Logo, nesta altura, fico sempre deprimido, o paradigma da família pesa-me e entristece-me. É como se, ainda por cima, tivesse alguma culpa de não ter uma família. Os amigos perguntam-me : então onde passas o Natal ? E olham-me com um ar embaraçado e uma nota de tristeza compungida, quando lhes digo. Pior ... alguns sugerem : porque não vens passar connosco ?
Grrrrr ...
Bem, não quero insistir numa de desgraçadinho ou infeliz. Até porque não sou nem uma coisa nem outra, apesar das perdas irreparáveis. Mas acreditem, o Natal é uma seca para mim e faz-me sempre ficar neura. Não fora o facto de se celebrar, no Natal, o nascimento de um Homem que amou os seus semelhantes e tentou mostrar-lhes caminhos de solidariedade e de esperança, e eu diria, mal humorado e ressentido : vão-se lixar mais o Natal ! Vejam lá se arranjam uma celebração onde eu me possa sentir feliz em vez de entristecer !

sexta-feira, dezembro 19, 2003


VAMOS FAZER OUTRO PAÍS QUE ESTE ESTÁ ESTRAGADO !
A Europa não se entendeu.
A Europa quer fazer uma espécie de constituição, onde se fixa quem e como vai governar a Europa, qual é o poder de voto de cada país, como é que se compatibilizam as diferentes sensibilidades dos 25 países.
Tentando chegar a um acordo, sob a presidência da Itália, um magnata da comunicação social, em confronto directo com a justiça do seu país, homem de perfil ético e moral algo controverso. Estranha ironia : um homem destes é que ia ajudar a encontrar uma solução, ele que é a fonte permanente de problemas, no seu país e no resto da Europa ?
A Europa não se entendeu. Então, todos os políticos foram unânimes em dizer que assim não vale a pena fazer referendo para a Constituição da Europa.
Ou seja : só se faz referendo para que a malta diga que sim àquilo que os senhores decidirem para a Europa... como ainda não decidiram nada, então não vale a pena.

O folhetim do caso Casa Pia continua. Tribunal manda em liberdade, o juiz Rui Teixeira apressa-se a meter dentro outra vez. É uma espécie de jogo, onde cada um parece fazer o que quer. Menos os arguidos, claro.
Ouvi hoje a opinião que o grande problema não está a nível da legislação prever isto ou aquilo, mas antes ao espírito de quem tem o poder de aplicar a lei. E esse espírito, no entender do comentador, está em muitos casos completamente ao arrepio dos valores constitucionais. Prende-se para depois investigar, mastigam-se as investigações enquanto os arguidos aguentam a prisão, ouvem-se os arguidos sem lhes dizer exactamente os factos sobre os quais estão a ser investigados, enfim ...
Este tema é aborrecido, eu sei. Mas ponham-se no lugar de um arguido acusado não sabe de quê nem por quem, e mesmo assim metido na choça e logo vão perceber a insensatez de tudo isto, a leviandade com que são tratadas as pessoas, a impunidade e sobranceria com que alguns juizes actuam, como se não tivessem que prestar contas a ninguém ... No fundo, a extrema insensibilidade desses senhores que se julgam provavelmente legitimidos por via divina ...

Cada vez mais acho que Portugal já deixou de ser um País adiado. Passou a ser um país estragado, inviabilizado, ridiculo, de gente pequenina, invejosa, convencida, frustrada, corrupta e incompetente. Não vamos a lado nenhum. Aos novos com algum valor – que são poucos, muito poucos – diria eu : nem esperem pelo Natal, desapareçam daqui, vão para qualquer outro sítio, mesmo que seja o Iraque !
Este País está mesmo definitivamente estragado.

