terça-feira, novembro 04, 2003

O MEU GATO AMARELO

Hoje vou-vos falar do meu gato. Meu, não é bem assim, é um gato em regime de co-propriedade com a minha filha.
Há anos que ela me pressionava para termos um gato em casa. Finalmente, quase por acaso, um amigo meu contava que á volta da casa dele, perto de Torres Vedras, tinha muitos gatos e gatas e que algumas andavam para ter filhos. Então saiu-me : "Se nascer um amarelo, tem que ser amarelo, fico com ele !"
E não é que nasceu mesmo um amarelo ? Duas semanas depois do bichinho nascer ( só duas, notem ! ), aparece-me no gabinete esse meu amigo ( trabalha ao pé de mim ) dizendo, muito aflito : “Oh pá, o gatinho trepou para dentro do motor do carro, deve ter entrado por baixo e veio lá de Torres Vedras até aqui, pendurado ...vê lá tu... ouvimos uns miados baixinhos no carro e lá estava ele ... Queres ficar já com ele ?“
O gatinho estava assustadíssimo e esfomeado. Trouxe-o para casa, fui comprar leite substituto de leite de gata e um biberão microscópico e lá começamos , eu e a minha filha, a alimentar o gatinho. Era do tamanho de uma palma de mão !
Hoje está um senhor gato, já com ano e meio, bigodes bem esticados, olhos inteligentes e dentes rápidos, mais que as garras. Acho que a falta dos ensinamentos da mãe e das brincadeiras com os irmãos fizeram dele um gato um tanto arisco e que não suporta carícias muito demoradas. Insiste muitas vezes em brincar às emboscadas connosco e, de vez em quando, tende a confundir uma perna minha com o rato a caçar e lá sai uma mordidela ... mas gosto dele, mesmo assim. Desculpo-o, são traumas de infância, ehehehe ....
É inteligente, o bicho, como podem apreciar na foto ao lado. Tem um ar que não se vê em muitos senhores ministros. E se pensam que os gatos não aprendem a nossa linguagem e aí se parecem, isso sim, com os tais senhores ministros, então oiçam isto : aprendeu o significado de algumas palavras, uma delas é rato. Quando lhe digo "rato", vai logo direitinho ao local onde escondeu o rato de brincar. Quando vi isto ainda pensei em ir à TVI, mas agora eles só se interessariam por gatos pedófilos, não por gatos filólogos.
Enfim, é uma das minhas companhias mais frequentes e fiéis, nestes ultimos tempos. Ah, quase me esquecia : em relação a uma companhia feminina tem uma grande vantagem : fala muito pouco e só quando é preciso. Eheheheh ...

segunda-feira, novembro 03, 2003

SANTARÉM
Hoje passei por Santarém. Foi nesta cidade que frequentei o velho Liceu, desde o 1º ao 7ºano. Claro que dei uma volta pelo velho edifí­cio, ainda em pleno funcionamento. Desilusão : no pátio, onde decorria um jogo de futebol, não vi ninguém da "malta" amiga ... só outros putos. Não vi o Pirica, nem o Isabelinha, o Madeira Lopes ou o Plaza. Ninguém.
Só vi o Tejo. Esse continua lá, a correr preguiçosamente na lezí­ria, testemunha daqueles anos já tão distantes. Pensando bem, já nem o Tejo é o mesmo. Debaixo da mesma ponte, nunca passa a mesma água duas vezes.

