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terça-feira, março 11, 2008

OS MECANISMOS DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA

Factos : Sócrates venceu as ultimas eleições com maioria absoluta ; do respectivo programa eleitoral constavam algumas medidas para o ensino semelhantes ás que têm vindo a ser tomadas, sem entrar em pormenores ; os professores manifestaram-se contra a forma como essas medidas têm vindo a ser levadas à prática e contra alguns dos pormenores entretanto surgidos ; Sócrates afirma que não muda nem uma vírgula e que é ele que tem legitimidade política porque venceu as eleições ; se as coisas assim continuarem, a instabilidade tomará conta das Escolas e, no final, não se vê como é que o Ensino vai melhorar.

Comentários : a representatividade, em democracia, não pode NUNCA ser definitiva, irrevogável ou independente das condições concretas sob as quais se desenvolve.
Sendo uma forma de resolução de conflitos, em sociedade, a representatividade baseia a sua eficácia na permanente aceitação por todas as partes envolvidas, ou, pelo menos, pela maioria dessas partes. Quando tal equilíbrio se rompe, assumindo a contestação formas graves e ou muito expressivas, é preciso que a sociedade política possua mecanismos de regulação para estas roturas, designadamente :

- a re-análise por parte do Governo, com os novos dados do problema ;
- a intervenção da Assembleia da República, no âmbito do seu papel de fiscalização dos actos do Governo ;
- a intervenção do Presidente da República ( PR ).

No caso do actual conflito do ensino, em Portugal, seria de esperar que não fosse preciso passar do primeiro passo atrás referido : o Governo deveria reanalisar o assunto, com calma e ponderação, e introduzir as correcções indispensáveis. Tal como fez na escolha do novo aeroporto, tal como fez no caso da Saúde, pelo menos até certo ponto.
Neste caso, a obstinação de Sócrates e da senhora doutora Maria de Lurdes Rodrigues, não vão permitir tal coisa.
E lá vamos nós para o segundo nível de intervenção, a Assembleia da Republica (AR ).
Aí chegados, um novo obstáculo se levanta : alguém acredita na independência face ao Governo dos deputados eleitos pelo PS ? Pode a AR ser de facto um orgão de fiscalização do Governo, quando o Governo é que “manda” nos deputados da maioria ?
Cada um que responda, a minha resposta é NÃO ou MUITO DIFICILMENTE.
Sendo assim, resta-nos a ultima esperança constitucional de solução de conflitos : poderá o PR chamar o Governo ao bom-senso, forçando-o a olhar a realidade com flexibilidade e a esquecer ódios ( porque de ódio se trata, parece-me ... ) ?
Acredito que sim, Cavaco Silva é pessoa para isso, não impondo, que não está nas suas atribuições, mas convencendo, acalmando, sugerindo ...
Na minha opinião, será nessa instância que as coisas tomarão rumo, de uma forma mais ou menos expressa, provavelmente um pouco encapotada.
Para já, estamos na fase 2. Está agendada a discussão, na AR, no próximo dia 26, de duas propostas ( do CDS e PP, mas o PSD concorda ) para a suspensão da avaliação até ao próximo ano lectivo.
Veremos.

quarta-feira, março 05, 2008

EM RECONQUISTA DA DIGNIDADE PERDIDA

É nova, esta dinâmica de luta e oposição que tem vindo a reunir professores por todo o país.
Sábado iremos assistir a uma grande manifestação, tudo o indica, talvez a primeira da era das novas tecnologias de comunicação.
Telemóveis, correio electrónico, blogues, todos estes novos meios uniram pessoas e ultrapassaram os velhos sindicatos, lentos, legalistas e burocratizados.
Na sua mágoa de iluminado incompreendido, Sócrates vai notar, afinal, que estas coisas das tecnologias da comunicação podem funcionar de muitas formas, umas boas ... e outras igualmente boas, mas para os outros.
Presumo que este venha a ser um dos raciocínios do Primeiro-Ministro, surpreendido por esta atitude daqueles a quem alguém chamou “professorzecos”, na Assembleia da República.
Que eu saiba, ele não lhes chamou isso, mas fez pior : directa ou indirectamente, por processos directos ou mais enviezados, acusou-os de trabalhar pouco e ganhar demasiado, de quererem todos chegar ao topo da carreira, de faltarem muito, de terem horários reduzidos, de serem os responsáveis pelos variadíssimos males do ensino.
Privilegiados, foi a palavra que circulou por toda a parte.
Este Governo fez isso de que o acuso directamente : caluniou os professores. Fez o mesmo com os militares, a quem dedica idêntico desprezo. Fez isso com a generalidade dos servidores do Estado, que assistiram a tudo, atónitos, enquanto viam os Valas deste País tomar de assalto as máquinas de dinheiro ...
Por isso, declaro alto e bom som a minha profunda simpatia pela manifestação de sábado dos professores, em reconquista da dignidade perdida.
Espero que todos eles sintam, bem fundo dentro de si, a dignidade de quem luta, a força de quem não desiste nem abdica de ser português e profissional do ensino.
A todos eles, do fundo do meu coração, o meu grito de solidariedade !
E o meu obrigado. Estão a restituir-me fé no povo português.

segunda-feira, março 03, 2008


ESTA MINISTRA DA EDUCAÇÃO ESTÁ ERRADA !