quinta-feira, dezembro 18, 2003


VEM AÍ O NATAL !
Passei parte da tarde de hoje a escrever mails para os meus amigos e amigas. Já há alguns anos que deixei de escrever cartões em papel, com envelopes, selos, etc ... agora vai tudo por via electrónica que é um despacho ...
Ter-se-á perdido algo, na mudança ? Perde-se sempre, aqui acho que o acto se massificou e despersonalizou. Envia-se um mail com vinte e quatro destinatários e diz-se o mesmo a todos, não é ? Fácil, rápido, barato. Também fiz isso, mas há algo que não me soa bem neste processo... :)
Fiquem os meus amigos a saber que ao enviar estes mails com vários destinatários, pensei sempre em cada um deles, separada e individualmente. Recordei aqueles que não vejo há mais tempo, as suas caras, coisas que nos aconteceram, a sua forma de rir, as suas manias ... Lembrei-me também daqueles que vejo mais frequentemente, com uma nitidez total. Por causa desses pensamentos, até acabei por pensar em amigos já idos para outras paragens, onde o correio electrónico ainda não chega ...
A todos, mas mesmo a todos, um desejo único : façam o favor de ser felizes, como dizia um texto do Raul Solnado. E não esperem pelo Natal ou por 2004 para isso : comecem já !
Um abraço para todos.

terça-feira, dezembro 16, 2003

AINDA SADDAM
Sejamos claros : nunca morri de amores por Saddam, ao contrário dos americanos que, em épocas passadas, viam nele um defensor da liberdade contra o fundamentalismo islâmico. Em particular, nunca lhe perdoaria o assassinato de milhares de curdos nem a forma desumana como tratou todo e qualquer iraquiano que ousava discordar de si.
Porém, fiquei envergonhado com aquelas imagens colhidas pelos americanos, mostrando um médico ( imagina-se ... ) a vasculhar a boca do estuporado Saddam com uma pilha. Talvez ainda à procura de armas ? Seja como for, são imagens degradantes, aviltantes para quem as colheu e difundiu. São indignas. São sintomáticas de uma forma de pensar arrogante, de quem despreza a natureza humana. É que não é Saddam que está em causa, naquele momento ; é a dignidade de qualquer ser humano. E não se argumente – como já vi fazer – com as imagens dos prisioneiros feitos pelos iraquianos, no início desta guerra e na guerra do Golfo, onde os prisioneiros ostentavam nítidos sinais de agressões físicas. É que aquilo que Saddam fazia não legitima que nós façamos igual, pois não ? Ou, de facto, a única superioridade moral das nossas democracias é não obrigarmos as mulheres a usar véu ?
Vi as imagens e, acreditem ou não, senti vir ao de cima uma onda de inquietação, relativamente a esta gente que faz este uso da sua força militar e económica. Pensei, também : quando será que a Europa, com os seus valores de solidariedade e tolerância, ganha força suficiente para ser um contra-poder a estes cowboys, tão frequentemente arrogantes, desmiolados e prepotentes ?

segunda-feira, dezembro 15, 2003

ROSAS E LARANJAS
Hoje estive na província ... Basta sairmos 120 Kms de Lisboa e o ar é mais leve, sente-se o cheiro da terra e a vida acontece mais lentamente.
Fui apanhar laranjas e podar roseiras. É verdade : já alguma vez se empoleiraram numa escada e apanharam laranjas, atirando-as para alguém cá em baixo ? Tem algo de redentor, é como se libertássemos a árvore de umas boas dezenas de quilos que a apoquentam e impedem os ramos de dançar com o vento.
Podar roseiras, por outro lado, é chato ! Para além das inevitáveis picadelas e arranhadelas, nunca se sabe quando estamos a cortar demais as pobres plantas, impedindo-as de largar rebentos e depois os botões coloridos.
Almoço na Golegã, vila onde ainda se respira um ribatejo simples, rude e honesto. Breve mirada no belo portal manuelino da Igreja e lá voltámos para Lisboa, o porta-bagagens cheio de laranjas e limões.
Se amanhã virem um tipo aí numa esquina, com uma banquinha cheia de laranjas à frente, já sabem : sou eu a fazer pela vida. Quem não sabe negociar na Bolsa, vende laranjas.