domingo, novembro 02, 2003

NÃO HÁ VARINHAS MÁGICAS ou OS MITOS DO LIBERALISMO
O céu anda escuro, nestes ultimos dias. Que é feito daqueles dias límpidos de Outono, com um sol delicado e trémulo, e uma temperatura amena ? Até o tempo está contra nós ?
Talvez seja por isso, contaminado por este pessimismo de Inverno, que António Barreto ( A.B.), na sua habitual rubrica de hoje no Público, advoga pura e simplesmente a extinção da Casa Pia. Por estar "esgotada" a solução, diz ele, e aproveitando a situação de quase caos e "culpa" daquela organização. Como solução alternativa, propõe ... a adopção dos miúdos que ninguém quer. Mais, faz cálculos ao dinheiro que o orçamento do Estado dedica à Casa Pia ( será familiar de Manuela Ferreira Leite ?? ) para concluir que é muito, demasiado.
Quanto à ideia-base de A.B., e embora lhe reconheça aqui e ali alguns laivos de razão, quase me apetece dizer que as pessoas mudam, perdem a sensibilidade para os problemas dos outros e das sociedades, passam a ver tudo à lógica fria dos cifrões e da eficiência ....
Acho que A.B. foi atacado pelo vírus do liberalismo descentralizante, numa variante de febre alta que o impede de ver a realidade. Senão, vejamos :
Há problemas no ensino secundário ? Entregue-se às autarquias ! Há problemas na Casa Pia ? Acabe-se com ela e dêem-se os putos para adopção ! Os hospitais não trabalham bem ? Entreguem-se à iniciativa privada ! As Universidades andam em crise ? Dê-se-lhes a autonomia total !
É curioso que para A.B., como para muitos pensadores modernos, todos os problemas têm a mesma génese : o Estado. Retirem-se-lhe competências e todos os problemas ficarão resolvidos. Que limpidez de pensamento, caramba.
A mim, que não percebo muito destas coisas, apetecia-me apenas perguntar onde é que estas pessoas foram colher a experiência prática para terem estas convicções tão fortes. Ou mesmo os conhecimentos teóricos.
E daí ... A.B. é capaz de ter razão numa coisa : quando não sabemos resolver uma questão, o melhor é endossá-la a outra entidade, não é ? Então, cá por mim, que já não sei como ler e entender A.B., entregá-lo-ia também para adopção, se acreditassse que ele assim deixaria de dizer tontices destas. Mas qual quê, nem mesmo assim ele se calaria, pois não ?
E ainda bem, no fundo. Os problemas não acabam só por os entregarmos a outrém. Temos mesmo que os resolver, não há varinhas mágicas.

sábado, novembro 01, 2003

RETRATO DO BLOGUISTA ENQUANTO JOVEM

Retirei este post por me parecer demasiado pessoal e por nada adiantar ao leitor.
Continha apenas uma foto do "bloguista" com 4 ou 5 anos de idade.

sexta-feira, outubro 31, 2003

UMA QUESTÃO DE COMUNICAÇÃO
Um grande anuncio exterior, acho que lhe chamam um outdoor, iluminado àquela hora do fim de tarde.Uma foto com um rapaz, de costas, vestido com umas jeans. Abraçado a ele, uma rapariga, apenas se vendo as mãos dela, a apalparem-lhe o rabo, sem inibições.
Duas frases ilustram e dão sentido à foto : COMUNIQUE MAIS, VIVA MELHOR. Finalmente ! Bolas, andei uma vida inteira para perceber isto ! E foi preciso um anúnciozito luminoso para me explicar. Sempre pensei que gostaria de comunicar, escrever umas coisitas, sei lá, mesmo que fossem tipo margarida não sei quê, ou ser jornalista, quanto mais não fosse. Mas não, nada disso : afinal é DAQUILO que eu sempre gostei, daquele tipo de COMUNICAÇÃO. Não enjeitando aquele sentido ela /ele, se possível englobando também o sentido inverso. Sempre ouvi dizer que para haver comunicação tem que haver dois sentidos.
Ou mais, considerando este tipo especial de comunicação.
PROMESSAS, PROMESSAS
E se a táctica usada nas eleições para presidente do Benfica se torna moda ??
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Portugueses, se votarem em mim, prometo que trago para o País um Primeiro Ministro alemão, francês, sueco ou mesmo espanhol, com provas dadas e golos marcados. O que temos cá já se viu que chuta sempre para o mesmo lado e mesmo assim mal, e os outros, os candidatos, não são estrelas nenhumas.
Prometo também uma nova Ministra das Finanças, francesa ou alemã, sem obsessão por défices. Esta nossa só sabe jogar à defesa.
Contrato também um substituto para o João Jardim, não pode ser nem da Irlanda nem da Escócia, ando a ver se encontro quem queira.
Até arranjo e trago para cá pedófilos conhecidos, da Bélgica, se quiserem, que estes nossos já cheiram mal.
Quanto ao Paulo Portas, prometo que não o deixo ir jogar para o estrangeiro, acho que devemos ter apenas exportações de qualidade, para melhorar o prestígio do país. A menos que a estratégia passe por lançar a confusão nos outros países europeus. É assunto a ponderar.
Votem em mim, já !
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Assim vão as eleições ... por enquanto, apenas para o presidente do Benfica.