A Educação funciona mal, em Portugal, em todos os níveis. Há mais de 40 anos que começou a entrar pelo cano ... e eu tenho sido espectador atento, diga-se.
O sistema está hoje em colapso quase completo e não há sinais de recuperação. Nem sequer de um início de recuperação. Não há qualquer esperança para a educação no nosso País, nos próximos tempos. Acham que sou pessimista ? Vejamos.
O que é educar ? É assim algo tão extraordinário e dificil ?
Claro que não. Educar é apenas um processo que os humanos inventaram para transmitir, de geração em geração, conhecimentos e atitudes, em muitas áreas ; é apenas uma forma de evitarmos recuos no saber e no saber fazer. Nos primeiros tempos do homem, esta transmissão era feita dentro dos clãs, na tribo, a partir dos pais, mães e de todos, no fundo, ao mesmo tempo que as coisas iam acontecendo.
Mais tarde, descobriu-se uma forma diferente e muito mais especializada para a transmissão do saber : a escola. Arranjava-se um espaço, metiam-se os putos lá dentro, punha-se um professor com uma chibata á frente dos alunos, ele falava e os putos ouviam e repetiam, era a escola no seu paradigma inicial.
Foi um descanso ! Essa invenção poupava os pais do trabalho de ensinar os meninos, agora era só verificar, á noite, se eles tinham aprendido alguma coisa ou não ... excelente.
O tempo correu, os pais cada vez mais ocupados e com menos tempo, as escolas cada vez maiores, os conhecimentos a transmitir cada vez mais numerosos e complexos !
Não me vou meter por essa discussão, mas o importante é que hoje há milhões de bits de informação, provindos de cada vez mais áreas humanisticas e técnicas, que queremos meter nas cabeças de um numero cada vez maior de putos, pelos processos habituais ... mas a um custo cada vez menor e, se possível, num tempo mais curto.
Ainda por cima, queremos fazer isto sem dor nem suor, como se de um jogo de computador se tratasse, sem necessidade de estudo e de reflexão.
Mais, tudo isto num ambiente em que, no fundo, ninguém está disposto a mexer uma palha, lá em casa, para ensinar aos meninos a ser disciplinados, a trabalhar, a respeitar os professores, etc ... Quanto a essa de respeitar os professores, até se vive exactamente ao invés, tentando a todo o custo que os putos percam todo o respeito por eles, seja por via dos estatutos de alunos seja a desacreditar publicamente os mesmos.
Bom, seja como for, esta é a situação a que se chegou. Um caos, de facto. Há que mudar paradigmas, formas de resolver o problema, sei lá ...
E é aqui que se revela o génio deste Governo e desta Ministra : olhando esta realidade, o Governo achou que se devia mexer ... nas regalias dos professores. ( Lembram-se do cientista maluco que ia cortando as pernas a uma rã, uma a seguir a outra, e depois assustava a rã com um grito, fazendo a rã saltar ? Esse tipo concluiu que a rã, quando se lhe cortava a quarta pata, fica ... surda. )
Está-se mesmo a ver : o ensino está a desordem, o caos que está, não é ? Tumba, tira-se da cartola os professores titulares, com um novo estatuto dos professores em que só metade é que irá progredir, fixam-se quotas, faz-se á pressa um sistema de avaliação côxo e atamancado, cuja unica preocupação é legitimar a não-promoção dos professores, edita-se um novo estatuto do aluno ( que logo depois se suspende ) decretando-se que podem faltar á fartazana sem consequências, etc ... etc ...
Como podem ver, se tiveram paciência de ler até aqui, tudo medidas apropriadíssimas, apontadas ao cerne do problema ! Com medidas destas, o ensino vai mesmo melhorar, caramba, são medidas inteligentes, bem vistas, próprias de pessoas excepcionalmente dotadas para estas coisas do ensino !
Agora notem o requinte : sabendo á partida que os professores são gente esconsa e fugidia, sempre prontos a boicotar o ensino, o ministério adoptou desde o início uma postura própria de um ministro das cadeias a legislar para com os reclusos : força na marreta e eles que se lixem, não queremos saber deles para nada ! Uma simpatia, medidas bem discutidas e acertadas com os professores, cuidado na defesa do seu estatuto de vida, tudo com uma enorme simpatia e respeito, não me venham dizer o contrário !

Pois. E é exactamente por causa disto tudo que os professores agora dizem ( e ainda vão dizer mais ) BASTA !
É que, seja eu de que partido for ( nenhum ), não sou estúpido, e não consigo encontrar em NENHUMA das diversas medidas do Ministério uma preocupação sincera com a degradação do ensino.
Apenas encontro a preocupação de reduzir a factura com o pessoal, no Ministério. Misturada com uma espécie de raiva surda e inconfessada contra eles, os professores.
Sabem, não posso deixar de lhes dar razão, não posso deixar de os aplaudir, não posso deixar de lhes gritar : FORÇA, rapaziada, FORÇA, professores, LUTEM PELA DIGNIDADE QUE VOS É DEVIDA !