domingo, dezembro 14, 2003

SADDAM, AS BARBAS E AS ARMAS DE DESTRUIÇÃO EM MASSA
Saddam foi apanhado.
Afinal, não tinha saído do Iraque, estava numa casa em Tikrit, cidade onde nasceu. Barba crescida, olhar vazio, um homem derrotado. Assim acabam os ditadores, reduzidos à condição original de homens insignificantes.
Do ponto de vista psicológico, é um acontecimento importante. Restitui esperança e moral aos militares no terreno, enquanto a retira, em paralelo, aos saudosistas do regime e aos focos de guerrilha a ele ligados.
Do ponto de vista político é um trunfo inequívoco para Bush. Afinal, os EUA foram capazes de localizar Saddam, não aconteceu outro caso Bin Laden.
Agora, lá vão julgar o velho ditador. Não se sabe quem vai julgar, nem onde, nem com base em que código criminal, mas isso são pormenores, acabará por ser julgado e condenado. Vão longe os tempos em que os EUA apoiavam Saddam, como baluarte contra a luta anti-fundamentalista naquela região.
Subsiste, porém, aquele pequeno detalhe que tanta celeuma provocou na altura : Saddam não tinha as armas de destruição em massa escondidas na mesa de cabeceira ! Onde estão, afinal, essas mortíferas armas que justificaram a invasão ?
Será que também deixaram crescer as barbas e ninguém as reconhece ?

sexta-feira, dezembro 12, 2003


VAMOS FAZER COMO O GATO ?
Para não ser sempre o tipo que passa a vida a chatear-se ( e, o que é pior, a chatear o leitor ) com as desditas da política, ofereço-vos hoje uma cena do quotidiano em minha casa. O Cenoura, que já vos apresentei ao longo destas páginas, é um gato de um ano e meio, amarelo e com um temperamento temível de caçador. Quando não há mais nada caça-me a mim ou à minha filha, em emboscadas matreiras e silenciosas ....
Ah, mas de vez em quando acontece um milagre : os canários ! Os pobres dos canários foram pendurados na marquise anexa à cozinha, para apanharem um pouco de sol. Aí, o Cenoura descobriu que, se subisse para cima do micro-ondas e se se apoiasse na porta da marquise podia chegar aos bichos ... e lá está ele, sorrateiro, convencido que não vai ser topado pelos canários , ehehehehe ...
O que é curioso é que o gato já sabe que quase de certeza não consegue chegar aos pássaros, porque eles estão protegidos pela gaiola. Mas não desiste, mesmo assim, e tem um gozo tremendo a tentar, sempre a tentar, sem desistir nunca !
Confesso que não sei se me hei-de rir da tontice do gato ou admirar a sua persistência na luta por aquilo em que acredita.
Não haverá aqui, nesta atitude do Cenoura, algo que deveríamos aprender e cultivar, para fazer deste país algo de jeito ? Humm ? Ousar, tentar, não desistir ? Talvez um dia, finalmente, apanhemos a gaiola aberta e possamos chegar onde queremos !
E vocês a pensar que hoje eu não ia falar de política ...

quinta-feira, dezembro 11, 2003

VAMOS ACABAR COM O ESTADO - OS NEGÓCIOS AO PODER !
A furia liberalizadora deste Governo é espantosa, até mesmo para quem já deles esperava uma atitude deste tipo. Não se trata apenas de empurrar o Estado para fora de todos os sectores da economia que podem vir a constituir área de negócios privados. Esta verdadeira “negociarização” da economia é feita com uma pressa mal disfarçada e uma raiva genuina. Nota-se a frustação acumulada de todas as transformações que o país sofreu nos ultimos anos, o desejo incontido de as inverter o mais depressa possível, o afã de reconfigurar as antigas relações de poder.
A questão é velha, mas não deixa de ser um espectáculo quase degradante, assistir a esta actuação despudorada, apressada, cínica e violenta.
Claro que quem ouvir os argumentos ( e esquecer as verdeiras motivações ) destes senhores, fica comovido com o interesse que demonstram pelo bem-estar dos portugueses e pelo respeito dos seus direitos. Tudo é feito no superior interesse das populações, é esta a forma de tornar o país mais eficiente, mais moderno, mais justo, mesmo.
Claro que sim. É que os interesses privados que espreitam a retirada do Estado para iniciar os seus negócios tem vocação de samaritanos, não sabiam ? A sua vocação é servir as populações, não lhes interessa o lucro para nada, pois não ? Eles vão gerir os hospitais, as escolas, as universidades, qualquer dia as polícias e as forças armadas por simples altruismo e vontade de servir o país. E ainda vamos fazer poupanças, caramba ! Vai ficar tudo muito mais barato, vão ver !
A célebre ministra das vendas de património ao desbarato descobriu agora um facto incrível : afirma ela que de todos os funcionários públicos apenas cerca de metade trabalha directamente para servir o público. E, assim sendo, ainda há muitas funções no Estado que podem ser entregues ao sector privado. Fantástico, fiquei impressionadíssimo com o rigor destes números. Impressionadíssimo, sim, com a leviandade e ligeireza com que estas afirmações são feitas. E mais : com o populismo que lhe está subjacente.
É óbvio, não ? Se metade apenas dos funcionários é que serve o público, vamos ver-nos livres dos outros e poupamos milhões ! Bora !
Pois é ... será que a função da srª Ministra, como funcionária pública que tb é, foi contabilizada também como servindo directamente o público ? Não me parece que a ministra das finanças exerça a sua função atrás de um guichet ... ou é ?
Hummm ... e daí .... olhem, por sinal, neste caso concreto, até me atrevo a afirmar que nada se perderia em privatizar a função e atribuir o lugar da ministra a um qualquer gestor financeiro. Não seria dificil a qualquer um fazer melhor que ela ... e até talvez ficasse mais barato !
Mas é bom que comecemos a pensar que é urgente corrermos – democraticamente é claro – com esta gente dos centros de poder do nosso país.
Ou não acham ?