quinta-feira, outubro 30, 2003

AS MOSCAS NÃO SÃO AS DOS ANOS 60, POIS NÃO ?
Quando comecei este diário, não fazia ideia nenhuma do que queria cá dizer. Ainda hoje não sei muito bem, não é ?, mas a pouco e pouco acho que fui parar a uma forma simples de conversa com amigos, num café, uma espécie de vale-tudo desde que seja sentido. Qualquer coisa do género.
Claro que isto não surge por acaso, uma das recordações mais gratas da minha juventude são as conversas entre amigos, à volta de uma mesa de café, na Mexicana ou mais frequentemente na Copacabana, em Lisboa. Não era uma tertúlia intelectual, faltava-nos muita coisa para isso, mas era um convívio onde todos aprendiam com todos, numa partilha de informação e de ideias que bebíamos sofrêgamente em livros, reuniões, espectáculos, o que calhava.
Tínhamos vinte e poucos anos e andávamos, a maior parte, a estudar no IST, ali mesmo ao pé. Salazar ainda reinava, num país pachorrento, e a grande excitação das nossas vidas eram as lutas estudantis e a consciência do muito que seria necessário mudar a nível político. A guerra colonial era uma afronta “doutrinária”, para nós, e ao mesmo tempo uma ameaça real. Alguns lá foram cair, por essa Áfricas, enquanto outros, para a evitar, se viram obrigados a uma emigração forçada para a Suécia, Bélgica e outros países, interrompendo os cursos e as vidas. Mas isso são outras histórias, que um dia lhes contarei.
Por hoje, lembrei-me desta fase da minha vida apenas porque ela moldou definitivamente a minha maneira de pensar o Mundo, não como uma forma cristalizada e derradeira, mas antes como algo que se faz e desfaz para logo depois se refazer. Aprendi a ter prazer na conversa, no debate de ideias, no escutar dos outros.
Creio que este diário se está a parecer cada vez mais com aquelas conversas do final da década de 60. Em todos os aspectos. Incluindo a ideia de que muito há a mudar neste nosso país, em termos políticos.
Como dizíamos então, isto está uma merda completa.

terça-feira, outubro 28, 2003

GATO SEM VERGONHA
O meu gato é teimoso como qualquer outro gato : é capaz de saltar para cima da mesa, ao almoço ou jantar, dez, vinte vezes, mesmo depois de umas valentes palmadas. Não há ameaças ou seduções que o desviem da sua tentação. Se falo no meu gato agora, é porque percebi que, afinal, os portugueses são tão dissimulados, teimosos e obstinados como ele.
Há uns dias, o Presidente da República fez uma comunicação ao país, sugerindo que se acabasse com a novela da Casa Pia e se enfrentassem os grandes problemas nacionais. Toda a gente ( de bem, aqueles a quem perguntam a opinião ) declarou compungidamente que sim senhor, que o senhor Presidente tinha razão, que era tempo de ganharmos juízo ... Claro que isto já foi há uns dias e um homem não é de pau : mensagem esquecida e pimba ! Aí a temos de novo, à novela, em todo o seu esplendor : uns dizem que o Ministério Público se comporta como a Pide ou a Gestapo , outros ( que por acaso é outra ) enervam-se com o adiamento dos julgamentos e dizem que assim, qualquer dia já não há vítimas, fogem todas. Uns continuam a declarar a sua fé na justiça ( nunca percebi que raio vem aqui fazer a fé ), outros insinuam que todo o edifício jurídico se está a desmoronar. Um "ilustre" causídico, invocando o seu dever de defesa do cliente, inventa artifícios das arábias para adiar o julgamento do mesmo. Cliente esse que estará na condição de "vegetal", na opinião de um qualquer psiquiatra que vi e ouvi na TV. Hummm, talvez um pepino, ou uma cenoura, a ajuizar por aquilo de que o homem é acusado.... Não, não me parece mal brincar com isto, toda a gente anda a brincar, só eu é que não posso ??
É a novela das 8, no auge das audiências.
É o regresso à barafunda depois do acto de contrição.
Estou a ver daqui o meu gato, a limpar os bigodes e a olhar-me com ar de gozo :
"Então, e eu é que sou desavergonhado, não é ?"
Touché. Nunca mais dou nenhuma palmada ao meu gato.