quarta-feira, dezembro 10, 2003

COMPRAR BENS ... E DEPOIS ?
Hoje vou propor-vos um tema conotado com o Natal, mas numa perspectiva diferente. Vão ver que é algo que nos afecta a todos. Trata-se da importância relativa que a aquisição de bens e a sua manutenção assumem, nas sociedades modernas.
A noção de partida é que é conferida muito maior importância ao acto da aquisição do que ao da posterior manutenção do bem adquirido.
A aquisição de bens e produtos, nos ultimos anos, tem vindo a tornar-se cada vez mais fácil, cómoda e atraente. Gastam-se milhões em publicidade, em todos os orgãos de comunicação e no porta a porta, constroem-se edifícios especializados na oferta de variadíssimos tipos de bens, os bancos desenvolveram curiosas engenharias de crédito ao consumo, inventam-se dias disto e daquilo, adulteram-se outros, como o Natal, é um vale-tudo desenfreado. Os próprios objectos adquiridos perderam significado intrínseco, compram-se coisas pelo que podem representar, muitas vezes, não pelo seu valor próprio ou utilidade.
Mas não me interessa agora fazer juízos sobre os valores que esta sociedade está a trazer à superfície. Se é que valores ainda são.
Interessa-me antes realçar que esta lógica, a da compra, utiliza, deita fora, compra de novo, é a unica lógica possível nas sociedades que construímos, nem mais nem menos. Só estão sãs, estas sociedades, quando crescem continuamente. Já viram esta ideia aterradora ? Porque motivo as nossas sociedades estão condenadas a crescer, sempre ? Ou, quando o não fazem – e isso acontece inevitavelmente – surge a crise ?
Bem, não nos percamos. Estávamos a ver que tudo foi facilitado ao máximo para que adquiramos novos bens. Novos, ainda que sejam apenas substitutos de outros que tínhamos. Se examinarmos o esforço que nestas sociedades é dedicado à manutenção destes bens que adquirimos, vamos ficar surpreendidos. Enquanto nos Centros Comerciais compramos facilmente de vestuário a electrodomésticos, não se vêem neles, por norma, lojas dedicadas à manutenção. A manutenção dos bens que adquirimos não é nunca tarefa fácil. Podemos comprar quase tudo ao pé de casa ou no mesmo centro comercial, mas para mandarmos reparar um simples electrodoméstico somos obrigados a ir à periferia da cidade, a uma antiga Quinta qualquer na Estrada não sei de quê que ninguém sabe onde fica.
Enquanto a função venda prolifera, está distribuida por milhões de locais, ainda resiste no pequeno comércio ao pé da porta, a função manutenção quase desapareceu a nível das pequenas lojas de bairro, estando agora nas mãos dos ultimos “jeitosos” que ainda trabalham em regime “liberal”, sem recibo, claro, ou então em algumas empresas “especializadas” na manutenção de tudo ( segundo a sua própria publicidade ), trabalhando 24 horas por dia, e que lhe levam 200 Euros ( sim, 40 contos ! ) por arranjar a campaínha da porta ou a máquina de lavar roupa.
Se pensar bem, é como se o “sistema” lhe recomendasse, quase sempre : não vale a pena reparar nada, torna a comprar novo !
Não acredito que nunca tenha passado por esta experiência.
É claro que vender é sempre muito mais simples que reparar ou fazer manutenção preventiva. Não exige investimentos elevados, nem mão de obra qualificada nem grandes áreas para as instalações. Todos sabemos isso.
Mas não será tempo de, quando compramos, nos começarmos a preocupar com este fenómeno, escolhendo ( pelo menos ! ) as marcas em função da estrutura de pós-venda que oferecerem ? Não será mesmo caso para a Comunidade Europeia começar a tentar disciplinar esta questão, em vez de apenas obrigar á garantia de 2 anos ?
Ou será que, lutando por melhores sistemas de assistência técnica dos produtos que adquirimos, estamos a cavar a ruína da nossa própria sociedade ?

terça-feira, dezembro 09, 2003

ISTO NEM DÁ VONTADE DE ESCREVER ...
Tenho andado um tanto cansado deste blogue. É verdade. Confesso que gostava que mais pessoas o lessem e discutissem os assuntos que tenho abordado. Vaidade, presunção ? Sim, é evidente que não ando longe dessas coisas. Só tenho uma desculpa : vivemos uma época em que todo o bicho careta escreve e publica livros, não é ?
Mas confesso que é algo frustrante escrever para uma meia dúzia de pessoas. Ainda que sejam leitores de qualidade. É pouco.
E não vejo maneira de quebrar as barreiras e alcançar novos leitores, sem recorrer à publicidade. Já percebi que a maior parte dos leitores de blogues saltam de uns para os outros, pelo que é essencial ter o título do blogue referenciado em alguns outros blogues com audiência. Ora acontece que esse circuito é fechado sobre si mesmo, não admitindo outsiders. Acontece também que grande parte dos autores de blogues muito lidos são populares por motivos anteriores e estranhos ao respectivo blogue : ou são conhecidos da TV, ou da rádio, ou do humor ... Ou então têm quantidades astronómicas de amigos ! Não estou a afirmar, claro, que a qualidade desses blogues não justifica a sua popularidade ; só afirmo que esta nasceu por outras vias que não a sua qualidade intrinseca.
Para culminar, as poucas tentativas que eu conheço de sistematização e identificação dos blogues nacionais falharam e estão encerradas, desistindo os seus autores de acrescentar novos títulos.
Ou seja : esta tão propalada nova forma de comunicação, rápida, fácil, democrática, barata ... é afinal como todas as outras. Não basta ter-se algo para dizer, é preciso conquistar um palco antes de mais. O que não é fácil. Eu, pelo menos, não sei como se faz. É claro que, depois deste desabafo, eu também sei que sou um chato a escrever, muitas vezes. Logo, não me vou queixar muito.
Queixo-me só este bocadinho.
Acho que vou continuar a escrever umas linhas, mais como terapia do que outra coisa.
Apesar do vazio que se sente, aqui onde escrevo.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

AS MISÉRIAS DO MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA
Diariamente sou surpreendido com factos anormais na vida publica deste nosso país. A tal ponto que começo a perceber aquelas pessoas que se recusam a ler ou ouvir notícias. De facto, só por masoquismo continuo a procurar saber o que se vai passando.
Hoje, destaco duas, ambas do Ministério da Administração Interna.