segunda-feira, outubro 27, 2003

A DESELEGÂNCIA DA LUZ
Não gostei de ouvir aquela vaia e assobiadela gigantesca com que os adeptos do Benfica receberam o Primeiro-Ministro na inauguração do novo Estádio da Luz.
Estou à vontade para discordar desta vaia : não gosto deste Governo, não gosto da sua política, abomino o seu afã de destruição, irritam-me os ares pomposos que são a sua imagem de marca, acho que estão a desmoralizar completamente este pobre país. Não gosto, pronto.
Mas daí­ a gostar de ouvir uma "ovação" daquelas ao Primeiro Ministro vai um enorme passo que eu não dou.
Nunca gostei de cartas anónimas, nem da pseudo coragem de pessoas sem rosto no meio de uma multidão.

domingo, outubro 26, 2003

DOMINGO, FIM DE TARDE
Hoje, eram 5 da tarde, fui dar a minha volta a pé. Gosto de andar a pé. Costumo ir ao Colombo, são cerca de 20 minutos a pé de minha casa, atravessando uma zona de que gosto muito, e que confina com os terrenos da "ultima quinta de Benfica", sobre a qual já vos falei em escrito anterior.
O passeio tem os seus laivos de ruralidade, estão a ver ?
Blusão quente, já de Inverno – nunca sei quando é que hei-de mudar de roupa – chapéu de chuva na mão, lá fui eu, debaixo de alguns chuviscos e de um céu ameaçadoramente negro.
Por falar em negro, ao passar mesmo ao lado da tal quinta, um homem negro dos seus quarenta anos olhava, extasiado, para o céu, saudoso da sua África de céus magnificos.
O céu estava realmente belo, acreditem. Os negros ( os do céu, não confundam ) misturavam-se com brancos muito brilhantes a reflectirem alguns raios de sol ainda resistentes. Umas núvens encasteladas, tipo ondas de mar junto da rebentação, tornavam a situação ainda mais estranha.
Quando passei pelo homem ele olhou para mim, um pouco envergonhado de estar para ali parado a admirar o céu. Não resisti e atirei-lhe com um cúmplice “Céu bonito, hem ?”. Fui recompensado com um sorriso aberto, branco, e um “É mesmo !” bem africano .... Coisas que vão acontecendo.
Entrei no Colombo ... e saí passado pouco tempo, aos Domingos aquilo é uma aproximação muito real da imagem que tenho do Inferno : gente, gente, gente e tudo aos encontrões.
À saida, lembrei-me de comprar umas castanhas assadas, mas acreditem ou não, o homem não tinha nenhumas: aquela gente toda, pelos vistos, também gosta de castanhas assadas ... raios os partam, eu não digo que isto assim é um inferno ?
Regressei, frustrado, sem as castanhas. Que se lixe, melhor para a dieta. Vim andando e olhando à volta.
À esquerda lá estava o terreno da quinta, as pequenas hortas, as couves ; logo acima da linha do casario da quinta, o céu estava mais harmonizado, todo em tons de cinzento escuro ; mais à frente, nas silhuetas dos prédios na Avenida do Uruguai, apareciam os primeiros rectângulos de luz. Ainda mais ao fundo, adivinhavam-se os contornos de prédios na Pontinha. Os carros, deslizavam do meu lado direito, com um ruido surdo, já a verem mal a estrada e a acenderem os olhos. Apenas duas ou três pessoas a andarem, como eu, ao longo do passeio bem pavimentado, com árvores jovens e uns candeeiros já acesos, também. Por acaso, uma delas era uma jovem com um rabo bem desenhado, andar quebrado e balançado que me fez lembrar Tom Jobim e as garotas de Ipanema...
Senti paz, neste fim de dia. Senti harmonia nas coisas. Lembrei-me de pessoas queridas e de amigos que já me deixaram. Senti saudade ... mas também me senti feliz por estar vivo e poder olhar estas coisas simples.
Chamem-me agora simplório ou senil que acaba-se já a paz deste fim de dia e vos dou uma coça das antigas !!!! Ehehehehehe !