A demissão do Comdte da Brigada de Trânsito da GNR
O Major-General Assunção foi convidado a comandar a BT da GNR pelo seu perfil de homem sério e disciplinador, com a missão específica de “endireitar” a BT. Isto no seguimento do conhecimento publico das centenas de acusações de corrupção a agentes daquela Brigada, lembram-se ?
Pois, ao que parece, o novo Comandante entendeu retirar da BT centena e meia de agentes, recolocando-os em outros locais da GNR. Certamente, com o apoio do Comandante-Geral da GNR e o conhecimento do sr. Ministro.
Este é um procedimento normal numa organização militar. Não implica suspeição de nada, apenas resulta de um eventual juizo de valor sobre uma permanência excessiva na BT, por exemplo. É uma prerrogativa administrativa de qualquer Comando.
Alguns dos guardas recolocados não gostaram e interpuseram recurso no Tribunal Central Administrativo, o que é um direito seu.
O prosseguimento normal de um caso destes seria a GNR ( ou o Ministério ) ser ouvido em Tribunal, em defesa das recolocações. Tal não foi o entendimento do sr. Ministro, não se sabe porquê. Mesmo antes do caso ser decidido, no Tribunal, o Ministro manda informar o Tribunal que desiste das recolocações, desautorizando totalmente o Comandante da Brigada de Trânsito e o próprio Comandante-Geral da GNR. Muito pior : se a decisão tivesse sido do Tribunal, ainda vá que não vá, o Comando da BT podia aceitar, tratando-se de uma decisão judicial. Mas não foi isso : tratou-se de uma decisão do Ministro da tutela, BORRIFANDO-SE COMPLETAMENTE para a decisão anterior do Maj-Gen Assunção.
Ainda pior, se possível : o Ministro vem a publico declarar que se tinha limitado a cumprir uma decisão judicial.
Em síntese : o sr. Ministro não diz a verdade, o sr. Ministro aparentemente não sabe trabalhar com homens de coluna vertebral vertical, o sr. Ministro aparentemente está-se nas tintas para quem com ele trabalha.
É dificil fazer pior que isto.
Claro : o Maj-Gen Assunção demite-se da função, o segundo comandante pede para sair do serviço activo ... mas que importância política tem isso para um político como o sr. Ministro ?

Informatização da PSP
Ontem o mesmo sr Ministro declarou que, dentro de 2 anos, as esquadras da PSP estarão dotadas de equipamento informático, permitindo substituir uma quantidade enorme de papelada e ficando, finalmente, ao nível do séc XXI.
Notem : DENTRO DE 2 ANOS !!!!!
Isto é totalmente inacreditável. Seja a responsabilidade deste Ministro apenas ou de vários outros que o antecederam. Este trabalho devia estar feito há mais de 5 ou 10 anos !!!
Não se trata de nenhuma fortuna, apenas exigiria gente dedicada e competente a tratar deste assunto, em vez de uma série de putos recém-saidos das faculdades e que normalmente são desta ou daquela Juventude partidária ou filhos deste ou daquele homem do partido.
Volto a dizer : é INACREDITÁVEL este anúncio. É que, se eu fosse o sr. Ministro, trataria de FAZER o que é preciso ser feito sem alardes, sem qualquer comunicação publica. Por vergonha pura de revelar o tremendo atraso.
Em segunda síntese : este sr. Ministro, para além do que atrás se disse, também não tem qualquer pejo profissional em revelar atrasos e incompetências deste calibre !!!