sábado, outubro 25, 2003

FUMAVA MUITO, NÃO ERA ?
Hoje dei comigo a pensar nos mecanismos de auto-defesa e tranquilização psicológica que todos nós usamos na nossa vida. Quando alguém morre de ataque cardíaco ou cancro nos pulmões perguntamos logo, esperançados na resposta:
“Fumava muito, não era ?”
Nós não fumamos, claro, portanto ...
Se ouvimos falar de uma vítima de SIDA, lemos logo avidamente a notícia, ou perguntamos a um amigo, tentando garantir que o infeliz era homosexual, drogado ou tinha uma vida sexual muito dissoluta.
Nós não somos nada disso, claro, portanto ...
A confirmação destas circunstâncias acalma-nos e tranquiliza-nos, “aquilo” não nos vai acontecer, estamos fora do grupo de risco. Que as coisas nem sempre sejam tão simples assim pouco interessa, o que conta é o sentimento de estarmos protegidos do mal.
Vem isto a propósito das notícias recentes sobre acidentes de trânsito, provocados por condutores em contra-mão. Em autoestradas ou vias rápidas, claro, a questão não se põe nas velhas estradas de dois sentidos.
Na minha perspectiva, dentro de cada um de nós, aparecem reacções do tipo “isso só acontece aos velhotes já senis e a putos malucos amantes de sensações radicais”. Ou então, se nos colocarmos no papel dos condutores potenciais vítimas desses actos, pensamos que seríamos capazes de evitar o acidente.
Convenhamos, são muito humanos estes mecanismos de defesa e de auto-protecção.
São humanos ... e são negativos, desresponsabilizantes, egoistas. São gato escondido com o rabo de fora, são a avestruz com a cabeça escondida na areia.
As doenças cardíacas, o cancro e a SIDA existem mesmo, podem atacar qualquer um, incluindo a nós próprios. E existe também a possibilidade de entrada errada numa faixa de autoestrada. Em vez de ficarmos tranquilos porque, eventualmente, estamos fora do grupo de risco, devíamos exigir que se gastasse mais tempo e dinheiro a investigar possíveis curas e soluções.
E se pensam que isso já sucede, então deixem-me dizer-lhes a minha sensação : a maior parte da investigação médica aplicada, digamos assim, a nível mundial, tem sido desenvolvida pela industria farmacêutica ou por ela financiada. Esta industria já ganha muitos milhões com os medicamentos que actualmente produzem para essas doenças. Ganhariam muito mais com uma simples vacina para a SIDA, por exemplo ? Respondam e pensem, e não se limtem a dizer que eu exagero e sou fundamentalista. Porque até nem sou.
Quanto aos velhotes que entram ao contrário nas autoestradas e vias rápidas : há aí alguém que afirme nunca ter hesitado num acesso qualquer ? Quem é capaz de afirmar que a sinalização das nossas autoestradas é suficiente para elucidar perfeitamente qualquer pessoa, velha ou nova, sóbria ou com duas cervejas, de dia ou de noite, com visibilidade ou em pleno nevoeiro ? Não há nada a fazer na melhoria dessa sinalização ?
Pois.

sexta-feira, outubro 24, 2003

VIVA O FC do PUARTO, CARAGO !
Começo por informar o amável leitor ( amável ? se calhar é um ou uma cusca do caraças, e eu aqui com salamaleques ) que não sou adepto do FC Porto nem tenho qualquer simpatia especial pelo sr. Pinto da Costa.
Dito isto, vou dizer outra coisa : se os portugueses, no seu conjunto, tivessem a garra e a auto-confiança do FCPorto, outro galo cantaria na Europa e no Mundo.
É triste que o exemplo para os portugueses tenha de vir de uma equipa de futebol. Ou de uma equipa de Hóquei em Patins, onde fomos de novo Campeões do Mundo ! Triste, mas ainda assim enriquecedor. Vejam bem, é só preciso ser competente, trabalhar e depois não ter complexos de inferioridade, ganhar auto-estima e “jogar” de cabeça bem no ar, a ver o esquema do adversário.
Assim como Kennedy afirmou, em alemão, na ainda dividida cidade de Berlim : “Ich bin ein Berliner “ ( “Sou um Berlinense também, cambada ” em tradução livre ) , também eu hoje gostaria de gritar “Eu soaa do Futebolee Claoube du Puarto, carago !”, aderindo à postura corajosa e desinibida daquela equipa !
É assim mesmo !
No fim, não resisto a uma alfinetadazita : o amável ( outra vez ?? ) leitor decerto não pensa que aquela auto-confiança e aquele saber nasceram apenas dos jogadores dentro do campo, pois não ? Alguém os treina, alguém os estimula, alguém lhes cria condições para eles , jogadores, aprenderem a reagir assim. Não é ?
É sempre o que falta nesta outra equipa portuguesa, o país inteiro : não temos empresários, nem treinadores nem dirigentes de jeito, com capacidade para nos fazer jogar com garra e confiança ...
Mais : esses ilustres agentes do nosso “futebol” nacional parecem ter esquecido que são as expectativas e os anseios pessoais, no seu conjunto, que fazem mover um país e uma economia.
Ou que fazem ganhar jogos e Taças.

quarta-feira, outubro 22, 2003

HOMENAGEM ÀS MULHERES
Nos ultimos anos, em conversas pessoais ou através de programas de conversação na net ( uma realidade a merecer estudo sociológico profundo ) conheci aspectos importantes da vida de algumas mulheres portuguesas, de idade à volta dos 45 a 50 anos.
Com actividade profissional fora de casa, divorciadas ou separadas, magoadas, solitárias e ... com filhos para criar e amar. Não faço ideia da percentagem de mulheres desta gama etária que corresponde a este retrato, mas deve ser bastante elevada. Não quero comentar as causas da situação, nem mesmo as suas consequências. Quero apenas salientar que, em todos estes casos, quem cria os meninos e meninas deste país são elas, estas mulheres.
Sózinhas, abandonadas ou revoltadas, trocadas por modelos mais novos ou obrigadas a romper com situações intoleráveis, ainda assim conseguem ânimo para ganhar a vida e dar amor aos seus filhos, fazendo deles seres humanos integrados e bons.
Muitos dos pais destas crianças ou jovens, ex-maridos e companheiros destas mulheres, são demasiado egoistas e estão demasiado ocupados para ajudar, para amar os seus filhos. E, se o fazem, é durante um fim de semana curto e contrariado, ou limitam-se a enviar uns euros.
Fingimos todos ignorar esta realidade. Estas mulheres nem sequer ouvem uma palavra de estímulo da sociedade.
Por vezes, não sinto grande orgulho em ser homem.
Muitas vezes penso que as mulheres são infinitamente mais corajosas, determinadas e generosas.
A minha homenagem a estas Mulheres e a minha admiração genuina.
Bem hajam.
UMA QUESTÃO DE BOM SENSO
Ouvi ontem o discurso do Presidente da República. As partes mais importantes, em meu entender, são a chamada de atenção para os problemas do país, á espera que a novela da pedofilia acabe e a ideia que não podemos permitir a actual quebra despudorada do segredo de justiça.
Duas opiniões sensatas.
Seria interessante que viessem a ser seguidas, não seria ?
Querem apostar que não o vão ser ?

terça-feira, outubro 21, 2003

REINICIALIZAR O PAÍS
Conheces o Windows, não conheces ? Desde o primeiro até ao actual XP, todos são iguais quanto a isso.
Que fazes quando tudo corre mal, o computador fica paralizado e nem sequer o rato mexe ? Ah ? Qual é a receita ?
Pois claro, as velhas teclas miraculosas Ctrl+Alt+Del ... a máquina desliga-se e recomeça tudo de novo, rejuvenescida, problemas ultrapassados, pronta para uma nova vida ... nem sequer precisamos de saber qual era o problema !
Isto não te provoca nenhuma ideia ? Vá lá ...
Isso mesmo : fazer Ctrl+Alt+Del a Portugal inteiro !!!
Onde serão as teclas ?

segunda-feira, outubro 20, 2003

O TABACO E A TELEVISÃO MATAM
Conhecem os meus eventuais leitores ( poucos mas bons ) aquela sensação de que o Mundo nos desabou em cima quando, por infeliz coincidência, três ou quatro más notícias pessoais ou que envolvem a nossa família se acumulam na mesma semana ?
Pois bem, acho que isso está a acontecer connosco, os portugueses, com notícias alarmantes a choverem em catadupa, todos os dias. Pedofilia, contas de autarcas na Suiça, pedofilia, autarcas fugidos á justiça em emigração para o Brasil, pedofilia, cunhas de ministros para a filha entrar em medicina, pedofilia, elementos da Brigada de Trânsito presos preventivamente por receberem subornos, pedofilia, médicos em julgamento por prescreverem certos medicamentos a troco de benesses dos laboratórios, pedofilia, pedofilia, pedofilia ....
É um milagre que haja pessoas a ouvir noticiários destes nos ultimos tempos sem entrarem imediatamente numa urgência hospitalar qualquer com uma depressão profunda ! Não há tempo para “lamber feridas”, não há contrapontos positivos destacados, a falta de confiança e a sensação que tudo vai mal são inevitáveis !!
Mas será este um retrato verdadeiro da nossa sociedade ?
Ou será um retrato tirado através de um filtro especial, filtro de cores carregadas ?
E porque não nos dão outros retratos, sem filtros ou com filtros de cores mais claras ?
Porque nos dão só estes ainda por cima em doses repartidas ao longo dos dias e nunca de uma só vez ? Quem toma estas decisões, mostra este retrato hoje e aquele amanhã ? Não mostres esse que é muito cor-de-rosa, antes aquele que é bem vermelho ? Quem tem o poder para fazer isso ? Que tipo de controlo tem a sociedade sobre essas escolhas, e, consequentemente, sobre os impactos dessas escolhas no conjunto da população ?
Pois bem ... conhecem a recente medida de colocar etiquetas nos maços de tabaco avisando os possíveis compradores para os efeitos negativos do tabaco ? Do género “O TABACO MATA” ?
Tenho uma sugestão então : que se legisle, no âmbito da Assembleia da República, no sentido de obrigar as estações de televisão e os jornais a afixar, em pleno écran, durante os telejornais, ou na página de rosto, um aviso do seguinte tipo :