quinta-feira, dezembro 04, 2003

PROBLEMAS DE CIDADANIA PRÁTICA
Há ainda hoje coisas bem dificeis de solucionar no dia a dia da vida em sociedade. Questões teoricamente simples, nada de muito rebuscado.
Querem ver uma ? Em Bragança, os esforços oficiais para obrigar certas crianças à frequência da escolaridade mínima obrigatória ( andam a trabalhar, os pais não querem, etc ... ) , acabaram na formação de uma turma de jovens “fugitivos ao ensino”, com idades entre os 15 e os 18 anos. Os miudos têm um nível de escolaridade muito reduzido para a idade, ficando a par de crianças com 11 ou 12 anos. Acresce que são, na sua maioria, de etnia cigana. Claro. E digo claro porque são os hábitos culturais dos ciganos ( em grande numero em Trás-os-Montes ) a provocar aquela situação de fuga à escola. Neste caso.
A Direcção Regional de Educação do Norte, tentado cumprir a sua missão, decidiu juntar a turma de “fugitivos” na mesma Escola onde andam os tais miudos de 11 e 12 anos ... Tchiiiiiiiiiiii, o que foram fazer ! Reunem-se os pais dos miudos pequenitos e decidem rejeitar a entrada dos mais velhos para a Escola, com o argumento de que irão estragar irremediavelmente o ambiente e trazer sabe-se lá que outros perigos para os mais jovens.
Bom, claro que qualquer sociólogo de bancada gritará logo : ”RACISMO ! É POR SEREM CIGANOS ! ”
E até é capaz de ser mesmo racismo. Na base cultural do racismo ( não estou a falar dos interesses económicos ) sempre existiram elementos de medo à diferença e de ignorância.
Por outro lado, aquelas populações conhecem muito bem os hábitos e comportamentos dos ciganos. E esses comportamentos não estão isentos de ameaças e perigos para putos de 11 anos, pois não ?
Então ? Vamos por um raciocínio simplista, tipo : é racismo, o racismo é mau, logo aqueles pais não têm razão nenhuma ? Ou tentamos ir mais longe e perceber os receios daquelas pessoas, embora sem desistir de dar uma formação mínima aqueles putos mais velhos, a quem nunca ninguém deu muitas chances ?
Como é ? Que tipo de solução ? Sabem , o que é curioso é que estes problemas são MESMO complicados. Por vezes, quando pensamos neles, equacionamos dentro de nós, instintivamente, soluções tipo apharteid, tipo guetos ... para depressa as rejeitarmos, bem depressa, porque todos nós sabemos onde isso nos conduz. Por mais dificil que seja a integração. Mas que dizem vocês ?
Creio que será possível uma integração destes miudos mais desvaforecidos pela sorte em certas Escolas, em conjunto com os outros. Mas também creio que estas iniciativas devem ser conduzidas por gente com muita competência e ainda assim usando de muito cuidado e atenção permanente. Conheço, embora superficialmente, uma iniciativa dessas, com bastante êxito, em Leiria, onde está implicada uma amiga minha. Penso ser matéria onde não existe grande margem para errar. Tudo deverá ser bem preparado, a começar pelo contacto com os pais das crianças mais novas.
Se nenhum destes cuidados existir, se se tentar a integração numa Escola qualquer, com professores sem formação prévia nestas questões e num ambiente que já de si não seja completamente saudável em termos disciplinares ...então, receio bem que seja o fracasso total.
No caso em apreciação, e se bem conheço os portugueses, a Direcção Regional de Educação do Norte ( DREN ) prepara-se ( preparava-se ? ) para “atirar” a turma problemática para a Escola em causa, sem qualquer cuidado nem preocupação...
Então, se assim for, quem deverá ser merecedor de nota negativa ? Os papás, por “racismo” ? A DREN, por falta de cuidado na preparação ? Ambos ?
Aceitam-se palpites, vá !! Digam lá como é que se resolvem problemas destes.

terça-feira, dezembro 02, 2003

PERIPÉCIAS NO COLOMBO
Não há, na actualidade nacional ou internacional, nada que me apeteça comentar. Não é que as coisas não vão “mexendo” ... eu é que não tenho coragem de falar sobre isso. O Iraque é cada vez mais a confusão total ; Israel constrói muros para deter os kamikazes palestinianos; a Europa põe-se em bicos dos pés, com a história de uma força de defesa autónoma, distinta da NATO, que contudo não quer pagar; o presidente Bush dá uma de motivar os seus rapazes, indo de noite, à sucapa, ao Iraque ... enfim, nada disto tem graça nenhuma, é triste, não tem ponta por onde se lhe pegue.
Pelo reino do absurdo ( Portugal, claro ) as coisas estão na mesma. A drª M.F.Leite insiste que a única coisa a fazer é respeitar os limites do déficit, enquanto ao mesmo tempo vota a não penalização da França e Alemanha que fizeram o oposto ; o ministro Paulo Portas concorda com uma força autónoma de defesa para a Europa, desde que não seja uma duplicação de meios ( ?? ) da NATO ; o Parlamento entretêm-se a re-averiguar o caso da cunha para a filha do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros ... isto é, ou não é, o reino do absurdo ?
Nestes ultimos dias acho que desliguei os circuitos políticos todos. Limito-me a andar por aí e a viver.
Hoje, por exemplo, fui ao Colombo, a uma estação de Correios que há lá, simplesmente para enviar uma carta registada com aviso de recepção. Pois bem, estive perto de 40 minutos para fazer isso mesmo. Um espanto. Com senha de vez no atendimento e tudo. Chegado ao balcão, a menina deu-me 2 impressos e diz-me “Preencha aí enquanto eu atendo outra pessoa”. Ainda esbocei um “Isto tudo ??” mas ela olhou-me com ar severo e diz que sim, é preciso aquilo tudo. No séc XXI, nos Correios em Portugal, é preciso preencher à mão dois impressos para enviar uma carta registada com aviso de recepção.... sabiam ? Depois descobri : é que o aviso de recepção que eu hei-de receber, quando a carta for entregue, é preenchido logo por mim !!!!
Entretanto, enquanto esperava, vi esta cena intrigante : uma mamã muito jovem, com o seu filhote num carrinho. O puto devia ter menos de 1 ano, não sei bem calcular, mas ainda não falava nada que se percebesse. Acontece que o miudo, talvez chateado com a eficiência dos nossos Correios, chorava desalmadamente. Chorar é mais fácil que falar, não é ?
A mãe, para o calar, deu-lhe o telemóvel. Nessa altura, comecei a olhar para o miudo com atenção, eu estava muito perto. Agora imaginem o que aconteceu : o miudo, põe-se a calcar nas teclas com os deditos, faz um gesto para levar o telemóvel á orelha ( de facto encostou-o à testa mas o que conta é a intenção, não ? ) e desata aos berros : “Tá ?? pá ? rebababa ...brrrrr ....gnhhhh ..... timmmm ...” imitando perfeitamente uma pessoa a telefonar, embora com os “grunhidos” próprios da idade.
Fantástico, esta nunca tinha visto : os putos desta geração mexem nos telemóveis e falam neles mesmo ANTES de aprenderem a falar !!!
Co’os diabos, já viram uma cena destas ?
Mas hoje não era mesmo o meu dia. Entrei a seguir na FNAC, e fui direito á cafetaria para beber um café. À minha frente, na caixa, um casal, ambos muito bem aperaltados e com ar de intelectuais á portuguesa. Eu depois explico esta. Enquanto eles decidiam o que queriam, e eu esperava, foram chegando pessoas conhecidas deles, amigos, familiares, etc , sem eu perceber porquê, sequer. A verdade é que, todos se lhes juntavam junto da caixa e ele perguntava: “O que vão beber ? “ e ia pedindo .... E foi assim que, em vez de duas pessoas à minha frente, me vi ultrapassado por algumas 10 ou 15 pessoas todas com um ar muito bem, ninguém se preocupando aqui com o rapaz ... ehehehe ...
Se já me conhecem um pouquinho, sabem que isto não ficava assim, não é ?
Pois foi, chateie-me e bati no ombro do tal tipo que tinha tantos amigos e disse-lhe : “Olhe, já agora eu também bebo um café ...OK ? “ Ehehehehehehe ....
O digno senhor ficou assarapantado de todo, depois percebeu, riu-se e até me queria pagar o dito café ...
Bolas, estava a ver que não saia de lá hoje !
Afinal, vi depois, o tal tipo é autor de um livro qualquer cuja apresentação decorria hoje naquele espaço da FNAC. Aquelas pessoas eram todas fãs ou amigos que o vinham apoiar ... Não sei de que livro se trata, as probabilidades são de que seja uma parvoíce qualquer sem valor de maior. Muito me admiraria se assim não fosse.
É que hoje em dia até o Fernando Tordo é romancista, ele que eu julgava ser músico e cantor !!!
Ainda hei-de ver o Lobo Antunes a cantar ...

segunda-feira, dezembro 01, 2003

A SAGA DOS PINGOS NA COZINHA - III
Chove de novo e o homem da impermeabilização nem deu notícia. Claro, era de prever.
Entretanto, mais alguns pingos fizeram o seu caminho cá para baixo, para a minha cozinha, teimosamente. Acho que vi um sorriso sarcástico em cada pingo e um sonzito baixinho “ihihihi “ ....
Ai, ai ...
Telefonei ao administrador do condomínio. -- Ah, pois é, o pedreiro telefonou-me, é capaz de ir aí esta tarde, depois de almoço ... bem vê, estava a chover !
Como se eu não tivesse reparado que estava a chover. E notem bem : é capaz de ...
Estas expressões tão portuguesas encantam-me. A arte do não-compromisso. Nunca se afirma nada taxativamente. Há sempre umas fórmulas mágicas, sou capaz de passar aí, se calhar eu vou, vamos a ver se consigo ....
Convenhamos : ser português é uma arte complicada. O esforço e imaginação que dedicamos a parecer ser gente responsável e dedicada. A parecer ....
Mas que raio : não seria mais fácil ser mesmo gente responsável e dedicada ??