NOTE BEM : OS JORNAIS E A TELEVISÃO PODEM EMPOLAR E DETURPAR A REALIDADE SE COM ISSO CONSEGUIREM MAIOR AUDIÊNCIA”

Talvez assim fosse possível minorar os efeitos negativos deste tipo de informação. Talvez.
E mesmo que não se conseguisse impedir a depressão colectiva e a vida estragada de muita gente, sempre seria uma medida de coerência em relação ao tabaco.

domingo, outubro 19, 2003

UMA SOCIEDADE DOENTE
Uma sociedade pode adoecer ?
Podem existir sintomas evidentes de mal estar nas relações entre pessoas do mesmo país, ou são apenas sensações individuais extrapoladas para o conjunto dessa sociedade ?
Quero ser mais claro : pareceu-me desde o início que o processo da Casa Pia tresandava a hipocrisia e incluia objectivos escondidos muito diversos da busca da verdade ou da defesa das crianças violentadas.
Hoje, não tenho dúvidas : este processo está a ser conduzido pelas regras da conquista de audiências e de auto-afirmação de alguns jornalistas desejosos de notoriedade, numa actividade que está a lançar uma tremenda confusão e angústia em muitos portugueses, nesta altura completamente incapazes de entender o que se passa.
Se, para além disso, está a ser aproveitado para destruir algumas figuras partidárias já não tenho tanta certeza, podendo acontecer que essa destruição seja mais fruto da agenda própria dos media e da falta de jeito político dessas figuras para lidar com a situação.
Um dos efeitos mais notórios de toda esta novela é a confusão total do público sobre a natureza e méritos da nossa justiça : então prende-se preventivamente e depois vê-se melhor e solta-se ? Ou três juízes da Relação de Lisboa dizem uma coisa hoje e amanhã, três outros, do mesmo Tribunal, dizem exactamente o oposto ? Mas então é mesmo assim que as coisas são ? Isto é que é a Justiça a funcionar ?
Estamos a ficar doentes, muito doentes.
PS – deixem-me só gozar com este pensamento : os media crucificaram Ferro Rodrigues por este ter dito, numa conversa telefónica privada ( e indevidamente escutada ! ) que se estava “cagando para o segredo de justiça”.
Suprema ironia ... é que os media, ao divulgarem esses dados de uma conversa telefónica privada, também estão a mostrar o mesmo desprezo pelo segredo de justiça , só que a nível público, ainda por cima !!!!

sexta-feira, outubro 17, 2003

O ORÇAMENTO DE ESTADO OU A HISTÓRIA DO CAVALO DO ESPANHOL
É inevitável, aí a temos, a proposta para o orçamento do Estado de 2004. Ainda não a li, mas dela já se conhecem as grandes linhas. Mais do mesmo : continua a obsessão com o déficit, contra tudo e contra todos. Cortes no investimento público, sorrisos e reduções fiscais para os empresários, pedidos de contenção para os salários de quem trabalha.
A velha receita do novo liberalismo: reduza-se o papel do Estado na economia, dê-se condições ao capital e a verdadeira felicidade virá então.
Há só um pequeno problema.
É que, a continuarmos assim, um destes dias teremos sem duvida as contas públicas certas e as empresas com enorme capacidade de investimento ... só que já não haverá muitos portugueses para assistir e aplaudir esse milagre. Emigraram uns e os restantes morreram asfixiados pelos próprios cintos.
Não desanime porém a Drª Manuela Ferreira Leite e o Dr. Durão Barroso : mesmo sem portugueses para os aplaudir, terão a honra de serem na Europa os unicos a respeitar os 3% e a ganhar a Taça !
Aqui acabam as semelhanças com a história do espanhol que andava a treinar o cavalo para este viver sem comer....
É que, quando o cavalo morreu de fome, o espanhol chorou, arrependido, e percebeu a sua tolice.

quinta-feira, outubro 16, 2003

A CENTOPEIA
ou a prova de que também gosto de humor. Uma boa gargalhada é a melhor receita possível para estes tempos cinzentos. Esta história ( verídica ! ) foi-me enviada hoje por um velho amigo.
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Um fulano vivia sozinho, aborrecido, até que decidiu que a sua vida seria melhor se tivesse um bichinho de estimação como companhia. Assim,foi a uma loja de animais e disse ao dono da loja que queria um bicho que fosse fora do vulgar.
Depois de algum tempo de discussão, chegaram à conclusão que ele deveria ficar com uma centopeia. Uma centopeia seria mesmo um bicho de estimação fora do vulgar, tão pequeno e com 100 pés! Realmente incomum!!!
A centopéia veio dentro de uma caixinha branca que seria a sua casinha...
Bom... o nosso amigo levou a caixinha para casa, arranjou um bom lugar para a casinha da centopeia e achou que o melhor começo para uma longa amizade com a sua nova companhia seria levá-la a tomar uma cervejinha...
Perguntou então à centopeia que estava dentro da caixinha:
--- Eh, gostavas de vir comigo à Portugália beber uma cerveja?
Não houve resposta. Meio chateado, esperou um pouco e perguntou de novo:
--- Que tal vires comigo à Portugália para uma bojeca e uns camarões, hein?
De novo, nada de resposta. Esperou mais um pouco, pensando no que poderia estar a acontecer, chegou bem perto da caixinha e gritou:
--- EI, Ó SURDA!!! QUERES IR OU NÃO COMIGO À PORTUGÁLIA ??
Foi então que uma vozinha se ouviu, lá do fundo da caixinha:
--- Fodassseee, pá !!! Ouvi à primeira! Estou só a calçar os sapatos!!!

terça-feira, outubro 14, 2003

MUDAR O POVO INTEIRO ?
Desde muito criança que ouço dizer que estamos em crise económica.
Antes do 25 de Abril era a crise do isolamento político do país, da inexistência de liberdade da iniciativa privada e do custo da guerra colonial.
Depois, ao longo de sucessivas crises, dizia-se que o problema estava nos estrangulamentos estruturais da nossa economia, ou nas más conjunturas internacionais, ou ainda nos aumentos salariais incomportáveis ( ?? ) e na baixa produtividade dos nossos trabalhadores.
Nestes ultimos trinta anos ouvi responsáveis políticos afirmar, vezes sem conta, que se iam entregar de alma e coração ao combate à fraude fiscal, à melhoria da educação, ao aumento da produtividade e da competitividade, à modernização da nossa economia.
Ouvi pedidos de paciência, ouvi exortações para “apertar o cinto”, que era apenas durante uns tempos e que mais tarde teríamos finalmente o desafogo merecido.
Nos ultimos três ou quatro anos, a ladaínha mudou : agora é o cumprimento do limite no déficit das contas públicas, é preciso antes de mais endireitar as finanças e só depois é que ...
Meu Deus, a verdade é que me dei conta, passados todos estes anos, que somos um país já não só adiado mas completamente condenado. Ou pelo menos fora de prazo. Com elites despojadas de valores ( que não os puramente materiais ), incapazes de motivar um povo analfabeto, ignorante e mais propenso à inveja que à iniciativa. Com empresários esmagadoramente de nível 4ª classe atrasada. Com pessoas incrédulas e cínicas, como eu.
Que fazer ?
Pois bem, um amigo meu, há tempos, à hora de almoço, descobriu a solução.
Eu tinha sugerido, numa ultima esperança, que contratássemos gestores e mesmo governantes estrangeiros, alemães ou suecos, para ver se era possível andar com este país para a frente.
Foi então que esse meu amigo se saiu com esta frase sábia e definitiva :
“Só os gestores e governantes, pá ? Então não se pode mudar o povo inteiro ?? “